Poemas
Trigueira
Trigueira! que tem? Mais feia
Com essa cor te imaginas?
Feia! tu, que assim fascinas
Com um só olhar dos teus!
Que ciúmes tens da alvura
Desses semelhantes de neve!
Ai, pobre cabeça, leve!
Que te não castigue Deus.
Trigueira! se tu soubesses
O que é ser assim trigueira!
Dessa ardilosa maneira
Porque tu o sabes ser;
Não virias lamentar-te,
Toda sentida e chorosa,
Tendo inveja à cor da rosa,
Sem motivos para a ter.
Trigueira! Porque és trigueira
É que eu assim te quis tanto.
Daí provém todo o encanto
Em que me traz este amor.
E suspiras e murmuras;
Que mais desejavas inda?
Pois serias tu mais linda,
Se tivesses outra cor?
Trigueira! onde mais realça O brilhar de uns olhos pretos,
Sempre húmidos, sempre inquietos,
Do que numa cor assim?
Onde o correr de uma lágrima
Mais encantos apresenta?
E um sorriso, um só, nos tenta,
Como me tentou a mim?
Trigueira! E choras por isso!
Choras, quando outras te invejam
Essa cor, e em vão forcejam
Por, como tu, fascinar?
Ó louca, nunca mais digas,
Nunca mais, que és desditosa.
Invejar a cor da rosa,
Em ti, é quase pecar.
Trigueira! Vamos, esconde-me
Esse choro de criança.
Ai, que falta de confiança!
Que graciosa timidez!
Enxuga os bonitos olhos,
Então, não chores trigueira,
E nunca dessa maneira
Te lamentes outra vez.
Abril de 1864.
De: As Pupilas do Sr. Reitor
A INTERCESSÃO DA VIRGEM
(H. HEINE)
I
Jazia o filho no leito,
A mãe olhava o balcão.
— «Não te levantas, meu filho,
Para ver a procissão?»
— «Ai, mãe! se estou tão doente,
Que não posso ouvir nem ver!
Penso nela... a pobre morta...
Como não hei de eu sofrer!»
— «Ergue-te, filho, e à romagem Iremos juntos a orar,
Que aos corações doloridos
Sabe a Virgem consolar.»
Já se ouvem os sacros hinos,
Da cruz flutua o pendão;
Em Colônia sobre o Reno
Vai passando a procissão.
E a mãe e o filho acompanham
A turba que segue o andor
Dizendo em coro com ela:
— «Glória a ti, Mãe do Senhor!»
II
Como a Senhora está linda
Com o seu mais rico vestir!
Correm-lhe em chusma os doentes
Muito tem ela que ouvir!
Todos lhe trazem promessas
Com ferventes devoções:
Membros, pés e mãos de cera,
Jazem no altar aos montões;
Quem lhe der um pé de cera,
Logo do pé sarará;
Quem mãos de cera lhe ofereça,
A mão curada verá.
Mancos, que à romagem foram, Vêem-se na corda saltar;
Outros de mãos aleijadas,
Destros agora a tocar.
Da alva cera de uma vela
Fez a mãe um coração.
— «Leva isto à
Virgem Maria,
Que te cure essa paixão.»
Gemendo, o filho a recebe,
Gemendo a vai ofertar;
Dos olhos lhe brota o choro
Do coração este orar;
— «Ó Maria gloriosa!
Serva pura e mãe de Deus:
Virgem, dos Céus Soberana,
Escuta os lamentos meus!
«Em Colônia, onde as igrejas
Se podem contar às cem,
Os meus dias descuidado
Passava com a minha mãe.
«E junto de nós vivia
Margarida... a que morreu...
Dou-te um coração de cera,
Cura as feridas do meu!
«Cura minha alma dorida, Que eu com devoto fervor
Direi de dia e de noite:
— «Glória a ti. Mãe do Senhor!»
III
Alta noite, adormecidos
Jaziam o filho e a mãe,
E a Virgem muito de mansinho
Entrando no quarto vem.
Pendida sobre o doente
No peito a mão lhe pousou,
E com gesto suavíssimo
Sorrindo se retirou.
Como se através de um sonho,
Tudo isto a mãe percebeu
E acordando alvoroçada,
Junto do filho correu.
Estendido sobre o leito,
Morto, a triste o foi achar;
Andava-lhe a luz da aurora
Pelas faces a brincar.
Vendo-o assim, a mãe piedosa
Juntou as mãos com fervor
E em voz baixa disse, orando:
— «Glória a ti, Mãe do Senhor!»
Abril de 1864