Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 34 de 93

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Poemas

Trigueira

Trigueira! que tem? Mais feia

Com essa cor te imaginas?

Feia! tu, que assim fascinas

Com um só olhar dos teus!

Que ciúmes tens da alvura

Desses semelhantes de neve!

Ai, pobre cabeça, leve!

Que te não castigue Deus.

Trigueira! se tu soubesses

O que é ser assim trigueira!

Dessa ardilosa maneira

Porque tu o sabes ser;

Não virias lamentar-te,

Toda sentida e chorosa,

Tendo inveja à cor da rosa,

Sem motivos para a ter.

Trigueira! Porque és trigueira

É que eu assim te quis tanto.

Daí provém todo o encanto

Em que me traz este amor.

E suspiras e murmuras;

Que mais desejavas inda?

Pois serias tu mais linda,

Se tivesses outra cor?

Trigueira! onde mais realça O brilhar de uns olhos pretos,

Sempre húmidos, sempre inquietos,

Do que numa cor assim?

Onde o correr de uma lágrima

Mais encantos apresenta?

E um sorriso, um só, nos tenta,

Como me tentou a mim?

Trigueira! E choras por isso!

Choras, quando outras te invejam

Essa cor, e em vão forcejam

Por, como tu, fascinar?

Ó louca, nunca mais digas,

Nunca mais, que és desditosa.

Invejar a cor da rosa,

Em ti, é quase pecar.

Trigueira! Vamos, esconde-me

Esse choro de criança.

Ai, que falta de confiança!

Que graciosa timidez!

Enxuga os bonitos olhos,

Então, não chores trigueira,

E nunca dessa maneira

Te lamentes outra vez.

Abril de 1864.

De: As Pupilas do Sr. Reitor

A INTERCESSÃO DA VIRGEM

 

(H. HEINE)

I

Jazia o filho no leito,

A mãe olhava o balcão.

— «Não te levantas, meu filho,

Para ver a procissão?»

— «Ai, mãe! se estou tão doente,

Que não posso ouvir nem ver!

Penso nela... a pobre morta...

Como não hei de eu sofrer!»

— «Ergue-te, filho, e à romagem Iremos juntos a orar,

Que aos corações doloridos

Sabe a Virgem consolar.»

Já se ouvem os sacros hinos,

Da cruz flutua o pendão;

Em Colônia sobre o Reno

Vai passando a procissão.

E a mãe e o filho acompanham

A turba que segue o andor

Dizendo em coro com ela:

— «Glória a ti, Mãe do Senhor!»

II

Como a Senhora está linda

Com o seu mais rico vestir!

Correm-lhe em chusma os doentes

Muito tem ela que ouvir!

Todos lhe trazem promessas

Com ferventes devoções:

Membros, pés e mãos de cera,

Jazem no altar aos montões;

Quem lhe der um pé de cera,

Logo do pé sarará;

Quem mãos de cera lhe ofereça,

A mão curada verá.

Mancos, que à romagem foram, Vêem-se na corda saltar;

Outros de mãos aleijadas,

Destros agora a tocar.

Da alva cera de uma vela

Fez a mãe um coração.

— «Leva isto à

Virgem Maria,

Que te cure essa paixão.»

Gemendo, o filho a recebe,

Gemendo a vai ofertar;

Dos olhos lhe brota o choro

Do coração este orar;

— «Ó Maria gloriosa!

Serva pura e mãe de Deus:

Virgem, dos Céus Soberana,

Escuta os lamentos meus!

«Em Colônia, onde as igrejas

Se podem contar às cem,

Os meus dias descuidado

Passava com a minha mãe.

«E junto de nós vivia

Margarida... a que morreu...

Dou-te um coração de cera,

Cura as feridas do meu!

«Cura minha alma dorida, Que eu com devoto fervor

Direi de dia e de noite:

— «Glória a ti. Mãe do Senhor!»

III

Alta noite, adormecidos

Jaziam o filho e a mãe,

E a Virgem muito de mansinho

Entrando no quarto vem.

Pendida sobre o doente

No peito a mão lhe pousou,

E com gesto suavíssimo

Sorrindo se retirou.

Como se através de um sonho,

Tudo isto a mãe percebeu

E acordando alvoroçada,

Junto do filho correu.

Estendido sobre o leito,

Morto, a triste o foi achar;

Andava-lhe a luz da aurora

Pelas faces a brincar.

Vendo-o assim, a mãe piedosa

Juntou as mãos com fervor

E em voz baixa disse, orando:

— «Glória a ti, Mãe do Senhor!»

Abril de 1864