Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 85 de 93

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Poemas

Desespero

O dia fenece. Com a luz purpurina

Que tinge o ocidente, que aromas não vem! O Sol vacilante no oceano declina,

Eleva-se a Lua nos montes de além.

Por entre a ramagem de densa espessura Semeada de aljôfares por lânguida luz

Mil aves modulam com meiga ternura

Os seus hinos que a aragem aos montes conduz.

Que mágicas cenas! que aromas na brisa! Que sons! que harmonias se elevam daqui ! Ditosa a existência que mansa desliza E a quem esta cena de graças sorri.

Mas; ai, de que valem belezas de selva,

Das aves os hinos, perfumes de flor?

Que importa o arroio gemendo na relva

E a Lua surgindo com grato palor?

Que importa o silêncio que vai na campina A quem dentro d'alma rebrame a paixão?

Que importa a folhagem que adorna a colina Se dentro palpita medonho vulcão?

Oh! antes mil vezes ouvir agitadas

As vagas lutando com as nuvens do céu.

Olhar as florestas brilhando incendiadas

E o raio rasgando das noites o véu.

Em vez do murmúrio das brisas suaves,

O vento com raiva no bosque a bramir

Em vez do mavioso descante das aves,

Das feras o torvo, medonho rugir!

Então, nos horrores de tanta tormenta

Talvez meus martírios eu visse extinguir,

Então, como o infante que a mãe acalenta, Ao som das rajadas pudera dormir.

Mas não; ainda mesmo que todo o universo Desabe em ruínas em torno de mim

No caos informe, que fora seu berço,

Achando o seu leito de morte por fim.

A rude tormenta que o seio me agita

Inda há de mais alto suas fúrias erguer,

Que vagas ardentes de lava maldita

Eu sinto violentas no peito ferver.

E os risos do campo, de escárnio parecem, Os sons das florestas, insultos à dor.

Mal hajam as galas que o prado guarnecem, Mal haja esta noite de paz e de amor!

Oh ! vem, negro gênio da guerra e tormenta O teu facho terrível sacode no ar

E todo o universo de guerra alimenta,

Dos homens na terra, das ondas no mar!

E em vez desta noite risonha e tranquila Suscita os horrores do dia final;

Cidades e povos, e a vida aniquila

E eleve-se o trono do gênio do mal!

13 de Agosto de 1860