Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 27 de 93

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Poemas

Segunda Parte

A J…

Acredita que os anjos também sofrem

Nesta mansão de dores,

E não olhes o mundo lacrimosa,

Quando o vires despido de fulgores.

Mal sabe, a rosa, ao vicejar lasciva

Em plena Primavera,

Que é passageira a quadra; que após ela Se despovoa o prado e a morte a espera.

O terreno que pisas nesta vida

Oculta um precipício

O caminho, onde ao fim vemos a glória, Quantas vezes termina no suplício!

Eu já vi, sobre um túmulo isolado,

Um grupo de crianças

Dando as mãos, e travando em chão de morte, Com risos infantis, alegres danças.

Vi-as também sorrindo descuidadas,

Se piedoso viandante

Parava pensativo e, murmurando,

Uma humilde oração, passava adiante.

Assim também sorris, se melancólico

Eu penso no futuro,

Quando uma sombra vem turbar-me a cara. Com elas, ris do meu rosto escuro.

Mas olha, vais saber a história triste

Desses três inocentes,

Que sobre as cinzas frias de uma campa

Se entregavam a jogos complacentes.

À noite a mãe, beijando-os, estranhou-lhes Das faces a brancura;

E um presságio sentiu; ao alvor do dia

Levava-os todos os três à sepultura.

É que os ares do túmulo dão morte

Em afago homicida;

Nesse ar infecto em que se extingue a chama, Também arqueja e expira a luz da vida.

Teme pois também tu, cândida virgem,

O ar que aqui respiras;

E não perguntes mais ao viandante

Que pensamentos de amargor lhe inspiras.

Nota do Autor. — Esta poesia foi enviada ao redator da Grinalda, João Marques Nogueira Lima, assinada com o pseudónimo Júlio Dinis, em 9 de Março de 1861 e publicada no 3.° número daquele jornal. No dia 18 de Março, à noite, o Passos elogiou-a, sem saber quem ara o autor.