Poemas
Fugir ao Desalento
«Sim, às vezes, não sei fugir ao desalento Que baixa sobre mim, qual nuvem tempestuosa; Nem posso desviar o curso ao pensamento, Que desce sem parar, em senda tenebrosa.
«Então, se olho o porvir, vejo-o sombrio e escuro, Como quando no céu se forma a tempestade, E em torno do baixei, que voga mal seguro, Uma neblina densa o espaço todo invade.
«Ontem ainda sentia esta tristeza vaga
Que pesa sobre nós, mais cio que um férreo jugo; Sinistra cerração que nos sufoca e esmaga Como o laço fatal de invisível verdugo!
«Vem, surge, ó Sol luminoso,
Doura os cumes da alta serra,
Inunda de luz a Terra,
Vem refletir-te no mar…
Acorda as aves no bosque,
Chama os insetos às balsas,
Onde em doudejantes valsas
Vão as flores namorar...
«Penetra nas espessuras,
Nesses retiros aonde
A flor silvestre se esconde
Para sozinha florir.
Dá-lhe o calor dos teus raios, Desperta-a do fatal sono
Em que as nebrinas do
Outono
Já a faziam dormir...»
1863.