Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 90 de 93

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Poemas

Fugir ao Desalento

«Sim, às vezes, não sei fugir ao desalento Que baixa sobre mim, qual nuvem tempestuosa; Nem posso desviar o curso ao pensamento, Que desce sem parar, em senda tenebrosa.

«Então, se olho o porvir, vejo-o sombrio e escuro, Como quando no céu se forma a tempestade, E em torno do baixei, que voga mal seguro, Uma neblina densa o espaço todo invade.

«Ontem ainda sentia esta tristeza vaga

Que pesa sobre nós, mais cio que um férreo jugo; Sinistra cerração que nos sufoca e esmaga Como o laço fatal de invisível verdugo!

«Vem, surge, ó Sol luminoso,

Doura os cumes da alta serra,

Inunda de luz a Terra,

Vem refletir-te no mar…

Acorda as aves no bosque,

Chama os insetos às balsas,

Onde em doudejantes valsas

Vão as flores namorar...

«Penetra nas espessuras,

Nesses retiros aonde

A flor silvestre se esconde

Para sozinha florir.

Dá-lhe o calor dos teus raios, Desperta-a do fatal sono

Em que as nebrinas do

Outono

Já a faziam dormir...»

1863.