Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 14 de 93

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Poemas

Lava Oculta

Não me entendes? não suspeitas

Que esta frieza é fingida?

Não vês, cega, que envolvida

Está nela ardente paixão?

Quando teus olhares evito,

Quando julgas que medito,

Não compreendes que me agito

Em profunda inquietação?

E julgas isto frieza?

Julgas que o meu peito é gelo?

Se o que sinto não revelo,

Julgas que isso é não sentir?

Ai, louca, que assim te iludes;

Um momento que me estudes,

Verás que tormentas rudes

Me estão no peito a bramir.

Se a mão te cinjo à partida,

Não a sentes vacilante?

Diz, não vês como inconstante

Busco e evito o teu olhar?

Chamas a isto indiferença?

Não é, não, repara, pensa;

E o amor que se condensa

Para mais me devorar.

E tu não sentes... nem podes;

Pra que os olhos vejam tanto, E, sob indiferente manto,

Descubram violento amor,

Não, não basta olhar somente;

O que o peito não pressente,

Só quando fora rebente

Pode aos olhos ter valor...

E o teu coração... outrora

Esperei que me entendesse;

Julguei que nunca esquecesse

O que na infância nasceu,

E com os olhos no futuro

Caminhei firme e seguro,

E nunca este culto puro

No peito me adormeceu Mas tu... Essa flor singela

Da afeição que nos unia

Se definhava e morria

Desde que outra flor surgiu;

Cenas da infância, folguedos,

Os seus sorrisos, seus segredos,

Passam, como nos olmedos,

A folha que ao chão caiu.

E por isso as esqueceste;

Eu não; que então já no seio

Ocultava com receio

Mais do que infantil amor.

Quando, só, em ti pensava,

E só contigo me achava,

Não te lembras? já corava, Nem para mais tinha valor.

Cresci, e esta ideia sempre

Afagava na lembrança;

Sempre, sempre esta esperança,

Sempre, sempre esta ilusão!

Ilusão, sim, era apenas;

Todas as passadas cenas

E recordações amenas

Riscou-tas nova paixão.

Foi uma noite. Esta ideia

Inda a conservo bem viva,

Cada dia mais se aviva

Pra mais me fazer sentir;

Desde então já não me iludo, Foi uma noite; vi tudo,

E fiquei gelado, mudo,

Sem esperanças, sem porvir!

Um outro estranho, que importa?

Te falava com meiguice

E às palavras que te disse

Tu sorriste e ele sorriu,

E, desumana, não vias

Que o amigo de outros dias,

De cada vez que sorrias,

Cruéis angústias sentiu!

Ai, noite de insónia aquela!

Tu caiçaras o passado,

Nem talvez nunca pensado Havias nele como eu;

Quis esquecer-te, vingar-me,

A outro amor entregar-me,

Mas só consegui cansar-me;

Este amor permaneceu.

Até quando? Só Deus sabe.

Comprimido ele floresce,

Mas vive, mas não fenece,

Que já da infância ele vem;

Tu não vês, que uma outra chama

Há muito teu seio inflama,

E quando deveras se ama,

Vê-se o amante e mais ninguém?

Bom é pois que não suspeites Que esta frieza é mentida,

Que não vejas que envolvida

Oculta ardente paixão.

Quando teus olhares evito,

Quando julgas que medito,

Nunca saibas que me agito

Em profunda inquietação.

Abril de 1860.

Nota do Autor. — Esta poesia é um enigma, que eu não decifrarei. Isto quase equivale a dizei que ficará sendo um enigma para todos e para sempre talvez.

Foi escrita o ano passado e esquecida. Encontrei-a, fiz-lhe algumas modificações inclui-a nesta coleção. É em grande parte imaginária.

PRESSÁGIO

 

Era em florente Junho;

A Lua se ostentava

Serena no seu brilhar;

A brisa na alameda

Saudosa suspirava

Nas folhas ao passar.

Contigo, eu só no bosque

Ouvia-te, tao triste,

Soltar, mais triste, a voz;

Falavas magoada

Da paz que só existe

Da fria morte após.

E os olhos lacrimosos

Fitavas nos espaços

Da mais amena cor,

Como se desejasses

Romper terrenos laços

E o azul do céu transpor.

Calado eu te fitava,

Porém ao ver-te o pranto

Banhar-te a face assim,

Não sei que dor pungente,

Não sei que mago encanto,

Me fez falar-te enfim.

E disse-te: «Não chores, Na Terra é tudo flores,

No Céu é tudo luz.

Escuta os sons do bosque,

Respira os seus odores,

O aroma que seduz.»

Olhaste-me e sorriste;

E quanto não diziam

Então os olhos teus!

Quão íntima tristeza,

Que dor não refletiam

Quando os erguestes aos céus!

E eu ficava mudo,

Olhando-te inquieto,

Sem bem te compreender;

E um ramo de cipreste,

O arbusto teu dileto,

Vieste-me oferecer.

«Bem vês, da campa à beira

Também a flor rebenta»,

Disseste-me a sorrir,

«Também no chão da morte

De seiva se alimenta,

Também a vês florir.

«Quem vir esta campina

Virente e matizada

Viçar à luz do Sol,

Dirá, que neste manto

Se envolve a fria ossada Do morto no seu lençol!»

De novo emudeceste,

E eu, triste, contemplei-te:

Mas não, não te entendi,

Parecia que na mágoa

Achavas um deleite,

Qual nunca igual senti!

Mas cedo teus perfumes

Da Terra aos Céus subiram,

E soube tudo então!

Era uma voz profética

Das que o poeta inspiram,

Falando ao coração.

No meio dos festejos

Da estiva natureza,

Sentias só a dor,

Vias a campa aberta

E na sua profundeza

Sumir-se a esperança em flor.

E hoje, sim, compreendo

Tua conversa triste,

Quando comigo a sós...

E porque a entende agora?

Não sei.

Talvez existe

Em mim a mesma voz.

Oh! sim, ele me mostre No meio destas galas,

Que vejo em torno de mim,

A terra húmida e fria,

Do cemitério as valas

E o esquecimento enfim.

Abril de 1860.

Nota do Autor. — Esta é filha de um momento de spleen. Pareceu-me verdadeira então, hoje não. Estes pensamentos lúgubres acometem-me de vez em quando, mas passam. Estando dominado por eles, acho nesta produção um valor que depois, debalde lhe procuro.

Não é decerto no primeiro caso que melhor a avalio no que ela vale. Não há ninguém que não tenha os seus momentos de hipocondria, muitos com menos razões do que eu.

Desculpem-me portanto os efeitos de um desses momentos.