Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 71 de 93

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Poemas

Sonhar

Ontem à sombra dos plátanos

Daquela extensa avenida

Sentia-te comovida.

Tremer... corar.

Ia a falar-te mas — Cala-te —

Disseste, com voz maviosa,

— Quero, nesta hora saudosa,

Quero sonhar.

1857

EVOCAÇÃO A TEMPESTADE

Vinde! Soprai furiosos

Ventos de tempestade!

Ergue-te, majestade!

Ergue-te, ó vasto mar!

Correi, legiões de nuvens,

Velai o céu de estrelas,

Ó gênio das procelas

Vem! Quero-te saudar!

A luz fatal do raio

Guie o meu barco apenas

E rujam como hienas

As vagas ao redor;

Pairem nos ares fatídicos

As aves de carnagem,

E cave-se a voragem

Com súbito fragor.

Surjam do fundo do abisma

Os pavorosos vultos

Dos náufragos sepultos

Dos mares da amplidão;

Responda à voz das águas

Frementes, agitadas,

O silvo das rajadas,

Os brados do trovão.

Do arcanjo do extermínio

O gládio chamejante Ostente-se radiante

De ameaçadora luz;

Da tempestade às fúrias

Assistirei sorrindo

E bradarei: Bem-vindo!

Ao gênio que a conduz.

Bem-vindo, sim, que eu sinto

No seio mais violenta

Uma cruel tormenta,

A luta das paixões.

Procuro o mar furioso

Como um seguro asilo,

Arrosto-o e não vacilo

Das ondas aos baldões.

1857