Poemas
Fim de um Sonho
— «Querida, não sabes um sonho que eu tive? Mil vezes a morte, que sonho assim!
Sonhei que te via de um bosque no abrigo...» — «Contigo?»
— «Com outro, sentados além, no jardim.
«Na mão ainda tinhas a rosa silvestre,
Que eu ontem, bem triste, te dera ao partir; Pediu-ta esse homem, tu toda vermelha...» — «Neguei-lha?»
— «Cedeste-a, olhando com meigo sorrir.
«E então, ele aos lábios a leva ansioso, Com beijos ardentes lhe murcha o frescor; Não sei que palavras lhe dizes, e, em meio... » — «Deixei-o?»
— «Os braços lhe lanças do colo ao redor.
«Então, mais ousados seus lábios ardentes A rosa deixando, te poisam na mão,
Sentindo-lhe os beijos lascivos de fogo...» — «Eu logo...»
— «Tu logo lhos pagas com a mesma paixão.
«Depois, que delírio! Calaram-se os lábios, E os olhos deixaram por eles falar;
E eu via este quadro de amores risonho?» — «Que sonho!»
— «Terrível, não achas? e quis-me vingar.
«E a adaga que cinjo, convulso apertando, Corri; a vingança me impele veloz.
Achei-te; o ciúme meu peito povoa.»
— «Perdoa!...»
— «Perdoa!» — dizias com trêmula voz.
«Em vão! teus clamores não ouve meu peito: No teu níveo seio o ferro cravei.
Vacilas, e o sangue rompendo num jorro...» — «Eu morro!...»
— «Eu morro!» — disseste. O meu sonho acabei.»
1 de Março de 1860.
Nota do Autor. — Outro crime de lesa-sexo feminino e do qual também me arrependo. É um caso apenas de traição e vingança, de onde não se pode concluir nada. No que me confesso culpado é em ter sido pouco parcial, não hesitando em distribuir nesta cena de fantasia o papei mais antipático, pelo menos para mim, à mulher e não ao homem. Mas é desculpável: espirito de classe.