Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 61 de 93

Páginas do PDF

Poemas

À arena! à arena!

O PALHAÇO VELHO

«Palhaços! rápidos!

À arena! à arena!

Quer-se uma cena

Que faça rir.

Exige-a o público

Em altas vozes;

Ide, velozes,

Ide-o servir!»

E os clowns lépidos

Ágeis, disformes,

Saltos enormes

No circo dão.

Soam frenéticas

Palmas e bravos.

Pobres escravos

Da multidão!

Danças ridículas,

Fingidas lutas,

Jogos, disputas,

Travam-se ali;

Ditos equívocos,

Palavras soltas,

Saltos e voltas...

E o povo ri.

Pertence ao número

Um clown idoso, Curvo, rugoso,

Cheio de cãs;

Os membros trôpegos

De muita idade

Move à vontade

Das turbas vãs.

É ele o último

Dos companheiros,

Que, mais ligeiros,

Deixam-no atrás,

A turba indómita

Com grandes gritos

Ao som de apitos

Assuada faz.

E o velho cômico

Treme assustado

Do desagrado

De seu senhor.

Escusa lágrima

Cai-lhe escaldante...

«Palhaço, adiante!

Coisa melhor!»

E aquele mísero

Truão do povo

Tenta de novo

Fazê-lo rir.

Mas, pobre vítima!

Dos lados todos

Chufas, apodos Vêm-no ferir.

E o velho, trêmulo,

Não deixa a cena,

Fazia pena

Vê-lo saltar,

Recresce a fúria

Nas galerias...

Velho, não rias!

Nobre é chorar!

Chora, sim, chora-te

Envergonhado

Do teu estado

De aviltação.

No pó olímpico As cãs rojaste

E não coraste?!

Chora, ancião.

Porém, silêncio!

Que o velho fala;

Tudo se cala,

Tudo o escutou.

Em tom de súplica,

Com as mãos erguidas,

Estas sentidas

Vozes soltou:

«Sede magnânimos,

Meus bons senhores!

Que as minhas dores São infernais!

Chorar no íntimo,

Rir no rosto!

Rir incessante!

Ai, que é de mais!

«Deponho a máscara,

Que vos ilude,

Já que não pude

Fazer-vos rir.

Este cilício,

Que me angustia,

Deixe este dia

De me pungir.

«Tenho família, Filhos que choram,

Vozes que imploram

Pedindo pão.

Oiço a miséria

Bater-me à porta...

Velho, que importa?

Vai ser truão.

«Sentes decrépito

Tremer-te o braço?

Faz-te palhaço.

Que esperas? Vai!

Loucos escrúpulos,

Velho, refreia,

Perante a ideia

De que és... um pai.

«Meu choro, esconde-te,

Calai-vos, dores:

Estes senhores

Querem folgar.

Segue ao suplício

Os mais escravos.

Oh! dai-me bravos,

Que eu vou... dançar!»

Mas ai, falece-lhe

O alento ao velho,

Dobra o joelho,

Na arena cai.

Erguem-no pálido...

Aos mais palhaços Decai dos braços

O truão, o pai.