Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 24 de 93

Páginas do PDF

Poemas

Meu Deus, que destino!... viver isolado

DESESPERANÇA

Meu Deus, que destino!... viver isolado,

Sem ter quem no mundo me possa entender! Não era esta a vida que tinha sonhado

Nos sonhos passados de um outro viver!

As feras, as aves, as flores, quanto existe, Se abrasam num terno, dulcíssimo ardor!

Só eu, solitário, viver sempre triste!

Viver ? — Não: que é vida, faltando-lhe o amor?

É ermo entre gelos, é hórrida noite,

Onde um só astro, sequer, nem reluz!

Como hei de, sem crenças onde a alma se açoite, Do Gólgota ao cimo levar minha cruz?!

O anseio, este fogo que lento me inflama

Não hei de apagá-lo num gozo real?

E os vagos transportes que sente quem ama Terá de abafá-los paixão mundanal?

Não ter seio amigo no qual eu repouse

A cara cansada de ardente pensar,

Uma alma conforme com a minha, a quem ouse Dizer quanto sinto no peito a pesar!

Ai! triste, que sorte! viver entre gelo,

Sentindo atear-se cá dentro um vulcão!

Nutrir tanto afeto no peito, e perdê-lo!...

Desejos que abrasam, mantê-los em vão!

Meu Deus! És injusto!... mas oh! se blasfemo, Perdoa, que a mente mal pensa o que diz! Perdoa, perdoa-me, ó Ente supremo,

Concede-me ainda que eu seja feliz!

Oh! dá-me a ventura que em sonhos já tive!... Uma alma que esfalma soubesse entender! Um ente, se acaso na Terra ele vive,

Que possa este vácuo de amor preencher.

Que imenso tesouro de afetos lhe dera!

Sorria-lhe a vida num éden gentil!

Entre outros segredos então lhe dissera

Tais falas, cortadas por beijos aos mil!

Ai! foge, deixemos da vida mundana

Os seus vãos devaneios, seu fogo falaz!

Busquemos sozinhos deserta cabana,

Aonde não turve ninguém nossa paz!

Que imensos prazeres que lá nos esperam! Que ledo futuro que então nos sorri!

Ali não há mágoas, que o peito laceram,

Dos homens o bafo não chega até 'li!

Que vida, essa vida que então lá teremos Tão rica de afetos, de gozo sem fim!

Que ternos enlevos, que doces extremos, Que belos os dias, passados assim!

De esperanças e flores no quadro tão lindo No cimo do monte, da aurora ao nascer,

Iremos saudá-la, dizer-lhe: — Bem-vinda

Tu sejas, que à Terra dás luz e prazer!

Depois, vendo as aves com doce harmonia Soltarem seus cantos no bosque além,

Na língua dos anjos, na maga poesia,

Aos Céus nossos hinos se elevam também;

Oremos ao Eterno, sagremos-lhe os cantos, Que d'alma espontâneos prorrompem então! Depois resolvamos provar dos encantos

Da vida inefável que anima a solidão.

Da tarde ao crepúsculo, nos breves instantes Dessa hora em que se unem as sombras e a luz, Também nossas almas unidas e amantes Anelem delícias que a noite conduz!

Ali, o murmúrio da rápida brisa

Banhada em perfumes, roubados à flor,

A linfa, que mansa no prado desliza,

Virão segredar-nos mil falas de amor!

— Amor — repercutam os ecos da serra!

— Amor — lá das aves se escute na voz!

E as nuvens, as fontes, os bosques, a terra, — Amor — só respirem em torno de nós!

— Amor — alta noite veremos escrito

Com letras douradas no livro de Deus!...

Presságio divino do gozo infinito, Que um dia teremos unidos nos Céus.

E um dia lá corre, d'amor bafejado,

Ao outro que surge prazeres iguais!

E sempre esta vida!... Mas, ai! desgraçado!... Que assim me enlevava de esperanças banais!

Debalde iludir-me procuro num sonho!

Cruel desengano, cruel que ele é!

Ele aponta o futuro, sombrio e tristonho,

Sem crenças, sem glória, sem vida, sem fé!

A mim só me resta viver isolado!

Sem ter quem no mundo me possa entender! Ai! sonhos tão Belos que outrora hei sonhado! Delícias passadas de um outro viver.