Poemas
Terceira Parte
UMA EXPLICAÇÃO PRÉVIA
Prefácio do autor ao seu álbum manuscrito de poesias intitulado: «Tentativas poéticas — coleção de versos de Júlio Dinis» (Joaquim G. Gomes Coelho).
É necessário ter uma grande força de vontade para resistir hoje à tentação de rimar alguns versos e cantar, bem ou mal, os sentimentos que nos dominam em certas épocas da vida. Por muito tempo lutei e soube vencer este espírito tentador, que, em horas de melancolia, em momentos de entusiasmo, em instantes de prazer, na presença do belo, do grande, me antolhava, demônio enganador, o campo da poesia, fascinando-me com promessas risonhas, que nunca eu tinha de ver realizadas; afinal sucumbi e o resultado da derrota é isso que hoje reúno neste livro de onde espero nunca sairá.
Viverá sempre isolado e escondido de vistas estranhas, pois nem maiores pretensões ele tem.
Mas, como ninguém pode calcular todas as eventualidades futuras, devo dar uma satisfação àqueles a quem por acaso, e mau grado meu, este livro possa chegar.
Escrevi-o só para mim. Queria-o para um museu das minhas impressões que me recordasse no futuro esses devaneios e fulgentes fantasias, que constituem a mais apreciável riqueza da juventude, segundo dizem os que já estão fora dessa quadra da vida. (*)
[(*) Tinha Júlio Dinis ao escrever esta «Explicação prévia» 20 anos apenas.] Não me arguam, pois, não analisem estes versos; o seu autor melhor que ninguém sabe que eles não suportam a análise. Não me custaram muitas vigílias; impressões de momento, quase de momento foram escritos.
Deles não sou responsável perante ninguém, pois que a ninguém imponho a sua leitura, ou, se o fizer, será só aos poucos de quem posso esperar que os olhos benévolos do amigo não vejam os defeitos patentes às vistas desapaixonadas do leitor.
Dezembro de 1859.