Poemas
Junto a uma Campa
Que seria de ti, se desfolhada
Não fosses, linda flor, no chão da morte?
Quem pode ler na página cerrada
Do livro do futuro a ignota sorte?
Ninguém; e quantas vezes iludidos
Choramos o que é núncio de ventura?
Quantas, na esperança de prazeres mentidos, Vemos luz onde tudo é noite escura?
Que seria de ti? Não sei. Se escuto
A voz do coração, fala de amores.
Mas quem me diz que a dor com que hoje luto Não findará com o aroma doutras flores?
Que me diz que a minha alma, que palpita Ao recordar-te, ó virgem desditosa,
Não viria ainda um dia a ser precita
Ao fogo da paixão mais poderosa?
Quem sabe? Tudo muda: o peito do homem Como a ondulante face do oceano;
A um volvem as paixões que nos consomem, A outro as fúrias do vento vário e insano.
Tudo muda! e o meu seio não se exime
Da eterna lei que rege este universo:
Bênção ou maldição. Ela se exprime
Sem cessar na existência desde o berço.
E então se no porvir o ardente culto
Que eu te votava, ó sombra idolatrada,
Tivesse de findar, antes sepulto
Seja todo este amor na urna gelada.
Foste feliz talvez, talvez na vida
Tivesses de provar amarga taça,
E hoje à sombra da campa, adormecida
Colhes a prece e o choro de quem passa.
Vivias para amar, morreste amando,
Morreste rodeada do perfume
Da divindade, e virgem, não ansiando
No pungir aflitivo do ciúme.
Morreste amando e amada. Sobre o leito
Onde tombaste inânime, sentiste
A sacra chama que me enchia o peito
E na extrema agonia ainda sorriste.
Não devo lamentar-te, não. Podias
Sentir na vida dores que ignoraste;
E eu mesmo, a quem do túmulo sorrias,
Talvez te desse a coroa, que enjeitaste;
A coroa do martírio, que a não colhe
Quem verga, como tu, tão cedo à terra;
Mas sim quem vive e ao túmulo se colhe
Depois de transes de porfiada guerra.
Eu li na descrição de antigas viagens O destino de um náufrago, que os ventos
Sobre parcéis e incógnitas voragens
De longe arremessaram violentos.
Ia a desfalecer, no húmido abismo
Buscando o último leito e o eterno olvido,
Mas no esforço do extremo paroxismo
Firmou-se às rochas de um penhasco erguido.
E salvou-se! prostrado sobre as
Ao Eterno com júbilo agradece;
E, olhando ao longe as furiosas vagas,
Do destino dos mais se compadece.
Mas bem cedo na estéril penedia
Colheu o triste amargo desengano, Vendo seguir-se um dia após um dia,
E tudo só na vastidão do oceano.
Era a mudez da campa! Em passos lentos Se aproximava a descarnada fome;
Longos dias de horríficos tormentos
A preceder-lhe um túmulo sem nome!
Até que enfim o pobre, quase louco,
Pra fugir à tortura que o devora,
Nas próprias ondas, que evitara há pouco, Busca o refúgio, o passamento, agora!
Nos naufrágios da vida, quantas vezes
Nós, pobres nautas, o furor das vagas
Vencemos, para mais ríspidos reveses Irmos sofrer em solitárias plagas!
Feliz o que sucumbe na tormenta;
Um instante de angústia... e o eterno sono O livra do martírio que experimenta
O que sofre na Terra o abandono.
Feliz pois tu, que cedo desfolhada
Caíste, ó bela flor, no chão da morte;
Quem sabe o que na página cerrada
Do livro seu te reservava a sorte?
20 de Dezembro de 1861
A ESPERANÇA
No passado, uma saudade,
No presente, uma amargura,
E no futuro, uma esperança
De imaginária ventura;
Eis no que consiste a vida
Imposta por Deus ao homem.
Nisto se consomem dias!
Nisto anos se consomem!
Saudade é flor sem perfumes
Quando ainda verdejante,
Mas à medida que murcha, Ai, que aroma inebriante!
A amargura é duro espinho
Que nas carnes penetrando,
Faz desesperar da vida,
Suas flores definhando.
A esperança é frouxa luz
Que nas trevas nos fulgura;
Vendo-a, ousados caminhamos:
Mas, ai, que bem pouco dura;
Quantos mais passos andados
Na agra senda desta vida,
Mais amargo é o presente,
E a saudade mais sentida.
Mas a esperança não; os anos
Fazem-lhe perder o brilho;
Caem-lhe uma a uma as folhas
Da existência pelo trilho.
A velhice nada espera,
Nada da esperança lhe dura...
Mas não, cansada da vida,
Tem a paz da sepultura.
Tem a morada fulgente
Da inteligência divina;
Tem as regiões sagradas,
Que eterno sol ilumina.
Bendito sejas, meu Deus!
Que nos dás na vida inteira
A filha dos céus, a esperança,
Por suave companheira.
Ela nos enxuga o choro
O choro alegre e amargoso;
Não a acusemos de pérfida,
Esperar já é um gozo.
A mente, esperando, concebe,
Conceção sempre iludida,
Prazeres talvez entrevistos
Nas cenas de uma outra vida.
Esperemos, pois, companheiros Desta fadigosa viagem!
Se a esperança é a imagem do gozo,
Adoremos essa imagem.
E cruzando este oceano
Com os olhos no porvir.
Esqueçamos no presente
O seu horroroso bramir.
E quando enfim, já cansados,
Reclinarmos nossa cara.
Que a esperança nos revele
Mais dilatado horizonte.
Agosto de 1859