Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 15 de 93

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Poemas

Junto a uma Campa

 

Que seria de ti, se desfolhada

Não fosses, linda flor, no chão da morte?

Quem pode ler na página cerrada

Do livro do futuro a ignota sorte?

Ninguém; e quantas vezes iludidos

Choramos o que é núncio de ventura?

Quantas, na esperança de prazeres mentidos, Vemos luz onde tudo é noite escura?

Que seria de ti? Não sei. Se escuto

A voz do coração, fala de amores.

Mas quem me diz que a dor com que hoje luto Não findará com o aroma doutras flores?

Que me diz que a minha alma, que palpita Ao recordar-te, ó virgem desditosa,

Não viria ainda um dia a ser precita

Ao fogo da paixão mais poderosa?

Quem sabe? Tudo muda: o peito do homem Como a ondulante face do oceano;

A um volvem as paixões que nos consomem, A outro as fúrias do vento vário e insano.

Tudo muda! e o meu seio não se exime

Da eterna lei que rege este universo:

Bênção ou maldição. Ela se exprime

Sem cessar na existência desde o berço.

E então se no porvir o ardente culto

Que eu te votava, ó sombra idolatrada,

Tivesse de findar, antes sepulto

Seja todo este amor na urna gelada.

Foste feliz talvez, talvez na vida

Tivesses de provar amarga taça,

E hoje à sombra da campa, adormecida

Colhes a prece e o choro de quem passa.

Vivias para amar, morreste amando,

Morreste rodeada do perfume

Da divindade, e virgem, não ansiando

No pungir aflitivo do ciúme.

Morreste amando e amada. Sobre o leito

Onde tombaste inânime, sentiste

A sacra chama que me enchia o peito

E na extrema agonia ainda sorriste.

Não devo lamentar-te, não. Podias

Sentir na vida dores que ignoraste;

E eu mesmo, a quem do túmulo sorrias,

Talvez te desse a coroa, que enjeitaste;

A coroa do martírio, que a não colhe

Quem verga, como tu, tão cedo à terra;

Mas sim quem vive e ao túmulo se colhe

Depois de transes de porfiada guerra.

Eu li na descrição de antigas viagens O destino de um náufrago, que os ventos

Sobre parcéis e incógnitas voragens

De longe arremessaram violentos.

Ia a desfalecer, no húmido abismo

Buscando o último leito e o eterno olvido,

Mas no esforço do extremo paroxismo

Firmou-se às rochas de um penhasco erguido.

E salvou-se! prostrado sobre as

Ao Eterno com júbilo agradece;

E, olhando ao longe as furiosas vagas,

Do destino dos mais se compadece.

Mas bem cedo na estéril penedia

Colheu o triste amargo desengano, Vendo seguir-se um dia após um dia,

E tudo só na vastidão do oceano.

Era a mudez da campa! Em passos lentos Se aproximava a descarnada fome;

Longos dias de horríficos tormentos

A preceder-lhe um túmulo sem nome!

Até que enfim o pobre, quase louco,

Pra fugir à tortura que o devora,

Nas próprias ondas, que evitara há pouco, Busca o refúgio, o passamento, agora!

Nos naufrágios da vida, quantas vezes

Nós, pobres nautas, o furor das vagas

Vencemos, para mais ríspidos reveses Irmos sofrer em solitárias plagas!

Feliz o que sucumbe na tormenta;

Um instante de angústia... e o eterno sono O livra do martírio que experimenta

O que sofre na Terra o abandono.

Feliz pois tu, que cedo desfolhada

Caíste, ó bela flor, no chão da morte;

Quem sabe o que na página cerrada

Do livro seu te reservava a sorte?

20 de Dezembro de 1861

A ESPERANÇA

No passado, uma saudade,

No presente, uma amargura,

E no futuro, uma esperança

De imaginária ventura;

Eis no que consiste a vida

Imposta por Deus ao homem.

Nisto se consomem dias!

Nisto anos se consomem!

Saudade é flor sem perfumes

Quando ainda verdejante,

Mas à medida que murcha, Ai, que aroma inebriante!

A amargura é duro espinho

Que nas carnes penetrando,

Faz desesperar da vida,

Suas flores definhando.

A esperança é frouxa luz

Que nas trevas nos fulgura;

Vendo-a, ousados caminhamos:

Mas, ai, que bem pouco dura;

Quantos mais passos andados

Na agra senda desta vida,

Mais amargo é o presente,

E a saudade mais sentida.

Mas a esperança não; os anos

Fazem-lhe perder o brilho;

Caem-lhe uma a uma as folhas

Da existência pelo trilho.

A velhice nada espera,

Nada da esperança lhe dura...

Mas não, cansada da vida,

Tem a paz da sepultura.

Tem a morada fulgente

Da inteligência divina;

Tem as regiões sagradas,

Que eterno sol ilumina.

Bendito sejas, meu Deus!

Que nos dás na vida inteira

A filha dos céus, a esperança,

Por suave companheira.

Ela nos enxuga o choro

O choro alegre e amargoso;

Não a acusemos de pérfida,

Esperar já é um gozo.

A mente, esperando, concebe,

Conceção sempre iludida,

Prazeres talvez entrevistos

Nas cenas de uma outra vida.

Esperemos, pois, companheiros Desta fadigosa viagem!

Se a esperança é a imagem do gozo,

Adoremos essa imagem.

E cruzando este oceano

Com os olhos no porvir.

Esqueçamos no presente

O seu horroroso bramir.

E quando enfim, já cansados,

Reclinarmos nossa cara.

Que a esperança nos revele

Mais dilatado horizonte.

Agosto de 1859