Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 84 de 93

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Poemas

Desalento

É força descrer. Na vida

Sucumbe toda a ilusão

Como a flor da haste pendida

Murcha ao sopro do tufão.

Fantasias vãs da infância

Deixai-me; sois mentirosas.

Pintáveis-me a vida estância

Coberta de mirto e rosas.

E, ao perto, o mirto e as rosas

Em espinhos se tornaram.

Essas horas venturosas Bem amargas se mostraram.

Descrer é fatal destino

Que espera o homem na vida.

E não há poder divino

Que lhes sirva de guarida.

Descrer? descrer! muito custa

Quando o peito é de vinte anos,

Quando a alma ainda se assusta

Ao clarão dos desenganos.

Pobre alma! pobre seio!

Ai que martírio sofreste.

Inda ontem de ilusões cheio

E hoje já quantas perdeste!

E agora que mais me resta?

Qual, ó alma a tua sorte!

Já que a vida é tão funesta

Aspira somente à morte.

6 de Agosto de 1860.