Poemas
«Oh! vem, querida irmã, do santuário do…
A NOVIÇA
«Oh! vem, querida irmã, do santuário do templo, Já desce a receber-te o celestial Esposo.
Vem ser da nossa fé sublime o vivo exemplo; Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.
«Vem; dos círios à luz, ao som de alegres hinos, Cinge o hábito escuro, emblema da humildade, E, abrasada no ardor dos teus estos divinos, Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade,
«Esposa do Senhor, virgem cândida e pura, Do teu noviciado expiram hoje os dias.
Não tremas ao fitar as portas da clausura;
Também na estreita cela há brandas alegrias.»
Assim das monjas soa o religioso canto:
Juntas, em procissão pelas extensas naves, Espalham-se na igreja as vozes do hino santo, Melancólica voz de aprisionadas aves.
Caído o longo véu por sobre a cara airosa Caminha lentamente a pálida noviça;
Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa, Um como cintilar de lâmpada mortiça.
Sobre os degraus do altar humilde se ajoelha E ao culto fervorosa as trancas sacrifica.
«Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,
Os teus tesouros d'amor nas aras santifica.»
E o coro ergue outra vez o ritual hosana,
Entre nuvens de incenso, à voz do órgão sagrado; Responde-lhe o rezar da multidão profana, Que transpôs curiosa o pórtico elevado.
A cerimônia é finda; a monja de joelhos
Permanece, inclinada a face sobre a terra; Era no ocaso o Sol; e os seus clarões vermelhos Vinham tingir o altar, tingindo ao longe a serra.
Longo tempo ali esteve, as pálpebras descidas. Imóvel, silenciosa, em êxtase absorta.
Ergueram-na afinal as monjas comovidas: Doloroso mistério... a pobre estava morta!
Julho de 1865.