Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 41 de 93

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«Oh! vem, querida irmã, do santuário do…

A NOVIÇA

«Oh! vem, querida irmã, do santuário do templo, Já desce a receber-te o celestial Esposo.

Vem ser da nossa fé sublime o vivo exemplo; Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.

«Vem; dos círios à luz, ao som de alegres hinos, Cinge o hábito escuro, emblema da humildade, E, abrasada no ardor dos teus estos divinos, Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade,

«Esposa do Senhor, virgem cândida e pura, Do teu noviciado expiram hoje os dias.

Não tremas ao fitar as portas da clausura;

Também na estreita cela há brandas alegrias.»

Assim das monjas soa o religioso canto:

Juntas, em procissão pelas extensas naves, Espalham-se na igreja as vozes do hino santo, Melancólica voz de aprisionadas aves.

Caído o longo véu por sobre a cara airosa Caminha lentamente a pálida noviça;

Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa, Um como cintilar de lâmpada mortiça.

Sobre os degraus do altar humilde se ajoelha E ao culto fervorosa as trancas sacrifica.

«Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,

Os teus tesouros d'amor nas aras santifica.»

E o coro ergue outra vez o ritual hosana,

Entre nuvens de incenso, à voz do órgão sagrado; Responde-lhe o rezar da multidão profana, Que transpôs curiosa o pórtico elevado.

A cerimônia é finda; a monja de joelhos

Permanece, inclinada a face sobre a terra; Era no ocaso o Sol; e os seus clarões vermelhos Vinham tingir o altar, tingindo ao longe a serra.

Longo tempo ali esteve, as pálpebras descidas. Imóvel, silenciosa, em êxtase absorta.

Ergueram-na afinal as monjas comovidas: Doloroso mistério... a pobre estava morta!

Julho de 1865.