Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 54 de 93

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Poemas

Devaneio Peninsular

Ai, quem me dera em Sevilha,

Onde a travessa espanhola

Sob a elegante mantilha

As negras trancas enrola.

Na arcada da sé famosa

Vê-la entrar, tal como o sonho!

Entre coquete e piedosa,

Rosto entre grave e risonho;

Mergulhar na água benzida

A mão pequena e elegante,

E entre a turba ali reunida Distinguir o olhar do amante,

Aos pés do altar, de joelhos,

Os olhares alternando

Com a letra dos Evangelhos

E uns olhos que a estão fitando:

Aos pobres juntos à porta

Dar a caridosa esmola,

O óbolo que conforta,

A palavra que consola;

Passar por os curiosos,

Que se demoram para vê-la,

Baixando os olhos formosos

Sem se tornar menos bela;

E elevá-los de repente,

Em sítio certo e ajustado,

A encontrar o olhar ardente

De um ardente namorado;

Seguir as ruas ligeira

Como a andorinha das praias,

Soltando aos ventos, inteira,

A vasta roda das saias;

Agitar na mão nervosa

A rápida ventarola

Com aquela arte misteriosa

Que só sabe uma espanhola;

Entrar na casa, em que mora,

Abrir o quarto elegante,

Orar a Nossa Senhora,

Sorrir à imagem do amante;

Pousar a leve mantilha,

Descobrindo as negras trancas,

Onde o sol reflete e brilha

Como sobre as ondas mansas.

Sentada ao piano aberto

Dedilhar uma harmonia,

Enquanto que o olhar incerto

Vai da alcova à gelosia;

Afastar-se de repente, E, como que por encanto,

Romper febril e impaciente

Em inexplicável pranto; 

E na alcova recatada...

Pára, pára, fantasia,

Como ias longe, coitada,

Sonhando da Andaluzia!

1868