Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 13 de 93

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Poemas

Nuvens

Vês as nuvens no azul do firmamento

De brancuras ofuscantes,

Como impelidas por tufão violento

Se formam em legiões extravagantes?

Olha; acolá, reunidas uma a uma,

Um trono simbolizam;

Ali, rasgam-se em flocos, como a espuma Das vagas crespas que em areais deslizam.

Mais longe, vês? as massas vaporosas

Informe monstro imitam,

E além, tingidas pela cor das rosas, Paços que ocultas mágicas habitam.

Agora, vastos pórticos, ogivas,

E um longo peristilo,

Colunas, capiteis, arcadas vivas,

Arquiteturas de ignorado estilo.

Logo por esses plainos dispersadas

Pelo sopro do vento,

Como níveos cordeiros às manadas

Sucedem-se velozes cento a cento:

Ora parecem gigantescas serras

Com seus eternos gelos;

Ora planícies de nevadas terras,

E das águas boreais os caramelos:

Ali nos representam funda gruta

E rochas diamantinas;

Acolá, mil exércitos em luta;

Mais além, mil cidades em ruinas.

E sabes tu no que essas formas vagas

Perto de nós se tornam!

Dize, quando no prado a sós divagas,

Tens visto as gotas que o vergel adornam?

Pois são esses os tronos deslumbrantes,

A ogiva preciosa,

Os fustes das colunas de diamantes,

E encantados palácios cor-de-rosa.

Esse vasto espetáculo dos ares,

Essas mágicas cenas,

A que presos estão nossos olhares,

Vê-los ao perto? são orvalho apenas.

Bem assim os projetos, áureos sonhos

Que na vida sonhamos;

Belos fantasmas, fúlgidos, risonhos,

Que nos céus do futuro divisamos.

Pois que junto de nós, essas imagens,

Essa visão querida,

Desvanecem-se, pérfidas miragens,

Fundem-se como a neve derretida;

Esperança no porvir, nuvens formosas, Em que assim te deleitas,

Com esse orvalho que humedece as rosas Hás de vê-las em lágrimas desfeitas.

4 de Setembro de 1862.