Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 53 de 93

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Poemas

No Teatro

Está patente a sala do espetáculo;

Mil lumes a iluminam, refletindo-se

Nos dourados ornatos, que realçam

Na alvura das paredes. Lado a lado,

Como festões de variegadas flores,

As mais formosas, celebradas damas,

Guarnecidas de rendas e de sedas,

Adornam as extensas galerias.

Enxames de ligeiras borboletas,

Pairando sobre floridos canteiros,

Dir-se-iam os leques agitados

Por mãos tão delicadas e pequenas

Com rapidez nervosa. As pedrarias Quebram a luz em deslumbrantes Íris.

É esplêndida a vista do teatro;

Em baixo turba inquieta e mais obscura

Já enche a trasbordar a sala. Reina

Em todo este recinto um rumor surdo,

Misto de vozes e de risos. Súbito

Parece estremecer a sala inteira; É o sinal. Enrola-se a cortina,

Patenteia-se o palco às vistas ávidas,

Começa o espetáculo! O silêncio,

Ou se não o silêncio, o murmúrio,

Que forma o respirar de tantos seios,

O palpitar de corações ansiados,

Sucede à agitação que ali reinava.

É comovente o drama; as mais fogosas

Paixões que o humano coração disputam, Ali são facilmente traduzidas

Pelo inspirado gênio do poeta,

E animadas da vida, com que arte

De célebres atores a revestem.

A piedade e o terror em várias cenas

Sucedem-se, e ora lágrimas provocam,

Ora um estremecer d'alma indignada.

Domina a comoção todos os seios,

E em cada rosto clara se revela.

Reparai, vede além aquela dama,

Loura, formosa, lânguida, envolvida

Numa nuvem de rendas vaporosas,

Como recosta a cara alva de neve

Na mão pequena e débil.

Vede-a, aos olhos,

Olhos para amor foram talhados, Leva o mimoso lenço, que retira

Humedecido de piedosas lágrimas.

Pobre menina! Coração sensível!

Como lhe anseia o peito comprimido!

Que tesouros de afetos e ternura

Naquela alma puríssima! Pobre anjo,

Se tais lágrimas concedes a infortúnios,

Ficções sublimes d'arte, na presença

De infortúnios reais teus belos olhos

Cegarão a chorar. Pobre menina!

Mais além. atentai naquele velho,

Homem sisudo e grave, e na aparência

Pouco sujeito a comoção. Pois vede-o;

Olhos fitos na cena, nem percebe

As duas grossas lágrimas, que as faces Lhe vão sulcando vagarosamente.

Bela alma a desse velho! Não pôde inda

Arrefecê-la o gelo da velhice;

O frio da miséria ali tem certo

Calor a mitigá-lo, alívio pronto.

E esse pálido jovem? Esse ao vê-lo

Tão escravo da moda, tão volúvel,

Suspeitaríeis que ainda o sentimento

Pudesse comover-lhe a alma leviana?

Pois para ele reparai. A custo

Consegue disfarçar, desviando os olhos

Da cena, a comoção que forte o oprime.

Caluniam-te, pobre humanidade,

Os que te dizem dura como as feras;

Ainda a piedade vive em ti, nem pode Exaurir-se essa fonte preciosa.

Olhai, correi a sala, e se encontrardes

Olhos enxutos, corações serenos,

Tereis vencido então; direi que minto.

O drama terminou. A imensa turba,

Que enchia há pouco a refulgente sala,

Rompe, agora, das portas, que mal bastam Para lhe dar saída. Os corredores,

As escadas, o átrio, tudo inunda

Essa torrente humana num momento.

Tendes visto, soltando à larga presa

Os diques que a água imóvel conservavam, Como súbito rompe fragoroso

O jorro líquido, e ainda turvo e rápido

Se precipita impetuoso, e cedo Se espraia pelos campos cultivados?

Assim a multidão que se atropela

Ao findar o espetáculo noturno.

Corre unida, ao princípio, após, derrama-se Em várias direções. Poucos instantes

Decorrerão, será silêncio tudo.

Fora das portas do teatro, a noite

Estende o denso manto humedecido

Das chuvas de Dezembro; os ventos sopram Com rigorosa violência. Pobre

Do que não tem abrigo em noites destas!

Mas não ouvis um como triste choro

A porta do teatro? Além, na sombra,

Parece que se move um vulto escuro:

O doloroso choro dali parte;

Vejamos de mais perto. Oh triste cena!

Uma mãe e três filhos; um no colo,

Dois cingidos a ela em pé, chorando

De fome e frio; a esquálida miséria

Passou seus magros dedos nessas faces Que a palidez da morte tinge, e os traços

Gravaram-se bem fundos. Com voz fraca

Pede a mãe para os filhos: «Por piedade! Lembrai-vos destas pobres criancinhas,

Que me morrem de fome. Pouco basta

Para lhes dar alívio. Deus proteja

Vossos filhos e os livre da desgraça

Em que os meus vivem. Dai-lhes uma esmola.» Ninguém escuta a voz da desgraçada;

Ninguém lhe estende a mão auxiliadora!

Onde escondeste, ó turba indiferente

Aos gritos da desgraça, aquele choro Que há pouco nos teus olhos borbulhava? Corações comovidos, que maus ventos

Vos gelaram assim, que nem as preces

De uma pobre mulher, mãe desditosa,

Vos consegue abrandar? Porém, espera;

Para aqui se encaminha a loura dama,

Cujo bom coração adivinhamos

Só de vê-la chorar. Já se aproxima

A recebê-la o sumptuoso coche.

Faz chegar tua voz aos seus ouvidos,

E atendida serás, desventurada;

Estende a mão, que ampara a custo o filho, À mão calçada de elegante luva:

Não a retirarás vazia. — A miséria

Assim fez; implorou em voz sentida

A caridade da formosa dama;

Mas, ai! uma resposta fria, fria

Como não se imagina que saísse

De lábios onde amor fogos ateia,

Lhe repeliu a súplica.

No coche Senta-se em mole assento a loura dama; O coche parte rápido, e a miséria

Fica a segui-lo com a vista ao longe.

Que mentirosas lágrimas choravas,

Jovem sem coração? De que artifícios

Te serves para simular piedade,

Seio fechado à compaixão e ao choro?

Passa o grave ancião, que enternecido

Vimos seguindo o drama. — «Por piedade», Lhe brada a pobre mãe — «matai-me a fome A estas criancinhas. Ai, tão pouco, Tão pouco bastará!» — «Mulher, retire-se; Não é aqui lugar para peditórios,

Não pode ser agora!» —e: Prosseguindo

O caminho de casa, ia dizendo

O judicioso velho:—«Esta policia

O que é que faz, se à porta dos teatros

Assim nos vêm importunar mendigos?»

Velho, porque choraste há pouco ainda

Perante simulados infortúnios?

Mentiste ao coração, velho, mentiste;

O gelo do egoísmo o cobre há muito.

Em ti não há piedade; agora o vejo.

Salva, pálido jovem, salva ao menos

Tu, que também choravas, essa triste,

Desconfortada mãe, que na miséria

Os outros abandonam; tua idade É a idade de instintos generosos,

De entusiasmos santos. Salva-a, salva-a! E desafronta assim a humanidade.

Mas nem tu! Ela em vão a mão te estende, Passas cantando, e distraído afastas

O teu caminho do importuno vulto.

O que é pois a piedade nos vossos peitos, Homens? vós, que chorais fictícias penas, E contemplais sem lágrimas o quadro

De verdadeiras, hórridas misérias?

Almas sensíveis sob o império da arte,

Porque ficais assim mudas e frias,

Quando passa por vós a realidade,

Trágica, triste como o triste drama

Que vos fez comover? Harpas eólias Penduradas dos ramos dos carvalhos

Soluçam quando as auras vespertinas

Lhes roçam pelas cordas melodiosas.

Sede vós como elas; ao passarem

Nos ares estas vozes da miséria.

Vibrai com elas, soluçai, mostrando

Que ainda há um coração no vosso peito.