Poemas
No Teatro
Está patente a sala do espetáculo;
Mil lumes a iluminam, refletindo-se
Nos dourados ornatos, que realçam
Na alvura das paredes. Lado a lado,
Como festões de variegadas flores,
As mais formosas, celebradas damas,
Guarnecidas de rendas e de sedas,
Adornam as extensas galerias.
Enxames de ligeiras borboletas,
Pairando sobre floridos canteiros,
Dir-se-iam os leques agitados
Por mãos tão delicadas e pequenas
Com rapidez nervosa. As pedrarias Quebram a luz em deslumbrantes Íris.
É esplêndida a vista do teatro;
Em baixo turba inquieta e mais obscura
Já enche a trasbordar a sala. Reina
Em todo este recinto um rumor surdo,
Misto de vozes e de risos. Súbito
Parece estremecer a sala inteira; É o sinal. Enrola-se a cortina,
Patenteia-se o palco às vistas ávidas,
Começa o espetáculo! O silêncio,
Ou se não o silêncio, o murmúrio,
Que forma o respirar de tantos seios,
O palpitar de corações ansiados,
Sucede à agitação que ali reinava.
É comovente o drama; as mais fogosas
Paixões que o humano coração disputam, Ali são facilmente traduzidas
Pelo inspirado gênio do poeta,
E animadas da vida, com que arte
De célebres atores a revestem.
A piedade e o terror em várias cenas
Sucedem-se, e ora lágrimas provocam,
Ora um estremecer d'alma indignada.
Domina a comoção todos os seios,
E em cada rosto clara se revela.
Reparai, vede além aquela dama,
Loura, formosa, lânguida, envolvida
Numa nuvem de rendas vaporosas,
Como recosta a cara alva de neve
Na mão pequena e débil.
Vede-a, aos olhos,
Olhos para amor foram talhados, Leva o mimoso lenço, que retira
Humedecido de piedosas lágrimas.
Pobre menina! Coração sensível!
Como lhe anseia o peito comprimido!
Que tesouros de afetos e ternura
Naquela alma puríssima! Pobre anjo,
Se tais lágrimas concedes a infortúnios,
Ficções sublimes d'arte, na presença
De infortúnios reais teus belos olhos
Cegarão a chorar. Pobre menina!
Mais além. atentai naquele velho,
Homem sisudo e grave, e na aparência
Pouco sujeito a comoção. Pois vede-o;
Olhos fitos na cena, nem percebe
As duas grossas lágrimas, que as faces Lhe vão sulcando vagarosamente.
Bela alma a desse velho! Não pôde inda
Arrefecê-la o gelo da velhice;
O frio da miséria ali tem certo
Calor a mitigá-lo, alívio pronto.
E esse pálido jovem? Esse ao vê-lo
Tão escravo da moda, tão volúvel,
Suspeitaríeis que ainda o sentimento
Pudesse comover-lhe a alma leviana?
Pois para ele reparai. A custo
Consegue disfarçar, desviando os olhos
Da cena, a comoção que forte o oprime.
Caluniam-te, pobre humanidade,
Os que te dizem dura como as feras;
Ainda a piedade vive em ti, nem pode Exaurir-se essa fonte preciosa.
Olhai, correi a sala, e se encontrardes
Olhos enxutos, corações serenos,
Tereis vencido então; direi que minto.
O drama terminou. A imensa turba,
Que enchia há pouco a refulgente sala,
Rompe, agora, das portas, que mal bastam Para lhe dar saída. Os corredores,
As escadas, o átrio, tudo inunda
Essa torrente humana num momento.
Tendes visto, soltando à larga presa
Os diques que a água imóvel conservavam, Como súbito rompe fragoroso
O jorro líquido, e ainda turvo e rápido
Se precipita impetuoso, e cedo Se espraia pelos campos cultivados?
Assim a multidão que se atropela
Ao findar o espetáculo noturno.
Corre unida, ao princípio, após, derrama-se Em várias direções. Poucos instantes
Decorrerão, será silêncio tudo.
Fora das portas do teatro, a noite
Estende o denso manto humedecido
Das chuvas de Dezembro; os ventos sopram Com rigorosa violência. Pobre
Do que não tem abrigo em noites destas!
Mas não ouvis um como triste choro
A porta do teatro? Além, na sombra,
Parece que se move um vulto escuro:
O doloroso choro dali parte;
Vejamos de mais perto. Oh triste cena!
Uma mãe e três filhos; um no colo,
Dois cingidos a ela em pé, chorando
De fome e frio; a esquálida miséria
Passou seus magros dedos nessas faces Que a palidez da morte tinge, e os traços
Gravaram-se bem fundos. Com voz fraca
Pede a mãe para os filhos: «Por piedade! Lembrai-vos destas pobres criancinhas,
Que me morrem de fome. Pouco basta
Para lhes dar alívio. Deus proteja
Vossos filhos e os livre da desgraça
Em que os meus vivem. Dai-lhes uma esmola.» Ninguém escuta a voz da desgraçada;
Ninguém lhe estende a mão auxiliadora!
Onde escondeste, ó turba indiferente
Aos gritos da desgraça, aquele choro Que há pouco nos teus olhos borbulhava? Corações comovidos, que maus ventos
Vos gelaram assim, que nem as preces
De uma pobre mulher, mãe desditosa,
Vos consegue abrandar? Porém, espera;
Para aqui se encaminha a loura dama,
Cujo bom coração adivinhamos
Só de vê-la chorar. Já se aproxima
A recebê-la o sumptuoso coche.
Faz chegar tua voz aos seus ouvidos,
E atendida serás, desventurada;
Estende a mão, que ampara a custo o filho, À mão calçada de elegante luva:
Não a retirarás vazia. — A miséria
Assim fez; implorou em voz sentida
A caridade da formosa dama;
Mas, ai! uma resposta fria, fria
Como não se imagina que saísse
De lábios onde amor fogos ateia,
Lhe repeliu a súplica.
No coche Senta-se em mole assento a loura dama; O coche parte rápido, e a miséria
Fica a segui-lo com a vista ao longe.
Que mentirosas lágrimas choravas,
Jovem sem coração? De que artifícios
Te serves para simular piedade,
Seio fechado à compaixão e ao choro?
Passa o grave ancião, que enternecido
Vimos seguindo o drama. — «Por piedade», Lhe brada a pobre mãe — «matai-me a fome A estas criancinhas. Ai, tão pouco, Tão pouco bastará!» — «Mulher, retire-se; Não é aqui lugar para peditórios,
Não pode ser agora!» —e: Prosseguindo
O caminho de casa, ia dizendo
O judicioso velho:—«Esta policia
O que é que faz, se à porta dos teatros
Assim nos vêm importunar mendigos?»
Velho, porque choraste há pouco ainda
Perante simulados infortúnios?
Mentiste ao coração, velho, mentiste;
O gelo do egoísmo o cobre há muito.
Em ti não há piedade; agora o vejo.
Salva, pálido jovem, salva ao menos
Tu, que também choravas, essa triste,
Desconfortada mãe, que na miséria
Os outros abandonam; tua idade É a idade de instintos generosos,
De entusiasmos santos. Salva-a, salva-a! E desafronta assim a humanidade.
Mas nem tu! Ela em vão a mão te estende, Passas cantando, e distraído afastas
O teu caminho do importuno vulto.
O que é pois a piedade nos vossos peitos, Homens? vós, que chorais fictícias penas, E contemplais sem lágrimas o quadro
De verdadeiras, hórridas misérias?
Almas sensíveis sob o império da arte,
Porque ficais assim mudas e frias,
Quando passa por vós a realidade,
Trágica, triste como o triste drama
Que vos fez comover? Harpas eólias Penduradas dos ramos dos carvalhos
Soluçam quando as auras vespertinas
Lhes roçam pelas cordas melodiosas.
Sede vós como elas; ao passarem
Nos ares estas vozes da miséria.
Vibrai com elas, soluçai, mostrando
Que ainda há um coração no vosso peito.