Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 55 de 93

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Poemas

Em Horas Tristes

Ela vivia só naquela aldeia,

Sem ter um coração que a compreendesse, Passei um dia ali, falei-lhe, amei-a...

Ai, se esses tempos esquecer pudesse...

E julgou-se feliz! Pobre criança!

Era feliz naqueles curtos dias,

E eu deixei-lhe nascer sem esperança

E sem porvir aquelas alegrias!

Oh! Como é sem piedade a juventude!

Como é cruel a idade dos amores!

Desfolhando as flores da virtude, Como se fossem verdadeiras flores.

Sopra-se ao coração, que a nós se entrega, A labareda de violenta chama.

E ao capricho cruel da paixão cega

Sacrifica-se tudo quanto se ama.

E eu fi-la entrever em doce enleio

De um mundo novo as mal sonhadas cenas; E sentia-a corar e arfar-lhe o seio,

E delirante respirar apenas!

Parti, jurando amá-la toda a vida,

Pude fazer aquele juramento!

Ela ficou chorando-me iludida,

E eu paguei-lhe a ilusão com o esquecimento.

Perdido dos prazeres no tumulto,

Levado nessa rápida voragem,

Não mais pensei naquele doce vulto;

Nunca mais entrevi a sua imagem.

E ela?... Talvez no coração ferida

Por minha leviandade criminosa,

Vivesse dias de enlutada vida,

Sem ter na terra a sagração de esposa.

Ai, memórias cruéis do meu passado,

Como pungentes me feris agora!

Poupai, poupai-me o coração magoado,

Livrai-me do remorso que o devora.

Funchal – Abril de 1869