Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 44 de 93

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Poemas

Capítulo I

TERÇA-FEIRA

I

Rompera a manhã sombria,

Destas que fazem tristeza;

Em perfeita calmaria

Repousava a natureza.

Repousava. As ondas mansas

Vinham quebrar-se na areia.

Que mar tanto de esperanças!

Que enganadora sereia!

O arrais, correndo os palheiros, «Ao mar!» grita. «ao mar, aos remos !»

«Para as lanchas, companheiros;

Grande safra hoje teremos.»

E a pobre gente da costa,

Essa raça destemida,

Que a morte sem medo arrosta,

Num momento é toda erguida.

Ei-los na praia.

Cantando

Se dão à tarefa santa,

Que nesse arrojado bando

Quem mais trabalha, mais canta.

São todos? Todos não. Falta

Da companha o mais valente!

Esta nova sobressalta

O peito daquela gente.

«Partir sem ele! Por Cristo,

Que a primeira vez seria.

Em qualquer lance imprevisto

Quem tanto nos valeria?»

Tudo pára, tudo hesita,

Mãos nos remos, mão no leme;

Que o seio a muitos palpita,

Que a muitos a mão já treme.

II

Ora, no pobre palheiro

Do pescador que tardava,

Eis que ao alvor primeiro

Desta manhã se passava:

Ele acordara, e na esposa,

Que ao lado dorme tranquila,

Repousa a vista amorosa,

E ao despertá-la, vacila.

Vacila — se é tão suave

Aquele dormir ! tão brando!

Mas não sei que ideia grave

Lhe está na mente pesando.

Ternamente ao seio a aperta,

E lhe diz com gesto ameno:

— «Mulher, teu filho desperta,

Acorda-me esse pequeno.»

A jovem mãe estremece

— «Que acorde meu filho, dizes !

Deixa-o dormir. Deus lhe desse

Sempre assim sonos felizes.»

— «Acorda teu filho, acorda,

Tal dormir não é para ele;

Tempo é que da lancha à borda

Como os outros também vele.»

— «As lanchas! ao mar!... pois queres?...» E a mãe empalidecia.

— «Nesta vida de mulheres

Não é que um homem se cria.»

— «Mas tão novo!...» — «Inda mais novo O meu pai me levou consigo.»

— «Mas... —já se fala entre o povo

«Do rapaz». — Mas ouve, amigo... »

E a voz trêmula e chorosa

Quase em choro se afogava.

Curvara-se ao mar a esposa,

Mas a mãe, essa, hesitava.

Hesitava, que se lhe ia

A alma toda, dando aos mares O filho, a sua alegria,

O lume dos seus olhares.

— «Ouve», murmura, chorando

«Por Deus te vou pedir isto!»

E depois, em tom mais brando,

«Em nome de Jesus Cristo!

«Deixa-mo ficar, marido,

Hoje só, ai! hoje ao menos!...

Fraco auxílio o recebido

Dos braços desses pequenos!

«Bem sabes que tudo os cansa...

Sempre sois tão desumanos!

E depois... essa criança Inda não fez os dez anos.»

— «Agoura-me bem o dia

Para lhe abrir a carreira.»

— «Porém, ó Virgem Maria,

E hoje então que é terça-feira!»

— «Mulher, deixa essas ideias,

Iguais são todos os dias;

Em maus agouros não creias,

Se é que no Senhor confias.

«Apronta teu filho, apronta,

Que hoje há de entrar na partilha,

E olha que o Sol já desponta;

Anda, acorda-o, minha filha.»

III

— «Filho, filho, ergue-te, acorda...

Para quê, só Deus o sabe... »

E em lágrimas lhe trasborda

A dor que na alma não cabe.

— «Sonhavas talvez brinquedos,

Pois que sorrias dormindo;

Verás brincar nos rochedos

Esse mar que está bramindo.

«Vai ainda quente do berço,

Inda quente dos meus beijos,

Para um mundo bem diverso Do sonhado nos meus desejos.

«Vai, tu que sempre dormiste

Ao som das minhas cantigas,

Dormitar à canção triste

Dessas ondas inimigas.

«E sorris, anjo querido,

Ao passo que eu choro tanto,

Pois não sabes o sentido

Deste doloroso pranto?

«Não sabes que se me parte

O meu coração no peito

Ao vir assim acordar-te

Do teu sossegado leito?

«Não sabes que a minha vida,

Pobre filho, vai contigo,

E que nesta despedida

Trocas para sempre este abrigo.

«Este abrigo do meu seio,

Por perigos e cansaços?!

Não sei, não sei que receio

Ao tirar-te dos meus braços.

«Choras, filho? Ai, não, não chores,

Que me tiras todo o alento;

Já me bastam minhas dores,

Basta-me o meu pensamento.

«Deus é bom. Nem sempre os mares

Se alevantam com tormentas.

Não chores, que se chorares,

O meu pesar acrescentas.

«Sossega. Esta cruz benzida

Leva contigo, e descansa,

Pois quem é tão bom na vida,

Deve em Deus ter confiança.

«Vai, que eu à nossa Senhora, Àquela

Virgem das Dores,

Que é a tua protetora,

Rezarei logo que fores.

«Limpa essas lágrimas, vamos, Que teu pai tas não conheça.

E a oração que te ensinamos,

Ai, vê lá! nunca te esqueça.»

IV

E viu-os partir. E o pranto

Lhe inunda as faces. Desmaia.

Dos pescadores o canto

Se escuta ao longe na praia.

Oh! que tristeza tamanha!

Que pressentimento amargo,

Quando as lanchas da companha

Se fazem, remando, ao largo!

Junto à imagem de Maria

Esta outra mãe dolorosa

De joelhos todo o dia

Lhe ergue preces, fervorosa.

«Ó Mãe de Deus, luz divina,

Que ilumina as nossas almas!

Ó estrela matutina,

Que as tempestades acalmas!

«Baixa à Terra esses olhares,

Nossa única esperança,

E, voltando-os sobre os mares,

Protege aquela criança.

«Compadece-te, Senhora, Destas lágrimas sentidas;

Estende a mão protetora

Sobre aquelas pobres vidas.

«Vê que me andam sobre as águas

Todos quantos estremeço.

Mãe, que entendes minhas mágoas,

Diz se essas vidas têm preço!

«Pela angústia que sentiste

Junto da cruz, ó Maria,

Vale-me nesta hora triste,

Vale-me nesta agonia.»

No meio de ardente prece

Ergue-se inquieta, palpita, Fitando o céu, que escurece,

Ouvindo o mar, que se agita.

V

Era ao tempo das Trindades:

As aves, que pressagiam

O chegar das tempestades,

Amedrontadas gemiam.

 

A mãe segue na carreira

Uma vaga e outra vaga.

«Terça-feira! terça-feira!»

Lhe diz uma voz pressaga.

Já treme. Os olhos velados,

Onde a angústia se revela,

Pelos mares agitados

Não descobrem uma vela.

E as nuvens correm velozes,

E o vento revolve a areia.

Já se ouvem confusas vozes

Na praia de gente cheia.

Velhos, mães, tristes esposas,

Crianças nuas, em choro,

Altas vozes, lastimosas,

Erguem num sinistro coro.

Que cena! e redobra o vento, E condensa-se a neblina,

E o mar rebrame violento,

E a noite a cena domina.

E à luz de algumas fogueiras

Escassa, tênue, funesta,

Movem-se sombras ligeiras

Como se em diabólica festa.

E ela, a mãe em desatino,

Corre, pára, escuta, chora,

Maldiz o poder divino...

Depois seu perdão implora.

Os olhos na sombra fitos,

Dessa noite escura, escura, Eleva-os ao Céu aflitos,

E em vão um astro procura.

E o raio, que as trevas densas

De vez em quando devassa,

Mostra-lhes vagas imensas,

Negros abismos, e passa.

VI

Só à luz da madrugada

Se acalma a brava tormenta.

Que noite em ânsias passada,

Tão pavorosa! tão lenta!

O céu reflete nas águas A cor azul de bonança.

E vai sanando as mágoas

A branda luz da esperança,

— «Barcas ao longe! não vedes!

Oh! que alegria tamanha!

Deus abençoou as redes,

São as lanchas da companha.»

Crianças, mulheres, velhos,

Ao ouvirem este grito,

Todos, todos de joelhos

Cantam piedoso Bendito.

Ei-las vêm! Braços valentes

Afeitos àquela guerra, Cortando os mares frementes

As impelem para a terra.

Na turba dos pescadores

A mãe com turbado aspeto,

Inda escuro de terrores,

Procura o filho dileto.

Tudo exulta de alegria;

Cada qual os seus conhece...

E ela só, muda, sombria,

Sobre a praia permanece.

Ei-los enfim! Que transportes,

Que lágrimas os esperam!

Vêem-se chorar os mais fortes Dos que no mar não tremeram.

Por entre os grupos vagueia

A mãe, trêmula, calada,

De negros agouros cheia,

De vago pavor tomada.

Quase em delírio vê tudo,

Como se através de um sonho;

De repente um grito agudo

Soa na praia medonho.

É que pálido, abatido,

Junto ao mar o esposo vira;

E que terrível sentido

Naquela dor descobrira.

— «Que negro presságio é este

Que leio nos teus olhares?

Do meu filho o que fizeste?»

— «Pergunta-o a esses mares.»

No grito que a triste solta

Vai-lhe a razão, mais que a vida!

Depois para o mar se volta,

Turba, pálida, perdida...

— «Não! não hás de assim roubar-me

O filho destas entranhas,

Não podem intimidar-me

As tuas iras tamanhas.

«Não vês que tenho no seio

Este amor?

Espera, espera,

Ruge ! não tenho receio;

Ruge, amaldiçoada fera!

«Ruge!» e sem tino, movida

Da alucinação que a agita,

Rompendo em veloz corrida,

Nas ondas se precipita.

Em vão lhe açodem, que forte

O filho às vagas disputa.

Era um combate de morte!

Era uma tremenda luta!

E na manhã do outro dia

Viu-se na praia arrojada

A mãe, que, morta, sorria

Do filho ao corpo abraçada.

1865