Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 7
SETE
doutora está aqui.
A não ser pelo fato de que não há pacientes na sala – na verdade
apenas a mesa em que a Sarah e eu estamos sentadas, do lado de fora da quadra. Fornecemos um acesso fácil aos nossos pacientes, mas
não muita privacidade. Sarah diz que não dá para escutar se falarmos baixo, mas as pessoas ainda têm que lutar com o fato de quererem ou não ser vistas conosco, já que a maioria sabe por que estamos aqui todas as manhãs. Bom, quase todos os nativos da Adams sabem, não os imigrantes da Jefferson.
– A Lori está falando com alguém que eu não conheço e olhando pra cá – informa Sarah. – Ou fofocando sobre a gente ou tomando coragem para vir até aqui. Ah, aí vem a Molly.
– E aí? Vocês normalmente sentam aqui fora de manhã?
– Todo dia – respondo. – Fazendo boa ação.
– Pra mim só parece sentar de bobeira.
– As aparências enganam. Fornecemos um serviço raro e valioso…
– Lá vêm elas – diz Sarah, com a voz ansiosa porque a Molly está aqui.
Antes que eu possa dizer qualquer coisa, a Lori fala:
– Oi, Sarah. Parker.
Uma garota que não conheço diz:
– Oi, Moll.
– E aí, Reg – responde Molly. – Como foi o verão?
– Ok.
– Essa é a Regina – apresenta Lori. – Ela está com um problema. Eu disse a ela que ela devia falar com vocês.
– Sente-se – oferece Sarah. – Hum… Molly?
– Tudo bem – diz Regina. – Ela pode car. Ela já sabe quase tudo.
Há um pouco de tumulto enquanto as pessoas se sentam.
– Pode falar, Regina – estimula Lori. – Tá tudo bem.
– Então… eu estava saindo com o Gabe na primavera, mas a gente terminou logo antes das férias da escola.
Silêncio.
– Regina… – diz Lori.
– Ele me deu um pé na bunda. Aí foi pra Espanha o verão inteiro num programa de intercâmbio.
– Peraí – digo. – Como ele fez isso? Pessoalmente, pelo telefone, mensagem?
– Quando eu estava no trabalho, ele me mandou uma mensagem A gente precisa conversar , e respondi Sobre o quê?, e ele disse A gente tem que conversar pessoalmente , e eu falei Você está me assustando, o que foi?, e ele disse que eu podia ligar pra ele se não conseguisse esperar e falei que estava no trabalho, mas que ia ligar no meu intervalo. Aí liguei e ele terminou comigo.
– Ele explicou por quê? – pergunta Sarah.
– Ele falou que a gente estava se distanciando. Que nós dois sabíamos que as coisas estavam esfriando e que não queria prolongar aquilo quando só tínhamos mais um ano na escola.
– Ele estava certo? – pergunto. – As coisas estavam esfriando?
– Eu não achava, mas…
Silêncio. É para isso que preciso da Sarah depois, se essa garota está olhando para as mãos, olhando para o céu tentando encontrar palavras, olhando para todos os rostos sem querer compartilhar com uma multidão…
– Não dá pra manter conversas inteiras con denciais porque, sinceramente, é muito difícil resolver tudo – declara Sarah. – Mas, se tiver algo especí co que você queira que a gente guarde segredo, a gente guarda. É só dizer.
– Não é isso. É só que… bom… acho que, pra começar, as coisas nem eram tão empolgantes assim.
– Você não estava tão a m dele ou ele de você? – comento.
– Ah, nós éramos ótimos juntos, mas… talvez ele queira ir mais rápido do que eu quero?
E eu digo:
– Ele falou que as coisas estavam esfriando, mas na verdade ele queria dizer que as coisas não estavam esquentando rápido o su ciente.
– Talvez.
– Vocês dois conversaram sobre isso? – pergunta Sarah.
– Não. Não falei muito. Eu estava no trabalho e realmente não esperava. Sei lá. Só senti como se, de algum jeito, eu tivesse estragado tudo. Não queria deixar as coisas piores tentando adivinhar o que tinha dado errado e prometendo consertar aquilo ou implorando ou algo assim. Eu só queria desligar. Aí z isso e m. Bom, até a semana passada. Ele começou a me ligar de novo.
– Ele quer voltar?
– Ele não falou isso. E eu não pedi. Ele só disse que está com saudades e que quer botar o papo em dia.
– E você não sabe se quer? – pergunta Sarah.
– Eu não sei se devo.
– Não existe devo – observo.
– A Parker está certa – acrescenta Sarah rapidamente, o que me diz para deixá-la seguir em frente, e então me calo. – Eu perguntei se você quer. É isso que importa.
– Sei lá. Acho que sim. A gente se dá muito bem e tal. Sinto saudades de sair com ele… mas… depois que ele terminou comigo… sei lá… acho que ia ser esquisito.
– Esquisito como? – pergunta Sarah rapidamente. Para enfatizar a importância da pergunta e para se esquivar antes que eu caia em cima dela, o que a Sarah deve saber que está prestes a acontecer.
– Sei lá. Só esquisito. Não pressenti que ia acontecer da primeira vez, então isso poderia acontecer a qualquer momento de novo, sem eu esperar. Eu ia car pensando nisso o tempo todo. Mas acho que serve para qualquer pessoa. Eu só não pensava nisso antes.
– Então o que você quer fazer? – indaga Sarah.
– Acho… que eu quero car com ele. Só não quero car descon ada o tempo inteiro, sabe?
– Sim, com certeza – comenta Sarah.
– Então… o que é que eu faço?
– Não dizemos pra ninguém o que fazer…
– A não ser quando é óbvio – digo, sem conseguir mais me segurar. – Você acabou de dizer. Encontre e que com alguém com quem você não precise car descon ada. Esse cara, como é o nome dele?
– Gabe.
– Gabe. O Gabe é um cara que você vai ter que descon ar?
– Acho que sim.
– Problema resolvido.
– Mas sinto falta de sair com ele…
– Ele disse que as coisas não estavam apimentadas o su ciente pra ele. Ele ganha uns pontos por terminar antes de ir pra Espanha se divertir sem trair, mas perde os pontos de novo por tentar se insinuar pra você agora que está de volta, pra ver se um verão sozinha… você estava sozinha?
– Sim.
– Pra ver se perdê-lo por três meses pode ter feito você pensar melhor sobre transar com ele pra segurá-lo.
– Ele nunca falou isso. Não acho que esteja tentando ser malandro…
– A gente já sabe que ele é malandro. Ele era seu namorado; ele não sabia os seus horários de trabalho? E te manda mensagem enquanto você está no trabalho dizendo A gente precisa conversar. Ele sabe que é o tipo de coisa que você tem que responder. E, quando você faz isso, ele diz que vocês têm que conversar pessoalmente, sabendo que você não vai conseguir esperar. Aí termina com você pelo telefone, se safando do constrangimento de fazer isso cara a cara, mas fazendo com que seja culpa sua. Se ele não fosse malandro, só teria esperado pela próxima vez que vocês estivessem juntos.
Silêncio.
– O lance é: – digo – se ele não estava feliz antes, por que caria feliz agora? Ou ele mudou ou está esperando que você tenha mudado. Você mudou?
– Acho que não.
– Ele também não, lamento informar. As pessoas não mudam. Elas só aprendem com a experiência e se tornam atores melhores.
Mais silêncio.
É a vez de Sarah falar:
– Não sei se ajuda, mas estamos aqui todas as manhãs se você quiser conversar.
Ouço pés se arrastando e depois passos.
– Elas foram embora – informa Sarah.
– Como acabou?
– Ela parecia confusa. A dissonância cognitiva de sempre. Ela quer voltar para o que achava que tinha, sabe que não está de verdade lá, quer muito que esteja, e está lutando com o quanto racionalizar para recuperar aquilo.
– Peraí, o que acabou de acontecer aqui? – quer saber Molly. – A Regina veio e contou aquilo tudo pra vocês sem nunca terem se encontrado?
– É algo que a gente faz – responde Sarah. – Todo mundo na Adams sabe. A gente ouve qualquer coisa sem julgar…
Eu dou uma bufada, mas a Sarah me ignora.
– … e oferece observações imparciais e conselhos. E somos ótimas em manter as coisas con denciais…
– Ela está olhando pra mim? – pergunto. – Mantenho a parte mais sensível em segredo, mas parte do valor que fornecemos é saber coisas a respeito de outras pessoas. Por exemplo, estávamos ajudando…
– Parker! – repreende Sarah.
– Tá bom! – respondo. – Eu não ia citar nomes.
– Vocês… – diz Molly. – Bom, eu ia perguntar se isso é sério, mas a Regina… quero dizer…
– Ela contou que você sabia sobre o rompimento dela – a rmo. – Ela conversa com você?
– Um pouco.
– O que você dizia pra ela?
– Eu basicamente concordava com o que ela dizia. Parecia ser o que ela precisava.
– É claro. Quando ele é o cara dos sonhos, ele é dos sonhos; quando ele é um babaca, ele é um babaca. Um monte de gente precisa disso, mas também precisa da verdade que normalmente não consegue dos amigos. Falar do jeito que a gente fala é difícil pras pessoas fazerem e continuarem amigas.
– Ela quer dizer do jeito que ela fala – observa Sarah. – E, sim, é superdifícil continuar amiga dela com ela falando desse jeito.
– Nossa – manifesto. – Mas é o que as pessoas precisam. É por isso que elas vêm até nós. Elas não têm meses ou anos para fazer isso do velho jeito tradicional, pro ssional. Então a Sarah começa de mansinho e depois eu vou direto ao ponto.
– Como é que isso começou? – pergunta Molly. – Vocês sentadas aqui fora… Como as pessoas sabem?
Espero Sarah responder. Ela não responde.
Viro a cabeça para encará-la.
– Vai, Sarah. Conta pra ela.
– Ai, meu Deus – diz Sarah com sua voz que indica que está revirando os olhos. – Com o veneno eu nem tenho problemas, mas com a presunção… argh…
Dou um sorrisinho malicioso.
– Tá bom – concorda ela. – Um dos efeitos colaterais inesperados da Parker car cega foi como ela cou… cada vez menos sensível com o que dizia às pessoas, porque ela não conseguia vê-las se retraindo. Aí, no primeiro ano, algumas pessoas vieram agradecer-lhe por ser tão direta, comentando que mais tarde se deram conta de que ela estava certa e aquilo as tinha ajudado muito. E aqui estamos, dois anos depois.
– Viu, não foi tão difícil, né? – Eu me viro de novo para encarar a Molly. – Ela até se desvalorizou. Somos uma equipe porque, as coisas que eu falo pras pessoas, a maioria delas eu nem saberia se a Sarah não me contasse. É como eu disse, ela é os olhos e o cérebro, eu sou apenas a falastrona.
– Uau, vocês são tipo As Psicólogas Boazinha e Malvada – comenta Molly. – Vocês deviam cobrar cinco centavos por sessão das pessoas.
– Sim! – respondo. – A gente tinha uma xícara com a Lucy desenhada dizendo A dra. está aqui, mas ela quebrou faz um tempo.
– Talvez seja a hora de uma con ssão – diz Sarah sem soar nem um pouco arrependida. – Eu quebrei aquela xícara de propósito.
– Você quebrou? – Estou chocada de verdade. – Por quê?
– Ela está certa no que diz ao Charlie Brown, mas ela é totalmente insensível ao fazer isso. Nós não somos assim. A Lucy é uma vaca.
– Mas isso é perfeito pra vocês – declara Molly. – Cada uma é uma metade da Lucy. Você é a metade psicóloga compreensiva, e você, Parker…
Eu rio. Não posso negar. Nem quero.
A combinação do meu armário é fácil: zero-zero-zero, e tem um relevo no disco onde tem o zero. Tenho um cadeado separado que precisa de chave, já que não consigo saber se tem alguém espiando por cima do meu ombro. Pedi para desativarem a combinação do armário, mas disseram que não era possível sem estragá-la, o que não acredito. Então pedi para, pelo menos, fazerem a combinação mais fácil. Agora tenho a alegria de destrancar dois cadeados toda vez que quero abrir o armário.
– Oi, Parker.
É a Faith. Ela normalmente não cumprimenta do nada. Então me pergunto o que mais ela quer. Mas não estou preocupada; as aulas acabaram e a Molly tem muito o que fazer na biblioteca até eu chegar lá.
– E aí, Fay-Fay, como vai você? – É uma velha brincadeira de quando a gente era criança. É provável que ela não goste mais desse apelido, mas estou de bom humor e ela nunca me pediu para parar de usá-lo.
– Quer ir ao shopping nesse m de semana?
Achei que ela podia dizer 99 coisas, essa não era uma delas.
Faith e eu não andamos juntas, basicamente porque não temos mais quase nada em comum. A gente nge que não se dá bem, mas somos o oposto de amigas da onça; somos amigas que ngem ser inimigas. Acho que isso faz da gente aminimigas. Compartilhamos muita história séria sem buracos pela estrada e estávamos presentes uma pra outra durante os piores momentos, só não muito no dia a dia.
– Hoje é só segunda-feira – digo, ganhando tempo. – Você faz planos com antecedência mesmo.
– Eu vou no Ridgeway todo m de semana. Só achei que de repente você gostaria de outra pessoa pra escolher as suas roupas além da Sarah “Moletom” Gunderson, pra variar.
– Acho que ela não está convidada.
– Ela pode ir.
– A gente não faz compras juntas – informo. Na verdade, nunca me ocorreu pensar no que a Sarah usa o tempo inteiro. – A Sarah usa muito moletom?
– Só todos os dias da semana. Você quer ir?
Eu não quero. E, bom… meio que quero. Não quero toda a chatice ou pilha para comprar roupas que são muito extravagantes ou não fazem o meu estilo, mas… desde que o papai morreu não z nenhuma compra além dos tênis de ontem. Tênis são as únicas coisas que não preciso de uma certa ajuda.
– Você não costuma ir com a Lila e a Kennedy?
– Nem sempre. Tudo bem se você não quiser ir.
Eu me pergunto se essa não é uma daquelas vezes em que deveria aceitar sem superanalisar tudo.
Não.
– Por que agora você está me chamando pra ir?
– O que você quer dizer?
– A gente nunca fez compras juntas antes e, de repente, numa manhã aleatória de segunda-feira, você quer ir, mas não até o próximo m de semana. O que te fez pensar nisso?
– Como eu disse, se não quiser ir…
– Eu não falei que não queria.
Silêncio.
– Nada é fácil com você, Peegee. Nadinha.
Ela parece resignada, não com raiva. Sinto uma pontada porque sei que ela está certa. Então me ocorre um pensamento.
– É porque agora eu sou órfã?
Um suspiro. O tipo que me diz o quanto a minha amizade é penosa para ela.
– Sim, Parker, é porque você é um caso perdido de caridade. – Ela fecha o armário dela. – Você tem que dissecar tudo à sua volta como se fossem sapos mortos.
Eu rio.
– Hoje é a primeira vez desde que a gente se conheceu no jardim que você me chama pra andar no shopping e você ca surpresa de eu querer saber o porquê?
– Por acaso eu falei que estava surpresa? – diz ela. – Tá bom, eu vi você ontem no shopping comprando tênis.
– Ah, você… por que não falou comigo? Ah… o Trio Dinâmico.
Ela limpa a garganta, ela odeia esse nome.
– Eu tava sozinha. Você tava falando com um cara gato. Não quis estragar o clima.
– Ele era gato? – digo.
– Você liga?
– Ha! Viu, você me conhece mesmo. Peraí, você estava fazendo compras sozinha?
– Existe hora pra tudo. Mas aposto que você acha que todas as compras deveriam ser sozinhas porque você não quer a ajuda de ninguém. Estou certa?
Sem chance de eu jamais admitir isso.
– Você está me dizendo que con a mais nas opiniões da Lila e da Kennedy sobre roupas do que na sua própria?
– Não se trata apenas de ser ajudada. É legal. É divertido.
– Legal? Divertido?
– Quer saber? Mudei de ideia. Você tem que ir. A Sarah e a Molly também. Você não pode sair por aí alegando que sabe tudo se você nem nunca saiu pra ir ao shopping com as amigas. Nós vamos nesse sábado, tá decidido.
Ninguém, mas ninguém, me diz o que fazer. Ninguém.
– Tá bom então – respondo.