Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 11
ONZE
eixo meu almoço no armário – sem tempo para ele agora; nem estômago também – e pego a mochila que arrumei apressadamente esta manhã. Eu disse à Molly que não precisava ir, mas ela cou feliz de dispensar o almoço dela também. Eu preferia estar sozinha,
para ser sincera, mas também não conheço esse lado da escola tão bem e a ajuda pode ser útil. O almoço só tem quinze minutos de duração e não sei onde vou encontrar o treinador Underhill.
– Olá, senhoritas – cumprimenta Jason, à nossa esquerda. – Eu perguntaria se vocês vêm sempre aqui, mas sei que não. Não esse ano, pelo menos.
Começo a responder, mas a Molly é mais rápida:
– Oi, Jason. O que aconteceu? Isso aí parece dolorido.
– Ah, pffff… um acidente de percurso. Só um tombo idiota. Eu queria botar uma gaze pra não deixar todo mundo com nojo, mas o treinador falou pra deixar respirar.
– Parece estar doendo – diz ela numa voz de quem está torcendo o nariz.
– Vocês vieram pra assistir ou pra correr? As provas são só depois das aulas.
– Foi o que a Parker disse. A corrida não é na primavera?
– É, mas temos provas agora pra concentrar os treinamentos do outono naqueles que estão na equipe, não apenas em qualquer um que aparecer. Querem fazer um circuito por aqui?
Quero lembrar-lhe que ele está aqui faz duas semanas contra os meus dois anos, apesar de provavelmente já conhecer esse lado da escola bem melhor do que eu. Ele também parece conhecer a Molly.
Em vez disso, eu pergunto:
– O treinador Underhill está por aí?
– Normalmente – responde Jason. – Venham.
Andamos na direção do campo, eu acho. Estou meio desorientada com nada além de grama sob os pés e o sol a pino.
– Como estão os novos tênis, Parker?
– Você tem razão, a espuma que simula molas é papo furado.
Ele ri.
– É. Desculpa.
Há um momento de grama estalando e aí ele fala:
– Eu, hum, acho que você provavelmente já sabe andar por aqui, né?
Dou de ombros.
– Não exatamente. Fiz treino de peso com a treinadora Rivers e quase nunca vou ao campo. Não sou exatamente uma espectadora.
– Mas você disse que corre.
– Eu corro. Todos os dias. Só não aqui.
– Não consigo me lembrar de ontem… a gente estava falando e eu te perguntei qual era o seu…
– Cem metros – digo.
– Sério?
– Por quê? O que tem de errado nisso?
– Nada. Quero dizer, só achei que você era corredora de distâncias maiores.
– Do jeito que eu corro, cem metros é bem longo.
– Como você corre?
– O que você quer dizer? – Estou descon ada de novo. Será que estou lendo demais nas entrelinhas? Em geral, sim, mas dessa vez?
– Bom, você falou que cem metros é longo do jeito que você corre, então que jeito é esse?
– Ah. Como se o diabo estivesse me perseguindo.
Ele ri.
– Saquei. Sem diminuir. Maneiro.
– O que… – Eu me detenho. O que estou fazendo com todas essas perguntas? Mas não consigo evitar. – O que isso signi ca?
– Não seja paranoica – responde ele numa voz de estou-só-brincando. – Signi ca que você não diminui o ritmo. Para cem metros não é preciso. E você, Molly? Vai fazer uma tentativa?
– Isso aqui não é o que vocês chamam de físico de corredora – comenta ela. – A minha distância é a ida e volta entre o sofá e a geladeira. – As palavras dela mesma a insultam, mas o tom dela o chama de idiota.
– Justo – diz ele e aí chama: – treinador Underhill! Ei, treinador!
Meu estômago aperta. Já não quero ter essa conversa, ainda mais com alguém escutando, e me pergunto o que estou fazendo aqui. Algumas possíveis respostas voam ao meu redor, mas não sei dizer se são minhas ou do meu cérebro idiota. Eu as espanto.
Não é tão ruim quanto eu temia, embora também não muito bom. Provavelmente porque sempre tenho grandes esperanças e baixas expectativas. De qualquer forma, co feliz que o treinador Underhill tenha mandado Jason e Molly irem arrumar as coisas para que pudéssemos conversar sozinhos.
Aparentemente, guias de arame não são mais usadas porque te deixam muito mais lento. Parece uma ideia horrível, de qualquer maneira. Ter alguém parado na linha de chegada e que te avise quando você está saindo da sua raia é outra forma, mas só para os treinos, já que não é permitido na competição. Não entendo por quê, não me parece alguma coisa que incomodaria mais alguém, mas acho que não funcionaria se houvesse mais de um corredor cego numa corrida. Apenas corredores guia são permitidos, onde o par segura um no outro ou numa corda curta de conexão.
É uma droga. Primeiro, é preciso um parceiro ou não se pode correr, o que por si só já é uma droga. Depois o seu guia precisa conseguir acompanhar o ritmo, então você já está admitindo que não consegue ganhar porque não pode sequer entrar a não ser que leve alguém que é mais rápido que você. Esforço demais para incluir os de cientes.
Antes que eu possa dizer que mudei de ideia, ele fala que o primeiro passo é ver o quão rápido eu consigo correr para me parear com possíveis guias. Ele adivinha para que serve a minha mochila e diz que podemos fazer isso naquele momento se eu me apressar e me trocar, já que não há muitas pessoas na pista. De alguma forma, a agitação daquilo tudo me guia pelo vestiário – para o qual eu tinha dado adeus para sempre com felicidade na primavera passada – e acho o caminho de volta para a pista com a ajuda da Molly, pulando na ponta dos pés, me alongando e correndo no lugar para me aquecer. O treinador manda a Molly para a arquibancada e eu não sei onde o Jason está, mas assim que esse pensamento surge na minha cabeça, eu me sinto insegura… tonta… desconfortável com onde eu fui me meter.
– Só para pegar um tempo básico para cem metros – diz o treinador – é melhor você correr o campo em vez do oval. Eu te chamo da linha dos cinquenta metros e aí você corre de volta para car à frente. Nada complicado, só vou dizer direita ou esquerda se você estiver se desviando muito. Só faça o ajuste na direção que eu disser, tá bem?
– Certo.
– Você já usou blocos de partida alguma vez?
– Não.
– Tudo bem, não vamos nos preocupar com isso agora, só queremos um tempo aproximado. Aqui, segure no meu braço.
Estendo a mão e um antebraço peludo encosta na minha palma. Ele me guia por alguns passos e nós nos ajustamos até que eu esteja na “linha de fundo”, o que quer que isso signi que.
Um minuto depois, eu o escuto chamar de longe, à frente:
– Aponte para mim.
Eu aponto. Ele fala:
– Vire para a sua esquerda… pare! Certo, agora você está apontando direto para mim, essa é a sua direção. Estou com a pistola. Me avise quando estiver pronta!
Como que é estar pronta? No Campo Gunther eu simplesmente vou, sem posturas de partida grandiosas ou o ciais. Estou desorientada e algo mais parece errado. Eu percebo por quê. Mesmo no meu gramado de sempre, percorro o comprimento do campo antes de correr. Isso parece mais importante do que nunca nesse momento.
– Espere! – grito. – Preciso dar essa andada primeiro.
A grama arti cial é eriçada – não tão macia quanto grama de verdade, mas não tão dura quanto calçada –, mas estranhamente plana. É estranho a superfície em que estou prestes a correr ser tão desprovida de traços característicos sem ser rme.
– Certo, mais para a direita – guia o treinador.
Eu me movo um pouco.
– Não tanto. Você é muito boa em andar em linha reta. Muita prática?
– Muito tempo do meu pai.
– Chegamos – diz ele. – Fim da linha. Pronta para correr agora?
Não. Mas concordo com a cabeça mesmo assim. Caramba, o que eu estou fazendo? Por que estou fazendo isso? E por que ainda estou fazendo isso mesmo depois de fazer essas perguntas e não ter respostas?
– Vai, Parker – grita Molly do lado de fora. – Corra como o vento!
Além das minhas roupas pretas de corrida, estou usando meu hachimaki hoje. Espero que isso não vire uma corrida camicase…
– O diabo tá chegando! – berra Jason. – Ele parece super-rápido!
– Certo, vocês dois – vocifera o treinador. – E o resto de vocês nas arquibancadas, comportem-se!
O resto de vocês?!
– Aponte para mim! – exclama o treinador à frente. – Perfeito. Me avise quando estiver pronta!
Eu me agacho um pouco, ponho o pé direito para trás, o pé esquerdo para a frente.
– Pronta!
Caramba... o que... eu estou fazendo?
– Preparar… apontar… – POU!
Vento Divino.
Não sei para onde estou indo e deveria estar preocupada por correr às cegas num lugar desconhecido pela primeira vez, mas, depois de anos de prática, meu corpo sabe como fazer isso e não estou com medo. Estou contando os passos e já são mais de trinta, então provavelmente estou no meio do caminho e não há nada contra o que bater, além de haver pessoas para me avisarem se eu sair da pista…
– Direita! – diz o treinador e a voz dele está bem mais perto do que eu espero…
… e minhas rodas saem dos trilhos…
… e o desastre de trem começa…
Eu me lembro de algo assim de quando era uma menininha, correndo escada abaixo, os pés num ritmo compatível com a força da gravidade enquanto seu corpo cai, cai – tump, tump, tump – e de repente você pensa no que está fazendo e algo muda… Seu cérebro estava controlando os pés no modo automático, mas de repente lhe entrega os controles e agora você tem ciência de que precisa executar cada passo, um de cada vez, como pensar na sua respiração e aí seu corpo para de respirar e você tem que assumir e fazer isso você mesmo e pensa como você pode parar de fazer isso e devolver o controle para qualquer que seja a parte do seu cérebro que normalmente faz isso quando você não está prestando atenção, mas o seu cérebro simplesmente te passa o volante enquanto você está correndo escada abaixo e de repente você está dirigindo, mas incapaz de dar conta dessa velocidade e, nesse momento, ou você consegue diminuir, tropeça ou cai.
– Parker! – grita Molly, como se isso pudesse ajudar enquanto eu voo para a escuridão, mal conseguindo controlar os braços e virar o ombro direito para amenizar o impacto da queda e rolar.
Meu ombro dói e parece arranhado, mas estou bem. Quero pular como se nada tivesse acontecido para reduzir o tempo que as pessoas me veem estatelada na grama de plástico… então me lembro de que não estou nem aí. Pre ro car aqui e descansar um minuto. Rolo para car de costas no chão e relaxo os braços.
E aí está todo mundo ao meu redor, por cima de mim, murmurando, especialmente a Molly.
– Parker, você está bem? Você tropeçou em alguma coisa?
– Só em mim mesma – respondo, respirando pesado. – É difícil de explicar, mas, sério, tipo, como eu sou cega, vocês provavelmente deveriam ter cado surpresos se eu não tropeçasse.
– Vamos, para trás, todo mundo – pede o treinador. – Você consegue se levantar?
– Ah, com certeza. Mas na verdade não quero.
– Vai, gente, para trás, deixem-na respirar.
– É – digo. – Deem ar pra ela. E sol quente no rosto. Alguém está tapando o sol. – Quem quer que seja sai, porque agora eu sinto o calor de novo.
– Sério, levante-se – fala o treinador. – Vamos ter certeza de que você está bem.
Eu suspiro, visivelmente, e gemo um pouco. Levanto lentamente e as pessoas aplaudem. Muita gente para contar, mas acho que não mais do que uma dúzia, então não é tão ruim assim.
– Eu só estava brincando sobre o diabo – comenta Jason.
Eu dou um sorriso e digo:
– Eu não estava.
– Você está bem – declara o treinador. – Seu ombro está sangrando. Precisamos limpar e botar um curativo antes de você se trocar senão sua blusa vai car ensanguentada.
– Então como eu me saí? Qual foi o meu tempo? Faço parte da equipe? – Uso minha voz rouca; não tenho certeza se quero fazer isso de novo.
– Bom, você vai ter que aprender a usar um bloco de partida – observa o treinador.
– Isso não deve ser tão difícil.
– E a correr cem metros sem cair de cara na terra.
– Terra teria sido mais macia. – Esfrego o ombro. Está molhado, quente e mais grudento do que suor. Agora acho que estou com uma mão ensanguentada e a estico de um jeito desajeitado para não sujar minhas roupas de sangue. Aí me lembro do que estou vestindo e limpo a mão no short.
– Isso não vai ser o mais difícil. Eu sabia que você teria uma largada lenta sem um bloco, então usei dois relógios para marcar o tempo a cada cinquenta metros, separadamente. Parei o primeiro relógio na metade antes de você sair. Seis segundos ponto oito.
Jason gargalha.
– Quê? Por que isso é engraçado? – Eu não sei o que deveria ser um bom tempo, eu nunca cronometrei meu tempo antes. – E demonstre um pouco de respeito. Você esquece que eu estou sangrando?
Jason gargalha de novo.
– Ah, você vai ter muito respeito, Parker. O que você não vai ter é um bom guia de corrida.
– Por que não? – Estou cando com raiva, o que é estranho porque nem sequer quero um.
– O Freeborn tem razão – a rma o treinador. – A não ser que haja mais surpresas esta tarde, não temos ninguém que consiga acompanhar o seu tempo.