Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 22
VINTE E DOIS
ão tenho certeza de quanto tempo eu dormi. A manhã é um borrão… muito tempo distante nos fundos do barracão do zelador… alguns minutos de calma ou, pelo menos, de menos histeria… sendo levada a algum lugar interrompida por outro
colapso… me curvando um pouco sobre a grama, soluços fortes o bastante para vomitar meu café da manhã, ou talvez isso ainda tenha sido atrás do barracão, não tenho certeza… outra tentativa de andar sem senso de direção até que as escadas me avisaram que era o estacionamento… rastejando até o banco traseiro do carro da Sarah, sendo levada para uma casa vazia, mãos procurando as chaves na minha bolsa e depois sendo erguida e meio carregada pelas escadas, doída de exaustão e querendo me arrastar para a cama, sendo ajudada a tirar o jeans e me entocando debaixo do edredom, tossindo tanto quanto chorando até en m perder a consciência.
– Tem alguém aqui? – chamo, ou tento; a voz sai fraca.
– Estamos todas aqui – responde Sarah. A cama se mexe quando ela se deita atrás de mim e ca de conchinha o tanto quanto possível comigo debaixo do edredom e ela por cima. – Eu, a Fay e a Molly.
– Vocês estão perdendo aula?
– Eu não sinto a menor falta – declara Sarah. – E vocês, meninas?
– Nem um tiquinho – comenta Molly da minha escrivaninha.
A cama se sacode com alguém se apoiando nela.
– É de você que a gente sente falta, Peegee – diz Faith, a apenas alguns centímetros de distância. Os dedos magros dela envolvem minha mão exposta. – Você foi embora. E não precisa voltar se ainda não estiver pronta. Não vamos a lugar nenhum.
A voz dela está tão preocupada e carinhosa que um soluço se forma na minha garganta. Eu começo a sufocá-lo, a forçá-lo de volta para onde quer que tenha vindo, como sempre, mas me lembro que já perdi minha estrela dourada hoje, então relaxo e deixo-o sair… e outro… e ela está certa, não estou pronta. As mãos da Faith apertam a minha, e o braço da Sarah se aperta em volta da minha cintura e eu choro de novo. Só a minha garganta e o rosto dessa vez, não os terremotos com o corpo como antes. Os meus olhos e o lenço estão molhados e grudentos, mas ainda não é hora de pegar um seco. A Faith solta uma das mãos e me faz cafuné como se eu fosse um gato.
– Obrigada – sussurro.
A Faith beija a minha testa.
Acho que eu caí no sono de novo logo depois que Faith me deu um beijo. Não faço ideia de quanto tempo se passou. A Sarah ainda está aninhada atrás de mim, com o braço na minha cintura. Ela está respirando devagar e regularmente e até um pouco alto. Percebo que ela está dormindo e isso me faz sorrir um pouquinho. Fico surpresa por conseguir sorrir até esse pouquinho no momento.
– Faith? – sussurro. Sarah acorda e se espreguiça.
– Ela está lá embaixo – informa Molly. – A sua tia tinha viajado pro campo ou algo assim com o seu primo Pete e eles buscaram a Sheila na volta. Eles chegaram em casa faz alguns minutos.
– O que ela está dizendo pra eles?
– A Faith falou, “vou dizer a eles que a Parker está tendo um dia ruim”.
Eu escuto o Petey, só pode ser o Petey, subindo as escadas com passos duros, mas outros passos o seguem escada acima. Então passos mais lentos batem de volta escada abaixo. Dois outros pares de passos chegam e param do lado de fora da minha porta. Depois de alguns sussurros, um deles continua andando e sei que são os da Sheila e ela entra no quarto dela e fecha a porta. A minha porta se abre e se fecha de novo.
Faith se ajoelha e segura uma das minhas mãos.
– Todo mundo está em casa – informa ela –, mas eles vão nos deixar em paz. Todos estão preocupados com você. Principalmente a Sheila.
– A Sheila? Por quê?
– Por que não? – pergunta Molly. – Teria que ser muito insensível pra não se preocupar com você depois dessa manhã.
– Molly! – Sarah exclama em sua voz de bronca, mas eu balanço a cabeça.
– Tudo bem. Ela viu? Ou escutou? Todo mundo viu, né?
Ninguém responde. Eu saio debaixo das cobertas para apertar o braço da Sarah na minha cintura, me aconchego e sorrio um pouquinho de novo.
– Não tô nem aí. Fico feliz de ter salvado todo mundo de mais uma quarta-feira entediante.
– Ela voltou! – declara Molly.
– Mas não precisa, Parker – diz Sarah em sua voz tentando-me-dizer-alguma-coisa. Acho que vou escutar muitas vozes especiais por um tempo.
– Eu quero.
– Eu sei, mas nem sempre dá pra decidir. Só faz três meses. Você cou que nem um zumbi por uma semana depois que aconteceu e aí fez aquele Quadro de Estrelas idiota e está que nem uma bomba-relógio desde então…
– E eu explodi.
– Explodiu mesmo e foi épico! – Ela me aperta. – Vai ser a melhor história em todas as reuniões da nossa escola. Mas acho que temos um certo trabalho pela frente pra ajudar a Marissa a se recuperar do trauma.
Eu gargalho e isso dói. É estranho rir depois de tanto choro e o meu corpo inteiro dói: a barriga, a garganta, os músculos do rosto, e as pálpebras parecem engolidas.
– E essa é só a primeira vez – comenta Sarah. – Não a última. Você tem que deixar levar quando isso vem, não enterrar debaixo de todas aquelas estrelas idiotas se não quiser explodir de tempos em tempos. Quantos anos faz que o meu pai foi embora e eu ainda choro de vez em quando.
– Você chora? Por que você não me conta?
– Não é segredo. Os seus móveis mudam de lugar agora que tem gente nova na sua casa e você não me conta toda vez que machuca a canela. É como as coisas são agora. Não faz sentido falar, ah, ontem eu escutei o carrinho do sorvete passar e ele me lembrou de como o meu pai sempre dizia que ele só tocava música pra dizer que o sorvete tinha acabado, mas, se eu falasse ã-ã e por favor o bastante, ele concordava e me comprava um sanduíche de sorvete napolitano, aí eu sentei no sofá por alguns minutos e os meus olhos caram meio molhados, mas não foi nada demais, só uma das centenas de coisinhas rolando o tempo inteiro.
– Mas você sabe que pode me contar, né?
– Estou te contando agora. Explodir hoje não foi colocar tudo pra fora, foi colocar só os três últimos meses pra fora. Tem mais pela frente e você precisa botar pra fora na hora. Não que guardando, senão você vai explodir de novo, e de novo, e de novo…
– Não vou ter mais estrelas douradas? – suspiro. – Sei lá, toda vez que ganho uma, dá uma impressão de que estou conseguindo lidar com as coisas.
– Se escondendo. Enterrando as coisas. Acrescentando um pouco mais de pólvora ao barril que explodiu hoje.
Eu me sento e abraço a Sarah o mais forte que consigo.
– Como você consegue ser tão inteligente?
– Experiência – responde ela. – Experiência que eu gostaria de não ter.
Eu a solto e me recosto na cabeceira.
– Aconteceu alguma coisa essa manhã? – pergunta Molly. – Tipo, por que hoje?
– É o aniversário do pai dela – esclarece Faith.
– E outras coisas – digo. – Você já sabe um pouco sobre a Sarah e eu… e… bom, acho que tenho que te colocar a par de algumas outras coisinhas.
– Primeiro – diz Faith –, eu tenho escutado um monte de coisas sobre se jogar na frente de trens. Você sabe que eu certamente caria na frente de um se chegasse a esse ponto; só acho que seria melhor pra todas nós se não fosse preciso.
– Tá bom. – Sorrio. – Nada de trens.
A tia Celia tenta convencer todo mundo a car para o jantar, mas ninguém quer, incluindo eu mesma. Todas vão embora para casa e para explicar por que não estavam na escola hoje.
Ofereço para ajudar com o jantar e a tia Celia, é claro, diz que dá conta, especialmente hoje, mas dessa vez eu rejeito a recusa dela. Pergunto o que ela está fazendo e, quando escuto tudo, insisto em fazer o purê de batatas. Depois de muita teimosia, o desejo de ela fazer algo por mim permite que eu que com o balcão à esquerda da pia. Tenho que perguntar onde está cada coisinha, pois ela arrumou tudo em lugares diferentes e não vou à despensa faz algum tempo. Ela me dá tudo que peço, a não ser o alho, e começa a dizer algo sobre precisar dele para o espaguete mais tarde na semana – e aí ela para e comenta que pode comprar mais depois e me passa todos os dentes de alho que tem.
O jantar é incomumente silencioso. Tio Sam elogia especi camente as batatas, dizendo que estão melhores que o normal. A tia Celia conta que fui eu que z e ele ca surpreso. Tudo soa sincero, então talvez ela não o tenha feito dizer isso. Será que signi ca que eu vou ajudar mais a cozinhar? Só o tempo dirá. A maior parte da conversa é o Petey falando das piscinas naturais, e sou eu e o tio Sam que falamos mais com ele. Sheila não fala uma só palavra e sobe logo que pode. Quando me ofereço para ajudar com a limpeza e a tia Celia diz que não, obrigada, eu deixo que ela vença e vou para cima.
Pego o CD da Sheila no meu quarto e vou até a porta dela. Bato duas vezes. Estou nervosa e odiando demais isso, mas já faz muito, muito, muito tempo que deveria ter acontecido. Tenho muito o que consertar, começando em casa.
– Quem é? – diz ela em sua voz irritada, então, a voz normal.
– Só eu. – Quase acrescento sua nêmesis de brincadeira, mas me contenho com sucesso. Cedo demais.
Quando ela abre a porta, falo:
– Posso entrar?
– Hum, claro… mas… – Ela não parece irritada agora; acho que irritada não é a voz normal dela. – Peraí, tem um monte de porcarias pelo chão…
Ela chuta o que parecem livros e roupas sujas e sabe-se lá mais o quê.
– Pronto, pode se sentar na minha cama, só ir em frente.
Eu entro, fecho a porta e ando em linha reta devagar balançando os braços até minhas mãos encontrarem a cama. Eu me sento. Ela não.
– Eu só vim para me desculpar…
– Não. Não se desculpe.
Ela não fala isso tipo, ah, tudo bem, você não precisa se desculpar. Ela parece com raiva, como se de fato não quisesse ouvir.
– Mas eu não deveria ter gritado com você ontem…
– Eu mereci. Aumentar muito a música foi um troço desagradável.
O que foi mesmo, mas… essa conversa não está nem um pouco como eu achei que poderia ser.
Eu estendo o CD.
– Eu entendo que você não quisesse que eu te ouvisse.
A caixa é arrancada da minha mão com certa força.
– Então eu joguei música alta na sua cara pra atrapalhar seu único sentido que funciona? Eu estava gritando com você porque você não sabia que tinha coisa rolando comigo, coisa que eu estava tentando evitar que você soubesse, e eu nem sabia que hoje era o aniversário do tio Martin! E agora eu sou uma hipócrita ou só cega… caralho, quero dizer… caramba, você entende o que eu quero dizer.
– Ei, Sheila, tá tudo bem…
– Não, eu vi você esta manhã. Eu… vi… você. E você estava… você...
Não tenho certeza do que isso signi ca.
– Provavelmente, você também me ouviu. Junto com metade da escola. Não estou com vergonha. Eu tinha um bom motivo…
– Mas eu nunca vi… eu… eu te vi no enterro… Você só cou lá, quieta. E pelo mês seguinte você só cou por aí ou discutiu com a minha mãe e… e… você só agia de forma normal.
– Aquilo não era normal. E eu não estava só quieta. Eu estava paralisada. Perder o papai foi ruim o bastante, mas por um tempo eu achei que pudesse perder tudo. Se eu tivesse que me afastar de tudo e de todo mundo que eu conhecia, eu teria cado maluca. Sério. Obrigada. Obrigada por fazer isso no meu lugar. Nunca vou ser capaz de retribuir, mas quero tentar. Qualquer coisa que eu possa fazer, é só pedir.
Ela não responde de imediato, e então sussurra de forma rouca:
– Por favor…
Eu gostaria muito de poder ver o rosto dela.
– É só dizer. O que posso fazer?
– Por favor, vá…
– Vá pra onde? Eu…
– Só vá – diz ela numa voz mais rme. – Embora. A qualquer lugar que não seja aqui. Ou você não estava sendo sincera quando falou que faria qualquer coisa?
Ai. Eu quero fazê-la entender o quanto isso signi ca para mim, o quanto é difícil para mim conhecer novos lugares e pessoas, e con ar nelas… mas… isso seria tentar fazer com que eu me sentisse melhor.
– Se é isso que você quer. Eu sinto muito mesmo. – Fico de pé e refaço os meus passos até a porta.
– Espera – diz Sheila.
Eu paro. Depois de um instante, ela continua:
– Esquerda… mais para a esquerda.
Corrijo o curso e encontro a maçaneta.
– Eu não vou car te chateando com isso – comento. – Eu sei o que é ter gente sempre oferecendo ajuda que você não quer. Só me diga se tiver algo que eu possa fazer.
Ela não fala nada. Eu abro a porta. Já estou na metade do caminho quando ela limpa a garganta.
– O único jeito dos últimos três meses fazerem algum sentido é se uma de nós foi uma vaca insensível autocentrada. Né?
Eu penso por um instante, tentando decifrar as palavras dela, a voz dela, o que ela realmente está perguntando.
Saquei. Esse é um tiro que eu posso levar por ela. Eu quase sorrio. A Faith não quer mais falar sobre trens; co imaginando o que ela diria sobre tiros.
– Eu, de nitivamente, tenho um certi cado de Vaca Insensível Autocentrada. Mas posso dizer por experiência própria que agir como uma às vezes não é o mesmo que ser uma. Então há esperança.
Eu a escuto tentando não espirrar de novo, então a deixo sozinha.