Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 29
VINTE E NOVE
stou impressionada que você tenha vindo para o consultório – comenta Sarah. – Considerando os acontecimentos recentes.
– Não posso deixar que me vençam. Tenho uma reputação a
zelar.
– Você vai ter uma nova chance em um minuto. Só achei melhor te dar uma injeçãozinha de autoestima primeiro.
– Quê…
– Parker – É a Trish. – O Scotty quer que eu peça desculpas, então estou pedindo desculpas.
Uau, ela de nitivamente não está pedindo desculpas. Eu abro a bolsa e remexo.
– Tá, peraí um segundinho…
– Pra quê?
– Eu tenho um caderninho… com uma lista de itens… Agora posso marcar o que diz “a Trish disse a palavra desculpas pra mim, provavelmente por ameaçar me bater com uma garrafa de cerveja”.
– Meu Deus, eu não z isso.
– Na verdade, fez sim, mas já ouvi coisa pior. – Fecho a bolsa. – Deixa pra lá, vou me lembrar. Aceito as suas desculpas. Imagino que o Frank me pergunte a respeito mais tarde. Se ele zer isso, ca tranquila, eu vou dizer a ele que você pediu desculpas.
– Acho que você não é uma completa idiota.
– Esse dia pode chegar.
– Eu corro com você se quiser se juntar à equipe.
Eu gargalho.
– Por que raios eu ia querer correr com você?
– Eu sou a corredora de tiro mais rápida que a gente tem – responde ela, claramente não ofendida. – Incluindo os garotos. E ninguém mais quer. Quando você não apareceu ontem, o treinador reuniu a gente pra falar a respeito.
– Caramba – digo na minha voz cética. – Você foi a única disposta a correr comigo?
– Tá, alguns outros levantaram as mãos, mas eles são lerdos que nem tartarugas. E eu também tenho a altura parecida com a sua, então a gente vai ter a mesma passada, os outros fariam você tropeçar sem querer. Ninguém mais nem sequer gosta de corrida de tiro. Todos eles estão na equipe para distâncias mais longas, mas o treinador os faz correr mesmo assim pra cumprir tabela.
– Pelo menos eu não ia ter que me preocupar deles me jogarem num poste de propósito.
– Haha, você não precisa da minha ajuda pra isso. Eu vi você correr pro treinador e tropeçar nos próprios pés. Não foi muito impressionante. Eu conseguiria correr rápido daquele jeito se não me preocupasse em não cair de cara no chão. Imaginei que você fosse recusar, mas pensei em me oferecer mesmo assim. Te vejo por aí…
– Peraí, eu não recusei.
– Mas você vai – diz Sarah.
– Por quê? Ela é a mais rápida depois de mim, está disposta e aposto que caria muito satisfeita em dizer nos seus requerimentos pra entrar na faculdade que ajudou uma garota cega a alcançar os seus sonhos.
– De nitivamente não é uma completa idiota – declara Trish numa voz sorridente. Até soa como se pudesse ser um sorriso verdadeiro, não o tipo cobra, mas não vou baixar minha guarda tão cedo.
– Você não pode con ar nela.
– Ela não ia me deixar bater em nada, principalmente com uma porção de gente em volta observando o tempo todo, né, Trish?
– Acertou em cheio. E aí, o que me diz?
Faz sentido. Uma guia é só para me impedir de correr para cima das coisas e esse tipo de ferimento não me assusta. Não preciso de um santo para correr junto comigo, só alguém disposto e capaz e, mais do que tudo, rápido.
– Parker? – diz Trish.
– Pode me chamar de C.C. – Estendo a mão. – O signi cado disso pode ser o nosso segredinho.
Ela ri e aperta a minha mão.
– Vejo você depois das aulas.
Depois que ela vai embora, digo para a Sarah:
– Aquela risada foi de má vontade por causa de um respeito recém-descoberto ou ela estava revirando os olhos porque acha mesmo que eu sou uma idiota?
– E você liga?
– Nem um pouquinho. Só estava puxando assunto.
Depois das aulas, Molly me acompanha até o vestiário e depois nos separamos para ela ir para as arquibancadas ler em vez de car de bobeira na aula da mãe dela. Nosso novo plano é ela fazer alguma coisa por uma hora enquanto estou na pista de corrida, depois vamos fazer os deveres de casa, deixando trigonometria por último, quando o Kent vier depois do treino de futebol americano.
Eu pego roupas de corrida na sala do treinador e provo tudo. O short e a regata são mais justos do que eu gosto, mas tudo bem. Se vou treinar corrida de tiro na frente de uma plateia, pre ro que as roupas não sejam muito largas e eu não me sinta segura.
– Parker, sou eu – diz Trish à minha esquerda. – Estou aqui.
– Quem? Onde? – Fico virando a cabeça como se estivesse procurando pela voz.
– Sou eu, a Trish. À sua direita, quer dizer, esquerda. À sua esquerda.
– Ah, ótimo, obrigada por me dizer. Realmente eu não conseguiria reconhecer a sua voz ou algo assim ou saber de onde está vindo.
– Nossa, você é mesmo uma vaca. Acho que eu vou realmente te chamar de C.C.
– Os boatos são verdade. Dá pra ir mais rápido se eu segurar no seu braço. De qualquer forma, a minha bengala entortou. A não ser que você se preocupe das pessoas pensarem que a gente é um casal.
– Vai sonhando.
Saímos em direção à pista, com o meu braço que está livre levemente à frente como proteção no caso dela me guiar contra alguma parede ou algum poste. Ela não faz isso, mas não vou chegar à nenhuma conclusão precipitada.
Enquanto nós nos alongamos, o treinador Underhill fala sobre como devemos começar devagar e só nos acostumar a andar juntas, depois fazer jogging e só ir mais rápido quando parecer confortável. Eu, sinceramente, pensei que já íamos direto para tiros moderados de corrida e blocos de partida. Fico feliz que ele tenha falado primeiro.
Por sugestão do treinador, a Trish e eu damos as mãos e andamos em volta da pista. Escuto pessoas conversando e se movendo de maneira confusa, passos, e o ruído de várias partes de equipamentos de pessoas trabalhando em eventos no campo. Há água na pista do meio para o nal, o su ciente para espirrar quando pisamos, e a Trish diz que veio de um sprinkler quebrado. Eu sinalizo isso como um papo furado em potencial e arquivo para mais tarde, mas a pista revestida de borracha não ca escorregadia quando molhada, então não me preocupo.
Depois de uma volta começamos a fazer jogging. Achei que essa corrida de passos coordenados, com braços em harmonia, seria mais difícil do que está se revelando. O desa o maior está em distinguir entre um empurrão normal contra a condução deliberada dela. Depois de algumas voltas, começamos a falar, então não tenho mais que adivinhar.
Por mais que eu queira correr bem mais rápido, decido que não vai ser hoje. Isso é apenas para ver o básico, para conhecer os movimentos uma da outra numa corrida tranquila. Não demora para que as coisas estejam funcionando surpreendentemente bem, embora minhas meias estejam encharcadas.
Scott se junta a nós para uma volta, mas é estranho porque a Trish ca interrompendo com instruções de direção, então não conseguimos manter uma conversa normal. Ele en m diz que vai nos deixar em paz e vai embora. A forma que acontece me faz pensar que ele se arrepende por não ser a pessoa correndo comigo. Talvez seja apenas um pensamento que eu gostaria que fosse verdade.
Depois que ele se vai, a Trish comenta:
– Eu juro por Deus que se você magoá-lo de novo vai car por conta própria. Você pode correr com a Patricia Mala.
– O Jason te contou o que aconteceu? Tipo, a história toda?
– Sim, a história toda. Acho a maior besteira. Tipo, foi no ensino fundamental. Grande coisa.
Eu não respondo. Será que ela pensaria assim quando tinha 13 anos? Provavelmente. Eu que sou a paranoica.
– Você gosta dele? – pergunto.
– Todo mundo gosta do Scotty.
– Você entendeu o que eu quero dizer.
– Ah, não, não desse jeito.
– Tem certeza?
– Que foi, só porque você gosta dele, todo mundo deveria gostar?
– Não, só acho que você teria que gostar muito de alguém pra me atacar do jeito que você fez.
– Eu defendo as pessoas que não se defendem sozinhas.
– Tem certeza?
– Você é uma papagaia? O Scotty é legal, mas espero mais determinação num cara. Alguém que eu não precise defender.
– Ele é forte, acredite.
– Acho que a gente está discutindo por que você quer ter um lho dele e eu não.
Eu rio. Ela não.
– Eu tô falando sério, se você o zer sofrer um pouquinho, a gente já era.
Deixo a Trish car com a última palavra; acho que é o que ela quer. Depois de mais algumas voltas, ela tem que ir, ela também treina corrida com obstáculos, e a treinadora Rivers convoca uma reunião que não vai acabar tão cedo. Ela me vira pelos ombros e diz:
– Você está de frente pros armários. – E sai andando.
Eu coloco um fone de ouvido e ligo para a Molly.
– Oi – cumprimenta ela. – Sabe que eu estou sentada bem aqui, nas arquibancadas? Na linha dos cinquenta metros? Assistindo a você?
– Você sabe muito bem que eu não sei onde você está. Está pronta pra ir embora?
– Já acabou?
– Por hoje. Ela tem outras coisas pra fazer.
– Sabe aquela poça que vocês passavam toda hora?
– Sim. – Eu dou risada. – Ela estava me jogando pra cima, né?
– Não, ela estava desviando você dela…
– Sério?
– Foi pra que ela passasse pela parte mais funda e te molhasse ainda mais. Ela estava fazendo todo tipo de coisa pra deixar você o mais encharcada possível.
Eu dou risada de novo.
– Isso não te incomoda?
– Não – declaro. – Espero que ela tenha cado feliz.
– Acho que assim todo mundo sai ganhando. A gente não tem muito dever pra fazer e o Stockley ainda tem muito treino de futebol pela frente. Vamos sentar um pouco mais no sol. Eu te levo. Vira um pouco pra esquerda.
Eu viro.
– Mais… tá, agora você está de frente pra mim, mas tem uns caras entre a gente; então espera…
– Eu tenho uma ideia melhor. Estou com energia demais pra car sentada.
Coloco o celular de volta no bolso da frente do short, deixando as mãos livres. Eu me viro de costas para a Molly.
– Se eu andar agora, vou dar direto na pista?
– Vire pra direita… um pouco mais… foi muito… aí.
Começo a andar.
– Me fala direita ou esquerda pra me manter no meio ou pra me desviar das pessoas ou… não tem obstáculos montados, né? Nada de barreiras ou algo assim?
– Não, sem nada, só pessoas.
Ando pela pista. Depois de algumas voltas, re namos a nossa técnica e a Molly só fala dentro ou fora pra me guiar pras pistas internas ou externas, já que a minha direita e a esquerda cam mudando e as dela não; por isso é confuso. Ela sempre fala reto e curva quando troco entre as pistas e, em geral, me guia ao longo delas, já que não há motivo para carmos em silêncio.
Alguns corredores me ultrapassam. Parece que as únicas pessoas na pista estão correndo, não paradas ou andando. Então a Molly não precisa me desviar muito de ninguém, elas é que precisam se desviar de mim.
– Reto – guia Molly. – Dentro… dentro… tá, assim tá bom.
Começo a fazer jogging.
– Eita, Parker! Dentro… DENTRO… fora… tá, ótimo. Tem certeza de que… curva! Dentro… dentro… dentro… fora… dentro… dentro… quase lá… tá, reto agora. Mais pra fora, fora. Tá, certo. Meu Deus, Parker… pare!
Eu paro.
– O que tem na minha frente?
– Nada. É só que isso é loucura! Não quero que você se machuque.
– Nem eu, é por isso que você está me guiando.
– Seria mais seguro se eu não zesse isso. Só porque você quer correr, não signi ca que pode me arrastar pra essa sua loucura! Não quero jogar você contra uma cerca.
– É só não jogar.
– Tá ótimo, vamos embora…
– Não, eu quis dizer para não me guiar pra nenhuma cerca. – Recomeço o jogging.
– Parker!
Não respondo. Depois de mais uma dúzia de passos silenciosos, tenho que parar.
– Molly?
– O que você está fazendo?
– Como assim?
– Tem uma porção de coisas que eu quero fazer, mas não posso. Eu vivo com isso. Por que pra você é diferente?
– Eu não consigo enxergar, mas consigo correr, tudo o que eu preciso é de instruções. É tipo… dançar música lenta, certo? Se você não tem um parceiro, as pessoas te dizem pra encontrar alguém, elas não dizem que você não pode dançar. Se você não quiser ser minha parceira, tudo bem, eu sei que provavelmente é chato car sentada me dando instruções, mas não me diga que eu não posso correr.
– Desculpa, eu… você me pegou de surpresa. É estranho me preocupar mais com você do que você mesma.
– Eu te falei que eu era uma bênção contraditória.
– Eu só espero que toda essa correria… que você esteja correndo em direção a algo, não de algo.
– Ah, bom, mesmo os mais sábios não conseguem enxergar tudo.
– Isso… isso é de O senhor dos anéis?
– A verdade é a verdade de onde quer que venha. Acho que já acabei, de qualquer forma. Meus tênis estão cheios de água e quero trocar essas meias molhadas. Você me guia pro vestiário?
– Tá, num segundo. Você vai me fazer te guiar de novo amanhã?
– Não posso te obrigar a nada. Espero que a Trish que comigo durante todo o treino amanhã, mas se ela não car, bom… Eu, Parker Grant, também conhecida como a Doidona, doravante absolve Molly Ray de toda responsabilidade por qualquer colisão ou outra calamidade resultante de correr cega com apenas Molly ao telefone pra me guiar. Que tal?
Ela desliga.
Escuto uma voz a alguns centímetros, chegando mais perto.
– Acho que é o melhor que eu vou conseguir.