Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 5 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 4

QUATRO

 

pós car acordada quase a noite toda depois da Sarah jogar aquela bomba do Scott em mim, pulei da cama logo que o meu alarme tocou, sem sonolência. Agora, en m, na metade do meu 17o tiro de corrida, desabo na grama úmida do Campo Gunther, exausta. Eu

deveria me acalmar fazendo jogging ou, ao menos, com uma caminhada rápida para casa, mas não consigo me forçar a levantar. A facada nas minhas costelas avisando que forcei muito a barra não é nada comparada à dor para lá e para cá entre o meu peito e o meu estômago, a dor que já estava lá antes de eu começar a correr, a dor que eu estava tentando afastar.

Uma cãibra corre pela minha panturrilha esquerda, claramente o meu corpo não será ignorado. Eu me sento e puxo os dedos com uma das mãos e massageio o músculo infeliz com a outra. Sem oxigênio o su ciente, sem água o su ciente, sem tempo o su ciente, sem espaço o su ciente.

Consigo evitar uma contração muscular maior e me levanto. Não sei o quanto estou longe da cerca; em geral não paro no meio de uma corrida curta. Depois de umas dúzias de passos, diminuo o ritmo e estico uma das mãos até tocar nela.

Droga, não sei de que lado da brecha estou. Escolho o esquerdo e ando, arrastando os dedos pelo arame encadeado, bump bump bump bump bump. Depois de uma dúzia de passos acho que provavelmente fui para o lado errado. Não gosto disso, não é normal eu car desorientada aqui. Eu me viro e ando de volta. Quinze passos depois, encontro a brecha na cerca. Eu tinha acabado de passar por ela.

Enxugo o rosto com a barra da camiseta, ambos estão encharcados, mas a camiseta um pouco menos, então ajuda. O ar está fresco, mas estou queimando. Tento respirações profundas para acalmar meu coração, meus pulmões, meu estômago. Começa a funcionar. Sinto o controle voltando.

Ele sabia quem eu era, mas não falou nada diretamente comigo. Será que percebeu que eu não tinha reconhecido a voz dele? Ou ele simplesmente sabia que eu não ia falar com ele, fria como gelo?

Eu deveria gostar disso, de ser fria como gelo, não deveria? Sem me afetar, sem me preocupar. É exatamente assim que quero ser. Por que de repente eu deveria odiar que algumas pessoas pensem isso de mim? Por que eu deveria ligar para o que qualquer um pensa sobre mim?

Eu não ligo. Só fui pega de surpresa, só isso. E só a Sarah sabe disso. Não que eu fosse me importar se mais alguém soubesse, porque não iria. Eu não ligo.

 

Eu me sento no refeitório com a Molly, que também traz o próprio almoço, e começo a comer. Fatias nas de peito de peru, queijo suíço, maionese light e mostarda, como sempre. A Sarah vai aparecer daqui a pouco depois de passar pela la do almoço com o Rick Gartner, seu Mais ou Menos Namorado. Falei para a Molly no último tempo de aula que ela seria bem-vinda se quisesse se juntar a nós, não sei o que ela fez ontem, já que passei o tempo de almoço resolvendo a logística com livros didáticos de áudio na secretaria. Eu a preveni de que muita gente nos chama de Mesa dos Brinquedos Desajustados, mas não como um elogio irônico. Ela disse que não estava preocupada com rótulos. Eu comentei que isso era tanto inteligente quanto tolo. Ela concordou.

– O que você quer dizer com o Rick ser mais ou menos namorado da Sarah? – pergunta Molly. – Ele é ou não é?

– Eles parecem namorado e namorada pra você?

– Encontrei os dois ontem só por cinco minutos.

– Se eu não tivesse te falado, você teria percebido?

– Sei lá. Talvez.

– Isso aí. Você pode chamá-lo de Talvez Namorado da Sarah. Eu sei que às vezes eles são mais que amigos; então eu o chamo de Mais ou Menos Namorado dela.

– Eles terminam e voltam muito?

– Não exatamente. Muito porque não se preocupam com rótulos.

– Não é a mesma coisa. Não estou preocupada, só me inteirando. Aí vêm eles.

– Parker. Molly. – Rick coloca a bandeja e os talheres na mesa com estrondo. A Sarah faz a mesma coisa, só que em silêncio.

– E aí, Rick – digo. – O verão foi legal?

– Não exatamente. Saí quase só com manés.

– Eu também.

Molly deve estar com uma cara confusa, porque Sarah diz:

– Todos nós passamos o verão juntos.

– Você só vai comer isso? – pergunta Rick.

– Só – responde Molly. – Não tem muito, senão eu ofereceria. Você gosta de salada de repolho?

– Ele gosta de ser um idiota – comenta Sarah e quase parece que ela quer dizer aquilo mesmo. – Coma a sua lasanha.

– Eu ia oferecer um pouco pra ela – diz Rick. – Não que eu estivesse te fazendo algum favor, a não ser que você goste de papelão encharcado de molho de tomate.

– Obrigada, de qualquer forma – agradece Molly.

– Ainda não vi a Sheila – comenta Rick, fazendo uma de suas mudanças clássicas de assunto.

– Eu também não vi – declaro.

– Engraçadão. Que tal umas piadas novas esse ano?

Sorrio.

– Não era uma piada. Você precisa de alguns exemplos? Isso é uma piada. – Pego um bóton no meu colete, acho que o que diz: Eu já te vi por aqui antes? NÃO!

– Você abriu mesmo os meus olhos, Parker. – Rick dá uma risadinha. – Agora que eu sei o que são piadas, será que os seriados de comédia vão me fazer gargalhar, porque, cara, eles só me dão sono.

– Não dá pra prometer nada. E não, eu não esbarrei com a Sheila por aqui. Só na minha casa. Mas não sei por que você se importa… ela tem namorado… você meio que tem namorada…

– É só estranho. Sei que vocês são… bom… en m. É só que você é a única que ela conhece aqui.

– É complicado – a rma Sarah.

– Você quer dizer que é um lance de garotas?

– Rick – digo com a minha voz tolerante. – A gente deixa você sentar aqui porque você é meio que namorado da Sarah, não porque você é uma das garotas. Se você não entende, apenas aceite a confusão. Ou abrace-a.

– A confusão requer que se dê alguma bola. Ser legal com a sua prima marrenta não está no alto da minha lista de prioridades, não está nem na minha lista, pra falar a verdade. Entendo que ela esteja numa escola nova e isso seja uma droga pra ela, mas com toda a certeza não foi culpa sua. Ela precisa ter noção de proporção das coisas ou pelo menos um pouco de compaixão, porra.

Sorrio.

– Não ligo para o que você diz, Sarah; esse cara é muito legal. – Estendo o punho e sinto uma batidinha com os nós dos dedos. – Talvez ele também possa ser meu Mais ou Menos Namorado. Ou o de todas nós.

– Ainda estou avaliando as opções – diz Molly. – Sem querer ofender.

– Tudo bem – a rma Rick. – Eu soube disso quando você recusou o meu papelão coberto de ketchup. Que eu preciso empurrar com alguma bebida. Alguém quer algo pra beber?

– O de sempre, uma lata de 6-C? – peço.

Ninguém mais fala nada e ele sai. Eu digo:

– Tenho quase certeza de que não andei reclamando da Sheila. Pelo menos não perto do Rick.

Sem respostas.

– Sarah?

– Não contei muita coisa pra ele. Só o que se esperaria de se mudar para uma nova cidade no meio do ensino médio.

Dou de ombros.

– Não tem mais nada pra contar. A gente também não se dá bem no geral, mas eu não me dou bem com uma porção de gente.

– Por que elas não seguem As Regras? – indaga Molly.

– Porque elas são parasitos estúpidos excessivamente complicados que não dizem o que querem dizer e cam zangadas quando eu digo. E elas não seguem As Regras. Que nem deveriam ser chamadas de Regras da Parker, no m das contas. É só um monte de senso comum que pessoas comuns comumente não têm.

O Rick volta e se senta.

– Aqui. – Ele esfrega meus dedos com uma lata gelada.

– Obrigada. – Eu puxo o lacre com a palma por cima para bloquear o leve estouro de espuma e tomo um gole. Hummm… 6-C em sua melhor forma. Celestial Carbonada Cafeinada Caramelada Colorida Cana-de-açúcar. Completamente deliciosa.

– Acabei de ver a Sheila – comenta Rick. – Perto do caixa, falando com o Trio Dinâmico. Bom, a Faith e a Lila, pelo menos, não vi a Kennedy. Ela não foi se sentar com elas.

– Deve levar mais tempo – observa Sarah – com todo o caos.

Quando uma pessoa nova chega à escola, ela é testada, catalogada, processada e absorvida bem rápido, em geral no mesmo grupo que acabaram de deixar. Mas com escolas inteiras se combinando, é bem mais complicado. Cada soberano da Jefferson trouxe todo um séquito e não fazemos ideia do que vai acontecer com o cenário das panelinhas da escola. Sarah e eu achamos que Sheila vai fazer parte da Nata, coberta pelo Trio Dinâmico, a Faith, a Lila e a Kennedy, mas não sabemos se vai ser a Nata da Jefferson ou a Nata da Adams, se elas carem separadas, o que parece improvável, ou se se juntarem, o que parece ainda mais improvável.

– Veremos – digo. – Pelo menos resolvemos a confusão do Rick.

– Não, ainda estou confuso. Tentando abraçá-la.

– Qualquer uma do Trio Dinâmico tem mais em comum com a Sheila num encontro aleatório na la do almoço do que eu depois de um verão inteiro com ela. Eu não conseguiria falar sobre jeans de grife se colocassem uma arma na minha cabeça. Mas não acho que isso importe.

– Ainda estou confuso.

– Eu não acho que a Sheila vai se tornar um membro de longa duração do Trio Dinâmico porque, debaixo de todo aquele brilho labial e estilo e punhaladas pelas costas, a Faith é um cavalo azarão. Ela tem profundidade escondida.

– Ainda estou confuso.

– Bom, então volte a abraçar sua confusão. Mas, se a Sheila se juntar ao grupo e elas se tornarem o Quarteto Dinâmico ou algo assim, em algum momento ela vai falar uma besteira sobre mim e, quando ela zer isso, a Faith vai acabar com a raça dela.

 

Quack quack quack. Atendo o telefone.

– E aí.

– E aí. Faz exatamente 24 horas. Está pronta pra falar agora?

– Uau. Que tal um beijinho antes? E como foi a sua tarde, Sarah?

– Ela meio que se arrastou, se você quer mesmo saber. Mas e aí?

– Você não me deu 24 horas. Só não tivemos nenhum tempo sozinhas.

– Não importa. Faz 24 horas. Agora estamos sozinhas. O que aconteceu?

– Nada.

– Nada. Absolutamente nada.

– Isso aí, não aconteceu nada. Eu não falei com ele e ele não falou comigo. Não tenho nem certeza de que ele estava lá. Não ouvi a voz dele hoje.

– Isso é…

– Impressionante, eu sei.

– Eu ia dizer uma música familiar.

– Eu tenho uma vantagem sobre vocês, modelos com as funções completas: se não há contato visual acidental, não é constrangedor.

– Que diabo você sabe sobre contato visual acidental?

– O que você já me contou várias vezes. E não se esqueça de que eu tive sete anos de visão normal antes do acidente. Eu tive muito contato visual constrangedor no segundo ano. Lembra do Patel?

– Não vamos falar dele. Nós estamos falando do…

– Não aconteceu nada. Não vai acontecer nada.

– Ele vai estar na sua aula de trigonometria todas as manhãs de agora até junho. Você vai só ngir que ele não está lá?

– Não é tão difícil quanto parece…

– Não é difícil, é uma maluquice. Em algum momento ele vai falar com você. E aí? Você vai ngir que ele não existe?

– Funcionou com a Marsh.

– Por dois meses até a gente se formar. Você acha que vai funcionar pelos próximos nove meses?

– Eu…

– Dois anos?

E de repente não estou mais me divertindo. Eu não estava me divertindo de verdade antes, mas também não estava falando sério.

– Não existem garantias na vida – comenta Sarah. – Mas eu te garanto que ele vai falar com você. Ele vai se desculpar…

– Ele já tentou…

– Ele vai tentar de novo. Ele vai dizer que se arrepende…

– Eu não quero que ele…

– Isso não vai impedi-lo. Ele vai te achar sozinha e falar com você e, se acha que isso não vai acontecer, você vai ser pega de surpresa e não vai saber o que fazer…

– Eu vou saber o que fazer.

– O quê? Ignorá-lo por dias, semanas, meses? Tudo bem com alguém de 13 anos, mas não somos mais crianças. Ele vai dizer que ele mesmo era só uma criança e que foi algo idiota e que ele se arrepende e quer que você o perdoe…

– Eu não consigo.

– Eu sei que você não consegue…

– Mas você acha que eu devia…

– Não falei isso…

– Caramba, Sarah, você está do lado dele! Você acha que eu estou fazendo drama…

– Não, Parker, me escute. Estou do seu lado…

– Então por que você está me enchendo o saco? – Minha voz ca trêmula. Isso me dá raiva e a endureço. – Você não estava lá. Foi imperdoável.

– Eu sei que foi. Im-per-do-á-vel. Eu só quero que você esteja pronta.

– Se ele tentar qualquer baboseira tipo Me-desculpe-pelo-que-o-meu-eu-de-13-anos-fez, eu sei exatamente o que vou dizer. Eu vou dizer dane-se Scott Kilpatrick e a sua historinha triste de ser uma criança idiota. Quando as pessoas fazem coisas estúpidas, todo mundo tem que viver com as consequências. Então volte a viver com as suas e eu vou viver com a minha, e nunca mais fale comigo de novo ou vou simplesmente te deixar sem graça porque não vou responder. É isso, que tal?

– Dá pro gasto, P. Dá pro gasto.