Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 20 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 19

DEZENOVE

 

evo uma hora para ir andando com a bengala até a casa da Sarah. Eu costumava levar menos tempo, mas já faz uns dois anos desde que fui andando pela última vez. Ela teria me buscado se eu tivesse ligado, mas eu precisava de tempo para pensar, até para meditar, o que pode

ser a caminhada com bengala. Além disso, quero fazer tudo por conta própria dessa vez, só para garantir.

Toco a campainha.

É estranho, mas estou aqui esperando descobrir que estou errada, e odeio estar errada, só que desta vez eu daria tudo para estar. Se eu não estiver, bem… não tenho um plano B.

A porta se abre. Sarah diz:

– Parker? Você andou até aqui?

– Eu falo demais?

– Quê?

– Sei lá. A gente fala mais sobre mim do que sobre você… Achei que era porque eu tinha mais… drama… mas talvez eu não tenha. Talvez eu só… não escute o su ciente.

– Isso não é verdade – declara Sarah. – Você sempre escuta quando preciso falar.

– Mas?

– Mas nada. Eu só… talvez eu não precise falar tanto sobre as coisas.

– Eu não te conto tudo porque preciso – a rmo, me sentindo irritadiça. – Achei que nós éramos amigas, não que eu fosse uma das suas pacientes. – Tento usar minha voz amarga, mas em vez disso ela sai patética.

– Ei, Parker, não. Não. É isso que está acontecendo? Caramba… – Ela se inclina e a voz dela ca mais profunda e rouca, algo que eu raramente escuto. – Jamais pense algo assim! Entra aqui!

Ela me dá um encontrão e usa o contato para pegar meu braço e me puxar para dentro, fecha a porta e agora está me abraçando e sussurrando alto no meu ouvido:

– Eu te amo, Parker. Você é minha irmã. Não, melhor que isso; você está presa a irmãs biológicas, nós somos irmãs porque queremos ser.

Não sei o que dizer ou mesmo pensar. Ela não solta o abraço.

– Está me ouvindo? Eu te amo mais que família. A gente se conhece há tanto tempo que não consigo nem me lembrar quando foi. Se a gente não se arrumar pra formatura, a gente vai junto. A gente vai ao casamento uma da outra. A gente vai cuidar dos lhos uma da outra. Vai car bêbada e reclamar dos maridos. Quando a gente se divorciar, vai morar uma com a outra pra se recuperar e encontrar caras melhores. A gente vai levar uma à outra no hospital pra fazer quimioterapia quando tiver 70 anos. Combinado? Combinado?

– Combinado – sussurro.

– É só que você passou por tanta coisa que eu me sinto uma idiota reclamando sobre… qualquer coisa.

– Sarah, não! – Minha voz dá uma chiada e eu me afasto para falar com o rosto dela. – Se eu posso falar com a Marissa sobre o Owen, com toda a certeza posso falar dos seus problemas com o Rick, mesmo se for só pra comentar que está entediante ou… ou… ou como você se sente sobre outros assuntos, tipo… o seu pai ir embora…

– Foda-se ele. Ele foi embora. O seu pai te amava e ele morreu! Por que falar sobre o babaca do meu pai?

– Porque ele é seu pai! A gente pode falar sobre perder um pai ruim e perder um pai bom, mas não é uma competição! Você sabe como me sinto porque eu te conto. E eu… eu tenho palpites, mas não sei realmente o que você acha do seu pai. Eu quero saber de tudo, tipo por que você estava há tanto tempo com o Rick quando ele só parecia uma gurinha no seu álbum e por que agora você de repente a arrancou. Eu… eu morro só de pensar… Meu Deus, não me contar as coisas não faz eu me sentir especial, faz com que eu sinta que não importo pra você!

– Me desculpa – murmura ela. – Você importa mais do que qualquer coisa. Eu sinto muito, muito mesmo…

– Para de se desculpar e me conta logo. O que aconteceu de verdade com o Rick?

Mais silêncio.

– Eu não posso, Parker. Eu…

– Ele fez alguma coisa pra você…

– Não, não, nada do tipo…

– Sarah, faz dois dias que eu estou perambulando deprimida por aí pensando que tem algo importante que você não está me contando… e tem! A gente nunca vai passar por isso se você não me contar. Eu… eu… eu… não vou à formatura com você se não me contar!

A piada funciona e ela chega a dar uma bufada, não exatamente uma risada, mas a voz dela está séria quando fala:

– Vamos sentar.

Ela me leva para o sofá e nos sentamos. Ela não fala de imediato. Eu escorrego a mão na almofada. Ela a pega de leve. A mão dela está úmida e tremendo um pouco.

– Agora você está me assustando – digo sem brincadeira na voz. – Tem alguma coisa realmente errada? Aconteceu alguma coisa?

– Não, eu só… não quero que você se afaste de mim de novo.

– Eu não vou, prometo. Por que você terminou com o Rick?

– Eu já te falei. A gente só estava… “blé”. Hábito.

– Então do que se trata tudo isso?

– É… é o Scott.

Quê??

Tento meu único palpite, um péssimo.

– O que… tipo… você gosta dele?

– Não.

– Então… ah… espera… espera… Agora ele está de olho em você?

– Não, Parker – diz Sarah. – Ele está de olho em você.

– Bom… tá… mas não vejo como…

– Com ele longe nesses dois últimos anos na Jefferson, eu meio que esqueci como era. Agora eu o vejo olhando pra você de novo… O Rick nunca me olhou desse jeito.

Não sei o que dizer.

– Ele ainda te olha como antes, mesmo quando vocês ainda não tinham

cado juntos, como se você fosse a coisa mais importante do mundo. Como

se caso você estivesse presa nos trilhos do trem, ele quebraria todos os dedos pra te libertar sem nem perceber… e, se não conseguisse, ele sentaria nos trilhos e seguraria a sua mão e caria olhando pra você em vez de para o trem.

Respiro fundo e sinto como se tivesse que neutralizar isso.

– Isso já é meio exagerado, né?

– Não. A intensidade não é bizarra vinda de pessoas que realmente te amam. Você não acha que o seu pai teria cado cego em vez de você se ele pudesse?

– Eu sei que ele teria.

– O Scott também. Ele não tem só uma quedinha por você ou só quer te dar uns pegas ou acha que você é melhor que nada. Ele te ama. E eu não conseguia mais assistir àquilo, quando vocês nem estão juntos, e ver que o Rick mal olha pra mim e ponto. Eu também só era mais uma gurinha no álbum pra ele. Eu também não acredito em almas gêmeas…

– Meu Deus, se o Scott fosse a minha alma gêmea, eu estaria ferrada.

– Mas isso ainda me mostrou que dá pra ter muito mais intimidade com alguém do que eu tinha com o Rick. Aí car dando voltas no shopping fez com que eu casse me achando.

E de repente eu entendo de verdade do que isso se trata. Meu Deus, às vezes eu sou uma idiota.

Eu puxo a minha mão de volta.

– Você acha que eu devia ter cado com ele. – Eu escuto a minha voz e ela está bizarra. Vazia. Morta.

– Parker, não, eu tô do seu lado!

Mãos agarram as minhas e eu puxo de volta, mais porque eu instintivamente não gosto de ser agarrada do que não quero que a Sarah me toque.

– Por favor, Parker, não importa o que eu acho…

– É claro que importa! Se não importasse, eu não estaria aqui!

– Parker…

– Espera, só… só espera. – Eu tiro o celular do bolso. – Você me perguntou sobre o meu encontro. Eu descobri que o Jason e o Scott são amigos. E quando o Jason parou o Isaac e o Gerald foi o Scott que foi primeiro e o Jason o seguiu. Ele falou que achou que o Scott estava pronto pra meter a porrada nos caras se ele não o tivesse impedido.

– Eu sei.

– Quê?! Como é que você sabe, caramba?

– Outras pessoas viram e a história se espalhou.

– Por que você não me contou?

– Por que eu contaria? Você desligou na minha cara só por eu te falar que ele estava na sua aula de trigonometria.

Merda… Eu desliguei mesmo na cara dela naquele dia… Não foi como pareceu na época. Achei que eu só estava…

– Desculpa.

– Você não precisa se desculpar…

– Preciso, sim. – Engulo em seco. – En m, eu mandei uma mensagem de texto pra ele.

– Sério? Quando?

– No domingo. – Passo o meu telefone para ela.

Eu me inclino e descanso a cabeça no braço do sofá. A trama grossa do tecido, tipo aniagem, é áspera, mas de certa forma agradável. É bom sentir algo, para me manter numa base, enquanto desembaralho isso tudo.

– Uau – diz ela.

– Você sempre esteve do meu lado, mas, se fosse você, teria perdoado. Não teria?

– Se fosse eu, com certeza eu teria cado brava, teria dado um gelo por um tempo. Depois eu provavelmente teria quebrado o gelo e feito ele me pagar um jantar caro ou algo assim. Isso não signi ca que eu ache que você deveria ter feito isso. Talvez eu esteja errada, de repente car com ele tivesse sido fraqueza e você tenha feito a coisa certa. Entende o que eu quero dizer?

– Mais ou menos. Mas você ainda não está me contando tudo. Eu sei. – Eu me endireito no sofá, mas não me viro para encará-la. – Pode dizer.

– Por favor – pede ela numa voz pequenininha. – A gente não pode só esquecer isso?

Eu escuto que ela está encolhida, com o rosto nos joelhos. Curvo a minha cabeça com o peso. Sou mais do que uma idiota, às vezes. A Sheila tinha razão; posso ser totalmente cega.

Escorrego do sofá para me sentar no chão aos pés dela e junto as mãos na sua nuca. Sussurro no ouvido dela.

– Eu te amo, Sarah. Não vou te abandonar.

Ela funga. Será que ela está chorando? A Sarah chorar é mais raro do que a Sarah gargalhar.

– Você abandonou o Scott.

Aquilo me atinge no peito como um golpe físico.

– Por causa do que ele fez, não pelo que ele disse ou acreditava. Não é o mesmo.

– Ele também era meu amigo.

Ah, meu Deus. Isso nunca tinha se passado pela minha cabeça. Nunca.

– Eu não z você abandoná-lo.

Ela não responde. A respiração dela está descompassada. Eu abro a boca para falar mais, para convencê-la, mas agora só quero retirar o que eu disse, porque vejo que presente ela me deu naquela época e como deve ter sido difícil.

Eu a solto e levanto a mão direita com os dedos abertos.

– Rosto – peço.

– Ã-ã.

– Por favor?

Ela sabe que não é justo esconder o rosto de mim só porque os meus olhos não conseguem enxergá-lo como todas as outras pessoas conseguiriam, e eu não abuso desse pedido fazendo isso toda hora – na verdade já faz anos. Ela levanta a cabeça e aperta o rosto delicadamente na minha palma, com o nariz entre o meu indicador e o dedo médio. A cara dela está bem tensa, os olhos fechados bem apertados, as bochechas molhadas.

– Ah, Sarah… – Eu subo e a envolvo num abraço. Ela empurra o rosto no meu pescoço e ofega.

– Ele… ele cou… ele…

– Psssiu… – digo. – Temos a tarde toda.

– Ele cou… tão… chateado…

– O Scott? É, eu…

– Não, o Rick. Ele cou muito, muito chateado. Eu... eu quase mudei de ideia.

Ela começa a chorar de verdade, tremendo e soluçando. Nunca a ouvi chorar assim, nem mesmo quando o pai dela foi embora. Eu a abraço forte e tento eu mesma segurar o choro. Não é fácil. Se a Sarah casse presa nos trilhos do trem, eu também quebraria todos os dedos para libertá-la.

Ela escorrega para se deitar no meu colo e as palavras começam a sair dela junto com as lágrimas.

– E… e… aquilo me fez pensar que se o Rick se sentia tão mal de terminar quando ele nem me amava de verdade, como é que o pobre Scott se sentiu? Mas eu não podia te contar isso… eu não podia… porque estou do seu lado…

Eu me sinto estranhamente vazia, a não ser pelo quanto a Sarah signi ca para mim, o quanto dependo dela e, de certa forma, isso faz eu me sentir bem, não fraca, dependente ou patética. Estendo a mão e sinto o cabelo dela espalhado pelo rosto. Eu o prendo atrás da orelha dela.

– Eu estava tão feliz por você naquela época – comenta ela entre soluços. – Eu nem estava com ciúmes. Às vezes eu me perguntava por que não estava, mas não sentia. Talvez se eu quisesse o Scott, mas ele fosse seu e eu casse feliz por você e eu só desejasse que fosse encontrar alguém assim algum dia. Eu até… eu até desejei que o meu pai me ajudasse que nem o seu fez… mas… mas...

Sarah para de falar e luta para respirar. Eu a abraço e tento pensar no quanto a amo e não sobre o quanto o pai dela não.

 

Eu gostaria que essas conversas não fossem de mão única. Preciso que alguém em quem eu con e me diga se estou cando maluca. Graças a Deus tenho a Sarah de volta, mas todo o resto está instável. Caramba, papai, estou cambaleando, mesmo agora com o peso da Sarah no colo, ainda não sei dizer exatamente qual direção ca para cima. Nunca achei que houvesse algo psicológico nisso, mas quanto mais perco o controle do que está acontecendo à minha volta, mais eu não consigo car rme.

O Scott disse que me ver chorar naquela sala aquele dia foi como sair de um sonho, se perguntando como ele podia ter acreditado no que tinha antes. É como eu me sinto agora. Ele era o meu melhor amigo, mais próximo que a Sarah, por mais impossível que pareça, talvez por causa daquela fagulha extra que a gente tinha… Como eu posso ter pensado que essa única coisa idiota era mais verdadeira que todo o resto? Como posso ter sido tão bizarramente paranoica que pensei o pior de cara e nunca questionei isso de novo?

Eles não estavam à nossa volta; estavam se escondendo em armários e Scott não sabia. Ele não sabia…

Ele devia ter me falado pela porta do banheiro ou, mais tarde, quando tentou falar vencendo o bloqueio Sarah-Faith. Eu não me lembro, mas ele deve ter tentado e eu não ouvia. Agora ele diz que não acha que importa, mas importa, porque ele está certo; eu não me incomodaria se alguém nos visse. Nunca me ocorreu que as pessoas pudessem olhar pela janela, é fácil para mim me esquecer de coisas como janelas, nunca achei que a gente estivesse se escondendo. Só é desagradável fazer isso no meio do refeitório.

Agora está tão óbvio que eu nem consigo me lembrar de como era não ver isso. Quando alguém te engana, tipo grudar uma plaquinha nas suas costas ou chegar por trás de ninho para jogar água em você, ou te enganar numa sala para te beijar na frente de um público secreto… todas essas situações magoam porque elas signi cam que a pessoa fazendo isso não te dá a mínima. Não é apenas indiferente, mas cruel.

Mas quando eu saí correndo chorando, ele não desperdiçou nem uma palavra com eles. Ele saiu pela porta atrás de mim, tentando explicar que não era um deles. Que não era um babaca. Ele me amava, se importava comigo, e dois anos e meio depois ele está pronto para surrar esses mesmos caras só por carem escondendo o meu celular, tanto que o Jason teve que se meter entre eles.

Eu sempre fui tão preocupada que tudo à minha volta seja apenas uma grande encenação. Na minha cabeça, o Scott virou um babaca como o resto deles e eu o barrei até que você pediu para ele me deixar em paz.

Fiquei grata por isso, mas você também o conhecia… Você sabia que eu estava exagerando? Que o meu chilique ia acabar e aí você me ajudaria a entender que o problema era não apenas que o Scott tinha 13 anos, mas que eu também tinha 13 anos? E quando eu crescesse veria que as pessoas não podem ser de nidas por apenas uma coisa? Você estava esperando pelo momento certo, mas os meses viraram anos e aí…? Se você estivesse mesmo aqui, será que a gente teria essa conversa de verdade, agora que eu estou pronta?

Ainda bem que a Sarah existe. Para me pedir para imaginar como o Scott se sentiu. Quisera eu mesma ter feito essa pergunta… ter sido uma pessoa melhor…

Quero pensar sobre isso agora, sobre o que signi cou para ele não apenas me perder, mas também aos amigos dele, que se revelaram uns babacas, mais a Sarah e a Faith quando elas escolheram car do meu lado… mas é muito para encarar de uma vez só. E, como se não fosse ruim o su ciente, essa não é a pessoa que me tornei, aparentemente é a pessoa que sempre fui.

 

Não sei quanto tempo leva, talvez meia hora, até a Sarah se acalmar, esparramada no meu colo, com a respiração estável. Ela respira fundo, segura e solta.

– Uau – diz ela.

– Você segurou a respiração por muito tempo. É um milagre você não ter explodido.

– Eu explodi – declara ela e dá uma roncadinha que mais parece uma risada. Fico feliz por isso.

– É irônico que você tenha terminado com o Scott por algo que ele não te contou – a rma ela numa voz infeliz. – Aí eu não te contei tudo isso porque estava com medo de que você terminasse comigo também.

– A gente nunca vai terminar. Mas também não quero que a gente que com câncer. Só vamos para o bingo quando a gente tiver 70 anos, tá? – Eu me inclino e a abraço, de um jeito meio estranho, já que ela está deitada no meu colo. Ela me aperta bem forte de volta.

– Caramba, Parker, acho que vou chorar de novo.

– Pode chorar. Você já não vai ganhar uma estrela dourada hoje.

Ela funga.

– Ha, ha.

– Triste, mas verdade. E eu pretendo ganhar. Número 92.

Sarah vira a cabeça no meu colo.

– Eu te contei todas essas coisas, mas você não falou nada. O que você está pensando?

Sinto como se eu fosse feita de chumbo. Um nó retorcido de chumbo frio.

Eu a abraço.

– Eu estou pensando que tenho a melhor amiga que poderia ter.

– Eu, né?

Concordo com a cabeça, minha bochecha apertada contra a testa dela.

– Bela resposta – declara ela. – Mas não é o que eu quero dizer.

– Eu sei.

– Então o que mais?

Pensar é uma coisa… dizer em voz alta é outra…

Eu sussurro no ouvido dela. Talvez falar isso o mais baixo possível mantenha sob controle.

– Acho que cometi um erro terrível.