Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 19 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 18

DEZOITO

 

 

Sarah não ligou. E também não mandou mensagem. Meu celular não grasna há mais de 24 horas.

Estou com o Jason antes da aula de novo, no Jardim da Biologia.

Ele me mandou umas mensagens na noite passada só para dizer oi e

perguntar que sons especiais eu coloquei para ele no telefone. Eu nem pensei sobre isso, então falei que ele teria que esperar até de manhã. Talvez seja disso que as pessoas estão falando quando dizem que mentir ca mais fácil. Estou fazendo isso mais, porém odiando do mesmo jeito. Acho que está decepcionado que eu tenha dado a ele o Homem com Voz Grave, mas na verdade não há tantas escolhas assim. Ele tem só que car feliz por não ser o Esquilinho, o Duende ou o Marciano. Mas acho que ele gosta de que o toque dele seja de passos correndo, eu me esforcei um pouco.

Ele diz que não correu com Scott esta manhã, que precisava pensar nas coisas. Ele conta que o Scott disse que entendia, mas Jason não tem certeza do que isso signi ca. Vejo isso como mais prova de que tudo à minha volta está desmoronando. Minha corrida matinal hoje cedo foi tão atrapalhada e cheia de interrupções quanto a de ontem.

Também não apareço no Expediente da manhã e a Sarah ainda não me mandou mensagem. Não tenho planos de ir ao refeitório no almoço. Se eu chegar ao m do dia sem uma grasnada, vai signi car que o ngimento acabou.

Jason me leva para a aula de trigonometria e corre para a primeira aula dele – física, acho, não tenho muita certeza. Será que eu não devia estar interessada?

Molly não está lá quando eu me sento ou pelo menos é o que presumo, já que ela sempre diz algo. Ontem, depois da minha troca de mensagens com o Scott e ele falar com o Jason, quei tensa com o que poderia acontecer, mas eu mal escutei o Scott e, nas poucas vezes que o B.B. falou algo com ele, ele deu respostas monossilábicas. Nesta manhã, ninguém está falando nada.

– B.B.? – digo.

– E aí, P.G. O que é que tá pegando?

– Nada, eu… eu só não sei quem tá em volta se ninguém fala nada.

– Ah, tá, bom, eu tô aqui. E também o Scott, mas a Molly, não. O Nathan tá aqui…

– Hein? – pergunta Nathan na frente de B.B.

– Tá bom, não preciso de uma lista completa. Só de quem está perto.

– Ah. Você terminou o dever de casa?

– Como sempre. E você?

– Eu respondi tudo, mas provavelmente tá tudo errado.

– Eu não me preocuparia demais. Tem coisas na vida mais importantes que trigonometria.

– Eu ainda preciso de notas pra passar mesmo que consiga uma bolsa de estudos pelo futebol. Ei, talvez a Molly esteja doente de novo… – Ele para. Aí diz: – Oi, Molly, tudo em cima?

– Não pra Parker – responde Molly. – A não ser que com em cima você só queira dizer que não estou mais na cama.

– O quê? – digo.

– Você. – Ela se senta. – Você não está pra cima. Tipo, você está pra baixo . Como você esteve o dia inteiro ontem. Tudo bem. Não se pode estar pra cima todo dia. Seria bizarro se fosse assim.

– Bom… – Tento pensar em algo que a Parker diria se não estivesse pra baixo. – É isso aí. Eu não ia querer ser bizarra.

B.B. gargalha. Fico surpresa com o quanto eu gosto disso.

Chego à biblioteca depois da escola, mas quando me aproximo da nossa mesa não ouço o cumprimento de sempre da Molly. Talvez eu tenha chegado antes dela, para variar.

– Oi, Parker – diz Sarah.

Eu travo, visivelmente. Não posso voltar atrás.

– Oi, Sarah. Cadê a Molly?

– Eu pedi pra ela no almoço se podia chegar uns cinco minutos mais tarde hoje pra gente conversar. Sei que mandar mensagens durante o dia é um saco.

É para mim. Eu acomodo a bolsa e me sento. Tento relaxar, mas não consigo.

– Sobre o quê?

– Sobre o que quer que eu tenha feito que deixou você brava.

– Não estou brava. – Dou um abraço. É verdadeiro. Quem me dera estar brava. Acabei de descobrir que gostava mais dela do que ela de mim ou ao menos con ava mais nela… Falar sobre isso só deixaria as coisas piores, me deixaria ainda mais patética.

– Se você não está brava, ainda está alguma coisa. Eu entendo você querer car junto com o Jason, mas você não está mais falando nada comigo. Por que você não me ligou ontem?

Aí está, a pergunta direta. Até agora, minhas mentiras vinham sendo escorregadias. Não tenho a capacidade de inventar do zero um motivo ridículo qualquer de por que não liguei. Posso não conseguir dizer toda a verdade a ela, mas pelo menos posso falar coisas verdadeiras.

– Eu só não estava com vontade de conversar. Não pode ser?

– É claro que pode ser, mas… – Ela respira fundo. – Aconteceu alguma coisa. Não sei o que, mas… – A voz dela ca quase um sussurro, não com raiva, mais como se ela estivesse magoada. – Você está me tratando como se eu fosse idiota. Eu posso não estar levando todas as honras nem fazendo todas as aulas avançadas como você, mas é só porque não estou a m de me incomodar com assuntos para os quais não ligo. Não é porque eu sou idiota. Eu não sou idiota.

Minha garganta se fecha. Esses últimos dois dias pareceram durar para sempre e, meu Deus, eu sinto falta da minha Sarah. Mas eu também senti falta do Scott e, como agora, na verdade eu estava sentindo falta de algo que eu achei que tinha, não do que realmente tinha. Sinto falta da Sarah que eu achei que tinha. Sinto como se estivesse derretendo.

Tusso para limpar a garganta.

– Eu sei que você não é. Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço.

– Depois de você – comenta ela. Não sei dizer se é uma piada à la Sarah ou uma provocação.

– Eu sei que não sou tão inteligente quanto você. Na verdade, tenho me sentido bem idiota ultimamente.

– Por quê?

– Só… umas coisas. Você sabe.

– Não, eu não sei.

Silêncio.

– É por causa do Rick, né?

– Por que eu caria chateada de você terminar com o Rick?

– Não porque eu z isso, só que eu não, sei lá, te contei antes que eu ia fazer? Eu te disse que decidi enquanto você estava com o Jason. Você queria que eu te ligasse no restaurante durante o seu encontro?

– Você poderia, se quisesse.

– Só pra que você soubesse antes de acontecer em vez de depois?

Eu me concentro em reduzir o ritmo da minha respiração, para car calma.

– Eu não sabia que você me achava tão mesquinha – consigo dizer.

– Não, Parker, desculpa. – Ela se senta na minha frente e coloca as mãos nas minhas. Eu me retraio, mas não retrocedo. Não quero fazer nada para piorar as coisas. – Eu não quis dizer isso – continua ela. – Eu só… eu não entendo. Por favor, seja o que for, me conte. Você sabe que pode me contar qualquer coisa, né?

– Eu sei. E você pode me contar qualquer coisa, certo?

– Eu sei que posso. Acredite em mim, com o meu próximo namorado, quando eu for dar um pé na bunda dele, você vai saber primeiro. Prometo.

Tiro as minhas mãos das dela, mas para não deixar tão óbvio, começo a tirar as coisas da bolsa para quando a Molly chegar.

– Só se você quiser – comento. – Não é uma regra nova ou algo assim. Você não precisa passar tudo por mim antes.

– Não foi isso… não foi isso que eu quis dizer. Eu só quis dizer… – Ela não termina a frase. Não acho que ela saiba o que quis dizer se não foi como soou. Não sei o que mais poderia signi car.

A porta da biblioteca se abre.

– Espero que seja você, Molly. A gente tem muito o que fazer hoje.

– Só se você estiver indo a aulas diferentes das minhas – declara Molly. Em seguida ela acrescenta: – Ah, ou… quero dizer, acho que, a não ser trigonometria, isso pode levar um tempo.

Sarah se levanta e fala:

– Eu te li… – Ela se detém. E então: – A gente se vê, Molly.

Quando ela se vai, a Molly quer saber:

– Devo perguntar ou… não?

Luto para pensar num jeito de dizer não sem ser grossa. Nada disso é culpa da Molly e não tem nada a ver com ela, mas estamos cando amigas, então até dizer não soaria… nada amigável.

– Ainda não estou pronta para que perguntem. Mas obrigada por perguntar… sobre perguntar…

 

Molly me acompanha até o estacionamento para esperar pela minha carona. Ela pergunta se quero car sozinha e digo que, de nitivamente, não. Ela senta ao meu lado, mas não conversamos. Não sou mesquinha, mas acho que posso ser egoísta.

O carro da tia Celia chega. Sei que é Sheila ao volante, já que a tia Celia me mandou uma mensagem avisando que está numa reunião de pais sobre a viagem ao campo do Petey amanhã para as piscinas naturais; eu saberia, de qualquer maneira, porque o rádio está muito alto. Dou tchau para a Molly e entro no carro.

O CD preferido da Sheila, o da Alicia Keys, está a todo volume. É bom, mas sentimental, e não tenho certeza de que consigo aguentar.

– Dá pra gente desligar a música? – grito.

– Eu a quero ligada!

Droga.

– Que tal não tão alta? Talvez diminuir um pouquinho.

Eu escuto a música ir do que parece o volume 95 para o 92. Não sei o nome da música, mas estou trêmula e ela está começando a me derrubar.

– Por favor, Sheila, estou pedindo!

Ela abaixa para, talvez, o 89.

– Não, sério, eu não aguento! – Estico a mão para achar o botão do volume, embora eu nunca o tenha tocado no carro da tia Celia e não faça ideia de onde ca. Sinto alguns botões e vou com a mão para a esquerda, a mão da Sheila espanta a minha.

– Vamos chegar em casa em dois minutos!

– Eu não tenho dois minutos! Já estou tendo uns dois dias de merda e não consigo suportar isso! Você pode viver sem esse raio dessa música por dois minutos e quando a gente chegar em casa pode rastejar de volta pro seu quarto, trancar a porta e escutar qualquer troço tão alto e por quanto tempo você quiser! – Eu dou um bote e arrasto a mão por todos os botões e o CD é ejetado…

– Ei!

… e eu o arranco e seguro à minha direita caso ela tente pegá-lo.

Ela desvia o carro violentamente e a gente bate contra o meio- o e para.

– Cacete! – exclamo. – O que tem de errado com você? É só uma porra de uma música!

Silêncio.

Bem, não exatamente. Por cima do motor parado do carro, a Sheila está com a respiração pesada. Não, ela está com uma respiração estranha, como se estivesse tentando não tossir ou espirrar ou…

Ai, droga, ela está chorando.

– Me… me desculpa. Toma. – Eu estico o CD dela.

Ele é arrancado da minha mão e se choca contra o para-brisa. Ela funga e tosse duas vezes.

– Eu não tive a intenção de… – De quê? Eu realmente não falei nada pessoal. – Tá tudo bem.

Ela bufa e resmunga:

– Vai se foder, Parker.

O carro vai para a frente, estamos descendo a rua de novo. Ela não está soluçando nem nada, mas as respirações balbuciantes me dizem que ela ainda está chorando.

– Eu não estava gritando com você. Só estava falando mais alto por cima da música. Eu não quis dizer nada…

Ela tosse de novo.

– Meu Deus, Parker, você acha que é porque você gritou comigo? Nem tudo é por sua causa! Outras pessoas têm problemas e… e… foda-se, deixa pra lá.

Agora eu entendo, en m. Ela estava chorando quando me buscou. A música era para eu não escutar.

– Qual é o problema? – pergunto.

– Não é com você!

– Eu sei, eu só…

– Rá! O que você sabe? Me conta! Me conta o que você sabe!

– Não é comigo…

– Estou ouvindo as palavras, mas todo o resto me diz que você não sabe! Sim, você tem grandes problemas… Você realmente é cega! Você não consegue enxergar que não é o centro do universo! Que outras pessoas têm vidas e acontecem coisas com elas o tempo todo e que você não sabe nada a respeito!

– Como é que eu posso saber se ninguém me conta?

– Você acha que todo mundo corre por aí contando tudo pra todo mundo? Ou que todos nós conseguimos ler no rosto dos outros? Não é assim que funciona!

O carro dá um tranco para a esquerda, batemos no meio- o e paramos de forma tão abrupta que o meu cinto de segurança trava na clavícula.

– Não – declara Sheila, alto mas de forma rouca. – Você simplesmente não liga. Diga o que quiser, mas na sua cabeça tudo se trata de você. Só que não, Parker. Não, não mesmo.

Ela abre a porta com um chute e ela se fecha com um estrondo. Os passos dela vão rápido até a porta, chaves caem no chão, são recolhidas, a porta se abre, e depois é batida.

Depois de um minuto, passo as mãos pelo painel até encontrar o CD dela. Parece tudo certo, sem arranhões que eu possa sentir. Procuro um pouco mais e encontro uma caixinha vazia. Coloco o CD dentro e guardo na bolsa para entregar a ela depois.

Eu sei por que estou tão certa de tudo o tempo inteiro; é porque não tenho estômago para a alternativa, de que não posso estar certa de nada nunca. Mas quando minha respiração se acalma e penso direito, sinceramente, a dura verdade é clara. Eu estava errada basicamente sobre tudo que aconteceu nesse trajeto de carro. E se eu for pensar a respeito posso estar errada sobre uma porção de outras coisas também.