Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 22 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 21

VINTE E UM

 

i, Parker.

Eu pulo com a voz do Jason quase do meu lado no armário e

as minhas mãos se abrem e deixo a bolsa cair. Escuto o rolar das minhas coisas se espalhando no concreto. Aposto que isso inclui

os poucos absorventes íntimos que estavam soltos ali.

– Você está assustada nessa manhã?

– Não – respondo com a minha voz paciente. Eu me agacho perto da bolsa e a viro para cima. – Basicamente eu sempre pulo quando alguém chega de ninho perto de mim. – Varro as coisas com as mãos e jogo tudo dentro da bolsa.

– Eu não… – ele fala se agachando do meu lado. – Ah… desculpa.

– Tudo bem – comento. – Peguei tudo?

Algumas coisas vão parar na minha bolsa.

– Agora sim.

– Obrigada. – Eu me levanto e fecho o armário.

– Ei, você já falou com o treinador Underhill?

– A gente decidiu dar uma semana pro resto das coisas se ajeitar. Vou me encontrar com ele na próxima segunda à tarde.

– Legal. Está pronta pra caminhar? Pensei de repente em algum lugar diferente do Jardim da Biologia dessa vez, mas acho que não importa muito.

– Ah, desculpa, eu prometi pra Sarah ontem que ia encontrar com ela essa manhã.

– Pra quê, pro dever de casa ou…?

– Não, nada pra escola. A gente só… meio que ca de bobeira juntas no pátio todas as manhãs.

– Você cou comigo essa semana toda.

– Eu sei, é só que… – Tá, o que eu digo agora?

Uma pergunta melhor é como me tornei esta pessoa? É hora de começar a ser eu mesma. Se ele não gostar, vai ser uma droga, mas melhor saber logo.

– Vou levar muito tempo pra explicar agora, mas a Sarah e eu sentamos ao ar livre e escutamos as pessoas que querem desabafar pra dar conselhos sobre todo tipo de coisa. Só que a gente meio que brigou no começo dessa semana… bom, estava mais para um mal-entendido… Tá, eu tava sendo uma idiota. Aí você me chamou pra caminhar na mesma hora e eu fui com você, mas agora Sarah e eu zemos as pazes. Faz sentido?

– Não exatamente. Só achei que a gente tinha esse lance das caminhadas de manhã.

– Não, quero dizer, sim, foi legal, mas normalmente eu me sento com a Sarah. Ainda podemos almoçar juntos hoje. O que normalmente você faz aqui de manhã?

– Normalmente não estou aqui. Eu vim na segunda de manhã pra falar com você e aí nós começamos as nossas caminhadas.

Ele deixa isso no ar e co confusa. Ele está tentando me deixar culpada ou me fazer cancelar com a Sarah – como se dois dias seguidos instituíssem um encontro rotineiro?

– Desculpa, eu não sabia. Achei que você já estivesse aqui. É melhor eu ir.

– É só que eu tenho algo pra te contar.

Ele não continua, acho que quer que eu pergunte.

– O que é?

– Depois que a escola terminou no ano passado, a minha família foi acampar na praia em Baja. Quando eu voltei, o Scott tinha mudado o percurso da corrida. Ele não explicou por que e pra mim não importava; só gostei da nova rota ser maior. Eu não notei no sábado à noite no escuro, mas essa manhã eu voltei a correr com ele de novo e vi que a gente passa pela sua casa.

– Ah. Vocês já… – digo. – Eu também corro de manhã. Vocês já me viram?

– Não. A gente passa por volta das quinze pras seis.

– Eu saio às seis. Tipo, normalmente. Hoje, não. – Depois do asco instável da segunda e da terça me senti ainda pior nessa manhã e desisti totalmente de sair.

– Certo. Talvez não seja espionagem, já que nunca vemos você, mas ainda é bizarro. Achei que eu devia te contar.

Espera… O Scott começou a correr perto da minha casa em algum momento no meio de junho?

– Não é bizarro – comento, tonta de novo. Tenho que engolir antes de poder continuar. – Ele… ele está conferindo o meu percurso. Sabe, por causa de alguma coisa nova que eu possa tropeçar.

– Por que ele precisaria fazer isso?

– Porque o meu pai não pode mais fazer. Toda noite antes de deitar, o meu pai e eu fazíamos uma pequena caminhada. Ele dizia que era o único exercício que ele fazia, já que cava trabalhando sentado o dia inteiro, mas, na verdade, ele estava veri cando o percurso que eu ia correr no dia seguinte.

– Espera… você corre sozinha mesmo? Sem ninguém com você?

– Eu te falei que não corro com ninguém…

– Achei que você tinha alguém numa bicicleta ou algo assim! Isso é maluquice, você não pode correr sozinha!

– Bom, na verdade eu posso e eu corro. Todo dia.

Sinto um arrepio, um arrepio de verdade, pelos ombros e pelas costas.

– Você se lembra de ver uma van grande parada na calçada perto da minha casa? Perto do m de junho?

– Eu ainda estava no México. Por quê?

– Nada. Deixa pra lá.

Silêncio.

– Você não acha bizarro o Scott correndo perto da sua casa toda manhã… o que… três anos depois de você terminar com ele?

– Dois e meio – digo, minha voz baixa. – Não é bizarro. É…

– É o quê?

Ele fala em tom de desa o e isso me aborrece, mas tento olhar as coisas pelo lado dele. A verdade é uma coisa; outra diferente é esfregar o nariz das pessoas nela.

– Qualquer que seja o oposto de bizarro.

Ele sopra ar pelo nariz.

– Você ainda gosta dele, né?

– Eu terminei com ele, lembra?

– Mas parte de você ainda gosta dele.

– Ele foi o meu melhor amigo por anos. Não dá pra simplesmente apagar algumas coisas. – Apesar de eu meio que ter feito isso. – O que isso importa, a nal? Não estamos juntos agora.

– Talvez você queira estar.

É perturbador o quanto as palavras dele são provocadoras, mas ele fala com uma voz calma. Não sei o que fazer a respeito.

– Você está fazendo uma pergunta?

– Só quero saber em que pé a gente ca.

– Hum, a gente se conheceu faz uma semana… aí saiu no sábado à noite… e foi divertido… e… a gente devia repetir algum dia? Que tal?

– Você vai ligar pra ele de novo?

– Não sei, talvez? – Isso está cando esquisito. Tento melhorar a situação com um sorriso. – Isso é um problema?

– Só estou dizendo, ou a gente vai fazer isso, ou não, depende de você.

– Fazer o quê? Gostar um do outro? Se divertir?

– Não, sabe… sair um com o outro.

– Não está um pouco cedo pra falar sobre exclusividade? – Uau, se eu pudesse voltar no tempo, a Parker de agosto não acreditaria nos papos que está tendo agora, poucas semanas depois. – A gente só saiu uma vez.

– Você foi pro banco de trás bem rapidinho. Isso é normal pra você?

– Não! É normal pra você? Você levou a gente até o costão bem rapidinho! Foi a minha primeira vez lá, quantas garotas você leva até lá?

– Nenhuma enquanto você e eu estivermos saindo.

– Bom, não precisa me fazer nenhum favor. Pode estacionar com quem você quiser, assim como eu também posso, até que a gente combine outra coisa, mas vai levar mais do que um encontro, já vou dizendo.

– É, você está me dizendo bastante coisa.

– Só estou sendo sincera.

– As coisas não são assim tão simples.

– Sério? Eu acho que são.

Silêncio.

Quack.

– É a Sarah querendo saber onde estou. Tenho que ir. A gente pode falar mais sobre isso no almoço, se você quiser. – Mas eu realmente espero que ele não queira. Eu abro a bengala.

– Tá bom. Beleza. Até mais tarde.

 

Eu me sento na mesa de sempre com a Sarah. Ainda estou zumbindo por dentro.

– Não escutei a sua mensagem, só vim direto pra cá.

– Só perguntando onde você estava.

– Tendo uma merda de conversa com o Jason. Sei lá como ele pensou que passar as manhãs juntos era a nossa nova rotina. Então quando eu falei que estava vindo pra cá, ele cou todo nervosinho, como se eu o estivesse deixando no vácuo pra vir car com você.

– As manas antes… dos manos?

– Caraca, Sarah, você acabou de inventar isso?

– É, desculpa, foi péssimo. Você acha que eu ia gravar um troço tão horrível?

– Mas é verdade.

– Você ainda gosta dele?

– Até onde eu o conheço, mas… bom, não tem sido a coisa mais fácil do mundo.

– Ele sabe que dia é hoje?

Eu a encaro.

– Você sabe?

Ela chega mais perto de mim, batendo no meu quadril, e passa o braço pelos meus ombros.

– É claro que eu sei.

Ontem passamos quase todo o resto da tarde falando sobre os assuntos dela. Não muito sobre o Scott além de contar a ela tudo o que aconteceu na casa dele. Ela tentou me fazer falar mais a respeito, mas eu já tinha dito tudo o que havia para dizer. Não tenho muita certeza de como me sinto e falei isso. Não mencionei o aniversário do meu pai.

– Você tá bem?

– Eu ganhei a minha estrela dourada, se isso responde à sua pergunta.

– Não responde, mas tudo bem. – Ela aperta o meu ombro e solta.

Sarah não aprova o meu Quadro de Estrelas. Ela acha que são emoções reprimidas que deviam ser liberadas. Olha quem fala.

– Você parece cansada. Você dormiu essa noite? Ou correu além da conta hoje de manhã?

– Eu não corri.

– Você… – Ela se vira para mim. – Você não correu?

– Não. Eu estava… eu estava muito… sei lá. Muito sem equilíbrio.

– Que… ruim… – A voz dela se suaviza. – Você vai precisar da sua força.

Escuto alguém se aproximar e me sento. Uma aterrissagem bruta. Em seguida uma fungada. Uma fungada farta.

Estou 99% certa de quem seja.

– Oi, Marissa – cumprimenta Sarah.

Sarah tem razão, não tenho forças para isso. Só abano a mão.

– Como é que você está? – pergunta Sarah.

Fungada.

Sarah tenta de novo.

– Você quer falar sobre alguma coisa?

Fungada.

– Eu tenho uma pergunta – digo, surpreendendo a mim mesma, já que há dois segundos eu tinha certeza de que ia pular fora dessa. – Por quê?

– Por que o quê?

– Por que você gosta do Owen?

– O que você quer dizer? Por que alguém gosta de alguém? Você só gosta e pronto.

– Não – digo, e a Sarah já está estalando a língua, mas eu continuo. – Sempre tem motivos. Ele sabe como você gosta do seu café? Ele te leva pra ver comédias românticas idiotas só porque você gosta?

– Não, a gente não…

– É o jeito que ele penteia o cabelo ou como ele usa meias que não combinam…

– Ele não mistura as meias.

– Então o que é?

– Não sei… é tudo.

– Tudo bem – comenta Sarah. – A Parker quer dizer…

Não deixo que Sarah me interrompa.

– Você gosta de tudo nele? De todas as coisas? Faça uma lista de dez. Não, faça uma lista de três.

Fungada.

– Tá, uma. Só uma coisa. Podemos começar com isso.

– Ele… ele ri muito. Eu adoro a risada dele.

– Beleza, ótimo. Você gosta do som da risada dele, ou do quanto ele ri, ou…?

– De tudo isso.

– E do que ele ri? O que ele acha engraçado?

– Não sei… coisas. Ele ri muito, como se fosse feliz e estivesse se divertindo o tempo inteiro.

– Mas você não está. Acho que nunca te ouvi rir.

– Parker – diz Sarah. – Eu acho…

– Não importa, essas perguntas foram maliciosas. Saber como alguém gosta do café não é amor ou você poderia ser uma barista e o problema estaria resolvido.

– Marissa – tenta Sarah. – Eu…

– Durante um ano eu venho te falando o que o amor não é, mas talvez eu devesse estar te falando o que o amor é. Tenho o exemplo perfeito bem aqui; eu amo a Sarah. Não é o tipo de amor quero-transar-com-ela, mas eu a amo loucamente. Mais do que tudo, eu gostaria de saber como deixá-la feliz de novo. Se um gênio me concedesse três pedidos, eu usaria um pra trazer o meu pai de volta, o outro pra minha mãe e o último não seria pra voltar a enxergar; eu ia querer que a Sarah fosse feliz como ela era. É isso que é o amor, Marissa. Não é magia ou vodu. É real. Dá pra explicar. Eu posso te falar exatamente porque eu amo a Sarah.

Eu estendo a mão e, graças a Deus, a Sarah entrelaça delicadamente os dedos nos meus.

– Eu tinha uma porção de amigos quando era pequena, mas, quando z 8 anos, a maioria tinha ido embora. Acontece que a Parker cega com uma mãe morta não chegava nem perto do quanto ela era divertida antes do acidente. Eu não podia correr por aí e brincar, chorava o tempo inteiro, derrubava tudo e virei uma vaca de verdade e os meus amigos desapareceram um por um, até que só restaram dois. Não estou dizendo que eles eram as únicas pessoas que me entendiam ou eram legais comigo, só que eles foram os que não se afastaram e encontraram pessoas mais fáceis para serem amigos. Eu amo a Sarah porque ela era minha melhor amiga e se manteve assim quando cou muito, muito difícil de simplesmente ser minha amiga.

Sarah pousa a cabeça no meu ombro.

– Até aconteceu de novo esta semana. Eu tive alguns dias péssimos e não a tratei muito bem, mas ela não saiu batendo o pé e cou de mau humor. Ela me chamou pro cantinho e a gente resolveu tudo. E isso pode soar estranho, mas em parte eu a amo tanto porque não acho que esse sentimento esteja garantido. Não gosto de admitir, mas, sempre que eu estendo a mão, uma parte de mim se preocupa que talvez ela não vá estar lá daquela vez, que nalmente estará de saco cheio de todo o meu egoísmo e drama…

Sarah aperta a minha mão com rmeza e pressiona a testa no meu ombro.

– … e foi por isso que pirei, mas aí ela sempre está lá para me apoiar e eu co tão grata que me pergunto o que posso ter feito para merecê-la. Se você quer saber o que é uma alma gêmea, Marissa, é isso. A Sarah é minha alma gêmea. Eu me jogaria na frente de um trem por ela, e eu a amo porque ela também faria isso por mim.

– É, mas não é a mesma coisa…

– É a mesma coisa! Querer beijar ou transar, isso vem depois, é outra camada. Tem que começar com um cara que realmente te ame, e não só diga isso da boca para fora, ou nem mesmo diga, ou que nem sequer olhe pra você! Um cara que olhe pra você como se você fosse a pessoa mais importante do planeta Terra! Que não ache que você e todos os seus problemas e bagagens sejam um saco ou só peso morto pra carregar por aí, mas que valem a pena porque você é bonita ou o melhor que ele acha que pode conseguir! Um cara que saiba o quanto você é doida pra cacete por dentro e não tolera a sua maluquice, mas te ama por isso! Alguém que… que… que faria qualquer coisa pra te ajudar e te proteger e… e… e aceitaria uma porcaria de trabalho em casa pra estar presente e te ensinar como cuidar de você mesma, não importa o que todo mundo mais disser, ou que se senta e toma chá gelado com você todo santo dia e ouve todas as suas historinhas idiotas e de fato se importa com todas as coisas bobas que aconteceram na escola e… e… e que deixa você falar qualquer coisa sem

car bravo, contanto que seja verdade!

Estou de pé e gritando e agitando os braços e a Sarah está me abraçando forte e talvez chorando e há confusão, coisas sendo derrubadas e outras pessoas chamando o meu nome, mas é muito importante que a Marissa escute isso, mas estou sendo puxada para algum lugar e não é só a Sarah, mas outros braços também, e é tudo que posso fazer para continuar de pé e não tropeçar e perdi completamente a noção de onde estou ou de para onde estou indo até que sinto cheiro de fumaça de cigarro e de maconha e escuto a Faith gritar “Sai daqui!”, numa voz que nunca ouvi antes e sei que estamos atrás do barracão do zelador e estou escorregando até o chão espremida entre a Sarah e a Faith e não tenho certeza de quem mais, porque não consigo ouvir as vozes direito por cima de todos os soluços e lamentações e a estranha percepção tardia de que os latidos e uivos roucos e desesperados que parecem um animal morrendo estão vindo de mim…