Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 8
OITO
uando escuto o carro da tia Celia, me despeço da Molly e ando até o meio- o. Abro a porta, jogo a mochila no chão e entro.
– Sou eu – diz Sheila. – A minha mãe não pôde vir. O meu pai
vai receber gente do trabalho em casa, então ela está preparando um
grande jantar. Mas não pra gente, nós vamos comer pizza na sala.
Eu me incomodo com o jeito que ela fala minha mãe e meu pai. Tipo, sempre que eu falo dos meus pais para alguém, que descansem em paz, é sempre minha mãe ou meu pai porque eles não são pais deles; mas a Sheila e eu somos primas, e, mesmo que a mãe e o pai dela não sejam meus, eu os conheço e agora nós moramos juntos e isso só parece bizarro. Não sei, só me incomoda.
– Estou surpresa – declaro. – Me dar carona sem a sua mãe aqui signi ca que você está infringindo a lei, mas a sua mãe ainda é cúmplice se ela sabe disso. Sempre pensei nela como alguém que não infringe a lei por conveniência.
– A sua conveniência. Eu falei pra ela que você podia andar até em casa. Pena que ela disse não, você podia levar a sua amiga Molly contigo. Ela podia perder uns quilinhos.
– Quê?
Ela engrena o carro e aperta o acelerador.
– En m, não é contra a lei se estiver indo ou voltando da escola e eu tiver um bilhete assinado. O que eu tenho. Quer ver?
– Não consigo… eeei, peraí só um minutinho. Você tá de sacanagem? Deve estar, já que você sabe que eu sou cega e tal, então eu não consigo ver bilhetes ou o quanto uma pessoa é gorda ou magra. Ou você só está sendo má?
– Eu estava sendo sarcástica.
– Ah, jura? Você sabe o que essa palavra signi ca?
Silêncio.
– A escola ca a apenas três quilômetros – comenta ela. – Você pode mesmo ir andando se não quiser que ninguém te ajude.
– O que eu quero é ser tratada como todo mundo. Até você começar a andar de casa pra escola todo dia estou perfeitamente feliz em ser buscada também.
Silêncio.
– Obrigada pela carona.
– De nada.
Nossas mães e pais cariam muito orgulhosos.
O rádio é ligado. Notícias de rádio. Comerciais. Sheila troca de estação até encontrar alguma música. Não é nada que eu reconheça, mas isso não é nenhuma surpresa; não escuto muita música.
– Quem é essa? – pergunto.
– Quê?
– A cantora, quem é?
– Ha, ha. A gente não tem que conversar, sabe. É por isso que o rádio está ligado.
– Beleza, você também não sabe, podia só ter dito.
– O que você está falando? É a Kesha. “We R Who We R”. Todo mundo conhece.
Deixo as mãos caírem um pouco, o meu equivalente a revirar os olhos, mas duvido que a Sheila entenda.
– Era ela que tinha um erro de digitação no nome, né? Um cifrão em vez de um s?
– Meu Deus, Parker, você é… tão…
Meu estômago se aperta e eu sei por quê. É esse espaço para onde vou que ca em algum lugar entre querer irritar alguém por causa das suposições idiotas dela e me sentir mal de verdade por perder algo. Há muita coisa que eu perco por ser cega, mas há muito que não. Eu vi arco-íris quando era pequena, eu sei como são, não preciso enxergá-los o tempo todo. Mas existem muitas coisas novas com as quais não consigo me manter atualizada.
– Só estou dizendo que nem todo mundo conhece essa música.
– Você nunca ouviu falar da Kesha. – Ela diz isso de forma monótona, como se fosse tão inconcebível que ela não faça ideia de que emoção empregar.
– Você quer dizer a Keh Cifrão Ha… Sim, ouvi falar dela.
Não tenho mais nada a fazer, e agora está tocando alto, então escuto. Encostamos na entrada da garagem e paramos, mas Sheila deixa o motor ligado até a música acabar.
– Reconhece agora?
– Não. Nunca ouvi antes.
– Afe, você tá falando sério. Como isso é possível?
– Que foi, você acha que todo mundo no planeta escutou essa música?
– Não, mas em todas as escolas de ensino médio dos Estados Unidos, sim. Eu só achei… deixa pra lá.
– O quê? – Sinto na voz dela que é um daqueles momentos sentindo-se-estranha-perto-da-garota-cega. – Tudo bem, pode me falar.
– É só que… se eu fosse… sabe… Só pensei que você saberia mais de música que qualquer um.
Balanço a cabeça. Por onde começo?
– Com que frequência você escuta música e não faz mais nada?
– Não sei. Bastante.
– Eu quero dizer sem folhear uma revista, sem car na internet, sem fazer nada a não ser ouvir.
– Não sei, isso importa?
– Não pra você, mas quando você diz o tempo todo, você na verdade quer dizer que lê revistas, ca na internet, faz dever de casa, com música ao fundo.
– É claro. É o que todo mundo faz…
– Nem todo mundo. Pra mim, ler é escutar. Não posso ouvir um audiolivro e música ao mesmo tempo. E pra mim leva o dobro do tempo escutar alguma coisa do que leva pra você ler. Caramba, você sabe na hora se está na página da internet que você quer, enquanto pra mim leva cinco minutos só pra perceber que não estou e acertar os links pra página certa. Então eu posso passar quase o tempo todo lendo e trabalhando pra acompanhar a escola, ou posso ouvir bastante música e não fazer mais nada e garantir que quando eu me formar, se eu me formar, vou estar ferrada com nenhuma educação e aí o que eu vou fazer pra cuidar de mim mesma?
Depois de um instante, barulho de chaves.
– Tá boooom.
– Beleza, você não sabia. Não co brava com as pessoas por elas não saberem. Fico brava com as pessoas por elas acharem que sabem.
– Bom… o que você achou da música?
– Não sei. É toda sobre se libertar e se divertir, e a batida é chiclete, mas também parece o que provavelmente está se passando pela cabeça de uma stripper quando vê todos aqueles caras empolgados por ela, mas no fundo ela sabe que eles só querem saber dos peitos e da bunda dela e ninguém nunca vai amá-la de verdade. Então acho que eu gosto do ritmo, mas não da letra. Você gosta?
Silêncio.
– Eu gostava. Acho que você acabou de estragá-la. – Ela sai e bate a porta.
– A culpa não é minha.
– Faith e eu vamos ao Ridgeway no sábado fazer umas compras – conto à Sarah. – Quer ir?
– Calma aí, Parker, a ligação está ruim. Ou isso, ou você acabou de falar um troço totalmente aleatório. Se eu te pedir pra repetir, aposto que você vai dizer algo totalmente diferente dessa vez.
– A Faith e eu vamos ao Ridgeway no sábado fazer umas compras. Quer ir?
– Ha. Você quer que eu vá fazer compras. Com você e a Faith.
– E a Molly, mas ainda não falei com ela.
– Calma aí um segundo. O meu mundo virou de cabeça pra baixo. Tá, agora eu tô bem. Fala de novo.
– Ah, poxa, vai ser divertido.
– Quem é você?
– Você pode comprar uns moletons novos.
– Quê?! O que aquela vaca falou pra você?
Eu rio. E continuo rindo porque ela falou isso pra ser engraçado, de um jeito irônico autoconsciente, mas eu também sei que foi sincera.
– Ela tem que se vestir bem porque não tem namorado. E eu te digo que moletons são muito confortáveis.
Estou rindo demais para conseguir contribuir.
– É… isso… – digo, en m, de modo ofegante. – Eu sabia que tinha um motivo muito bem guardado pra você ainda estar com o Rick. Ele é a sua desculpa pra usar roupas confortáveis!
– Qual é a sua desculpa?
– Ah, você sabe que eu não preciso de uma, Sarah. O verdadeiro mistério é por que o resto de vocês precisa.
– É triste, mas é verdade. Não tenho outra resposta a não ser o que os olhos não veem, o coração não sente.
– Muito engraçado. Ah, escuta, a Molly é gorda?
– Hum, é. Por quê?
– A Sheila comentou. E isso resolve um pequeno mistério que estava no fundo da minha cabeça, porque eu escuto a Molly respirar com di culdade às vezes. E as cadeiras dela rangem. E o Rick fala do almoço dela de uns jeitos estranhos, mas sempre me esqueço de te perguntar sobre isso depois.
– É, ele é um babaca, mas não sabe disso. Ela com certeza é robusta, mas não enorme. Na verdade, acho que ela seria bem bonita se não fosse tão gordinha.
– É assim que você pensa? – digo. – Ser mais magra é mais bonito?
– Não. Você sabe o que eu quero dizer. Bom, ok, talvez você não saiba. O fato é que tem garotas que são loucamente bonitas e acabam indo pra Hollywood e nunca mais pagam por nada pelo resto da vida. Às vezes elas
cam muito gordas e não são mais tão bonitas assim, mas olhando pra elas
ainda dá pra saber que seriam lindas se perdessem peso. Estrutura óssea, eu acho. Acho que a Molly pode ser assim.
– Certo, isso está cando estranho.
– Hã? Desde quando você não gosta desse tipo de conversa?
– Quem falou algo sobre não gostar? Mas você sabe que eu não ligo pra aparência das pessoas a não ser que isso afete como elas são.
– Talvez isso valha pra Molly. Não a conheço bem o su ciente. Ela é difícil de decifrar.
– Você também, Sarah. Você também.
– Bom, alguns de nós têm que contrabalançar vocês que falam demais.
– Continuando…
– Beleza, quem é Jason?
– Quê?! O que é que aquela vaca te contou?
Sarah dá um risinho. Ela é sempre tão calada o tempo todo que considero isso uma vitória. Não consigo nem expressar como é bom fazê-la rir ou pelo menos as miniversões dela de rir.
– Ela falou que te viu no shopping conversando com um carinha gato…
– Ele estava me ajudando a comprar tênis! Ele era um funcionário!
– Não sei por que você está cando toda na defensiva. É só uma simples pergunta.
– Peraí… Eu nunca disse o nome dele pra Faith.
– Talvez ele estivesse usando um crachá.
Malditas pessoas e seus malditos olhos.
– Então… me fale sobre ele.
– O que há pra falar? Eu fui na Corrida Desenfreada, comprei um par de tênis de corrida, e o cara que me ajudou é da Jefferson. Não sei te dizer qual era a aparência dele, e ele soava… normal, acho, o que já é lucro nesse mundo. O que você quer que eu diga?
– Quero que você me diga por que a Faith cou dez minutos do lado de fora da loja te observando.
– Caramba, ela me espionou por dez minutos? Que bizarro.
– Ela comentou que, quando você fala com as pessoas, você normalmente ca que nem um tatuzinho, toda sombria e fechada, mas com esse cara você estava aberta e reluzente...
– Reluzente? Ela falou que eu estava reluzente?
– Citação direta. E que você estava gesticulando. Ela cou preocupada de você bater nele ou derrubar algo.
– Eu não estava gesticulando! – Será que estava?
– Ela falou que você estava sacudindo os braços que nem boneco de posto.
– Não estava.
– Tá bom. Não vou deixar você mudar de assunto. Responda à pergunta.
– Esqueci. Qual era mesmo?
– Pare de ser tão recatada. O que fez desse cara tão especial?
– Eu nunca falei…
– Parker!
– Tá legal! – Eu inspiro. – Não sei o que foi.
– Você está admitindo estar sem palavras? Cuidado, não sei se eu aguento o meu mundo virando de cabeça pra baixo duas vezes numa só conversa.
Inspiro de novo.
– Tudo o que posso dizer é que ele sabia como falar com uma menina cega.
– Caramba, menina, isso era tudo que você precisava dizer.