Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 10
DEZ
ão sei por que o meu cérebro faz isso comigo. Às vezes sonho com coisas que realmente aconteceram, quase do mesmo jeito que elas aconteceram e, em geral, são aquelas que tento especi camente não pensar quando estou acordada. Meu cérebro às vezes me sabota.
Sonhei com aquele dia perfeito dois anos e meio atrás. Por um instante, foi uma sensação maravilhosa quando acordei, quando eu ainda era a Parker que não sabia o que vinha a seguir, e então a realidade me deu um tapa na cara. Ainda hoje, minha mente ca tentando pensar naqueles bons tempos para resgatar aquele sentimento, mas eu sei a verdade e não vou permitir. Como antídoto, tento repetir a conversa que tive com o Jason no shopping.
Não funciona. A conversa idiota e que deu errado que tivemos ontem no estacionamento ca atrapalhando. Em vez disso, tento não pensar em nada, o que garante que os pensamentos que quero evitar vão correr para preencher o vazio.
Tento outra coisa. Projeto minha mente, utuando pelo corredor como um fantasma, passando por parentes que mal conheço, uma vizinhança de pessoas que mal me conhecem, indo para fora para o mundo vasto e em branco… enquanto de volta à minha cama, enrolada nos cobertores, estou despedaçada e sozinha. Sou grata pelos bons amigos que tenho, mas eles não conseguem preencher o espaço de uma mãe e de um pai que sempre vão me amar, independentemente do que aconteça, e nem amigos ou família podem dar aquele conforto especial que já senti e sei, de alguma forma, lá no fundo, que nunca mais vou sentir.
Bato no relógio, 4:47 da manhã. Estou agitada e sei que o sono não virá tão cedo. Não consigo impedir meu cérebro idiota de voltar ao sonho que acabei de ter. Elas já foram lembranças muito felizes e só as afastei por causa do que aconteceu depois. Talvez se eu puder separá-las, viver esses momentos de novo da maneira que eles foram na época, quando ainda eram felizes, antes de tudo desandar…
É primavera, o amanhecer num sábado. No caminho para correr no Campo Gunther, escuto música.
Às vezes isso acontece, quando há um evento na cidade ou uma festa ou um casamento, embora normalmente não tão cedo assim. Sempre inconveniente, felizmente raro, quase nunca com mais de um dia de duração. Dessa vez co especialmente desapontada porque preciso muito correr hoje. É o aniversário do acidente, quando minha mãe partiu e levou minha visão com ela.
Gostaria que aniversários não signi cassem nada para mim, a nal de contas, são apenas dias como outros quaisquer. Qual é o signi cado de dizer nesse dia no ano passado em vez de a essa hora ontem ou nesse dia da semana um mês atrás… é tudo arbitrário. Mas lógica não ajuda. Nesse dia, há exatos seis anos, perdi mais do que achei que poderia suportar, e não consigo parar de pensar nisso.
Quase volto para casa, mas há algo estranho com a música. Não com a própria música, mas pelo fato de ser o único som. Sem vozes, sem passos, sem sussurros, absolutamente mais nada. Continuo seguindo até chegar ao campo.
É a trilha sonora de Grease: Nos tempos da brilhantina.
– Scott? – chamo.
Nenhuma resposta.
Não pode ser uma coincidência. A mãe dele toca tanto esse CD – faz com que se lembre do pai do Scott – que chegou uma hora que aprendemos todas as músicas e de vez em quando saíamos cantando quando estava lá.
Ando pelo campo na direção da música até car de pé em cima dela. Eu me agacho e encontro um aparelho de CD. Em cima dele tem um pedaço grande de papel pesado, tipo uma cha enorme de arquivo. Eu o pego e sinto saliências. Braille.
Parker. Você está ocupada hoje? Quero te mostrar algo. Me mande uma mensagem se você quiser e eu estarei aí em dois minutos. Scott.
Eu sorrio. Braille nível 1, por extenso. Feito com o que parecem umas gotinhas de cola. Deve ter levado séculos. O que ele está inventando?
Mando uma mensagem para ele: Cadê vc?
“Na esquina da Orchard com a Hess.” O leitor de tela para as mensagens dele está programado com um sotaque australiano. Ele ca louco quando escuta.
Tá de bobeira aí?
“Esperando pra ver se você escrevia.”
O que vc quer me mostrar?
“Um monte de coisa.”
Isso está levando muito tempo.
Vem cá.
Como o prometido, escuto uma bicicleta, bem mais rápido do que dois minutos.
– E aí – diz ele.
– E aí. O que você está fazendo na rua tão cedo?
– Eu quero te mostrar uma coisa, mas antes quero te levar pra tomar café da manhã.
– Sei lá. O meu pai…
– Já falei com ele. Ele quer que você mande uma mensagem pra ele se decidir ir.
– Ir aonde?
– Na Jody.
Eu gargalho.
– Fica a quilômetros daqui.
– Onze quilômetros e meio. A gente deve levar uma meia hora.
Eu gargalho de novo.
– Como assim, na sua bicicleta? Não tem a menor chance de eu andar na garupa da sua bicicleta! Não por onze quilômetros e meio; nem por onze metros e meio!
– Não é a minha bicicleta. É a sua.
– Hã…
– Bom, só por esse m de semana. Eu aluguei pra você. É uma bicicleta com dois selins.
– Como assim? Ela se guia sozinha?
Ele canta a resposta:
– É uma bicicleta construída para duas pessoas. Eu guio e freio. Você pode pedalar para fazer seu exercício matinal, já que interrompi a sua corrida.
– Você alugou…? – E eu me sinto leve na hora, como se a gravidade de repente tivesse caído pela metade. Os meus amigos e eu sempre fazemos pequenas coisas uns pelos outros, bom, eles mais do que eu para ser sincera, porque para mim é mais difícil, mas isso é maior do que a maioria das coisas.
– Quer ir?
Eu concordo com a cabeça. Enquanto mando uma mensagem para o papai, o Scott esconde o aparelho de CD nos arbustos.
É a minha primeira vez numa bicicleta desde antes do acidente. Leva alguns blocos para aprender a se inclinar junto com as curvas… agora é como voar. Andar de bicicleta antes nunca foi assim. Sem ver o mundo passar em árduos dezesseis quilômetros por hora, só sentindo, parece bem mais rápido. Já tive amigos me contando que gostam de fechar os olhos em montanhas-russas para sentir a empolgação de se mover rápido no escuro. Eles estão certos, é estimulante.
– Está se divertindo?
– Sim! – grito ao vento e pedalo forte.
Gostaria de poder trocar de lugar com o Scott para que ele pudesse sentir o que estou sentindo, mas não posso guiar para ele e não quero que ninguém mais faça isso.
Esse pensamento inesperado, o egoísmo dele, me choca. Por que eu não quereria que o meu melhor amigo sentisse essa empolgação só porque outra pessoa teria que estar nessa bicicleta com ele? Eu sei a resposta assim que pergunto. Querer algo tanto assim de repente a ponto de me sentir possessiva faz meu estômago se revirar.
Logo que abrimos a porta da Lanchonete Jody, somos saudados por gritos: Sarah, Faith e Philippa. (Isso foi antes da Philippa se mudar pra Grécia e antes da Faith ter trilhado seu caminho para se tornar parte do Trio Dinâmico.) O Scott confessa que mandou uma mensagem para todo mundo quando eu concordei em ir tomar café e o papai buscou todas elas e as deixou lá enquanto pedalávamos. Pela uma hora e meia seguinte nós comemos panquecas com morangos e camos lambuzados de melado e jogamos morangos e rimos alto e ninguém que trabalha lá chama nossa atenção.
Quando esgotamos as possibilidades, ligamos para o papai para pedir uma carona. Philippa insinua que quer uma carona na bicicleta. Eu não falo nada, esperando que o assunto morra, mas ela pede outra vez e o Scott diz que todo mundo pode se revezar nela mais tarde, já que está alugada pelo m de semana inteiro. Ele fala de um jeito que ca bem para Philippa, mas também ca claro que vai voltar comigo de bicicleta para casa.
Eu pedalo mais devagar na volta, mas não porque esteja cansada.
– Você falou que queria me mostrar algo. Era a bicicleta? Ou era o café da manhã? – Eu não acho que seja nenhum dos dois, espero que tenha algo mais, mas não quero que soe como se eu estivesse esperando alguma coisa ou que não estou agradecida por ganhar tanto assim.
– Não – responde ele por cima do vento. – Está na sua casa.
– O que é?
– Você vai descobrir.
Quando nós chegamos em casa, todo mundo está esperando e nos zoa por demorarmos tanto. Depois de alguns minutos caóticos, incluindo um pedido estranho para ter certeza de que todos fomos ao banheiro, o Scott nos arruma no longo sofá da sala e liga a televisão.
– A gente vai assistir à TV? – pergunto. – Você sabe que eu não consigo enxergar, né?
– Ninguém vai assistir a nada hoje! – exclama ele.
Ele desaba no sofá do meu lado.
– Estenda a sua mão.
Eu estendo e ele a levanta até o rosto dele. Ele está usando uma venda.
Eu rio e ele diz:
– Todos nós estamos usando.
A gente sai se debatendo para que eu possa sentir as vendas de todo mundo. A Sarah está usando a minha Branca de bolinhas azuis, Philippa está com a minha Amarela de carinhas felizes, Faith veste a Toda escarlate e o Scott com a Noite estrelada. Eu tinha escolhido a Olhos arregalados esta manhã, o que agora parece apropriado.
Nós nos acomodamos de novo, mais ou menos, enquanto esperamos o
lme começar. Eu penso no quanto o Scott e eu estamos nos tocando:
nossos braços, nossos quadris, nossas coxas, esmagados juntos no sofá. Esse tanto de contato não é assim tão incomum; o que é novo é o quanto eu estou prestando atenção.
As onze horas seguintes são dedicadas à trilogia de O senhor dos anéis, com a audiodescrição ligada. É hilário. Escutar o narrador fazer descrições inexpressivas de forma rápida e desapaixonada das expressões chorosas do Frodo, echas penetrando globos oculares, os olhares emocionantes de amor imortal da Arwen e a decapitação de incontáveis orcs nos deixam urrando de tanto gargalhar num momento e mandando o outro car quieto no outro.
O papai faz sanduíches para o almoço e pede pizza para o jantar e nós comemos os dois sem parar os DVDs ou tirar nossas vendas. Já está de noite quando o último lme acaba.
Scott e eu nos apertamos lado a lado no banco da frente do carro, enquanto as meninas sentam atrás e o papai leva cada uma para casa. O Scott volta com a gente.
Nós dois caminhamos até o Campo Gunther para pegar o aparelho de CD dele e, depois de passarmos tanto tempo esmagados juntos no sofá, estamos nos esbarrando livremente enquanto descemos a calçada que nem bêbados. Na metade do caminho para o campo, trombamos de novo e ele pega a minha mão.
Isso não me surpreende e percebo que era o que eu queria enquanto andávamos nos tocando “acidentalmente” toda hora, mas sem falar nada a respeito. Eu aperto a mão dele.
No meio do campo, eu paro. Quero dizer algo, mas tenho medo de não sair do jeito certo ou soar idiota ou, de alguma forma, estragar tudo. Estou sobrecarregada, e não é só porque estou de mãos dadas com o meu melhor amigo.
O que aconteceu hoje está óbvio. Depois de quatro anos me vendo car um trapo nesse aniversário, ele orquestrou uma forma de me manter ocupada e rindo o dia inteiro. E fez isso como se fosse apenas um dia qualquer, sem dizer uma palavra sobre o que de fato estava fazendo.
Estou tão agradecida e animada que não sei o que fazer, mas tenho que demonstrar para ele que entendo e o quanto isso signi ca para mim.
– Parker? – diz Scott. – Você está bem?
Ele está me encarando, segurando a minha mão esquerda. Eu levanto a mão direita um pouquinho e ele a pega também.
– Obrigada.
Quero dizer mais, mas só acrescento:
– Por hoje. Obrigada por hoje.
Scott ri suavemente.
– O que foi?
– O seu lenço tá torto.
Não quero soltar as mãos dele, então balanço a cabeça um pouquinho para ajeitá-lo e os dois olhões arregalados chacoalham. Devo parecer uma idiota.
– É como se você estivesse olhando… sei lá… toda vesga.
– Ajeita pra mim.
Eu o solto de um jeito relutante e ele arruma o meu lenço. Scott deixa as mãos acima das minhas orelhas e eu inclino a cabeça até nossas testas se tocarem. Ficamos ali por um tempo, inclinando as cabeças para lá e para cá um pouco, como se estivéssemos dançando sem música. Aí ele deixa as mãos caírem nos meus ombros e escorrega a cabeça para a frente até nossas bochechas estarem coladas. Ele escorrega a bochecha devagar pela minha. Eu paro de respirar quando os seus lábios deslizam pela minha pele até ele me beijar de leve nos lábios.
Eu irrompo em lágrimas.
– Ah, Parker, não, desculpa! Desculpa, Parker. Por favor…
– Não, não, não. – Coloco as mãos no rosto dele e tento beijá-lo algumas vezes, chegando perto, de forma desajeitada, do lugar certo nos lábios dele. – Tudo bem…
Mas o meu choro vira um soluçar e não consigo parar. Quero perguntar se ele assistiu a algum vídeo no YouTube sobre como beijar uma garota cega porque, se não assistiu, ele podia fazer um. Ou dizer a ele o quanto eu não sabia que era possível se sentir assim e como estou tonta com isso. Ou como ele me entende tão bem que conseguiu deixar esse dia perfeito para mim, e se importou de verdade em fazer isso, quando eu estava esperando pelo meu dia anual de sofrimento completo. E tudo isso está misturado à dor inevitável que me esmaga nesse dia a cada ano, o que deixa tudo ainda mais indescritível.
– Eu não quis…
– Psiiiiu! – digo, recuperando um pouco da minha voz. – Você sabia que, em algum momento, eu ia chorar. Graças a você eu quase aguentei o dia inteiro. – Passo os braços em volta dele e empurro o rosto no pescoço dele. Ele me abraça enquanto eu liberto as lágrimas que meus olhos inúteis produziram e precisam liberar.
E assim começaram as duas melhores semanas da minha vida antes de tudo se espatifar e pegar fogo. E acontece que não sou uma daquelas garotas que conseguem se sentar confortavelmente em dissonância cognitiva, aproveitando os sentimentos como se fossem reais enquanto também sabe, lá no fundo, que não são, como se fosse um cenário de Hollywood: uma bela casa na fachada, mas sem cômodos de verdade por dentro. A beleza daquele dia, daquela época, não foi apenas o que aconteceu, ela teve signi cado. Só que mais tarde eu descobri que não signi cou o que pensei. Aquela percepção não destruiu apenas o futuro, ela arruinou o passado. E como muitas das minhas outras tragédias, os meus sonhos não me deixam esquecer dela.
Deitada na cama, me arrependo de ter deixado essas memórias voltarem. Estou tremendo, meu rosto está esquentando, minha garganta se apertando… mas o meu Quadro de Estrelas atrás da porta está com 85 estrelas e eu vou me xingar se quebrar a minha marca por causa de um menino idiota.
Ainda assim, como pode aquele menino que me abraçou naquele dia ser o mesmo que me enganou duas semanas depois? Não encaixa. Na época, eu me fechei e me recusei a pensar a respeito ou revirar naquelas lembranças maculadas, mas agora, analisando tudo de novo, não faz sentido. E, por baixo de tudo, escuto uma vozinha que sempre me recusei a ouvir querendo saber por que aquilo aconteceu, como foi sequer possível.
Não importa. Não vou ser uma daquelas garotas que se apaixona pela metade legal de um cara e desculpa ou fecha um olho, ou os dois olhos, para a metade canalha. Dane-se, Scott, eu não me importo como aquilo foi possível. Só foi e nada mais importa. Regra Número Um. Regra Número In nito. Pronto.
Bato de leve no relógio de novo. 4:58. Ainda escuro lá fora.
Não importa. Afasto as cobertas e me levanto.
Não preciso de luz para correr. Não preciso de luz para nada.