Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 16
DEZESSEIS
sse ainda é o seu número, Scott?
É Domingo do Anime com o Petey mais uma vez. Na verdade,
não quero car sentada no sofá na frente dessa explosão de barulho eletrônico, mas isso virou um momento com o Petey e também não
estou a m de tentar desfazê-lo. Acrescentei uma estrela dourada com sucesso ao meu quadro ontem, mas é bom que eu não esteja controlando a minha corrida. Só corri duas metades de corridas de tiro e voltei para casa fazendo jogging. Ninguém estava acordado para ver que eu tinha cado fora menos tempo do que o normal. Tomei um banho longo e, àquela altura, o Petey estava de pé e nossa rotina começou como se a noite passada nunca tivesse existido.
Mas aconteceu e hoje está acontecendo. Então botei o fone na orelha oposta ao Petey e z algo que não fazia há anos.
A resposta vem mais rápido do que eu espero.
– Bom dia, colega.
Ele tem razão, eu nunca mudei a voz dele de Homem australiano.
– Você está perdendo! – exclama Petey. Ele não está bravo, só não quer que eu perca nada.
– É só pra mandar mensagem de texto – justi co. – Mas, na verdade, estou perdendo a maior parte, a não ser que você me conte o que está acontecendo.
Ele tenta por um minuto ou dois, mas está tão vidrado na ação que não faz muito sentido, ou talvez o programa não faça sentido. Isso mais um monte de nomes e palavras japoneses e todas aquelas coisas inventadas, tipo superditados, que só signi cam alguma coisa para fãs de verdade. As explicações do Petey diminuem e param sem ele perceber.
Espero para ver se o Scott diz mais nessa ocasião importante, mas ele não diz, então pressiono. O que quer que ele estivesse tentando me dizer no oitavo ano, eu preciso ouvir agora.
Por que você fez aquilo?
Essa sensação que tenho é rara. É como me senti quando o treinador Underhill quase revelou minhas corridas matinais para o refeitório e depois me falou que tinha me visto correr. É um tipo de… pavor, acho. Sim, o que estou sentindo agora, mandando mensagens para o Scott, é pavor.
Tempo o su ciente para outra batalha completa de anime se passa, ao menos eu acho que é uma batalha, antes que o Scott me responda. Eu não o apaguei do meu telefone quando tudo aconteceu, mas o silenciei para acabar com os toques incessantes. Agora o meu celular só vibra um pouco.
– Desculpe por ter estragado o seu encontro.
Hã?
Do que você está falando?
– Jason me contou que você saiu correndo do carro dele depois que te contou o que aconteceu com o Gerald e o Isaac. Ele está confuso, mas não contei nada pra ele. Eu imaginei que você não queria que eu zesse isso.
Ele está certo, é claro… droga. Não quero que ele fale com ninguém sobre nada disso, só que…
O Jason precisa saber, mas não quero ser eu a contar pra ele. Você faz isso. Hoje.
– Não vai ser fácil admitir isso, mas vou. Vou fazer isso amanhã pra contar pra ele pessoalmente. Ele é um cara legal. Fico feliz que vocês estejam juntos.
Quero responder a isso, mas tenho que me manter no foco.
Quero saber por que você fez o que fez na Marsh.
Minutos se passam sem uma resposta.
Perdi a noção do tempo e agora quero que o anime do Petey dure mais. É a fachada perfeita para essa conversa. Eu podia ir me esconder no meu quarto como a Sheila, mas isso não seria do meu feitio e não quero chamar mais atenção do que chamei na noite passada, em que eu botei a culpa em algo que comi.
– Por que perguntar agora?
Não é a resposta que eu espero, principalmente depois de minutos em que pensei que ele estava digitando. É estranho, já que ele queria tanto explicar na época em que aconteceu e eu não deixava.
Eu nalmente estou pronta para escutar.
Isso é sincero, embora toda a verdade seja mais complicada. Por mais que eu queira ignorar isso, agora vejo que vai continuar me perseguindo, pulando na minha frente, jogando na minha cara como foi ontem. Por algum motivo, tudo está diferente daquela época e preciso entender por que… ou isso, ou vou ter que esquecer de vez.
– Não acho que seja uma boa ideia desenterrar tudo de novo.
O meu pavor muda para raiva. Estou tremendo um pouco por causa da adrenalina liberada no meu sangue e tenho que redigitar meu texto seguinte algumas vezes para me livrar dos erros de digitação antes de enviar.
Talvez você tenha enterrado, mas eu não.
A resposta dele vem rapidamente.
– Posso te ligar?
Minha resposta vai ainda mais rápido. Não.
Agora estou esperando de novo, pensando se ele está levando muito tempo porque está digitando ou só pensando. O que recebo é um pouco dos dois.
– Explicar vai parecer que eu estou criando desculpas, mas não tem desculpa e não estou tentando justi car aquilo, tá?
Certo. Só me conte.
Agora imagino que eu vá ter que esperar e parece que sim. Tento entender o programa do Petey, até fazendo algumas perguntas, mas não adianta; não consigo me concentrar, e não tenho certeza se importaria se eu conseguisse. Quando en m chega a mensagem do Scott, ela é tão longa que está quebrada em pedaços.
– A gente cando juntos era tipo um menino conseguindo ser um astronauta. Não quando ele cresce, mas neste exato momento, hoje, faça a sua mala, você está entrando num avião pra NASA. Quando eu contei pros meus amigos, eles queriam que eu provasse que a gente era mais do que amigos. Eu falei que era idiotice, mas a gente não tava tentando esconder que tava junto e outras pessoas se beijavam em público e não era nada demais. Então eu contei pra eles da gente indo pra sala da sra. Kincaid na hora do almoço e, se eles olhassem pela janela, podiam ter sorte. Achei que não tinha problema, já que sempre tinha a chance de alguém olhar lá pra dentro e a gente nunca se preocupava com isso. Eu não sabia que eles estavam se escondendo naqueles armários até que o Isaac começou a rir. Mas quando você me empurrou, eu vi a expressão no seu rosto e entendi que nada daquilo importava. Parecia um sonho maluco onde coisas idiotas fazem sentido e logo que você acorda olha pra trás e vê o quanto era imbecil e se pergunta por que um dia acreditou naquilo. Fiquei meio na dúvida em contar pros garotos onde a gente estaria, mas não vi muito problema, mas, seguindo você pra fora daquela sala, eu percebi o quanto era obviamente idiota e como aquilo deve ter parecido pra você. Eu soube que os meus dias de astronauta tinham acabado. E eu também soube que faria qualquer coisa, por quanto tempo fosse preciso, para tentar melhorar a situação, porque eu nunca superaria como a Parker Grant poderia ter
cado com qualquer pessoa, mas me escolheu e eu estraguei tudo.
– Grande P? – diz Petey e eu pulo. – Você tá respirando de um jeito esquisito.
– É, Pequeno P… Tipo… o programa acabou? – Eu luto só para expirar e envolvo minha cabeça no que o Homem australiano acabou de falar numa entonação dura e esquisita.
– Só aquele episódio. Vai começar outro em um minuto. Quer assistir, quero dizer, ouvir?
– Tá bom.
– Legal!
Os comerciais são altos, eu aumento o volume do meu fone de ouvido e escuto de novo a mensagem do Scott. E de novo. E de novo.
Ele achava que estar comigo era tipo conseguir ser um astronauta. Que eu o escolhi quando poderia ter tido qualquer pessoa. A raiva que eu senti chegando mais cedo se dissipou e… eu sinto falta dela. Me sinto perdida numa escuridão in nita. Nunca teria imaginado, nem em um milhão de anos, que a minha raiva desaparecer faria com que eu me sentisse tão intensamente sozinha assim. Sozinha e desgraçadamente triste. Mais do que triste.
Ele também disse que nunca pararia de tentar melhorar a situação.
Eu mando uma mensagem de texto, Você parou de tentar.
Recebo uma mensagem no instante logo após enviar a minha, ele deve ter mandado ao mesmo tempo.
– Só porque eu não sabia que eles estavam lá, não ca tudo bem. Eu contei onde poderiam nos encontrar sem te avisar e é isso que importa. Espero que você nunca me perdoe.
Eu toco de novo: “Espero que você nunca me perdoe.”
Será que é erro de digitação? Não, nem o corretor ia mudar um possa me perdoar por nunca me perdoe.
Será que eu devo sentir pena dele? Não… ia deixar as coisas mais fáceis de acreditar, mas não posso. Apesar do que aconteceu, ele nunca mentiu ou tentou me manipular. Ele não está jogando verde. Acho que ele realmente não quer que eu o perdoe…
Bzzz.
– Não parei.
Levo um instante para perceber que ele quer dizer que não parou de tentar melhorar a situação.
Você parou depois que veio na minha casa naquela última vez.
– Eu só parei de tentar dar desculpas.
O que o meu pai falou?
– Ele me disse que eu tinha estragado tudo. E ele tinha razão. Falou que eu não era mais bem-vindo na sua casa e pra te deixar em paz ou eu só ia piorar as coisas. Aí z isso. Tenho tentado te dar o máximo de espaço que posso, mas não me mudaram pra uma outra aula de trigonometria. Estou tentando deixar as coisas normais pra você, não esquisitas.
Você não quer que eu te perdoe? Ou aquilo foi um erro de digitação?
– Não perdoe ninguém que quebre a sua con ança. Regra Número In nito. Algumas coisas são imperdoáveis.
Imperdoáveis.
Eu…
– Você tá respirando de um jeito esquisito de novo – comenta Petey.
Quack.
Eu me atrapalho com o telefone para tocar a mensagem da Sarah e a Matrona sulista fala por ela.
– O Rick e eu terminamos ontem à noite.
Deixo Petey com os desenhos, subo correndo para o quarto e ligo para a Sarah. Ela atende no primeiro toque.
– O que aconteceu? Você tá bem?
– Tô bem – responde, e ela parece mesmo bem.
– Como é que aconteceu?
– Eu liguei pra ele e falei que a gente devia terminar, apesar de não ter muito o que terminar.
– Você terminou pelo telefone?
– É, eu sei. A gente cou falando que isso é covardia, mas, quando chegou a minha vez de fazer, eu percebi que, se alguém termina com você, você quer mesmo estar preso com a pessoa num café ou na casa de alguém? É melhor dar a opção de desligar e cair fora daquilo o mais rápido possível. E foi o que aconteceu. Ele queria desligar bem rápido.
– Qual foi o motivo que você deu? Qual foi o motivo?
– A gente só tava junto por hábito. Ele tentou argumentar, mas… vai
car aliviado mais tarde, se já não estiver. No fundo eu acho que ele sabe
que eu estou certa.
– Caramba. Eu não fazia ideia.
– Você fazia uma certa ideia. Você vem chamando ele de meu Mais ou Menos Namorado.
– Só pelos padrões de Hollywood. Comparados aos lmes, vocês eram bem indiferentes, mas lmes não são reais. Achei que vocês eram só… mais reais, acho. Nada mudou nos últimos tempos, pelo menos até onde eu sei.
Silêncio.
– Tem certeza de que você tá bem? – Parece haver algo que ela não está me contando.
– Sim. Como foi o seu encontro com o Jason?
– Quê? Foi… foi legal. Podemos falar sobre isso depois. Você estava com o Rick fazia quase dois anos, a gente não vai falar sobre isso por mais do que trinta segundos? Tipo, por que ontem à noite?
– Só fazia tempo que estava pra acontecer e en m aconteceu.
– Mas você nunca falou nada.
– Não é como se a gente tivesse brigado ou feito algo que valia a pena comentar. As coisas só estavam meio “blé”. Aí passear no shopping o dia inteiro me lembrou de que tem um monte de caras por aí, sabe, então pensei que está na hora de tentar alguma coisa diferente.
– Aqueles caras não estavam atrás da gente.
– Eu sei, mas você saiu com um cara que acabou de conhecer, e outras coisas.
– Que outras coisas?
– Ah, sabe, só… coisas.
– Eu não sei. Por que você não me contou?
– A gente não fala muito sobre o Rick.
– Porque você não fala. Como você está se sentindo a respeito do Rick não é algo que eu ia puxar assunto sem nada acontecendo. Eu te conto tudo… só achei que você… também me contasse tudo.
Silêncio.
– Não tem nada pra contar. Na verdade, não é nada demais.
– Mas… – Não consigo saber se o término dela é grande coisa e está tentando se fazer de tranquila ou se não é mesmo nada demais para ela, mas é para mim. Não porque ela tenha feito isso, mas porque tenha acontecido sem me dar nem uma pista.
A gente se fala muito todos os dias, mas não sobre tudo. Ela não gosta de falar sobre o pai malandro dela, então eu não pergunto e tento não falar muito sobre o meu pai legal. Eu achava que a gente não falava muito sobre o Rick pelo mesmo motivo, só que ao contrário, porque ela não queria esfregar na minha cara que tinha um namorado.
Mas Sarah não é apenas a minha melhor amiga, ela é a minha única amiga realmente próxima no dia a dia. Faith e eu temos uma história antiga e posso contar com ela, mas a gente não sabe mais dos detalhes da vida uma da outra. Agora estou percebendo que a Sarah e eu quase não falamos sobre a vida dela fora da escola. Nem sobre o pai dela, que basicamente só manda cartões no aniversário dela e no Natal, isso quando ele esquece. Nem sobre a mãe dela, que rala como contadora para elas conseguirem manter a casa e não terem que se mudar para um apartamento. E, aparentemente, nem sobre o namorado, apesar de ela vir repensando bastante o relacionamento deles ultimamente e ter ligado para ele na noite passada para terminar. O fato de ela ter passado por tudo isso sem compartilhar nem uma pista disso comigo… está fazendo meu estômago se apertar num nó forte e frio.
– Mas o quê? – pergunta Sarah.
Algo solto está se balançando dentro de mim. Talvez eu me sinta com raiva, mas de nitivamente triste que a Sarah e eu não sejamos tão próximas quanto pensei… Será que estou sendo egoísta, pensando em mim quando minha melhor amiga acabou de terminar um relacionamento de dois anos? E o meu impulso natural de perguntar isso diretamente, de soltar verdades frias e duras, não vem e não sei por quê. É como se as outras verdades que eu cuspo com facilidade não signi cassem nada, mas essa signi ca algo, e isso a está deixando diferente.
– Parker, tem alguma coisa errada?
De nitivamente, tem algo rolando. Ela não está usando a voz questionadora normal. Ela soa descon ada, ou culpada, não sei, como se soubesse que eu estou chateada, mas não quisesse admitir.
– Não – respondo, impressionada que eu pareça normal. – Só estou pensando em você e no Rick.
– Tá tudo bem, sério. – Ela parece aliviada. – Me conte do seu encontro com o Jason.
– Na verdade, eu tava no meio de um negócio com o Petey. Só queria ter certeza de que você tava bem. Depois te conto.
– Ah, tá bom. Mas foi bem? Você vai encontrar com ele de novo?
– Acho que sim.
– Tá bom, então… a gente se fala depois?
– Isso.
Silêncio.
– Tem certeza de que não tem nada errado? – pergunta ela.
– Sim, tudo ótimo, a gente se fala depois – digo na minha voz relaxada, apesar da dor gélida no meu peito. Eu desligo.
E a menos que eu esteja me esquecendo de algo trivial de quando éramos criancinhas, é a primeira vez que eu já menti para a Sarah.