Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 5
CINCO
u juro por Deus, Rick, é melhor você não estar soprando na comida.
Toda sexta é Dia de Churrasco e eu odeio. Rick sabe que o
cheiro de feijões cozidos e de milho queimado revira o meu
estômago e gosta de soprar o aroma na minha direção.
– Está quente – justi ca ele com sua voz sorridente.
– Já faz dois anos que a comida aqui nunca foi quente – diz Sarah.
– Nem o molho “quente” de ontem que era pra ser apimentado estava assim – acrescenta Molly. – O molho suave provavelmente era só ketchup grosso.
– Eca – comento. – Isso vai te ensinar a não esquecer o almoço.
– Com licença – diz uma voz que não conheço. Parece um professor de pé do nosso lado.
Ninguém fala nada. Nem sei dizer se ele está se dirigindo a nós. Dou um golinho na minha 6-C.
– Sou o treinador Underhill. Posso falar com você um instante, Parker?
Eu engasgo um pouco e tusso na dobra do meu braço.
– Comigo? Eu já preenchi todos os requerimentos de educação física. Pode falar com a treinadora Rivers, ela vai lhe dizer.
– Não é isso. Eu vi você correndo esta manhã.
Os pelinhos na minha nuca se arrepiam.
– Correndo? – comenta Molly.
– Esta manhã cedo. Eu…
– Ei, ei, espere um minuto! Podemos conversar lá fora? – Tropeço para levantar, pegando a bengala.
– Sim, é claro. Desculpem interromper.
Eu o guio para o corredor, andando devagar pela multidão.
– O senhor pode achar um lugar onde ninguém consiga nos escutar?
Uma porta range se abrindo à minha direita.
– Esta sala está vazia.
Quando entramos, a porta se fecha.
– Estamos sozinhos? Tem certeza?
– Sim. Você está com medo de alguma coisa? Ou de alguém?
Medo, não. Pavor, sim. A ideia desse professor de educação física me observando correr esta manhã parado na cerca já é ruim o bastante, e se isso se espalhar…
– Quem contou ao senhor?
– Ninguém. Eu moro perto, em Manzanita. Já faz tempo que você corre por lá?
– Anos. Por favor, não… espere, o senhor contou a alguém?
– Não, mas…
– Por favor, não conte!
O pavor se sobrepõe ao medo e quase vira pânico. Correr no Campo Gunther é um dos ingredientes principais da minha sopa de sanidade. Se as pessoas descobrirem e forem assistir de forma idiota ou, pior, começarem a aparecer e eu não conseguir nem ter certeza de que o campo está vazio… eu não teria como saber que elas estão lá. Como esta manhã. Eu teria que parar.
– Tem alguém incomodando você?
– É só que é… particular. E eu não sou cega para o fato de ser um show de horrores. Não quero uma plateia. Por favor, não conte a ninguém.
– Certo, não vou contar.
– Por que o senhor não falou nada esta manhã?
– Você não teria motivo para acreditar que eu sou um professor em vez de algum desconhecido aleatório falando com você sem mais ninguém em volta. Eu não queria que você se sentisse insegura.
– Eu consigo lidar com desconhecidos, faço isso o tempo inteiro. Mas não consigo vê-lo se não disser nada, não sei que está lá e é como se estivesse me espionando.
Também conhecido como Regra Número Nove.
– Não seria a mesma coisa com qualquer um que passasse?
– É diferente com gente que eu conheço ou que me conhece.
– Sei – diz ele, mas não acho que saiba.
– Tudo bem, o senhor não sabia. Apenas não conte a ninguém. Nem todos os meus amigos sabem.
– Não é um show de horrores. A única maneira de alguém saber que você não consegue enxergar é aquela venda enorme voando atrás de você como uma bandeira. É uma tremenda visão.
– Exatamente.
– Você é uma corredora muito segura. Já teve um cão-guia?
– Não. Nunca precisei de um, não para o que eu faço na maior parte do tempo. Talvez mais tarde quando eu me formar na escola e precisar circular sozinha em mais lugares desconhecidos e cheios.
– Você se importa se eu perguntar quem te ensinou a correr?
Estou me sentindo melhor de saber que o segredo ainda está guardado, mas isso me cansa.
– Por que alguém precisaria me ensinar como correr?
– Bem, há formas e formas de correr. Você parece que tem treinado.
– Ah. O meu pai corria. Ele me ensinou algumas coisas. Como respirar e coisas assim.
– Você já pensou em tentar correr em pista de corrida?
Eu rio.
– Não. O senhor entende por que eu corro às seis da manhã no Campo Gunther, né? É grande, é vazio, é quadrado. Sem pistas para se manter nelas? Sem gente em volta?
– Uma porção de corredores tem algum nível de diminuição da capacidade visual. Se não se importa de eu perguntar, o quanto você consegue enxergar?
– Hum… não enxergo nada.
– Entendo, mas quero dizer, você ainda vê alguma luz, certo, só não consegue focar?
Não gosto de falar sobre isso, mas decido dar um desconto para ele.
– Não. Tudo preto. Um acidente de carro dilacerou meus nervos ópticos. Meus olhos estão bem, só… que sem luz.
– Sinto muito. Eu não deveria ter presumido…
– Tudo bem. A maioria das pessoas cegas consegue enxergar um pouco. O senhor só estava apostando na possibilidade mais provável.
– Não, é que achei que você tinha problemas com sensibilidade à luz porque… qual outro motivo para usar vendas?
Eu gargalho.
– São só roupas. Que nem usar um chapéu. Uma declaração de moda que ninguém pode copiar porque, se zer isso, não vai conseguir enxergar.
Ele não ri, o que é triste, mas então escuto um sorriso na voz dele quando fala:
– Eu só estava curioso. Na verdade, nas Paralimpíadas, todos os corredores com a visão debilitada usam óculos pretos de natação para os que conseguem ver um pouco não terem vantagem.
– Isso é… horrível. – Eu dou risada.
– En m, todos eles têm corredores que os guiam. Se você quisesse correr em pista, poderíamos arrumar um esquema.
– Não, obrigada – declaro e, para mostrar que acabou, estendo a mão para a porta, mas só encontro ar. Ando devagar na direção dela, balançando o braço.
– Não há nada a temer.
Eu bufo e minhas mãos encontram a maçaneta.
– Eu pareço estar com medo?
– Não quando estava correndo. Pareceu há um minuto, quando achou que as pessoas podiam ver você correndo.
Ah, bom, isso é totalmente diferente.
Molly senta comigo na escada, esperando por tia Celia. Agora virou rotina ela andar comigo para o estacionamento para car batendo papo até minha carona chegar.
Não estamos conversando. Penso nisso, como sempre. Ou a gente cou sem assunto depois de apenas uma semana, ou ela está num humor que não consegui detectar ou está pensando em como fazer uma pergunta constrangedora ou…
– Você conhece o Scott Kilpatrick?
Droga.
– Conhecia – digo casualmente. – Da Escola Fundamental Marsh. Por quê?
– Você sabe que ele senta na minha frente na aula de trigonometria?
– Sim, escutei a voz dele. Você gosta dele ou algo assim?
– Não o conheço o bastante.
– Muita gente não deixa isso atrapalhar um bom crush – declaro.
– Às vezes ele olha pra você.
Fico tensa. Não quero ter essa conversa, mas também não quero chamar atenção para isso.
– Tenho certeza de que as pessoas olham pra mim o tempo todo. O Obstáculo Permanente do Corredor. O Elefante na Loja de Porcelanas.
– E as suas vendas chamam mesmo atenção.
Hoje estou usando uma de tie-dye. Sinto uma oportunidade. Eu a agarro pelo rabo e não deixo escapar.
– Você gosta dessa? Eu mesma z. Como ela se parece?
– Você não sabe? Quero dizer, ninguém nunca te disse?
– Tie-dye é difícil de descrever. É tipo um teste de Rorschach. Como ela se parece pra você?
– Principalmente tons de azul e de verde e um pouco de água. Manchas de vermelho, faixas marrons, um pouco de roxo. Listras paralelas, verticais, mas provavelmente é só por causa de como você dobrou o tecido. Quase parece que você enrolou uma versão hippie da bandeira americana. O que isso diz sobre mim?
– Prática, objetiva, nem um pouco viajante. A Faith diz coisas tipo borgonha e fúcsia em vez de marrom. Algumas pessoas dizem que ela é torcida ou que projeta muitos sentimentos sonhadores.
– Como você sabe que é o que está usando?
– Está com uma etiqueta, tá vendo? – Mostro a ela a etiqueta no nal. – Faço esses enfeites de plástico em braille e costuro nas roupas. Quase tudo que eu uso tem etiqueta.
– Legal. Mas não é por isso que o Scott olha pra você.
Droga.
Minha garganta se aperta. Estou cando com calor de novo. Acho que a Molly e eu estamos cando amigas, talvez boas amigas. Então vai chegar uma hora que ela vai descobrir. Se for verdade, não quero fazer dez vezes mais esforço agora evitando o que é inevitável.
– Nós éramos melhores amigos desde o quarto ano. Aí quase no nal do oitavo ano… começamos a nos beijar. Só isso. Não durou muito. Nós terminamos e fomos pras escolas secundárias diferentes.
– Devem ter sido uns beijos bem horrorosos.
Eu fungo.
– Com certeza não foram. Mas eles… quero dizer, ele…
Respiro fundo.
– Só camos juntos umas duas semanas. Aí um dia, na hora do almoço, nós fomos pra uma sala de aula vazia em que íamos ter, sabe… aí eu ouvi uns risinhos.
Minha respiração se acelera. Não consigo contar isso sem sentir tudo de novo, como se estivesse acontecendo agora mesmo. O pânico sufocante de con ar em alguém tão completamente, sorver a pessoa e de repente aquilo virar um veneno queimando. Deixo minha respiração mais profunda para acalmá-la.
– Tinha mais alguém na sala – diz Molly.
– Sete alguéns. De primeira aquilo me apavorou, eu pulei e o Scott e eu batemos os dentes e todo mundo na sala começou a gargalhar. Aí todos estavam falando ao mesmo tempo. Não me lembro o que disseram, a maior parte estava dando parabéns ao Scott e zoando como eu tinha sido enganada. Empurrei Scott com força e ele bateu num monte de coisas, e eu já estava na metade do corredor antes de ele me alcançar, dizendo que sentia muito, que ele tinha contado a eles porque não acreditavam que a gente era um casal, e outras besteiras que não me lembro mais. Eu me en ei num banheiro e quei lá esperando até a aula começar. Aí eu fui até a secretaria, liguei pra casa, e o meu pai foi me buscar.
Silêncio.
– O Scott continuou me ligando… eu não atendia e apagava todas as mensagens dele sem nem escutar. Ele continuou tentando se desculpar na escola, mas eu não falava com ele e os meus amigos ajudaram a mantê-lo longe, principalmente a Sarah e a Faith. Aí ele foi até a porta da minha casa e o papai o mandou embora, esculhambou com ele também, não ouvi o que eles falaram. Depois disso, parou de ligar ou de tentar falar comigo. Quando a gente estava na mesma sala na escola, eu simplesmente ngia que ele não estava lá. Aí a gente se formou e foi pras escolas diferentes e isso é tudo. História antiga.
Aí está. Todos os detalhes brutais, nada escondido, casualmente entregues. Pronto. Podemos seguir em frente.
– Nem sei o que dizer – comenta Molly de um jeito meigo. – Isso é horrível.
O carinho inesperado faz meu coração acelerar.
– Não foi nada demais, só coisa de criança – digo e imediatamente desejo que essas palavras não tivessem saído. Não quero que isso vire um drama, então estou tentando varrer para baixo do tapete de forma discreta, mas não desonesta. Dizer que não é nada demais não é sincero. Foi uma grande coisa. Ainda é.
– Tá brincando? É um pesadelo. É terrível. Você disse que o Scott era o seu melhor amigo antes disso?
– Por anos. Na verdade, quatro anos: um, dois, três, quatro.
Estou cando tonta. Se ela deixasse essa história para lá como um drama trivial de criança, eu caria bem, mas ouvir a voz dela concordando que signi ca bem mais do que parece…
– Beijar você com outros sete caras em volta olhando? Eu teria matado. Quero matá-lo agora.
Meu peito se aperta um pouco mais. Não consigo falar sobre isso por muito mais tempo. Eu não queria matá-lo quando aconteceu. Eu queria me matar. Vi um lado do mundo que eu sabia que existia, mas que pensei ser possível me proteger e, naquele momento, vi que nunca conseguiria. Não há segurança absoluta em lugar nenhum. Pelo menos não do tipo que eu quero.
– Pois é – suspiro. – Eu conhecia o Scott Kilpatrick. Ou achava que conhecia. Aí descobri que, na verdade, não.
Porque ninguém pode conhecer ninguém de verdade. Não totalmente.
Molly se vira e esbarra de leve em mim. Sinto a mão dela no meu ombro. Eu entendo que ela trombou em mim primeiro para que sua mão não me surpreendesse, para me tocar sem me sobressaltar e também sem ter que pedir permissão de uma forma meio constrangedora. Fico tão agradecida por ela entender a Regra Número Dois tão bem depois de apenas uma semana, eu me pergunto se vou conseguir segurar a onda.
Não preciso pensar nisso por muito tempo. A tia Celia chega e me salva. A ironia quase me faz rir. Quase.
E aí, papai.
Uma semana bem típica. Aconteceram coisas boas, aconteceram coisas ruins, como sempre. Me desculpe por não conversarmos mais depois da escola; é muito difícil conseguir me sentar sozinha. O Petey acha que eu estou entediada ou, no mínimo, não estou ocupada. De agora em diante, acho que só consigo falar com você logo antes de ir deitar.
Me desculpe também por falar com você como se você estivesse mesmo ouvindo. Eu sei que o universo não funciona exatamente dessa forma. Se funcionasse, se você estivesse mesmo observando, não precisaria que eu explicasse tudo isso. Ainda assim, é como o meu cérebro quer fazer.
Quem me dera saber o que você falou para o Scott naquele dia que o mandou embora. O que quer que tenha sido, funcionou. Acho que nunca te falei o quanto quei grata por aquilo. Se ele tivesse continuado atrás de mim como em uma comédia romântica patética, acho que eu podia ter me desmontado.
Só que eu me desmontei. Eu sei disso. Basicamente, por dentro. Talvez você também tenha se desmontado. Dava para ouvir na sua voz, como depois daquilo você soube que não era possível me proteger sempre. Tentei fazer você acreditar que não era sua obrigação. Acho que não tentei o su ciente.
Atravesso o quarto e pego o frasco de plástico de comprimidos da gaveta de lenços, como todas as noites. É o frasco de Frontal que estava vazio na mesinha de cabeceira do papai na manhã em que o encontrei. O frasco que eu não sabia que existia até aquele momento, mas que vinha se escondendo aos olhos de todos por um tempo. O frasco que a companhia de seguro usou para negar o pagamento do seguro de vida dele e que teria mantido a casa no meu nome em vez de no da tia Celia. O frasco que eu queria tanto de volta que soquei o policial trocentas vezes até ele prometer me devolver quando o caso estivesse encerrado, o que aconteceu apenas uma semana mais tarde. O frasco que tia Celia a rmou que provava o que ela sempre tinha acreditado, que o papai era o fraco, apesar de ter sido a própria irmã dela que bebeu muito vinho naquela noite e levou nós duas direto contra aquela coluna da ponte, matando-a e garantindo que o rosto dela gritando seria a última coisa que eu veria. E, mais importante, o frasco que me ensinou que todos têm segredos. Todos. Não importa o quanto você os ame e ache que os conhece e ache que eles também amam você.
Abro o frasco, tiro uma estrela dourada, lambo-a e aperto rme na cartolina pendurada atrás da porta. Um retângulo branquinho se enchendo de estrelas que, quando alguém me pergunta o que é, só digo que é arte tátil, meu Quadro de Estrelas. Toda noite eu acrescento uma estrela dourada se zer por merecer. A de hoje completa 81 estrelas douradas. Oitenta e um dias consecutivos sem chorar.
Eu sei que foi um acidente. Oxicodona para as suas costas, depois um pouco mais quando não funcionou, junto com um pouco de ibuprofeno para o inchaço, mais um pouco de Frontal e depois umas duas cervejas que te zeram esquecer que já tinha tomado aquilo tudo e você tomou mais, um Frontal extra porque estava tendo uma semana ruim, tudo se juntando para interromper sua respiração entre uma e três da manhã. Eu sei que você não teria me deixado aqui sozinha de propósito, não importa o que os policiais, as pessoas do seguro ou meus parentes mais próximos digam. Eu sei.
Mas eu também sei que você manteve os seus sentimentos guardados, e eles eram ruins o bastante para precisar de todos esses comprimidos. Eu não acho que isso teria mudado o que aconteceu, porque tenho certeza de que foi um acidente, mas talvez, se eu soubesse, poderia ter ajudado. Talvez você não tivesse precisado desses comprimidos, em primeiro lugar. Talvez.
Tiro o lenço, coloco-o junto com o frasco de comprimidos na gaveta e fecho-a. Toco de leve no interruptor para ter certeza de que está desligado, às vezes as pessoas não o desligam porque é muito estranho para elas desligar a luz com alguém no quarto, mas ele está, então sei que agora o quarto está igual para todos ao que é para mim. Ou talvez não. Me lembro vagamente do quanto a lua, as estrelas e as luzes da rua impedem que tudo
que completamente escuro da forma que é para mim agora.
Rastejo para a cama.
Boa noite, papai .