Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 15
QUINZE
aí, aonde a gente tá indo?
Não conferi a hora porque não posso fazer isso sem o Jason
saber. Não imagino que a gente tenha cado no Andino’s por muito mais que uma hora, uma hora e meia, no máximo. Aí
fomos até a Explosão de Sorvete para dividir uma sobremesa – eu o z escolher, e nunca tinha provado um sundae de manteiga e caramelo antes, mas gostei – e pude comer menos, já que estávamos dividindo. Meu Deus, entre um burrito, a maior parte do meu nhoque, e metade do pão de alho, mesmo uma porção pequena de sundae me deixou sentindo uma verdadeira bola.
Somando tudo isso, acho que talvez sejam umas nove horas, no máximo. Não preciso estar em casa até as dez e, sinceramente, se eu me atrasar, o que a tia Celia vai fazer? Me botar de castigo? Eu quase nunca saio de casa assim, a não ser para, bom, tipo agora... então acho que no m das contas tenho algo a perder.
– Algum lugar que você queira ir? – pergunta Jason.
– Só preciso estar em casa às dez – comento. – Que horas são agora? – Sutil.
Ele ri de leve.
– Oito e meia.
– Qual é a graça?
– Você tem que estar em casa às dez?
Muitas respostas passam pela minha cabeça. Este é o meu primeiro encontro… Talvez as garotas tenham um toque de recolher mais cedo que os garotos… Não faz muito tempo que eu moro com a tia Celia, então ela ainda não con a em mim ou talvez nunca vá con ar, é muito cedo para dizer…
– Me dê um motivo pra car na rua até mais tarde – digo. Percebo como essa frase soa… mas em vez de tentar esclarecer deixo pra lá para ver o que acontece.
– Que tal a gente ir até o costão?
– O que é que tem lá?
– Nada, mas ou a gente senta por aqui ou senta em algum outro lugar. Se você ainda estiver com fome…
– Não! O costão está ótimo. Não que eu vá conseguir ver o pôr do sol ou algo assim…
O carro faz a volta.
– O sol já se pôs. O que importa de parar no costão é com quem você está, não a vista.
– Você para muito por lá?
– Eu não diria muito.
Não é longe. Logo estamos estacionados e o motor desliga.
– Esse aí é um novo… isso é um lenço?
– Eu comprei hoje. Como você sabe? Você não pode ter visto todos os meus lenços ainda.
– Normalmente eles têm uma bandeirinha em braille costurada numa ponta, só que esse não tem.
Eu sorrio para essa atenção fofa ao detalhe e para o que ela signi ca. Eu estava preocupada que ele não pensasse ou notasse muita coisa.
– Você tá com frio?
– Um pouquinho. Tudo bem.
– Eu colocaria o meu braço ao seu redor pra te esquentar, mas o câmbio está no meio.
Hummm…
– E aí… – diz ele. – Quer se sentar no banco de trás?
Ai, caramba.
– Não vai car estranho? A gente sentado no banco de trás?
– Talvez se alguém estivesse olhando. Só tem mais dois outros carros aqui. Um está vazio, provavelmente gente que veio fazer caminhada. O outro, bom, eles provavelmente estão mais preocupados se a gente consegue vê-los, se é que você me entende. Tem um banco onde a gente podia se sentar, mas está esfriando lá fora.
– Então vamos pro banco de trás.
Procuro a maçaneta, saio – ele está certo, está cando mais frio –, entro na traseira e fecho a porta atrás de mim.
Não gosto de car pensando se ele vai me beijar. Se ele não for, eu vou me sentir idiota por achar que ia. Mas ele não ia me pedir para ir para o banco de trás só para colocar o braço no meu ombro, certo? Percebo que é engraçado eu estar pensando nisso e não se quero que ele faça isso, porque, me dou conta, é claro que eu quero. Tipo, por que eu não ia querer? O Jason é legal, e seguro, e…
– Por que você está sorrindo? – pergunta ele, divertidamente suspeito.
Eu estava sorrindo?
– Se preferir uma cara amarrada, não sei se eu consigo te ajudar, mas posso tentar.
– Não, o sorriso tá bom.
Ele esbarra em mim, aí escorrega o braço em volta do meu ombro.
– Muito esperto – observo. – Aposto que você esbarra em todas as garotas…
Droga, não era assim que eu achei que ia soar.
– Não, só preciso conhecer as regras – responde ele. – Imagino que você tenha muitas.
– A lista é in nita. – Eu me inclino um pouco para ele. No m das contas está mesmo mais quente também, não é só uma desculpa para encostar.
– Tá certo então, vamos escutá-las. Quero dizer, as suas regras.
A voz dele está meiga e baixa, com hálito que só tem uma nota de alho. Eu gosto dela. Quem diria? Viro o rosto para ele.
– Na verdade, não estou pensando em regras nesse momento – a rmo.
– No que você está pensando?
– Bom…
Estou pensando que é estranho que eu não esteja pensando tanto. Normalmente, a minha cabeça está revirando todo tipo de besteira, mas agora ela está alegremente sossegada, impregnando-se disso, se divertindo para variar...
Química.
É essa a palavra que me escapou esta tarde. O que faz você querer falar com alguém, querer falar com ele um pouco mais ou sentir a mão dele no seu ombro, mesmo que você não o conheça de verdade. É mais do que uma palavra gentil ou charmosa para um estranho; é a palavra certa ou palavras que se encaixam nas suas palavras. Não sei se Jason e eu vamos ser compatíveis quando nos conhecermos, mas agora, na superfície, nós temos química.
– Dá pra ver que você tá pensando em alguma coisa – sugere ele de novo, não de forma impaciente.
Eu estou pensando em como, apesar de ter acabado de pular para o banco de trás de um carro estacionado com um estudante do segundo ano que mal conheço, num entorno que não é familiar, eu me sinto confortável. Talvez seja química e intuição. Tem que ser, porque tenho poucas evidências.
Eu estou pensando que devo ser louca porque, se conseguisse enxergar, seria eu a tomar a iniciativa, me inclinando para beijar, torcendo para não ser muito cedo. Mas não consigo enxergar, então tudo que posso fazer é… Eu levo a mão até a gola dele para ter uma noção de onde está cada coisa, inclino a cabeça e chego para a frente… Se ele não entender, vou ter que ir com a mão até o maxilar dele e guiar meu…
Alguma coisa toca a ponta do meu nariz. O nariz dele.
Perfeito .
Vou para a frente e beijo os lábios dele com delicadeza. De novo. Meu Deus, é como estar com frio e soprar uma caneca de chocolate quente e sentir o calor se espalhar pelo seu rosto, depois dar um golinho, e o calor se espalhar pelas bochechas e descer para o peito, cada vez mais para baixo, te preenchendo. Minha cabeça gira com nada além de pensamentos simples tipo quente e suave e empolgante e maravilhoso e mmmmm…
– Quê? – sussurra ele quando toma fôlego.
– Que o quê? – sussurro de volta e o beijo de novo.
– Mmmmm… o quê?
– Ah. – Acho que eu falei essa parte em voz alta. – Mmmmm, alho…
– Ah! – Ele se afasta. – Desculpa, eu…
Minha mão encontra a nuca dele e eu o puxo de volta para mim.
– Você não sabe o que mmmmm signi ca? – Eu o beijo de novo. E de novo. E de novo. Mais rme, mas não mais forte.
A ponta da língua dele toca rapidamente o meu lábio inferior, uma estrela explode na minha cabeça, uma sensação que nenhuma outra palavra consegue descrever. Como quando você está correndo num passo confortável e se estimula a ir mais rápido, mas, em vez de car mais cansado, você ganha uma onda de energia. Eu sinto só um toquinho de língua de novo e agora estou correndo junto…
Não tenho noção de há quanto tempo estamos no banco de trás, nos beijando e respirando e tocando… mão nas minhas costas, depois para baixo na minha cintura onde ela encaixa perfeitamente… e sei que poderia fazer isso a noite toda sem parar ou sem car cansada ou entediada… a mão dele escorregando um pouco… depois um pouco mais…
Sei aonde ela está indo e minha mente desperta. O cérebro idiota que pensa e repensa e pensa três vezes e pensa em excesso e age como se eu fosse um grupo em vez de uma pessoa. Ele me pergunta que diabos eu acho que estou fazendo, beijando de língua esse cara que conheci há menos de uma semana e considerando deixar a mão dele deslizar para cima – não, considerando não, mas antecipando, querendo, esperando gostar… Meu cérebro idiota quer perguntar por que estou deixando isso acontecer, mas não pode porque não estou deixando isso acontecer, estou querendo que isso aconteça. O que quer dizer eu querer ser tocada por esse cara agora?
E sou atingida, como se por um balde de água fria, pela percepção de que por três meses quase não tive nenhum contato físico com ninguém. A Faith me abraçou no primeiro dia da escola e, fora isso, recebi uma batidinha no ombro aqui e ali, mas só. O papai me abraçava toda manhã antes da escola, quando eu voltava para casa e antes de dormir, e muitas outras vezes sem motivo, e em muitas noites a gente escutava um audiolivro ou um podcast e sentava juntos no sofá com o braço dele ao redor dos meus ombros e eu me aconchegava nele como uma almofada quentinha. O papai era a exceção à Regra Número Dois, porque se ele não apertasse o meu ombro quando a gente andava teria sido uma surpresa maior. Aí ele se foi, e nos dias que se seguiram desorientados e atordoados, todo tipo de pessoa tentou me abraçar e me confortar, mas eu não deixava, não ia permitir que desconhecidos ou parentes que mal conhecia me tocassem, e no m eles pararam de tentar. É claro que você quer esse cara te agarrando, diz meu cérebro idiota. Você era abraçada e tocada várias vezes por dia e agora está há três meses sem nada ao seu redor além de vozes no escuro. Você está necessitada…
– Parker?
Não estamos mais nos beijando. A mão do Jason está de volta no meu quadril, jamais tendo ido muito longe.
– Você tá bem?
Não quero contar nada disso para ele. Não que eu precise manter como um segredo profundo e obscuro; é só que algumas coisas você só tem vontade de compartilhar com pessoas que conhece. Jason escutaria e seria empático, mas não entenderia de verdade.
– Sim… sim, tô bem… – digo, soando grogue. – Que horas são?
– Só nove e meia. Bom, quase nove e quarenta. Mas estamos a só dez minutos da sua casa.
– Vamos… vamos voltar, de qualquer forma – respondo, acalmando a minha respiração. – Não quero dar motivo pra minha tia encher o saco.
– Tá bom – concorda ele. Posso sentir que está decepcionado. Não sei como eu me sinto.
A gente sai, cada um pela sua porta, de volta para o banco da frente. Ele liga o carro e damos marcha a ré.
Estou meio anestesiada. Andamos um pouco até que ele diga algo.
– Então… você mora com a sua tia? E os seus pais? Se você não se incomoda que eu pergunte.
– A minha mãe morreu quando eu tinha 7 anos. Ela bebeu uma garrafa de vinho e causou um acidente de carro e é por isso que eu estou cega.
– Ah, sinto muito.
Fico feliz que isso seja tudo o que ele diz, entendendo que já faz muito tempo e sem tentar falar sobre tudo agora que temos tão pouco tempo ainda juntos.
– Aí camos só eu e o papai até que ele morreu em junho.
– Que junho? Junho passado? Três meses atrás?
– É. Aí a minha tia, o meu tio e os primos vieram morar comigo.
– Ah, cara… Parker… Eu… eu sinto muito. Eu não sabia.
– Tudo bem. Tem muita coisa que você não sabe sobre mim. Eu também não sei muito sobre você.
– Isso vai mudar – comenta Jason.
– Espero que sim – digo, mas minha voz soa inexpressiva. É a única que pareço conseguir encontrar.
– Isso quer dizer que você quer sair comigo de novo?
– Só se você quiser.
– Então estamos combinados.
O carro para suavemente.
– Dez minutos mais cedo. Tem alguém espiando pelas cortinas. Parece uma criancinha.
Respiro fundo e solto.
– Meu primo Petey. Ele provavelmente cou superentediado sem mim esta noite. Não sei o que ele fazia pra se divertir antes de se mudar pra morar comigo.
Agora me escuto soando quase normal, mas não me sinto normal. É como se eu estivesse no piloto automático, mantendo a mesma trajetória desde a última hora, mas não a sentindo mais. Tipo, eu gosto do Jason, e quero mesmo conhecê-lo, mas aquele momento no carro parece algo bizarro agora, algo que não era eu, como se eu estivesse sob algum feitiço que agora se quebrou. Uma voz na minha cabeça está dizendo que a última hora não teve muito a ver com o Jason, a não ser pelo fato dele ser cálido, disposto e estar à mão. Eu tento silenciá-la, mas tenho a impressão de que não é o monstrinho falando.
– Eu te aviso os meus horários de trabalho da semana que vem quando eu souber – comenta Jason, parecendo longe.
Eu só concordo com a cabeça. Não con o na minha voz. Minha garganta está se fechando.
– Você tá bem? – pergunta ele.
Concordo com a cabeça de novo. Forço uma tosse na mão para conseguir falar sem chiar.
– Sim, me diverti bastante.
– Eu também.
Mas ele sabe que tem algo acontecendo. Não é culpa dele e não quero que ele se sinta mal. Tento pensar em algo legal para dizer, alguma coisa que não seja genérica…
– Eu, hum… não sei se eu falei na hora, mas obrigada por tirar o Isaac e o Gerald de cima de mim. Só porque eu podia ter cuidado daquilo sozinha não quer dizer que eu não valorize a sua ajuda. Eu valorizo.
– Fiquei feliz em ajudar. Mas tenho que ser sincero… não posso levar todo o crédito.
– O que você quer dizer?
– Eu estava andando com um amigo depois dos testes de corrida e de repente ele saiu correndo. Ele já estava com o Isaac levantado contra os armários antes que eu o alcançasse e visse o que estava acontecendo e pegasse o Gerald. Aí eu tive que separar o Scott e o Isaac. Ele nunca foi com a cara daqueles dois, acho que a coisa ia car feia de verdade se eu não tivesse impedido. O que eles estavam fazendo era uma tremenda sacanagem, eu sei, mas não valia a pena… Ei, Parker, você tá bem?
A tontura está fazendo o meu estômago se revirar.
– Parker? Qual é o…
– Eu tenho que ir.
– Deixa eu levar você até…
– Não, tranquilo. Tá tudo bem. Eu sei o caminho. – Agarro a maçaneta. – Depois a gente se fala.
E estou fora do carro e depois da calçada e encontro o gramado e dou um passo à direita pro caminho e subo pra varanda, mas a porta está trancada, droga, ainda que eles saibam que eu estou aqui e agora está aberta e estou tropeçando escada acima e o Petey está falando alguma coisa, mas não consigo escutar e estou no banheiro com a porta fechada e agora está trancada e eu juro por Deus, se existisse um Deus, que se eu conseguisse vomitar e zesse esse sentimento desaparecer, mas eu não consigo, eu não consigo, eu simplesmente não consigo…