Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 20
VINTE
ez minutos depois, estamos no carro da Sarah, mas sei que ela está dirigindo abaixo do limite de velocidade.
– Eu falei que isso é uma má ideia, né? – comenta ela. – Só pra
con rmar que não apenas pensei.
– Vou até começar a contar. Você está protegida e não só por aquelas calças novas de ioga.
– Como é que você sabe que eu estou com elas?
– Um chute certeiro. Você se lembra de como chegar lá?
– Sim, mas ainda dá tempo de não ir. A gente pode dar meia-volta e mandar uma mensagem de texto. Ele pode estar com amigos em casa ou nem estar em casa. Ou pode estar trabalhando; acho que ouvi falar que ele tem um emprego.
– Onde?
– Sei lá, não muda de assunto.
– Quero conversar com ele cara a cara. Quero ouvir a voz dele e as respostas dele sem que tenha tempo de pensar muito nelas.
– É pra isso que servem os telefones.
– Com o que você está tão preocupada?
– Eu estou preocupada que você não esteja preocupada.
– Eu estou muito preocupada.
– Então vamos voltar. Tipo, dois anos e meio de nada e agora… qual é a pressa?
– Não estou me apressando. Só não estou mais esperando. Já chegamos?
– Meu Deus, você tem 12 anos? – Ela encosta. – E, sim, chegamos. Vou esperar virando a esquina até você me mandar uma mensagem.
– Você já está cansada de me ouvir dizer o quanto você é uma ótima amiga?
– Continua tentando; eu te aviso. A entrada pra casa dele está bem em frente da sua porta.
Eu saio e abro minha bengala enquanto a Sarah vai embora. A entrada é de concreto liso com grama dos dois lados, do jeitinho que me recordo. Encontro a campainha e aperto. O silêncio me diz que eles ainda não a consertaram, então eu bato. Escuto passos do lado de dentro e ajeito meu lenço. Eu escolhi Símbolos da Paz esta manhã porque queria um pouco de paz; talvez agora possa signi car outra coisa.
A porta se abre.
– Parker! – É a mãe do Scott. – Parker Grant! Ah, olhe só pra você! Deixa eu te dar um abraço!
Antes que eu responda, ela me abraça calorosamente, o que é estranho porque ela sempre foi muito gentil comigo, mas raramente me abraçava.
– Você deve estar uns trinta centímetros mais alta desde a última vez que eu te vi! Como você chegou aqui, veio andando? Entre!
– A Sarah me deu uma carona – respondo, dobrando a minha bengala.
– Venha pra cozinha. Ainda é seguindo em frente e depois à esquerda, tenho certeza de que você se lembra.
Eu me lembro. Seis passos, esquerda, três passos, mesa, cadeiras… eu me sento sem incidentes.
– Quem me dera que os móveis na minha casa cassem tão arrumados.
– Velhos hábitos… – Ela se detém. Aí se senta e as mãos dela agarram as minhas e consigo não me retrair. – Sinto muito pelo que aconteceu, Parker. O Martin era um pai maravilhoso. Você deve sentir muita falta dele. Que período terrível pra você.
– Não foi muito bom pra ele também – digo e me arrependo na hora. Não quero parecer super cial, só não sei o que dizer às vezes quando as pessoas falam do papai. – Mas obrigada. A família da minha tia se mudou pra minha casa porque… – Mas a minha resposta de sempre, de como a minha casa era melhor que a deles, não sai, não para a mãe do Scott. – Eles se mudaram pra cá pra que eu não tivesse que me mudar pra casa deles. Leva muito tempo pra eu aprender a andar por novos lugares e eles não queriam que eu fosse para uma nova casa, uma nova escola e cidade logo depois de… – Eu paro de falar, parece que alguém está apertando o meu pescoço. É horrível dizer tudo isso em voz alta.
– Foi muito legal da parte deles. Então agora você tem primos com você? Sua tia tem lhos?
Eu limpo a garganta.
– Dois. A Sheila tem a minha idade e o Petey tem oito.
– Ah, deve ser difícil pra ela se mudar no meio do ensino médio. Isso aconteceu comigo e, ora… ora… não chega nem perto do que você está passando, claro. – Ela dá umas batidinhas na minha mão para me confortar, mas isso só enfatiza o quanto a vida da Sheila foi arruinada para que a minha não fosse. – Quando acontecem coisas terríveis, é difícil pra todo mundo. Quando o Scott cou sabendo… bem…
Ela aperta as minhas mãos de novo e solta.
– Deixa eu pegar algo pra você tomar. Você ainda gosta de chá gelado?
Eu não tomo desde que… bom, o papai era quem fazia.
– Gosto.
– Não vai car tão bom quanto o do Martin. Não sei por que o dele sempre era tão melhor.
– Coloque bicarbonato de sódio na água enquanto está fervendo.
– Bicarbonato de sódio? Tem certeza?
– Ele neutraliza o ácido do chá e deixa o gosto mais suave. Um quarto de colher de chá por litro.
– Bom… Com certeza vou experimentar… bicarbonato de sódio…
Ela coloca um copo na minha frente e eu tomo um gole. É, precisa de bicarbonato de sódio.
– Obrigada.
– Achei que o Scott já teria nos escutado a essa altura. Vou chamá-lo.
Talvez ele apenas não queira aparecer. A Sarah estava certa; ele vai sentir como se eu o estivesse encurralando. É idiota, nem pensei na possibilidade da mãe dele estar aqui. É surreal estar sentada aqui tendo uma conversa normal com ela como se os dois últimos anos não tivessem acontecido.
Ela demora mais tempo do que o normal para ir até o nal do corredor e voltar. O que vou dizer se ele não quiser me ver? O quanto ela sabe? O que vou falar se ele vier? Na verdade, não resolvi nada disso.
Escuto pés se arrastando e portas se abrindo e fechando. Depois passos. Ele está sozinho.
– Oi. – Ele se senta.
– Oi. Cadê a sua mãe?
– No quarto dela.
– Ah.
Ouço a trilha sonora de Grease começar a tocar, abafada pelas paredes e portas fechadas… O som se enrosca ao redor do meu coração e aperta.
Meu Deus, eu devia ter pensado direito nisso. Normalmente, só falo o que penso, mas minha cabeça está vazia. Agora eu gostaria de ter planejado algo.
– Acho que eu devia ter te mandado uma mensagem em vez de só aparecer. – Minha voz me surpreende pelo tanto que está baixa, como se eu estivesse falando comigo mesma. – Eu só queria ouvir a sua voz de verdade, não apenas mensagens de texto ou pelo telefone. Sei que não é justo… eu não te deixei fazer isso…
– Tudo bem, apesar de eu ter que ir pro trabalho daqui a pouco.
– Ah, onde você trabalha?
– Eu… faço manutenção predial e um pouco de jardinagem no Shopping Ridgeway, pro dono, não pra apenas uma loja. Mas… não foi disso que você veio falar.
– Não. Eu vim pra te dizer… – O quê?
Silêncio.
Aí algo escapa da minha boca sem eu nem pensar a respeito, num sussurro.
– Que eu estou com saudades do meu pai.
– Eu… – diz Scott. – Eu sei. Sinto muito. Eu queria… quando aconteceu, mas… sabe. Eu… eu, tipo…
Ele está usando o que eu chamava de voz de namorado, mas acho que não é de propósito. Para mim é como um gato ronronando.
– Quê? – pergunto.
– Nada. Eu só sinto muito pelo seu pai.
– Você ia falar alguma outra coisa.
– Não é nada. Eu só sinto muito.
– Tudo bem, Scott. Diga. Você… você pode dizer qualquer coisa.
– É só que… eu sinto falta dele também.
O pai do Scott morreu de ataque cardíaco quando ele ainda era um bebê. Na verdade, nunca pensei muito sobre como todo aquele tempo que o Scott passava na nossa casa era tempo tanto com o meu pai quanto comigo. Nunca me ocorreu que, quando eu o cortei da minha vida, ele perdeu o meu pai também, bem antes de mim.
– Desculpa. – Mal consigo me ouvir.
– Você não tem nada do que se desculpar.
– Tenho. Eu… eu devia ter deixado você explicar. Não foi justo eu nem escutar.
– Não importa.
– Importa! Eu… eu não quero ser alguém que não escuta! E… e eu acho que teria feito diferença.
Ele não fala nada. De nitivamente, não estou captando alguma coisa, mas não sei nem como perguntar.
– Você sabe que acham que ele se matou?
– O quê? – Ele soa como se isso fosse uma surpresa total.
– Ele teve uma overdose de medicamentos prescritos. Eu sei que foi um acidente. O relatório da polícia disse que a quantidade de medicamentos deixava impossível a rmar com certeza, mas eles suspeitavam fortemente de suicídio e isso foi o su ciente para a empresa de seguros.
– É claro que foi um acidente, Parker. Ele nunca faria isso com você. Nunca .
– Eu sei… só que… eu nem sabia que ele estava tomando algo, pra começar. Pra depressão ou ansiedade ou pros dois, não sei. É como se essas coisas estivessem envolvidas de formas que eu não entendo.
– Não importa. Foi um acidente.
– Mas e se não foi?!
Estou segurando o copo de chá gelado pela metade na mesa e, com toda a umidade, ele escorrega quando a minha mão se fecha. Ele corre pela mesa e para. Scott pega minha mão, coloca o copo de volta nela e solta. Minha garganta se fecha.
– Foi um acidente – a rma ele. – Foi, sim.
Eu tusso.
– Mas ele estava tomando remédios e eu não sabia, já que ele se sentia… sei lá, deprimido ou algo, e eu não sabia disso também. O que mais eu não sabia? É como se ele fosse só mais um segredo, como todo mundo.
– O que isso signi ca?
– Todo mundo é um segredo. Não tem jeito de saber o que se passa na cabeça de alguém.
– Hummm… o que tem na minha mão agora?
– Quê? Eu… eu não sei. Como eu poderia saber?
– Con ra. Está bem aqui.
Encontro a mão dele, a palma para cima. Ele fecha os dedos delicadamente e agora estamos de mãos dadas.
– Não tem nada nela – comento.
– É claro que tem. – Ele aperta. – As pessoas são cheias de coisas que você não sabe, mas isso não signi ca que elas sejam segredos; você só não sabe tudo ainda. – Ele solta. – E isso é bom, senão você não teria mais motivo pra conversar.
Tem muita coisa que não sei nem sobre mim mesma, pelo jeito, tipo por que fui tão idiota. Tudo em que consigo pensar agora é em coisas que eu sei, por exemplo, como eu quero que ele continue conversando e como quero que ele toque a minha mão de novo.
Scott se levanta.
– Preciso ir pro trabalho. Foi por isso que você veio, pra falar sobre o seu pai?
– Não – respondo. Ouço a infelicidade em minha voz e me odeio por isso. Fico de pé e cambaleio um pouco, por isso seguro nas costas da cadeira para me apoiar. – Eu vim aqui… pra te dizer que eu sinto muito. Eu devia ter te escutado naquela época. Não foi justo te afastar. Espero que você possa me perdoar. Queria voltar a ser sua amiga. É possível?
– Gostaria que fosse. Mas na verdade não dá. E eu não posso te perdoar se você não fez nada de errado. Eu realmente preciso ir. Como você chegou aqui? Se precisar de uma carona…
– Não, a Sarah vem me buscar. – Eu abro a minha bengala enquanto tento me orientar para andar até a porta com ela. – Por que a gente não pode ser amigo?
– Você tem que ser capaz de con ar nos seus amigos.
– Eu… eu con o em você.
Ele abre a porta e a gente passa.
– Você con ava em mim sem hesitar. Eu não me esqueço de como era.
Ele fecha a porta.
– Eu vou me atrasar. Você precisa que eu ligue pra Sarah?
– Eu ligo.
– Tá bom, tenho que ir. – A voz dele ca longe enquanto atravessa o jardim para a entrada da garagem e abre a porta do carro. – Te vejo na aula de trigonometria amanhã.
– Isso se eu não te vir primeiro – digo, como um re exo. Isso me surpreende. Uma porção de coisas que estou dizendo e fazendo ultimamente tem me surpreendido.
A porta se fecha, o motor liga, o carro dá ré e ele vai embora.