Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 1 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Prólogo

 

eu alarme toca, eu o desligo com um tapa e bato no botão da fala ao mesmo tempo. Stephen Hawking diz “Cinco-e-cinquenta-e-cinco da manhã”. Só conferindo de novo, como sempre.

Escancaro a janela e estendo a mão para fora. Fresco, nebuloso,

mas não muito úmido. Provavelmente escuro. Visto roupas – sutiã esportivo, camiseta regata, short, tênis de corrida – sem me preocupar em veri car nada, já que todas as minhas roupas de corrida são pretas.

Exceto meus lenços. Passo o dedo por eles, checando as etiquetas de plástico, calibrando o meu humor. Eu me sinto estranhamente insegura, então escolho um que pode ajudar: o de algodão amarelo com carinhas felizes bordadas. Prendo-o em volta da cabeça como uma venda, arrumando um sorriso em cada uma das minhas pálpebras fechadas.

O sol nascente esquenta minhas bochechas; o céu deve estar limpo, pelo menos no horizonte. Tranco a porta da frente e coloco a chave fria na meia. Viro à direita onde o caminho se transforma em calçada e começo a correr lentamente.

Os três quarteirões até o campo estão programados nos meus pés, nas minhas pernas, no meu equilíbrio. Depois de sete anos disso, eu conheço cada protuberância, cada fenda, cada raiz exposta na calçada. Não preciso ver onde estou correndo; consigo sentir.

– Parker, PARE!

Eu tropeço até parar, agitando os braços como se estivesse à beira de um precipício. E, se uma escavadeira tivesse passado por ali ontem, eu bem poderia estar.

– Sinto muito, Parker! – É a voz de dona de casa sofredora do subúrbio da sra. Reiche gritando da varanda dela. Agora ela vem trotando pela entrada da garagem com as chaves fazendo barulho. – O irmão do Len veio na noite passada…

Tento não me imaginar batendo na lateral da van. Ando mais para a frente, com as mãos estendidas, até tocar no metal frio e coberto de orvalho.

– Não precisa tirá-la daí. – Passo os dedos pelo corpo liso do carro enquanto o contorno.

– É claro que vou tirar. Já não estará aqui quando você voltar.

Encontro a calçada de novo e continuo enquanto a van ruge atrás de mim. Espero na esquina até a sra. Reiche desligar o carro para escutar o trânsito. Não ouço nada além dos pássaros conversando, então avanço para o cruzamento.

Quando toco a cerca de arame do Campo Gunther, viro à direita. Quatorze passos até a abertura e uma virada à esquerda por ela, uma das mãos levemente à frente para o caso de hoje ser a primeira vez em anos que calculo mal a distância. Entro passando direto, como sempre.

O campo ca a mais de noventa metros. Se novos obstáculos tiverem aparecido desde ontem, há poucas chances de eu encontrá-los com uma simples volta, mas, por mais louco que seja correr por aqui, é ainda mais louco fazer isso sem percorrer o caminho antes.

Chego à cerca mais distante com 142 passos. Bem previsível e tudo desobstruído. Depois de mais alguns minutos de alongamento, estou pronta para correr. Setenta e cinco passos largos num bom ritmo, duas dúzias de passos de caminhada para tocar a cerca mais distante e de volta.

Depois de cinco voltas é hora de dar tiros de corrida.

Sessenta passos largos me deixam a duas dúzias de passos do lado mais distante. Depois chego um pouco para o lado para me alinhar de novo por causa da inclinação. O ar parado está mais quente do que ontem, mas parece fresco enquanto voo por ele. Ainda faltam semanas para a pior onda de calor.

Dez tiros de corrida e acabo. Depois de atravessar a rua, faço jogging para me acalmar, mas diminuo o ritmo a uma caminhada perto da entrada de garagem dos Reiche. Eu escutei o carro se mover, mas quando acontece um problema leva-se um tempo para esquecê-lo. Do outro lado, onde a entrada de garagem se eleva para se tornar calçada de novo, eu acelero.

No momento em que abro a porta da frente, sei que algo está errado. Não sinto cheiro de café da manhã. Mesmo os dias de cereal incluem torradas. Na cozinha, só escuto os barulhos normais de uma casa que está dormindo: a geladeira zumbindo, o relógio batendo acima do fogão, minha respiração e, quando a prendo para escutar com mais cuidado, as batidas do meu coração.

Vou na direção da escada e tropeço em algo no hall. Eu me agacho e encontro meu pai caído no chão, usando uma calça de pijama de anela e uma camiseta.

– Pai? Pai! Você está bem?

– Parker – responde ele, com a voz estranhamente monótona. Nem hostil, nem ofendida.

– Você caiu? O que aconteceu?

– Escute – diz ele, ainda sem soar como deveria se estivesse mesmo caído na base da escada. – Todo mundo tem segredos, Parker. Todo mundo é um segredo.

É nessa parte que eu acordo, como sempre, mas é exatamente o que de fato aconteceu no último dia três de junho, na semana depois das férias começarem e duas semanas depois do meu aniversário de 16 anos.

Bom, a não ser por duas coisas. A primeira, eu realmente quase bati na van dos Reiche enquanto corria, mas isso foi num outro dia, duas semanas depois. E a segunda, o meu pai não estava caído ao pé da escada. Eu o encontrei ainda na cama, e ele estava morto fazia horas.