Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 33 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 32

TRINTA E DOIS

 

cordo antes do alarme na manhã de sábado e aperto o alto-falante. Stephen Hawking informa que são cinco-e-trinta-e-cinco.

Penso em como logo que perdi a visão umas crianças me

perguntaram como eu sabia que tinha acordado de manhã se não

conseguia abrir os olhos e ver nada. Naquela época eu devia ter percebido o quanto ainda tinha pela frente.

Escancaro a janela e sinto o ar fresco da manhã do lado de fora, bem parecido com o que tem estado nas últimas semanas, mas um pouco mais refrescante.

Visto minhas roupas de correr, incluindo o hachimaki. Normalmente, guardo-o para os domingos com o Petey, mas nesta manhã, de nitivamente, estou me sentindo como um camicase.

Eu me alongo no quarto, como tenho feito ultimamente, mas não escuto nenhum passo do lado de fora. Termino e dou uma pancadinha no alarme. Cinco-e-cinquenta-e-três. Espero até às seis e não ouço nada. Scott está cumprindo o nosso trato. Estou por minha conta.

Vou até a porta e me lembro de que o Quadro de Estrelas ainda está lá. Eu o retiro, dobro algumas vezes e en o na lata de lixo. Tiro o frasco de plástico de remédio com as estrelas douradas da gaveta e atiro no lixo também.

Você sabe que é só porque não quero mais me lembrar de você desse jeito. Em todas as noites que tirei estrelas douradas daquele maldito frasco, nunca me ocorreu o quanto isso era mórbido. Achei que era parte de uma lembrança, mas era um veneno de ação lenta, como se eu mantivesse na minha mesinha de cabeceira água para beber na garrafa de vinho que a mamãe detonou naquela noite. É incrível como as pessoas podem ser tão cegas para o que é bom para elas e o que não é, o que é verdade e o que não é, ou a diferença entre segredos e coisas que apenas ainda são desconhecidas.

Ah, e a Regra Número In nito, aquela sobre não haver segundas chances que eu acrescentei depois que terminei com o Scott? Me livrei dela. A primeira regra que tirei da lista. Não deve haver um número in nito de regras, de qualquer forma. Não sei que raios eu estava pensando.

Agora o idiota no meu cérebro está fazendo com que eu me preocupe de a calçada não estar livre. O que é imbecil, já que eu não achava que tinha alguém veri cando nos últimos três meses e não me preocupava com isso, mesmo depois daquele quase erro nos Reiche. Mas agora que eu sei que o Scott estava veri cando para mim todo esse tempo, o pensamento de que ele não fez isso esta manhã… Droga, pai, por que a gente tem que conviver com monstros na nossa cabeça? Se algum dia você descobrir, me informe… de forma subconsciente ou algo assim. Ou num sonho…

… porque não posso continuar conversando com você desse jeito. Achei que era para me lembrar, mas se trata de não me desapegar. Preciso falar com pessoas que consigam me ouvir, e responder, e rir quando eu as zer felizes e reclamar quando eu for uma idiota. Eu continuo tentando fazer tudo sozinha, mas aprendo muito mais com outras pessoas e, alerta de ironia, a maior parte do que eu acho que é minha independência, na verdade aprendi com você. Apesar de ter partido cedo demais, você me ensinou o bastante para uma vida inteira.

E não tenho mais medo do que pode ter acontecido naquela noite. Não importa o que tenha sido, não teria mudado nem um pouquinho os dezesseis anos de coisas boas que vieram antes e, especialmente, os nove anos de trevas que você me ajudou a passar. Tem tanta coisa boa para lembrar e pelo que ser grata, pai, e eu sou. Sempre vou te amar por isso.

Faço uma pausa na parte de baixo da escada. Faz duas semanas que não sonho com o papai. Não é como eu preferiria que ele me visitasse, mas de nitivamente é bem-vindo. Meus monólogos silenciosos terminaram, mas espero vê-lo de novo em breve.

Do lado de fora, tranco a porta e coloco a chave na meia. Ainda estou preocupada com o percurso…

Não, não vou começar a car com medo agora. Eu falei para o Scott que ia cuidar da minha segurança, então preciso parar de ser uma idiota ou, pelo menos, tentar. Se tiver uma van parada na calçada logo à frente, preciso ser mais esperta e lidar com isso eu mesma.

Faço jogging mantendo o braço esquerdo estendido, o cotovelo levemente dobrado para que, se eu atingir algo, possa dobrá-lo de maneira segura e ter uma margem de segurança para virar o ombro e proteger a lateral da cabeça com o antebraço direito. Só para a parte da calçada; não vou correr assim quando chegar ao campo. É bem estranho, e eu vou ter que me acostumar, porém é mais inteligente. Ou, pelo menos, é menos completamente doido.

Eu paro no cruzamento. O único som é um casal de passarinhos, então corro para atravessar a rua, com o braço esquerdo ainda erguido pela minúscula chance de alguém ter estacionado na faixa de pedestres desde ontem e não ter sido rebocado. Para isso e para ganhar mais prática.

Chego à cerca de arame, viro à direita, ando quatorze passos até a abertura, viro à esquerda, e entro sem tocar nenhum dos lados, como sempre.

Clique.

Eu congelo.

Do outro lado do campo, escuto a trilha sonora do Grease.

Dessa vez, não está tocando repetidamente enquanto ele espera com o telefone a algumas quadras de distância. Escutei-a começar nesse instante.

Eu sorrio. Tento parar, mas então paro de tentar parar porque por qual motivo eu não deveria sorrir? Eu me lembro do que mais ele fez na última vez em que me encontrou aqui e, apesar de talvez ser demais ter essas esperanças tão cedo, no mínimo a presença do Scott aqui deixa o Campo Gunther bem mais seguro do que jamais foi.

A pergunta é: corro como sempre ou vou até lá e njo que está tudo normal?

Meu Deus, quem é essa pessoa? Silencio o monstro no meu cérebro e começo a fazer jogging… correr… fazer corridas de tiro…

O quão rápido eu consigo correr? Tipo, sério?

Hora de descobrir.

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