Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 17
DEZESSETE
u sinto como se estivesse caindo.
Dizem que não sou uma utuadora, o balanço que muitas
pessoas fazem quando não conseguem enxergar. As pessoas não percebem o quanto da habilidade delas de carem paradas e eretas
não depende apenas da audição, mas também de enxergar o aposento ou o horizonte. Talvez seja porque eu enxerguei pelos primeiros sete anos da minha vida ou talvez seja a maneira que perdi a visão, mas eu não costumo me sentir oscilar.
Até agora. Estou desconectada da Terra. Sei que quei em choque quando o papai morreu, e quando saí dele já tinham se passado dias o bastante para eu poder mais ou menos voltar a ser normal ou pelo menos parecer normal. Acho que devo estar num tipo diferente de choque agora. Quando o papai morreu, perdi o meu principal apoio, mas eu tinha a Sarah e me segurei nela pela vida. O quanto da minha estabilidade é baseada nas pessoas em que me agarro? Muito mais do que eu pensava, porque agora que perdi meu último apoio estou sicamente tonta… oscilante… com uma sensação desagradável de precipitação. Como se estivesse caindo.
Não posso ligar para Faith. Quero dizer, eu poderia, e ela escutaria, e não tenho segredos com ela, mas atualmente há muita coisa que não sabemos uma sobre a outra e levaria tempo demais para contar para ela.
O resto do domingo foi… bom, foi estranho… Em certo momento, pareceu que o tempo estava se arrastando, tipo como se a noite nunca chegasse e, quando chegou, pareceu que o dia tinha voado. Eu passei quase o tempo todo com Petey, jogando e sentada em frente à televisão como um zumbi. Quando o meu celular tocou perto das nove, eu não respondi e depois mandei uma mensagem de texto para a Sarah, dizendo que estava ocupada com o Petey e que a gente podia se falar no dia seguinte, e ela falou que tudo bem, o que foi uma resposta curta incomum para ela, já que nunca perdemos os nossos telefonemas noturnos, mesmo que eu com frequência esteja brincando com o Petey e normalmente deixe o jogo esperando um pouco.
Minhas corridas da segunda-feira foram uma bagunça. Senti a grama ao lado da calçada duas vezes e precisei ir mais devagar para ajustar minha direção. Aí na primeira corrida de tiro, perdi a conta dos passos. Eu corro muito rápido para de fato contar todos os números; eu só conto de um a nove e repito, aí digo dez, vinte, trinta… a não ser que tenha perdido a conta se acabei de dizer quarenta ou cinquenta…?
Eu chutei cinquenta para não entrar correndo na cerca, mas, quando terminei o trecho e andei até a cerca, ela estava mais longe do que o normal, então eu provavelmente estava contando certo o tempo todo e só duvidei de mim mesma. Como dizem quando se está fazendo provas, que com a sua primeira resposta.
O segundo treino de tiro foi bem, mas perdi a conta de novo no terceiro. Depois disso eu corri em vez de fazer tiros, contando números de verdade, mas mesmo assim me senti desligada e então desisti e fui para casa.
Na escola agora eu só estou parada aqui no corredor na frente do meu armário, enrolando, empacada.
Ouvi dizer que, com o tempo, mentir ca mais fácil. Não para mim. A mentira que contei à Sarah ontem está crescendo e não consigo saber como contorná-la. Se eu for encontrá-la na quadra como sempre, ou eu njo que nada está errado e tento conversar normalmente, o que parece mentir numa escala além da minha capacidade, ou digo a ela o que está errado, o que parece igualmente impossível. Mas, se eu simplesmente não aparecer, ela de nitivamente vai saber que está acontecendo alguma coisa.
Estou sendo infantil. Egoísta. Idiota. Alguma coisa, não sei. Seja lá o nome disso, estou fazendo uma tempestade em copo d’água. Só tenho que parar.
Mas não consigo. Não é nada. Achei que a Sarah fosse minha melhor amiga, não minha psicóloga. Não que eu fosse o projeto dela. Não que fosse alguém que ela pode guardar no bolso porque é difícil para mim me aproximar das pessoas e nós nos conhecemos há tanto tempo que ela tem um monopólio sobre mim e não precisa compartilhar nada muito íntimo para nos manter juntas. Que ela pode só espiar a minha vida, mas me manter fora da dela.
Nada disso me ajuda a pensar no que fazer agora. Ficar aqui ou ir… virar para a esquerda ou para a direita…
– Oi, Parker – chama Jason, de certa distância no corredor. – O que você está fazendo?
– Hã? Ah… nada.
Agora ele está do meu lado.
– É o que parece. Você está chegando ou indo embora?
– Hum… já z o que tinha que fazer aqui no armário, se é o que você quer dizer.
– Tá. Você precisa ir pra algum lugar ou quer dar uma volta?
– Volta? Claro. Onde? Na pista? É isso que você faz normalmente?
– Não de manhã, só na hora do almoço. Achei que a gente podia dar uma volta no Jardim da Biologia.
Salva.
– Tá bom. Deixa eu mandar uma mensagem pra Sarah pra ela não car sem saber onde eu estou.
– Claro.
O Jason me encontrou e a gente vai dar uma volta. Cuide do pessoal com dor de cotovelo sem mim.
Guardo a bengala na bolsa e pego o braço do Jason.
Quack.
– Beleza, divirta-se – responde a matrona Sarah.
Não tenho certeza se há diversão no meu futuro, mas milagres acontecem mesmo.
– Sabe que eu ainda não tenho o seu número.
– E isso é loucura – digo.
Recito o número para que ele grave no celular.
– Me liga depois – acrescento.
– Essa é a ideia…
Ele não entende. Acho que agora não quero mais que ele ligue.
– Quero dizer, pro seu número car gravado no meu celular sem eu ter que digitar.
– Certo.
O meu celular toca, mas acho que para ele já está de bom tamanho, eu sei que para mim está, então não njo que vou atender. Ele desliga.
– A Sarah é um pato? Eu vou ganhar um som especial também? Ou é só para certas pessoas?
– Todo mundo ganha. Dessa forma eu sei quem é, para ver se devo atender na hora ou se pode esperar.
Só depois que digo isso, percebo que ele provavelmente queria ser chamado de especial. Acrescento:
– Acho que você vai ser das pessoas atendidas na hora.
– Parece coisa demais para se lembrar. Qual é o som de todo mundo.
– Talvez a sua lista de contatos seja maior que a minha. Mas é mesmo tão difícil pra você se lembrar das vozes de todos os seus amigos? Não é muito diferente.
Consigo perceber que estou soando meio escrota, mas isso não é óbvio? Ele não responde.
Seguimos em direção ao Jardim da Biologia. Sei vagamente onde ca de quando z biologia no ano passado, mas é um canto remoto que não costumo ir, então deixo o Jason guiar. Tento não pensar no quanto a maior parte da minha vontade de car com o Jason agora é para evitar a Sarah.
– Você tá bem? – pergunta ele.
– Por quê?
– Você tá parecendo… cansada, acho. Como se você normalmente tomasse café, mas hoje não tivesse tomado.
– Tô bem.
Essa mentira está se espalhando. E eu não sinto nenhum ímpeto surgindo para detê-la. O Jason está certo, estou estranhamente cansada.
– O Scott me contou tudo hoje de manhã.
Eu não respondo. Tinha me esquecido completamente de que disse ao Scott para contar tudo ao Jason. Parece que faz dias.
– Então acho que eu sei por que você saiu correndo do meu carro no sábado. Sinto muito por tudo aquilo.
– Não tinha como você saber. Quando você encontrou com ele?
– Essa manhã. Nós somos parceiros de jogging.
– Ele corre?
– Sim, ele tá na equipe comigo. A gente corre cinco quilômetros da casa dele todo dia antes da escola, a gente mora a apenas alguns quarteirões um do outro.
– Ah.
– Eu tô meio bravo com ele. A gente conversou um pouco depois que ele me contou, aí eu dei meia-volta e fui pra casa, mas ele continuou. Ele sabe que fez besteira, ele saiu correndo bem rápido.
Não falo nada.
– Ele devia ter me contado quando soube que a gente ia sair.
– Foi há vários anos… Ele provavelmente não sabia que eu ainda estava… Não sei…
– Ele ainda gosta de você.
– Ele disse isso?
– Não precisava. Não sei por que eu não percebi antes. Agora eu sei por que ele não suporta car perto de alguns caras, principalmente do Isaac, que é meio mala mesmo. Ele me contou que você mandou uma mensagem de texto pra ele ontem pela primeira vez em anos. É verdade?
– Só pra esclarecer. A gente não tinha se falado desde que tudo aconteceu, e… bom… eu não tinha que pensar nisso com ele na Jefferson… então tava na hora. Eu deixei ele dizer o que tinha pra dizer e agora acabou.
– Eu não sei o que fazer.
– Sobre o quê?
– O Scott.
– Por minha causa? Não faz nada. Se vocês são amigos…
– Nós somos, mas… Sei lá… Ele disse que sentia muito, mas…
– Não deixem de ser amigos por isso. Não tem nada a ver com você e acabou. Certo?
Ele não responde. Decido não forçar a barra.
– É melhor a gente voltar – comenta ele. – O sinal vai tocar.
Não mando mensagem para a Sarah avisando que não vou ao refeitório, só digo na aula para a Molly que vou encontrar o Jason na pista para o almoço e deixo que ela dê as notícias. Molly não me pergunta nada a manhã inteira, mas percebo que ela sabe que tem algo estranho no ar. Sarah me encontra à tarde no meu armário, mas com apenas alguns minutos entre as aulas temos o que soa como uma conversa normal. Ela me fala que ninguém apareceu no Expediente e que quer saber como foi meu encontro com Jason, e eu digo que vou contar para ela mais tarde e aí temos que ir para a aula. Quando nos afastamos, ela me chama e fala para eu ligar para ela à noite, porque não quer passar mais um dia sem saber e para “ligar para ela, tá?” Isso não é comum; a gente só se liga naturalmente sem falar antes quem tem que ligar para quem.
Não respondo. É uma sensação horrível porque eu quero, mas não quero mais mentir para ela. Quero contar para ela tudo o que aconteceu com o Jason, e com o Scott, e com o Jason e o Scott… mas… também não quero ser o projeto ou a diversão de ninguém. Mais do que tudo, quero que ela venha me contar tudo que está me escondendo, apesar de meu cérebro doer com os sentimentos con itantes de querer isso, enquanto pensar em algo assim faz com que eu me sinta egoísta e patética.
Patética. Como isso aconteceu? De todas as coisas que signi cam ser Parker Grant, como isso chegou a patética?
Meu Deus, eu quero car com raiva. Quero me sentir traída. Sei como lidar com essas coisas. Mas perdida, desorientada, sozinha e triste?
Já sei que não vou ligar para a Sarah. Sei que isso vai fazer com que eu me sinta idiota, mesquinha e, sim, patética. E sei que saber disso não vai mudar nada – ainda assim não vou ligar para ela. O que não sei é o que vou fazer quando ela desistir de esperar e me ligar. Eu estava disposta a apenas ignorar o Scott tentando falar comigo, mas nunca, nem em um milhão de anos, conseguiria fazer isso com a Sarah.