Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 15 de 33

Páginas do PDF

Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 14

CATORZE

 

á se passaram doze minutos das cinco e estou sentada sozinha no banco do lado de fora da Corrida Desenfreada. O fato de não ter tido notícias do Jason está no m da lista de coisas nas quais não consigo parar de pensar.

Eu me diverti muito hoje, mas o que a Molly contou sobre a Dani deixa eu me sentindo como se alguém tivesse tornado a gravidade um pouco mais pesada. Sinto que não fui diferente, usando-a como todas as outras pessoas. Sei que não é verdade, eu obviamente não estou impressionada pela aparência dela. Gostei de sair com ela pelas mesmas razões que eu gosto da Molly; ela é uma pessoa divertida com quem estar e conversar. Ainda assim, não dá para negar que muito disso foi a loucura que só existiu porque ela é extremamente bonita. E se os meus amigos só gostassem de mim porque achassem engraçado me ver tropeçar por aí e esbarrar nas coisas o tempo todo?

E, como se não fosse o su ciente, agora começo a pensar por que alguém fala com alguém. Não mais tarde, depois que se conhecem, mas por que na primeira vez? Quando alguém que você não conhece só começa a falar com você, sem de fato precisar de algo, como informações para chegar ao banheiro, por que ele está fazendo isso? Não sei, nunca z isso. Acho que é baseado apenas no que as pessoas veem. Porque elas acham alguém atraente.

Por que o Jason me chamou para sair? Primeiro ele me ajudou a comprar tênis, mas depois disso a gente conversou o quê, umas três ou quatro vezes, nunca mais de sessenta segundos. Por que ele quis falar comigo de novo ou me chamar para sair? Será que ele me acha bonitinha? Ele não pode gostar da minha personalidade, ainda não a mostrei para ele de verdade, se for algo nesse sentido, o jeito que eu me atrapalhei nas vezes em que a gente se falou, ele tinha muito motivo para não falar comigo. E, se eu sou bonitinha, um monte de caras já não teria me chamado para sair a essa altura? Talvez não tenham chamado porque eu sou cega ou por causa da minha personalidade, e Jason ainda não me conhece direito. Quando me conhecer, vai mudar de ideia. E se ele só tiver um fetiche por bondage e as minhas vendas o deixarem animadinho? Meu Deus, agora que pensei nisso, gostaria realmente de não ter pensado. Merda, isso é de arrepiar. Cérebro idiota em ação.

Ainda mais misterioso é por que eu gosto dele e disse sim para esse encontro tão rápido e por que quei animada com isso. Eu podia bancar a superior e dizer que não é nada tão super cial quanto pensar que ele é gato, mas, sem isso, o que me resta? Por que ele é charmoso e me tratou com respeito despreocupado? Isso é tudo que eu preciso para car com frio na barriga? Nossa, que patético. Uma palavra gentil no tom certo que saiba cruzar o campo minado da minha de ciência e eu co toda nervosa? Meu Deus…

– E aí, Parker – cumprimenta Jason. – Desculpa pelo atraso. O supervisor do turno literalmente prendeu a gente pelos últimos vinte minutos falando sobre os procedimentos de estoque. Tava todo mundo parado junto, então eu não podia nem sair pra te falar.

Eu me levanto.

– Tudo bem. Você tem que se trocar ou algo assim?

– Hum, não, já z isso. É só a camisa. Você tá pronta pra ir?

– Sim.

– Você tá muito bonita.

– Obrigada – agradeço. – Tenho certeza de que você também. Mas tudo bem se não estivesse.

– Hum, tá bom. Você tá com fome?

Opa, esse planejamento foi ruim, comer um burrito três horas atrás.

– Eu posso comer a qualquer hora – respondo, surpreendendo a mim mesma com esse tipo de evasiva. Tipo, obviamente eu posso comer, só não tanto… – Você tá com fome?

– Morrendo – diz ele. – Eu não almocei. Fiz reserva para as seis.

– Reserva? Que chique. Onde?

– É uma surpresa.

Na verdade, não gosto muito de surpresas. Mas acho que isso não é justo. O dia que o Scott me beijou foi cheio de surpresas e eu gostei na época.

– Tá bom.

– Vem, vamos sair pela frente, à sua esquerda.

– Posso segurar no seu braço? – Estico a mão. – Vai ser mais rápido do que ir com a bengala.

– É claro – responde ele. A manga dele toca os meus dedos. Tecido no, macio… talvez algum tipo de camisa social.

– Chique também – digo. – A sua camisa, quero dizer. Manga comprida e punho.

– É, já que é uma ocasião especial. Até tomei banho hoje.

– Obrigada! – expresso, começando a me sentir mais à vontade. – O que dizem sobre pessoas cegas desenvolverem mais os outros sentidos é verdade. O meu nariz me diria se você estivesse mentindo.

– Eu não mentiria pra você, Parker – diz ele, e ele realmente a rma, não apenas brincando. Aquilo me conforta. Quase posso acreditar que isso vai dar certo.

– Promete?

– Prometo.

Eu me lembro de que ele também me fez prometer algo quando nos conhecemos. Prometi a ele que nunca correria à noite, uma promessa que quebrei apenas três dias mais tarde, depois que sonhei com o Scott.

 

Pelos cinco minutos seguintes, ele fala sobre o trabalho, motivado por uma pergunta que z, mas já me esqueci. Alguma coisa idiota tipo: “Então o que você faz além de carregar sapatos pra dentro e pra fora do depósito?” Só estou prestando atenção em partes na descrição da logística de arrumar prateleiras e mostruários, coisas assim, não sou sonhadora o bastante para achar isso interessante. Além disso, estou distraída pensando aonde estamos indo, já que não há estacionamento na frente do shopping para onde nos dirigimos.

Não consigo mais me segurar.

– Nós vamos andando pra lá? O estacionamento é pro outro lado.

– Ah, eles não deixam os empregados estacionarem lá. Temos que parar em outro estacionamento. Eu não costumo pegar o transfer que vai até lá, mas imaginei… bom, tipo, a gente pode andar até lá, se você quiser. Eu não quis…

– Tudo bem, podemos pegar essa carona. Não é como se eu não zesse exercício o bastante.

Chegamos ao meio- o bem quando o transfer do estacionamento chega e, depois da boa e velha diversão para conseguir subir os degraus, estamos sentados num banco na traseira de um micro-ônibus. Por algum motivo, o motorista está com o ar condicionado ligado no máximo e está congelante, mas eu não me abraço porque não quero que o Jason se sinta mal.

– Você tá com frio? – pergunta ele.

– Tô bem – digo, surpreendendo a mim mesma de novo.

– Não estou de casaco, senão daria pra você. Eu não sabia que esses ônibus eram tão frios.

– Tranquilo.

Alguma coisa toca o meu ombro, o que está longe do Jason, e eu pulo, apavorada, e pulo mesmo, porque meus músculos estão tensos do frio, os meus braços vão pra cima e o meu antebraço bate no nariz do Jason, mas felizmente eu não grito. O meu coração acelera quando percebo que o Jason estava colocando o braço ao meu redor.

– Desculpa! – solto. – Desculpa, eu…

– Não, não – diz ele. – Eu peço desculpas. Não pretendia te assustar.

– Não, tudo bem! Tá… tá tudo bem…

O ônibus nos chacoalha um pouco; posso sentir os braços dele baixos na lateral. Quero que ele tente de novo, mas não vou pedir.

– Sério, tá tudo bem – a rmo.

– Não esquenta, daqui a pouco a gente vai estar no meu carro em vez de nessa geladeira.

– Beleza.

Silêncio. Nada de braço em volta do meu ombro. Um lembrete desnecessário de que a Regra Número Dois serve tanto para mim quanto para qualquer outro.

Paramos depois de alguns minutos. Com Jason me dando um pouco mais de ajuda do que preciso, saio do ônibus e o carro dele não está longe. O caminho até o restaurante é curto e o passamos com ele me perguntando de que tipo de comida eu gosto, o que parece estranho agora que já escolheu um lugar para comer e não me conta qual é. Dou respostas vagas – não quero dizer que não gosto de sushi se estivermos indo para um sushi bar – e sei que isso o frustra, mas pre ro tomar uma posição segura.

– Surpresa! – diz ele, parando num estacionamento. – Estamos no Andino’s.

– Certo, legal – respondo, tentando soar empolgada. O efeito surpresa de não saber o restaurante até chegarmos aqui é perdido pela mesmíssima razão que eu sabia que seria; o Jason me falar agora não faz diferença de me falar no shopping meia hora atrás. Não dá para vendar alguém, levar a pessoa até um lugar e aí ter um momento de surpresa se a venda nunca for tirada.

Agora entendo por que ele não estava adorando as minhas respostas ao questionário gastronômico dele. Eu não tinha mencionado comida italiana. Eu gosto bastante, mas faz muita lambança e raramente é minha primeira opção.

Somos encaminhados para a mesa imediatamente e, pelo que posso ouvir ao meu redor, as reservas não eram necessárias. Tudo bem.

Jason comenta:

– Liguei para alguns lugares, mas não consegui achar um restaurante com cardápios em braille.

Eu mordo a língua. Se ele tivesse me perguntado, eu podia ter falado para ele de uma meia dúzia de bons restaurantes com cardápios em braille. Esse é o preço que se paga por surpresas. Eu estou dividida entre me sentir especial porque ele está tentando fazer coisas românticas, mas eu não estou exatamente gostando muito delas. Mas como ele ia saber?

Exatamente. Como ele ia saber? Ele não sabe nada sobre mim.

– E então… como está a sua fome? – pergunta. A voz dele está forte, como se estivesse zoando um pouco. Será que sabe que eu comi agora há pouco?

– Média.

– Certo. Você gostaria de sopa, salada, antepastos ou pão de alho?

Saquei. Ele está bancando o garçom, fazendo do cardápio um jogo.

– Não estou com fome o su ciente para antepastos, sopa ou salada – declaro. Sem contar que sem chances de eu comer sopa ou uma alface toda cheia de molho.

– Muito bem – responde ele. – Massa ou pizza?

Pizza de nitivamente seria mais fácil, mas parece errado pedir isso num bom restaurante.

– Massa.

– Excelente! Escolha da seguinte lista: linguini mare, espaguete à carbonara…

A leitura dele engata num certo ritmo, e aí um sotaque italiano ruim…

– … cappellini pomodoro, fettuccine primavera…

Agora ele está quase cantando as escolhas. Eu me inclino para a frente e sussurro:

– Jason…

– TOR-tel-LI-ni MAR-i-NAR-a, ou uma SAL-tim-BO-cca de VI-te-la.

Eu dou risada com ele inserindo palavras para caber na métrica da melodia que criou para o cardápio. Escuto aqueles sons e cubro a boca para parar e não incomodar as outras pessoas. Isso além de eu me sentir um pouco idiota dando risadinhas, como a Sarah no shopping.

– … e tem TAM-bém SCALL-o-PI-ne OU PARM-e-SAN… eee de FRAN-go.

Eu gargalho.

– Jason!

– Ainda não estou nem na metade da página – informa ele. – Também tem CABELO de AN-jo com A-i-O-li, RIG-a-TON-I A-bruz-ZI… zi

– Não faço nem ideia do que é metade dessas coisas!

Silêncio. Ou pelo menos logo que eu paro de gargalhar.

– Então será que posso recomendar uma lasanha de carne? – diz ele, inexpressivo.

– Faz muita lambança – digo, colocando um pouco de sinceridade. – Eles têm nhoque? Com molho Alfredo?

– Nunca ouvi falar… não vejo em lugar nenhum…

– Em italiano se escreve com o g mudo, g-n-o-c-c…

– Ah, aqui está. Gnochi Del Giorno. Um maravilhoso prato de batata…

– Fico com esse. Com pão de alho.

Ih, espera, bafo de alho…

– Estão prontos? – pergunta uma mulher. – Ah!

– Tudo bem – comenta Jason. – Num bom jantar o que conta é o sabor e o aroma. A aparência só distrai.

– Muito bem – concorda ela, entrando no jogo. – Sei que o chef discordaria. Ele de nitivamente acredita na apresentação – a primeira garfada é com os olhos, ele diz. Mas ele não precisa saber.

– Nós dois vamos querer o Gnochi Del Giorno e pão de alho. Quer beber alguma coisa, Parker?

– Uma 6-C, por favor.

– Só temos soda, limonada, suco de cranberry, de grapefruit...

– Ah, eu quis dizer Coca ou Pepsi, ou o que tiver, com cafeína e açúcar. E um canudo. Por favor.

– Pra mim também – pede Jason.

Quando a garçonete sai, o Jason pergunta:

– O que é 6-C?

Eu me sinto estranha, mas não sei bem por quê. Será que estou com vergonha? Não, não pode ser.

– Celestial Carbonada Cafeinada Caramelada Colorida Cana-de-açúcar. Tenho certeza de que eles só vão ter 5-C aqui, só alguns refrigerantes têm cana-de-açúcar em vez de xarope de milho com alto teor de frutose, mas eu já estava com problemas para me fazer entender e não queria deixar tudo ainda pior.

A garçonete volta em tempo recorde com pão de alho.

– Coma um pouco – incentivo e para ser mais sincera – pra que eu não seja a única com bafo de alho.

– Tá bom. Nunca ouvi falar de nhoque. São batatas? Isso não parece italiano.

– Mas de nitivamente é. Não é o meu prato preferido, mas é muito bom.

– Por que você não pediu o seu preferido? Você estava apressada pra que eu parasse de cantar?

– Não! Não, é só que… bom, como a garçonete falou, algumas pessoas se importam com a cara do prato, mas eu me importo com o quanto é fácil de comer. O nhoque é fácil, mas espaguete? Esqueeeece…

Jason gargalha.

– É justo.

Eu como um pedacinho de pão de alho e gosto que o silêncio pareça confortável, pelo menos para mim.

– Ei – chama Jason. – Desculpa pela volta no ônibus.

– Não, tudo bem. Eu me assusto quando as pessoas me tocam já que não sei o que vai acontecer. É… bom, tipo uma regra com as pessoas cegas. Da próxima vez, é só dizer alguma coisa tipo Ei, deixa eu colocar o braço ao seu redor , daí na próxima vez eu não vou te dar um soco no nariz ou algo assim.

Droga, eu acabei de dizer próxima vez duas vezes…

– Ah, beleza.

– Ou – e isso é uma dica de pro ssional – se você esbarrar em mim primeiro, também funciona.

Já chega!

– Tá bom. Eu quis dizer toda a volta no ônibus. Não quero que você ache que a gente o pegou porque eu não te acho capaz de andar duzentos metros.

– Ah, tudo… bem… eu não… – Não consigo pensar no que mais dizer. Talvez em parte porque o meu rosto esteja ardendo, já que ele não estava falando de colocar o braço ao meu redor.

– Você está cando vermelha? – pergunta ele.

– Não! Por que eu caria vermelha?

Sem resposta.

– Mas se eu estivesse, um cavalheiro não repararia.

– Repararia no quê?

– Exatamente! – exclamo, e sorrio. Visivelmente.