Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 32 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 31

TRINTA E UM

 

u me troco e coloco o uniforme de novo; é mais fácil só tomar banho em casa e já car de pijama. A Trish faz o mesmo e sai primeiro. Eu ligo para a Sheila e ela está no estacionamento ouvindo CDs no carro. Ela se oferece para ir me buscar, mas digo que tudo bem, eu

vou de bengala até lá dali a alguns minutos.

Quando saio do ginásio, o Scott chama:

– Parker.

– Oi, você ainda está aqui? O que você vai fazer no m de semana?

– Quê? Não sei. Olha só… você não pode continuar fazendo essas coisas.

– Fazendo o quê?

– Se jogando de penhascos porque você sabe que eu estou sempre lá pra te pegar. Se eu não tivesse te segurado… Você estava a três metros das arquibancadas! Dessa vez, você teria quebrado ossos. Ou pior! Não… não é justo.

– Justo? – digo, minha raiva despertando. Mas estou dividida. Ele parece bravo, mas escuto algo mais. Ele está com medo.

– Você não pode presumir que eu sempre vou estar presente pra te proteger. Não é a minha obrigação.

– Eu nem sabia que você estava lá. Só porque você corre perto da minha casa toda manhã não quer dizer que eu ache que você está me seguindo por todo canto. Meu Deus, você não está, né?

– É claro que não…

– Você sabia que eu andei da escola pra casa essa semana, entortei a minha bengala e quei desamparada? Você acha que eu quei brava porque você não me salvou?

– Eu não sabia…

– É óbvio que não sabia. Eu só faço o que eu faço. Não tem nada a ver com você. Não sei por que isso te preocupa tanto. Não é como se a gente estivesse junto.

– Eu ainda me preocupo de você se machucar.

– Bom, eu não sei o que você quer de mim. Fico agradecida por você me segurar, de nitivamente, sim, obrigada, mas você não deveria se sentir obrigado.

– Mas eu sinto.

– Por quê?

Silêncio.

– Porque eu sou cega?

– É claro que não.

– Tem certeza? Se alguma outra pessoa cega aleatória viesse pra escola, você não ia correr por aí e protegê-la também?

– Eu não teria que fazer isso, quantas pessoas cegas cam correndo por aí?

Eu dou risada, mas ele não. Meu Deus, ele é tão… Como é que algum dia eu vou conseguir esquecê-lo?

– Eu estava errada antes – declaro, sentindo uma calma pela qual co agradecida. – Eu te amava no mês passado, e todo o tempo antes disso. Só achava que o Scott que amava não era real. Eu amava o Scott que eu achava que você era e odiava o Scott que você tinha se revelado. Aí eu descobri que o Scott que eu odiava era aquele que não era real. Você, o Scott real, nunca deixei de amar.

Nossa, isso saiu uma bagunça. Como posso me expressar de forma mais clara?

Minha calma me diz para não fazer isso.

Em vez disso, eu falo:

– As coisas podem estar complicadas agora, e confusas, mas podemos resolver. Nós somos as duas pessoas mais sinceras que a gente conhece, né?

– É.

– Então me diga uma das duas coisas. Diga sim, você me ama, mas… Ou fale não, você não me ama, mas… E podemos partir desse ponto.

– Não é tão simples assim.

– É pra isso que existem os mas, para acrescentar partes complicadas. Temos que partir de algum lugar.

– Esse é o problema. Quando o seu pai me mandou embora, eu estava pronto pra esperar, mas achei que ia levar uma semana ou duas, talvez um mês. Aí vieram as férias de verão, e os meses se arrastaram até que,

nalmente depois de umas semanas no primeiro ano do ensino médio,

numa escola diferente onde a gente não se cruzava mais, eu me dei conta. Você não estava apenas brava comigo, você tinha partido. Pra nunca mais voltar.

– Eu sei… me desculpe.

– Tudo bem, mas assim como você tinha esse outro Scott na sua cabeça, que você imaginou como um cara que te trairia, eu quei com uma Parker na cabeça que jogaria toda a nossa história e amizade fora num instante e… e iria embora sem nem uma palavra.

Eu começo a chorar. Por dentro, pelo menos, lágrimas encharcando o meu lenço. Luto para manter minha respiração estável. Não para esconder; só não quero que ele pare de falar.

– Eu amo aquela Parker? Eu me sinto muito mal de tê-la magoado, mas ela simplesmente desaparecer assim… E agora você decidiu que o Scott mau da sua cabeça não é real, então ele desapareceu e é só voltar ao verdadeiro eu de novo… mas…

Ele não quer falar o resto. Nem eu.

– Mas aquela Parker na sua cabeça sou mesmo eu. – Não consigo evitar que minha voz estremeça, eu luto para ela não car pior. – Eu realmente te larguei.

– É.

– Eu… eu…

Eu só tinha 13 anos!

Ah, meu Deus, não vou dizer isso. Ele merece coisa melhor. Melhor que eu. E isso não é autopiedade, é só um fato. Uma verdade fria e horrível. Sempre queremos o melhor para aqueles que amamos.

Consigo segurar os soluços, mas ele deve saber que estou chorando. Não há nada que eu possa dizer. Não posso nem pedir desculpas de novo e pedir para me perdoar. Eu não ia querer que ele perdoasse a nenhuma outra pessoa que tivesse feito o mesmo.

– Então… é complicado, né?

Eu concordo com a cabeça e tento fazer meus ombros pararem de tremer.

Escuto passos.

– Mas nós somos amigos. Aqui, tenho um negócio pra você. Eu z na Marsh, logo depois do que aconteceu. Pra te dar quando você voltasse. Nos últimos tempos comecei a andar com ele, tentando resolver as coisas e… aqui, ponha na sua mão.

Algo leve e metálico toca a minha palma, com um al nete. Um bóton.

Não con o na minha voz para perguntar o que tem escrito, mas aí sinto algo em relevo na frente; é braille. Como se ele tivesse martelado aquilo no metal no com um preguinho.

Mesmo antes de eu ler o que está escrito, paro de respirar. De todos os bótons no meu colete, nenhum é em braille. Eu colo etiquetas em braille no verso para saber o que eles dizem, mas esse bóton está em braille na frente, como se fosse o primeiro bóton para mim em vez de para as outras pessoas.

Corro os dedos por ele:

 

ver

não é

acreditar

 

Eu desabo.

Soluço e choro, não de um jeito histérico ou com medo, só profundamente triste, como se o mundo estivesse acabando e não pudesse fazer nada a respeito. Ele me pega nos braços e eu enterro o rosto no pescoço dele.

Leva alguns minutos para botar tudo para fora. Ele tenta acariciar meus cabelos uma vez, mas o lenço deixa isso esquisito, então ele só me abraça. É possível descobrir muito num abraço se a pessoa prestar atenção e não há nada de defensivo na forma que ele está me segurando. Ele não se impacienta, é como se pudesse fazer isso para sempre. Eu também poderia. Mas tenho que soltá-lo. En m faço isso.

Minha voz retorna.

– Você não pode con ar em mim porque eu não con ei em você. Foi o maior erro que eu já cometi. Não vou fazer isso de novo. Prometo.

– Hum, bom – diz ele em sua voz sorridente triste. – Você fala isso agora…

– É verdade. Eu consigo viver com o fato de você não querer car comigo, mas não consigo viver com você nunca mais con ando em mim. Quero provar isso a você… só não sei como.

– Não seria con ança se você tivesse que provar.

– Não, é assim que a fé funciona – respondo, com o coração batendo forte no peito e na garganta com a ideia que acabou de me passar pela cabeça. – A con ança… a con ança precisa de prova.

Dou um passo atrás.

– O que foi? – pergunta ele.

– Nós estamos sozinhos? Tipo, completamente sozinhos? Quero te mostrar algo… algo que nunca mostrei a ninguém e que não quero que ninguém mais veja.

– Não tem ninguém por aqui, mas não quero que faça nada que não queira…

– Eu quero. Mas tem certeza de que ninguém consegue nos ver? Certeza absoluta?

– Não tem mais ninguém aqui, prometo, mas eu…

– Shhh.

Ergo as duas mãos lentamente e, com um movimento suave, tiro o lenço.

– Parker…

Seco as lágrimas do rosto e abaixo os braços.

Abro os olhos. Meus olhos, mortos, vazios, sem utilidade.

Faço um esforço para escutar qualquer pista de como o Scott está reagindo. Não escuto nada, nem mesmo respiração. Acho que ele está segurando o fôlego. Eu sei que eu estou. Sinto como se nunca mais fosse respirar de novo.

Isso é o que eu mais odeio em ser cega.

– Eles são azul-esverdeados – sussurra ele. – Como o mar.

Ele está usando a voz de namorado dele. Eu inspiro profundamente para absorvê-la toda para dentro de mim.

– Eu sei que eram.

– Ainda são. Eles são lindos.

Eu fungo.

– Ah, tá bom.

– Eu nunca menti pra você.

Posso ouvi-lo respirando de novo.

– Achei que você ia ter mais cicatrizes.

– Não por fora.

– Bem, eles são lindos. Os seus olhos, quero dizer.

Eu sorrio.

– São os olhos da minha mãe. Nariz do pai, olhos da mãe.

– Eu gostaria de tê-la conhecido.

– Eu também… ela teria gostado de você.

Silêncio.

Bem, exceto pelas batidas no meu peito, nos meus ouvidos e no ar que nos rodeia.

– E então… – digo. – Pra que lado eles estão apontando?

Ele ri, então consigo rir também.

– E isso importa?

– Não, só estou curiosa. Pra onde eles estão olhando?

– Bom, qual deles?

– Meu Deus, Scott! – Dou um golpe no braço dele, feliz por acertar direto no bíceps.

– Eles não estão olhando pra nada. Não importa. Ver não é acreditar.

– Tá certo. – Sorrio e estendo o bóton pra ele.

– É seu.

– Ache um bom lugar pra colocar.

Eu me concentro nas mãos dele remexendo bem abaixo da minha clavícula. Quando ele acaba, amarro a Noite Estrelada de volta nos olhos. Faço isso devagar, para adiar o que sei que preciso dizer em seguida…

– Não tenho o direito de te pedir nada, mas preciso muito de um favor.

– O quê?

– Se não vamos car juntos, preciso que você pare de ser tão legal comigo.

– Hã? Nós somos amigos…

– Correr cinco quilômetros pra passar pela minha casa toda manhã? Correr pra lá e pra cá pela pista hoje? Se você tivesse uma namorada, primeiro ela ia achar fofo você cuidando da menina cega, depois ela ia começar a car ressentida. Tem coisas que só se faz pela namorada. Se eu não sou, você precisa parar.

– Mas eu…

– Isso é muito difícil de pedir, porque eu gosto disso, gosto mais do que tudo… mas não consigo suportar se você diz que a gente não pode car junto, apesar de algumas vezes agir como se estivesse. Se a gente vai ser só amigo, preciso que você pare de agir como se fosse mais do que isso. Essas coisas especiais que você faz dão uma sensação ótima num primeiro momento… – Eu coloco a mão no peito. – Depois só machucam.

Silêncio.

Quero preencher esse silêncio com mais conversa, mas me forço a não fazer isso. É a vez dele.

– Não estou dizendo que a gente nunca pode car junto – comenta ele, en m. – Só sei que não dá pra ser nesse exato minuto.

Mesmo isso me deixa tonta. Extasiada.

– Bem, pense a respeito. – Tento usar minha voz trivial e co aliviada por ela sair assim. – Nesse meio-tempo, por favor, que só assistindo, comendo pipoca, vendo os meus desastres que nem todo mundo. Posso sair arranhada ou com um osso ou dois quebrados, mas vou sobreviver.

Ele dá risada.

– Nada é fácil com você.

Eu sorrio.

– Algumas coisas não mudam nunca.

– Quanto tempo eu tenho? Tipo, pra pensar a respeito.

– Contanto que você mantenha distância o bastante, tire o tempo que quiser. – Faço um gesto vago. – Você não está vendo um monte de caras esperando na la, né?

Ele dá risada de novo.

– Devia ter.

– Viu, você pode parar com esse negócio agora mesmo. – Pego minha bengala de dentro da bolsa e a desdobro. – Elogios e ertes estão do lado errado da la. Tenho que ir. A Sheila provavelmente está se perguntando onde eu estou.

– Eu levo você…

– Não, você ca aqui.

– Ah, vai, eu levo uma porção de amigos até o carro. Isso não é tratamento especial.

– Eu preciso de um para-choque maior, tá? – Minha voz falha, tropeçando nas palavras. – Para eu não car empolgada toda vez que você chegar perto, esperando que você esteja prestes a cruzar a linha. Esse é o favor, é disso que eu preciso. Não chegue perto, a não ser que seja de propósito. Não vou aguentar, se não for assim. Por favor?

Meu Deus, não comece a chorar de novo…

– Tá bom. Sem tratamento especial, a não ser que signi que alguma coisa. Prometo.

– Obrigada. Preciso ir.

Seguro a onda muito bem, acho – cando alegre no nal, leve, espirituosa, forte –, mas preciso ir embora imediatamente. Não para ser dramática, mas porque a minha voz vai falhar de novo e eu sinto como se estivesse morrendo por dentro. Sei que se ele decidir nunca ser mais do que amigo, vou sobreviver e car bem de novo, mas isso é mais tarde, muito, muito mais tarde. No momento, meus olhos estão pingando no lenço de novo e meu peito está desabando.

– Vejo você por aí – diz ele atrás de mim.

Aceno com a mão livre por cima da cabeça.

– Isso se eu não te vir primeiro.