Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 1
UM
arissa está soluçando. De novo.
– E aí ele… ele… ele não… – Sua voz grave soa quase como um
grunhido.
Patética. E ela também é inteligente, exceto quando se trata do
Owen.
– Vocês não podem falar com ele?
Eu não respondo, nem Sarah. Oferecemos bons conselhos, de graça, inclusive, mas nunca nos envolvemos. Dissemos isso a Marissa milhões de vezes; seria desperdício de oxigênio falar de novo. Só temos que esperá-la parar de chorar. De qualquer forma, não há nada a fazer até o sinal tocar.
No ano escolar anterior, essa cena se repetiu a cada poucas semanas. Marissa raramente fala comigo por outro motivo. Eu não me lembro com clareza de como ela soa sem gemer, fungar, ofegar, tossir em meio a lágrimas e coriza, e sem precisar muito assoar o nariz.
O senso comum diz que perder a visão intensi ca os outros sentidos, e é verdade, mas não os ampli cando. Só deixa a distração esmagadora de ver tudo o tempo todo. Por outro lado, a minha experiência de me sentar com a Marissa consistia quase que inteiramente em escutar tudo o que a boca e o nariz dela eram capazes de fazer em detalhes gosmentos. É assim que o amor não correspondido soa para mim. Nojento.
– Parker? Você não pode fazer alguma coisa?
– Estou fazendo. Estou te falando pra achar outra pessoa. – Faço uma pausa, como no roteiro de sempre, para que ela possa interromper.
– Nãaaaao!
Eu sou a rainha de não dar a mínima para o que as outras pessoas pensam, mas a indiferença da Marissa com um pátio cheio de gente – no primeiro dia de aula, nada menos que isso – vendo-a imitar uma fábrica escandalosa de muco… até eu me sinto humilhada.
– Marissa, escuta, almas gêmeas não existem. Mas se existissem, elas seriam duas pessoas que querem uma à outra. Você quer o Owen, mas o Owen quer a Jasmine, então isso signi ca que o Owen não é a sua alma gêmea. Você só o persegue.
– Espera… a Jasmine? – Eu aproveito um momento de paz, já que a surpresa dessa informação, que nós contamos a ela na primavera passada, a deixa quieta por um instante. – Ela não é…?
– Sim, a Jasmine gosta de meninas, mas ela ainda não encontrou uma em particular, aí o Owen acha, de um jeito idiota, que tem uma chance. Isso faz com que ele a siga por aí de um jeito levemente mais inútil e triste do que você o segue. Na verdade…
Sarah estala a língua e sei o que isso signi ca, mas, quando estou em um ritmo acelerado, co eufórica demais para parar ou até para desacelerar.
– … a única coisa que você e o Owen têm em comum é estarem apaixonados por alguém que não corresponde, alguém que vocês nem conhecem. Alguma vez você já olhou no dicionário palavras como amor, alma gêmea ou até mesmo relacionamento?
O silêncio que se segue é o exemplo perfeito do que eu mais odeio em ser cega: não ver como as pessoas reagem ao que digo.
– Mas… – Marissa funga abundantemente. – Se a gente passasse algum tempo junt…
Salvas pelo sinal. Ela e eu. Mas, basicamente, ela.
– Ora, se não é a srta. Certinha e sua Cachorrinha-que-tudo-vê. – O grito familiar está à minha esquerda e é acompanhado da abertura ruidosa de uma porta de armário.
– Por favor, me diga que o armário dela não ca bem ali – peço à Sarah num sussurro encenado. – Descobri, no verão, que sou alérgica à PVP. Agora tenho que carregar uma caneta de epinefrina injetável na bolsa.
– Ah – exclama Faith com sua voz aguda. – Eu sou PVP? Que são… Pessoas… Pessoas…
– Polivinilpirrolidona. Usado em spray de cabelo, gel de cabelo, bastões de cola e madeira compensada.
– Bom, eu acho que PVP signi ca Pessoas… que são… Vastamente Populares .
Eu dou risada, estragando o personagem, e falo:
– Fay-Fay! Você acabou de inventar isso?
– É claro que sim! Não sou tão boba quanto você parece.
O cheiro de kiwi e morango me diz o que está prestes a acontecer e eu me preparo. Eu chamaria isso de um abraço de urso, só que a Faith é muito magrinha para fazer qualquer coisa de urso. Eu a abraço por um tempo meio longo e depois solto.
– Você tem mesmo uma caneta de epinefrina injetável? – pergunta ela.
– Meu Deus, Fay – retruca Sarah. – Você ao menos sabe o que é isso?
– O meu sobrinho é alérgico a amendoim. E você sabe que é uma vaca pretensiosa e condescendente?
– Sim, eu seeeei! – A agitação do ar e a resposta da Sarah me dizem que a Faith também deu um abraço nela.
– Dá pra acreditar em todos esses estranhos? – comenta Faith, sem tentar sussurrar. – Esse lugar está um zoológico.
– Pelo menos são eles invadindo a gente – observa Sarah –, e não o contrário.
Tudo verdade. A cidade de Coastview não consegue mais sustentar duas escolas secundárias, então a Jefferson fechou e todo mundo veio aqui para a Adams. Os corredores estão tão congestionados de gente que não conhece As Regras, e não apenas os calouros, que precisei me segurar no braço da Sarah para vencer o caos até o meu armário. Domesticar todos esses novatos vai ser uma loucura, mas pelo menos não tenho que aprender o espaço de uma escola totalmente diferente.
– Ei, lá vem mais um – avisa Faith, mais perto e com mais suavidade, dessa vez se lembrando da Regra Número Dois, e me abraça de novo. – Desculpe por ter cado presa em Vermont o verão inteiro. Você sabe que eu teria vindo se pudesse, né?
– Estou bem – digo rapidamente, esperando que isso acabe com o assunto.
– Eu vi mesmo vocês falando com a Marissa hoje de manhã? Ela estava chorando?
– Ano novo, mesma baboseira – comenta Sarah.
– Por favor, me digam que é um outro cara. Sério? Não…
Imagino várias expressões faciais, cabeças assentindo e sobrancelhas se mexendo nas lacunas.
– Foi disso que vocês passaram a manhã falando? Que egoísta da parte dela… peraí. – Posso ouvir que a Faith se virou para mim. – Ela sabe, pelo menos? Você não contou pra ela?
– Certo – respondo. – Ah, Marissa, enquanto você passou o verão chorando por um completo desconhecido, o meu pai morreu e a família da minha tia se mudou pra cá porque a minha casa é melhor do que a deles.
– E… – diz Faith. – Você só pensou isso ou disse mesmo?
– Caramba, Fay. Eu sou sincera, mas não sou má.
– Com algumas exceções – comenta Sarah.
– Tenho que ir. – Abro a minha bengala. – Com todos esses novatos no caminho, vou levar um tempinho pra chegar na aula de trigonometria.
– Não arrumaram outra acompanhante pra ela? – pergunta Faith à Sarah enquanto vou dando batidinhas pelo corredor. – Quem é? A Petra não se mudou pro Colorado ou algum outro lugar?
Fico feliz que elas possam falar da minha acompanhante voluntária sem parecer esquisito. Não dá para ser uma delas, a Faith é muito ocupada socialmente (traduzindo: popular) e a Sarah não se quali ca porque não tem tantas distinções nem faz tantas matérias avançadas quanto eu. Mas tem uma menina da Jefferson que está em todas as minhas turmas, e ela estava disposta; então a escolha foi meio que natural.
Assim que me acomodo no meu lugar de sempre para todas as aulas – no fundo direito e reservado para mim com um cartão com o meu nome –, aquilo começa.
– Então você é cega, hein?
Levanto a cabeça na direção da voz masculina desconhecida que vem da carteira diretamente à minha frente. Grave, levemente densa ao redor das vogais. A voz de um atleta, mas guardo isso como uma hipótese, esperando por mais provas.
– Você tem certeza de que está na aula certa? – digo. – Cálculo para Gênios é no nal do corredor. Essa aqui é só trigonometria.
– Acho que você está na aula da Kensington? Não está meio cedo pra isso?
Não sei o que isso quer dizer, nem que é Kensington. Talvez uma professora da Jefferson.
– Ei, babaca – diz uma voz masculina à esquerda do Babaca. – Ela é cega mesmo.
Interessante. A segunda voz é mais suave, e calma de um jeito que normalmente não se ouve ao insultar vozeirões robustos de atletas. É familiar, mas não consigo identi car.
– Não, a sra. Kensington faz esse negócio onde é preciso ngir…
– Eu sei, e ela não distribui bengalas. Além disso, é o primeiro tempo do primeiro dia.
– Mas, se ela é mesmo cega, por que usaria uma vend…
– Vai por mim, cara, só cala a boca. – Palavras ríspidas, mas ditas numa voz amigável.
Para o meu lenço do dia, escolhi um de seda branca com um X preto grosso em cada olho. Era esse ou o meu hachimaki escrito Vento Divino em kanji, mas eu não queria confundir os novatos com uma mensagem difícil de ser entendida. De qualquer forma, sei que errei deixando o meu colete em casa.
Normalmente, uso uma jaqueta do exército com as mangas cortadas, coberta de broches que os amigos compraram ou zeram ao longo dos anos. Frases tipo Sim, eu sou cega, lide com isso! e Cega, não surda, nem idiota! e a minha preferida, Parker Grant não precisa de olhos para enxergar sua alma! Hoje de manhã, a tia Celia me convenceu a não usá-lo, argumentando que ele ia oprimir todas as pessoas da Jefferson que não me conhecem. Acontece que ela está errada. Elas precisam ser oprimidas.
Ouço pés se arrastando e o estalar de madeira e aço quando alguém se senta de modo pesado à minha esquerda.
– Oi, Parker. – É a Molly. – Desculpe pelo atraso. Eu precisava passar na secretaria.
– Se o sinal ainda não tocou, você não está atrasada. – Tento soar casual, mas realmente deixar com que ela saiba que ser minha acompanhante só signi ca me ajudar com certas coisas nas aulas, não na vida em geral.
– Ei, então o seu nome é Parker… – comenta Babaca.
– Uau – interrompo-o com minha voz doce. – Você sacou porque acabou de ouvir alguém dizer. E eu sei o seu nome pela mesmíssima razão. Mas Babaca não é muito bonito, então vou te chamar de B.B.
– Eu me…
– Shhh… – Balanço a cabeça. – Não estrague.
O silêncio que se segue é o exemplo perfeito do que eu mais adoro em ser cega: não ver como as pessoas reagem ao que digo.
– Eu… – diz B.B., e o sinal toca.
– Os degraus para descer ao estacionamento estão logo à frente – informa Molly.
Suspiro internamente. Na verdade, estou cansada; talvez eu tenha suspirado externamente, não tenho certeza.
As aulas terminaram faz um tempo, mas a Molly e eu planejamos um cronograma para fazer o nosso dever de casa na biblioteca depois da escola por umas duas horas e, depois disso, ligo para a tia Celia ir me buscar. A mãe da Molly é uma professora que também veio da Jefferson, ela ensina tanto francês quanto italiano, e elas vão embora juntas.
– Que bom – respondo. – Já faz pelo menos uns dois anos que esses degraus estão aí. Aposto que seria muito difícil se livrar deles com o estacionamento inteiro um metro e meio mais baixo que todas as salas de aula.
Silêncio.
Considero lembrá-la da Regra Número Quatro, já que não faz muito tempo desde que dei a lista a ela, mas foi um primeiro dia cansativo e não tenho energia.
Não preciso de uma dama de companhia em lugar nenhum nas dependências da escola. Sei exatamente onde ca a vaga de de cientes físicos, e dois anos do papai estacionando ali treinaram os não de cientes a não pararem no raio daquele lugar. A Molly insistiu que só estava andando comigo de bobeira, mas eu sabia muito bem. A combinação de de cientes visuais, escadas e carros aterroriza os que enxergam, mas na verdade é bem segura. Os carros só são perigosos quando estão em movimento, e eles só andam em certas vias e lugares, e fazem barulhos que podem ser escutados, mesmo os híbridos. Escadas são como caminhos de um certo tamanho que os seus pés podem sentir o tamanho e o formato o tempo todo.
– Sabe, Parker… – Molly solta com certa energia, talvez impaciência, mas não continua. Ela suspira.
– O quê?
– Deixa pra lá.
Eu também quero deixar pra lá. Ainda não passei tempo o su ciente com a Molly para saber se vou gostar dela ou apenas tolerá-la – a quantidade de energia que vou dedicar a isso depende muito de qual das duas vai ser – mas, qualquer que seja o caso, vamos car uma com a outra mais do que com qualquer outra pessoa, o dia inteiro, todos os dias, o ano inteiro.
– Você não pode voltar atrás – digo, só como um fato, não como acusação. – Agora sei que tem algo aí. Bota pra fora antes que tome conta de você.
– É só que… – começa ela, en m. – Sei que a gente acabou de se conhecer…
Outro suspiro.
– Você quer que eu te ajude? – pergunto. – Ou deixe você se debatendo mais um pouco?
Molly solta uma descarga de ar pelo nariz. Não sei dizer se é o tipo de gargalhada ou de revirar os olhos.
– Sim, claro, me ajude. – Ouço um pouco dos dois. Um bom sinal.
Incrustada no caminho de concreto sob meus tênis, está a placa áspera de metal descrevendo a fundação da Escola Secundária John Quincy Adams, em 1979. Sei exatamente onde estou.
– Toma aqui. – Estendo a minha bengala. – Dobra isso pra mim?
Ela a pega.
– Por quê?
Eu me viro e ando vigorosamente na direção dos degraus, agitando os braços, contando na minha cabeça… seis… cinco… quatro… três…
– Parker! – Molly corre atrás de mim.
… dois… um… degrau para baixo…
Desço os degraus, contando-os, atingindo-os de forma dura e con ante, as pernas retas como um soldado, a cada vez escorregando o pé para trás para bater o calcanhar contra o degrau anterior.
Lá embaixo, continuo andando e contando silenciosamente até chegar ao meio- o onde sei que o carro da tia Celia vai parar. Eu paro e giro.
– Bengala, por favor?
A bengala toca a minha mão. Ela não a fechou como eu pedi. Faço isso e coloco-a na bolsa.
– Talvez você esteja pensando que eu sou um estereótipo de garota cega que quer provar que não precisa da caridade de ninguém. Mas em vez de ser legal com as pessoas que estão tentando ajudá-la é uma idiota amarga e ressentida que sente falta de algo maravilhoso que ela acha que todos os outros não lhe dão o devido valor.
Agora estou começando a me perguntar se a Molly só respira de maneira audível, embora eu não tenha percebido isso na biblioteca e lá estivesse bem silencioso.
– Estou quente?
– Não muito. Mas nem todo mundo tem que ser.
Levo um instante para entender – o que não é nem um pouco do meu feitio – que ela quis dizer que não sou calorosa, e agora é tarde para rir.
– Touché. – Sorrio.
O carro da tia Celia estaciona.
– Imagino que você saiba identi car se é o carro da sua tia só pelo som?
– É, basicamente.
– Meu cachorro também consegue fazer isso.
Viro a cabeça para encará-la, algo que em geral não me incomodo em fazer.
– Estou começando a gostar de você, Molly Ray. Mas, acredite, isso tem suas vantagens e desvantagens.
– Ah, não se preocupe. Eu acredito.
A porta do carro se abre num estrondo. A tia Celia grita, muito alto:
– Parker, sou eu, entra aí!
Eu suspiro de nitivamente para fora.