Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 6
SEIS
etey tem um fascínio sem m por anime, que não é grandes coisas para mim. Me disseram que o apelo é basicamente visual e tudo que escuto são atores ruins lendo diálogos pessimamente traduzidos e roteiros japoneses muito mal escritos. Mas é a manhã de domingo;
então estou usando meu hachimaki enquanto ele usa o quimono de caratê e a nova faixa roxa que mereceu ontem.
Alguém entra na sala e desaba com força na poltrona de couro. É Sheila; ela é a única que se jogaria por perto sem dizer nada. Agora ela está mandando mensagem de texto. Eu sento com a cabeça recostada no sofá, sem ouvir de verdade o programa. Nem tenho mais certeza do que está passando, mas não importa porque sei, pela súbita explosão maluca de guitarra e sintetizador, que está nos créditos nais.
Tia Celia chama da entrada:
– Meninas, estão prontas?
– Vocês vão sair? – pergunta Petey, parecendo esperançoso.
Até Sheila percebe que ele está tentando ir junto e responde, na sua voz entediada:
– Pro shopping. Comprar. Roupas. Você ia odiar. Aí todas nós íamos odiar.
– Você vai, de qualquer jeito – diz tia Celia. – O papai levou o carro pra trocar o óleo.
Petey resmunga.
– Vai ser divertido – comento. – Preciso de tênis de corrida novos. Você pode me ajudar a escolher.
– Mas eu não quero car horas de bobeira esperando a Sheila experimentar um milhão de calças.
– Ninguém quer, meu amor – declara tia Celia, entrando na sala. – É por isso que a gente vai largá-la. Nós vamos voltar pra casa depois de comprar o tênis da Parker.
– Banco da frente! – grita Petey quando saímos de casa.
– Ã-ã, no de trás – diz tia Celia. Não adiantou Petey falar primeiro, ditadores não seguem as regras que não gostam. – Eu vou na frente com a Sheila.
– Mas se… – começa Petey.
– É uma licença provisória – informa Sheila. – Não posso dirigir com ninguém no carro a não ser que a mamãe esteja sentada do meu lado. Vai se acostumando.
No banco de trás com Petey, estendo a mão e sussurro:
– Um, dois, três, quatro…
Ele segura a minha mão num aperto apropriado e sussurra de volta:
– Eu declaro uma guerra de dedões.
No estacionamento do Ridgeway Mall, camos serpenteando. Não sei se é porque está lotado ou se ela só está tentando economizar cinco passos extras.
Tia Celia fala:
– Você não ia encontrar a sua amiga na praça de alimentação? Fica bem do outro lado.
– É – responde ela. Não faço ideia de quem seja essa nova amiga.
Sheila estaciona e, quase antes de o motor estar totalmente desligado, ela já foi embora.
– Posso ir na loja de videogame? – pergunta Petey.
– Não vamos comprar videogames hoje.
– Só pra olhar?
Petey gosta de me ajudar, mas, aparentemente, fazer compras é um pouco demais, até para ele.
– A gente precisa ajudar a Parker a comprar tênis, depois vamos direto pra casa.
– Na verdade, não preciso de ajuda – digo. Não para criar problema, só é a verdade. – A gente está entrando pela porta onde tem a pet shop, né? Depois que a gente estiver lá dentro, posso encontrar vocês aqui de volta em meia hora.
– Legal! – exclama Petey.
– Não, não. É claro que a gente vai te ajudar, Parker.
– Obrigada, mas vocês realmente não precisam fazer nada. Eu sei aonde estou indo e o que vou comprar, e estou com o meu cartão de crédito. Eu mando uma mensagem se alguma coisa mudar. Se eu voltar pra pet shop antes de vocês, co brincando com os lhotes até vocês aparecerem.
– Não acho que seja uma boa ideia.
É aí que o bicho pega. Confesso que sugerir a pet shop foi uma provocação – a única coisa mais cansativa do que Petey tentando ganhar um videogame é ele tentando ganhar um lhote –, mas o resto foi uma tentativa sincera de dar uma chance a minha tia. Ela estragou.
– Eu não posso comprar tênis sozinha por meia hora, mas a Sheila pode
car andando por aí o dia inteiro?
– Não é a mesma coisa, Parker – responde ela na sua voz cansada da vida.
– É exatamente a mesma coisa.
– Me desculpa, mas não é. Você não vai querer falar disso…
– Não, eu quero muito falar disso. Por que, exatamente, você precisa estar comigo?
– Bom, é só mais fácil quando a gente…
– Eu não preciso de mais fácil.
– Como você vai escolher o que quer?
– Eu já sei o que eu quero. Digo a eles, eles pegam, dou o meu cartão de crédito, pronto.
– E se te cobrarem a mais? Não é melhor pagar em dinheiro?
– Não. Eles escaneiam o código de barras e vai direto pro cartão de crédito. Se o pagamento for em dinheiro, a caixa pode dizer sessenta dólares e o cara te dizer cem; aí ele coloca os quarenta a mais no bolso e você está ferrada sem nenhuma prova. Com o cartão de crédito, eu veri co online quando chego em casa e vejo se custou o que o cara falou. Aí só pago se estiver certo.
Silêncio.
A tia Celia só está morando comigo há três meses e tem muitas situações com que a gente ainda não teve que lidar. Eu não previ que hoje seria o dia de colocar as coisas em pratos limpos a respeito de fazer compras sozinha, mas também não previ o Petey forçando a barra para ir na loja de videogame, o que ele tem todo direito de fazer.
– Eu só quero ajudar – diz ela.
Ela soa sincera. Como se eu a estivesse magoando. Mas, se alguém se magoa quando insiste em me dar algo que não quero, não vejo como isso possa ser culpa minha. Mas não nos leva a lugar algum.
– Vamos fazer o seguinte. Pode me seguir se quiser e você vai ver que estou bem. Não vai ser divertido pro Petey, mas não ia ser, de qualquer jeito.
– Você quer que a gente siga você? – pergunta ela. – Tipo dez passos atrás?
– Não, mas também não posso impedir. Faça o que quiser. Só não inter ra, a não ser que eu esteja fazendo alguma coisa em que corra perigo de vida. De qualquer forma, encontro vocês aqui de volta em meia hora ou mando uma mensagem.
– Tá bom – suspira ela.
Vou tateando com a bengala até a parede. Com toda a discussão, quase perdi a noção de onde ela deveria estar, mas o som de lhotes à minha esquerda me orienta. Sei que não há bancos ou outros obstáculos ao longo dessa ala do shopping, então me guio facilmente com a bengala, batendo com força o bastante para que pessoas que não estejam olhando me escutem chegando.
Há sete lojas à frente. Minha bengala acerta a parede lateral e depois o vazio quando passo na entrada de uma loja, e depois parede de novo. Após sete vãos, sei que estou na área central.
Essa é a primeira vez que espero que tia Celia intervenha, pois estou indo direto para a fonte. De propósito, mas ela não sabe disso. A água só bate na canela e ela provavelmente acha que eu vou meter os pés lá dentro. Minha bengala atinge a borda e eu paro. Ninguém diz nada.
A não ser um menininho por perto que sussurra audivelmente:
– Mãe! Mãe! Olha!
Quem sabe do que se trata. Talvez seja sobre mim, talvez seja um cocô
utuando na fonte. Agora vem a parte desa adora: me orientar para a
sapataria a partir daqui.
– Ela está ngindo que é cega! – comenta o menino num sussurro alto o bastante para ecoar.
Ignorar ou não essas coisas é sempre uma questão. Posso sentir que ele não está longe, então me inclino um pouco na direção dele.
– Eu não estou ngindo – digo num sussurro alto. – Eu sou cega mesmo. E não sou surda.
Ele ofega e o escuto se arrastando. Talvez esteja se escondendo atrás da mãe.
– Então por que você está usando uma venda? – pergunta ele.
– Vamos, Donnie – pede uma mulher jovem. – Não a incomode.
– Eu uso porque é bonito. E porque pilotos japoneses na Segunda Guerra Mundial as usavam quando se espatifavam em algo de propósito. Às vezes eu também me espatifo em coisas, embora não de propósito.
Percebo que isso pode ser ofensivo, mesmo que eles não sejam japoneses. Tarde demais.
– Camicase! – grita ele, seguido de barulhos de avião, barulhos de balas e um barulho de explosão, todos eles provavelmente lançando muitos mililitros de cuspe no ar.
Com isso resolvido, é hora da parte desa adora. A ala do shopping com a sapataria, Corrida Desenfreada, é oposta à fonte, que é redonda. Funciona melhor se eu contornar dando batidinhas com o bastão e pisando para o lado, sempre tentando car de frente para o mesmo lado sem girar, ou é difícil de acompanhar minha direção. Conforme faço isso, os barulhos de avião diminuem. Quando acho que estou lá, é hora de ver se acertei.
Ando para a frente o su ciente para saber que estou na ala principal, depois começo a me dirigir à direita, onde sei que está a loja. Consigo não esbarrar em ninguém, como pessoas que estão provavelmente olhando para o outro lado, encarando as vitrines ou sei lá o quê e não escutam as minhas batidas.
Quando chego à entrada, avanço e ando reto até que bato numa barreira que deve ser um mostruário de sapatos. Estendo a mão e toco em lona e cadarços. Sucesso. Agora é um jogo de espera, e em geral é curto.
– Posso ajudar?
É a voz de um cara. Talvez da minha idade. Não a reconheço.
– Depende. Você trabalha aqui?
Ele dá uma risadinha.
– Sim, eu sou um empregado. Quer tocar o crachá com o meu nome?
– Não até a gente se conhecer melhor. A não ser que esteja em braille.
– Não está. Ela diz Jason. Você está procurando alguém?
– Não. – Levanto um pouquinho a perna direita e viro o pé para o lado. – Pode me dar um novo par desse, número 37?
– Hummm… Acho que a gente não tem mais desse modelo.
– O mais parecido está bom. Não sou tão exigente.
– Em preto?
– Com certeza. Sou exigente com isso. Sem listras ou cores ou qualquer troço extravagante. Se eu correr de noite, quero ser atropelada porque não conseguem me ver.
– Você também pode correr de noite, já que não precisa de luz. Já volto.
Ele sai. Nenhuma reação por eu correr de noite ou simplesmente correr; ele fez até uma brincadeirinha. Eu podia gostar desse cara. A não ser por eu não saber se ele tem 17 ou 27 anos e isso é algo difícil de perguntar até para mim.
Digo “Não, obrigada, já estou sendo atendida” para três pessoas diferentes até o Jason voltar.
– Tem um banco vazio a uns três passos à sua direita – comenta ele.
Enquanto eu dou batidinhas e passo a mão, ele continua falando.
– Não sei se você liga pras marcas…
– Não ligo. – Encontro o banco e me sento.
– Tá. Eles pararam de fabricar os tênis que você está usando e os substituíram por estes daqui, que são parecidos, mas colocaram mais apoio no arco e uma tecnologia de espuma que simula molas no calcanhar, o que não ajuda, mas também não atrapalha. Você quer que eu amarre os cadarços pra você?
Ele me perguntou. Agora está ganhando pontos.
– Me dá um e você pode amarrar o outro. – Estendo uma das mãos e um tênis pousa nela.
– Claro. – Ele se senta ao meu lado. – Podemos apostar corrida.
Tenho muita experiência amarrando cadarços, mas ele trabalha aqui, então acho que ele vai ganhar.
– Você é um corredor? – pergunto. – Ou isso é só um emprego?
– Por que não os dois? Mas sim, eu corro.
– Você já correu na pista de corrida da escola? – pergunto. Muito sutilmente.
– Ainda corro. Bom, se eu zer parte da equipe, o que parece provável. As provas são na próxima semana.
– Onde você estuda?
– Agora estou no último ano na Adams. E você?
– Ah, você é um dos imigrantes. Eu sou uma nativa.
– Sério?
Agora me pergunto se ele está me zoando. Não é ser convencida nem nada, mas quais as chances de ele nunca ter visto minha venda e eu zanzando pela escola?
É demais para deixar pra lá.
– Você nunca me viu por lá?
– Não, acho que a gente não tem nenhuma aula em comum.
– Ou anda pelos mesmos corredores ou come no mesmo refeitório.
Ele gargalha.
– Na hora do almoço, eu só vou pra pista de corrida com uma barrinha de cereal.
Termino de amarrar o cadarço.
– Pronto. Você já acabou?
– Uhhh – exclama ele. – Siiiiiiiiiim… terminei…
– Eu ganhei, né?
– Você nunca saberá.
Uau, tirando vantagem da minha cegueira de um jeito seguro e brincalhão nos primeiros cinco minutos.
Coloco os dois tênis e me levanto.
– Você tem uns dois ou três passos livres à sua frente. Se quiser mais, posso liberar um corredor pra você.
– Não, tudo bem. – Dou uns pulinhos no mesmo lugar e experimento os tênis dando alguns passos. A sensação deles é estranha, mas do jeito normal de sapatos novos. Bom, no m das contas.
– Quanto custam?
– Custam $79,99.
Tiro o cartão de crédito do bolso e o estendo.
– Vou levar. Chego no balcão em um minuto.
– Não precisa, acabamos de receber esses scanners portáteis.
Enquanto ele escaneia o código de barras (bip) e digita (clique, clique) coloco os tênis velhos de volta e guardo os novos.
– Você assina na tela. Vou colocar a ponta da caneta onde é para assinar.
Estendo a mão e aparece uma caneta. Eu a pego e ele está segurando a outra ponta no ar até que ela encosta numa superfície dura.
– Aqui.
Assino meu nome e ele pega a caneta de volta.
– Coloquei a nota na caixa.
– Obrigada.
– Se você for veri car depois, o que deveria fazer, na verdade eles só custaram 68 dólares ou $73,78 com a taxa.
– Eles estão em promoção?
– Não, eu tenho um desconto pra família e amigos. Acho que agora somos amigos. É só um código que a gente coloca, a gente não marca a sua conta nem nada; então sempre que você vier aqui, vai ter que pedir para ser atendida por mim, Jason Freeborn.
– Legal, obrigada, Jason.
– Mas se o meu chefe perguntar, é melhor eu ter um nome pra dizer a ele.
– Como?
– Qual é o seu nome?
Ah. Que idiota.
– Parker. Parker Grant. Como no cartão de crédito.
– Eu não quis presumir. Um monte de gente usa o cartão dos pais.
– Quem me dera.
– Aqui estão os seus tênis. Me prometa que você não vai correr de noite, mesmo que possa.
– Prometo.
– Ótimo. Talvez eu veja você nos corredores da Adams. E já que agora nós somos amigos quero ver você correndo com esses tênis algum dia.
Por mais que seja estranho, estou pensando que talvez eu deixe ele fazer isso.