Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 28
VINTE E OITO
s Regras não são apenas para as outras pessoas. Algumas são para mim. A mais recente foi a regra de não chorar que a Sarah me convenceu a revogar. Ainda não estou certa de que foi o certo a fazer ou só uma grande racionalização por não ser capaz de fazê-la
funcionar.
Outra regra é ter uma bengala de reserva. Eu tinha uma, mas, quando a bengala principal durou muito e só quebrou num acidente bizarro contra uma porta de carro, eu mudei para a sobressalente e não tive pressa para encomendar outra, e nunca corri atrás disso. Agora essa quebrada é tudo que tenho por, no mínimo, uns dois dias, mesmo pagando pela entrega urgente.
Na verdade, ela não quebrou. Uma parte do meio se entortou e a minha mão escorregou. Ela me sacudiu e me deu um problema para resolver. Sento na calçada para explorar o dano com os dedos. Ela se entortou talvez uns dez graus, mas ainda está usável. Certamente preciso de uma nova, mas essa vai servir enquanto outra chega. Vou encomendar duas.
Um carro diminui a velocidade até parar e uma mulher mais velha pergunta se preciso de ajuda. Lanço o meu melhor sorriso e digo que não, obrigada, mas pergunto o endereço da casa onde estou em frente. Quando ela me informa, eu assinto como se fosse uma boa resposta e ela vai embora. Agora eu poderia andar até em casa, mas ligo para a Sheila.
Eu falo a verdade, que tive vontade de ir para casa andando, mas que entortei a bengala. Acho que ela sabe que tem algo mais, mas só diz que vai me buscar. Encontro uma árvore perto da calçada para me apoiar, dobro a bengala e a guardo na bolsa, de outra forma sei, por experiência própria, que ela funcionaria como uma antena de rádio, chamando todos os bem-intencionados que acham que, se uma pessoa cega está parada, ela deve estar precisando de ajuda.
O carro da tia Celia chega. A música não está ligada, então acho que a minha tia veio, em vez da Sheila, mas aí a porta se escancara e minha prima diz:
– Que porra você tá fazendo aqui?
– Esperando pelo meu príncipe vir me resgatar. Obrigada, Príncipe Sheila.
– Tá, beleza, o Príncipe Sheila está bloqueando a rua. Dá pra entrar?
Há carros parados por toda a rua. Eu me esgueiro entre dois deles, entro e fecho a porta. Sheila não espera eu colocar o cinto de segurança e acelera.
– Você quer ir a algum lugar? Algum lugar além de casa?
– Como você sabe?
– Você está aqui por algum motivo. Você sabe andar por essa cidade caipira… Para onde?
– A gente virou primas que se pegam agora? Eu conheço um bom lugar de pegação.
– Não viramos, mas na remota possibilidade de algum dia eu descolar um encontro por aqui seria bom saber. Como é que chego lá?
– Pegue a próxima à esquerda.
Ela vira mesmo à esquerda.
– E agora?
– Hum, pegue as próximas três esquerdas. Como é que eu vou saber, poxa? Por mais que eu quisesse te mostrar aonde você pode ir, sou uma péssima copiloto.
– Achei que você sabia onde a gente estava, contando os sinais, conhecendo todas as curvas… Você sabe quando o carro vira, né?
– Sim, mas não mais do que isso. Quem me dera ser tão esperta.
– Aposto que você conseguiria, você só não se incomoda com isso. Eu também não me importaria se as pessoas sempre servissem de motorista pra mim pra tudo quanto é canto.
– Está vendo aquela montanha perto da praia? Dá pra ver de qualquer lugar da cidade…
– Sim, sim, estou vendo.
– Tem uma estrada que leva a um mirante lá em cima… é pra ser fácil de achar.
– Beleza, relaxa e deixa que eu cuido de tudo.
– Vou relaxar.
– Ótimo.
– Ótimo.
Eu recosto a cabeça e sorrio. Não por muito tempo.
– Espera, o que você quer dizer com se algum dia descolar um encontro por aqui? Você tem um namorado.
– Tinha.
– Ah… quando… ah… droga, foi na semana passada? Logo antes de você ir me buscar?
– Viu? Você é bem esperta.
– Caramba, eu sinto muito. O que aconteceu?
– A gente estava conversando no Facebook e descobri que ele não estava mais muito a m de um relacionamento a 2.794 quilômetros de distância.
– Ui.
– Foram alguns dias ruins, admito… Agora nem sinto saudades dele.
– Você não gostava tanto dele?
– Eu gostava, mas parte disso era o quanto eu achava que ele gostava de mim. Não quero ser a namorada de conveniência de ninguém. Agora eu basicamente estou bolada com ele por ngir que era sério e comigo por ter caído nessa, desperdiçando todo aquele tempo e energia.
– Você conversa muito com outros amigos da antiga escola?
– Basicamente no Facebook. A gente não se liga ou manda mensagens de texto muito mais. Tá todo mundo… ocupado com a escola… ou sei lá o quê.
Não há nada que eu possa responder a isso, nada que ela obviamente já não tenha deduzido.
– Estou começando a achar que a mudança foi uma coisa boa. Ela me mostrou quem são os meus verdadeiros amigos. Não gosto de como os números estão indo, mas pre ro saber onde realmente estou.
– A verdade não é felicidade, é só a verdade.
– A Faith tem razão, você é uma lósofa.
– Ela nunca falou isso pra mim. Era um elogio ou um xingamento?
– É difícil saber com a Faith.
– Sendo assim, provavelmente os dois.
O carro para e é desligado.
– Você deve estar zoando.
– O que foi?
– Isso aqui é ridículo. É esse o lugar da pegação? Talvez pra pessoas de 70 anos. Tem até bancos e um pequeno caramanchão. Tem certeza de que é aqui?
– Você sabe que eu estou vendada, né?
– Então tira.
Eu fungo.
– Eu sei que você não é cega de verdade. É só um truque pra chamar atenção. É um pedido de ajuda, na verdade.
Eu sorrio.
– Já fui longe demais pra parar agora. Por favor, não conte a ninguém.
– Você quer que eu te trate como se você fosse cega?
Não há brincadeira na voz dela. Ela está realmente perguntando.
– Não, já recebo isso de todo mundo.
Quero colocar a cabeça no colo da Sheila, como a Sarah fez comigo na casa dela. Mas não faço isso. Só sentir vontade já é o bastante.
– Desculpa pelo que aconteceu no carro na semana passada. Eu fui tão tosca…
– Chega disso! Meu Deus, o que aconteceu com você? Eu saquei que você não estava a m de jogar cartas com o Petey a tarde inteira, então te trouxe aqui, mas não pra dar uma festa de piedade! Depois de um belo e longo verão de… de espinhos, agora é toda essa choradeira de me desculpa, me desculpa. É por causa do Scott Kilpatrick?
– Hã…
– A Faith me contou. Ela falou que não era um segredo. É?
– Não.
– Ela acha que você cou assim desmilinguida por causa do seu pai, e isso faz sentido, mas eu não acho que é tudo. Ela não sabe de verdade como é terminar um namoro.
Ela faz uma pausa e aí muda a voz de sermão para uma conspiratória:
– Você não acha bizarro ela ser tão popular, mas não ter namorado? Normalmente, ser popular também tem muito a ver com quem você está, mas ela não está com ninguém.
– Pra você ver como a Faith é incrível; ela é popular por conta própria, não porque está namorando o líder do time de futebol americano.
– O zagueiro?
– Sei lá. E ela namora, só que ela não sai com ninguém mais do que algumas vezes. Ela tem um alto padrão impossível de alcançar.
– Igual você.
– É, bom, não impossível de alcançar. Apareceu uma pessoa que conseguiu.
– O seu problema é achar que ninguém mais vai conseguir.
Não consigo pensar em nada para responder que não soe como uma coitadinha.
– Eu estou certa, não estou? – pergunta ela.
– Ainda não consegui resolver isso tudo na minha cabeça. Talvez eu nunca resolva.