Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 13 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 12

DOZE

 

 

olly e eu terminamos nosso dever de casa. Ela tem que falar sobre alguma coisa com a mãe e disse que me encontraria no estacionamento num instante. Quando estou no meio da organização das minhas coisas, escuto um quack que signi ca uma

mensagem de texto da Sarah.

– Como está o braço, chuchuzinho? – pergunta Sarah. Ela sabe que tenho a voz do leitor de tela dela ajustada para Matrona, que parece uma mulher de meia-idade sulista, e às vezes entra na pilha e dá uma atuada.

Eu respondo a mensagem: E não é que o ego ca nos ombros… Quem diria?

Não vou precisar de nada da escola à noite em casa, então en o aquele monte de coisas no armário. Escuto passos e vozes arruaceiras se aproximando. As provas de corridas provavelmente estão acabando por agora. Eu não me apresso. Talvez o Jason me veja e venha falar comigo.

Quack.

– Arranhão, hein? Bem, melhoras. Que bom que não é nada permanente.

Já é notícia de ontem… pelo menos amanhã vai ser.

– Olha ela – diz um cara com uma voz familiar que não consigo saber bem quem é.

– Parker Grant – comenta outro, uma voz que de nitivamente reconheço. Fico com a pele mais rígida na testa e descendo as costas. – Sempre achei que você devia usar óculos em vez daquelas vendas idiotas.

Isaac Walters e Gerald Gibbons. Dois dos sete que estavam na sala naquele dia. As vozes deles também mudaram, embora não tanto quanto a do Scott. Respiro fundo e expiro lentamente. Não deveria ser difícil ignorá-los, já que não consigo nem vê-los.

– E aííííí – diz Isaac, à minha esquerda. – Como é que tá?

O papai contou que, na reunião da escola dele, os valentões não eram mais valentões, mas também não se desculparam. Era como se achassem que todos tinham sido atores numa peça chamada Escola Secundária e naquele momento fossem eles mesmos, pessoas normais. Posso dizer que o Isaac e o Gerald estão muito longe desse ponto. Eles ainda estão nos papéis de Babaca no 1 e Babaca no 2, estrelando uma peça que ninguém mais quer estar.

– Não vai falar com a gente, hein? – diz Gerald. – Parece que você não mudou.

– Era de imaginar que uns dois anos de ensino médio fossem te deixar mais relaxada.

Meu telefone pula da minha mão.

– Me dá meu celular, Isaac.

– Olha só, ela se lembra de mim! Desculpa, Parker, não estou com o seu celular.

– Tá bom então, Gerry…

– Gerry? Não tem nenhum Gerry aqui.

– Beleza, Geraldine, ou seja lá qual é a porra do seu nome.

– Caramba, Parker, ninguém vai querer beijar essa boca.

– Missão cumprida – comento entre dentes cerrados. – Agora me dá meu celular.

Quack.

Eles riem.

– Não vejo o seu celular – a rma Isaac. – Mas escuto um pato!

– Não se preocupe, Isaac, ela também não vê o celular dela, né, Parker?

– Sério, gente? – digo. – Porra, dá pra crescer?

– Você recebeu uma mensagem de texto de Sarah Gunderson…

– Ei! – interrompe Gerald . – Como é que vai a velha baixinha atarracada?

– Ela diz: T… te ligo de noite. O que devo responder pra ela?

Escuto mais passos. Excelente. Quantos dos outros cinco ainda andam juntos?

Quack.

– A Sarah é uma pata! – fala Gerald e eles riem de novo.

Calculo de onde vieram a voz do Isaac e o quack e faço algo idiota; dou um bote com as duas mãos para pegar meu celular. Nada além de ar.

– Opa, olha só! – diz Isaac. – Você deve gostar muito de patos!

Estou de saco cheio desses idiotas, mas não tem muita coisa que eu possa fazer. Pelo menos, posso parar de jogar o joguinho deles. Bato a porta do meu armário e fecho o cadeado com um clique alto.

– Quando vocês terminarem com o meu celular, levem-no pra mim na secretaria da entrada.

Sob o som de dois imbecis rindo, os passos que se aproximam agora estão correndo.

– Ei, olha com quem a gente cruzou – comenta Isaac para quem quer que esteja vindo. – É a Parker Graaaai! – Ploft!

Minhas mãos voam instintivamente para proteger meu rosto quando algo bate forte contra os armários… duas vezes… três vezes.

– Mas que porra é… – Ploft! – Para com isso! – Ploft!

Eu me aperto contra os armários e mantenho os antebraços cruzados na minha frente, mãos abertas para bloquear o rosto, encolhida. Há uma briga e sapatos rangendo no concreto e mais ruído de metal.

– Qual é o seu problema? – protesta Gerald, a voz dele se movendo pelo corredor como se estivesse sendo arrastado.

– Vamos – diz Jason, grunhindo por causa do esforço. Escuto o som deles descendo pelo corredor e virando no nal.

Quack. Está longe. Começo a andar na direção dele, com uma das mãos tateando pelos armários para me manter orientada. Um par de passos volta.

– Sou eu – informa Jason. Quando ele chega mais perto, fala – Tá aqui o seu celular.

Eu estendo a mão e o telefone a toca. Eu o coloco rápido na bolsa.

– Me desculpe por isso – pede ele. – Esses caras são… eles são simplesmente uns idiotas. Era o Isaac…

– Eu sei quem eles são. Nós frequentamos a Marsh juntos.

– Ah. Bom, agora acabou. Não acho que eles vão te incomodar de novo.

– Teve sangue envolvido? – pergunto com a minha voz esperançosa.

– Não – responde ele, rindo. – Isso levaria a perguntas que ninguém quer responder. A justiça das ruas é feita com arranhões, não sangue. A intimidação está mais ligada a ameaças do que à violência de verdade.

– Pra mim, parece violento.

– Na medida necessária.

– Obrigada pelo meu celular.

– Imagina. Aonde você estava indo? Eu te acompanho.

Eu desdobro a bengala e nos dirigimos para o estacionamento.

– Ouvi falar que você trabalha na biblioteca depois da aula – comenta ele. – Eu estava indo te ver.

– Pra falar de quê?

– Ah, não parece certo te perguntar agora, depois que eu acabei de te salvar. Pode in uenciar a sua resposta.

Meu coração bate mais forte. E me dou conta de que, durante a briga, os meus batimentos cardíacos não se aceleraram nem um pouco, mas agora…

– Você quer me perguntar alguma coisa? – indago. – Sobre trabalho de casa ou…? A gente não faz nenhuma aula juntos.

Meu Deus, não acredito que eu falei isso.

– Tudo bem, a gente pode falar disso depois, talvez amanhã.

Não. Agora. Imediatamente.

– Se faz você se sentir melhor – digo na minha voz desculpa-ter-que-te-informar –, você só me salvou de mais inconveniência e irritação. Eu estava indo pra secretaria. O sr. Sullivan teria resolvido isso rapidinho. Aqueles babacas não conseguem me machucar com o vocabulário monossilábico deles, e eles não iam sacar paus e pedras de verdade pra me bater.

– Hum… tá bom… – responde ele, como se eu tivesse dado um problema de matemática para ele. – Só tava pensando se você gostaria de fazer alguma coisa no sábado. Tipo, de noite. Bom, de tarde e depois… eu trabalho até às cinco, mas depois disso…

– Claro – digo. Juro que a minha boca falou isso antes de eu pensar por conta própria. – O que você quer fazer?

– Bom, eu posso te buscar quando eu sair do trabalho…

– Ah, vou estar no shopping sábado. Eu posso te encontrar por lá. Às cinco, você falou?

– Perfeito – responde ele. A gente chega ao estacionamento. – Minha carona está aqui. Te vejo no sábado. Bom, provavelmente vou te ver amanhã, e sexta, e aí no sábado.

– Encontro marcado – digo. Eu me sinto um pouco cafona, mas não ligo.

Jason sai andando enquanto outros passos se aproximam por trás.

– Eu escutei a palavra encontro? – pergunta Molly.

– Escutou. Porque eu falei. E sim, eu só queria ouvir isso alto.

– Quando?

– Sábado à noite.

– Legal – comenta ela, mas sem realmente achar que é.

Isso poderia querer dizer um monte de coisas, e o meu cérebro idiota vai percorrer toda a lista de possibilidades, a não ser que eu o pare da única forma que posso.

– O que foi? – pergunto.

– O quê?

– Você falou legal, mas você não quis dizer legal.

Silêncio.

– Odeio quando não estou entendendo alguma coisa – declaro. – O quanto você o conhece?

– Só um pouquinho. Ele é gente boa.

Eu a escuto se sentar nas escadas. Junto-me a ela.

– Você gosta dele?

– Não, ele não faz o meu tipo.

– O que é então?

– Acho que ele também não faz o seu tipo.

Não gosto de ser classi cada, principalmente por gente que mal me conhece.

– Qual é o meu tipo?

– Não sei – responde ela rapidamente. – Esquece. Ele é legal. Espero que você se divirta.

– Não dá pra esquecer. O que você quer dizer?

– É só que você é… rápida… e inteligente. Mas o Jason… ele é… muito literal.

– E?

Depois de um instante, ela continua:

– O Jason não opera em tantos níveis que nem você, então acho que ele não vai te entender, só isso. Talvez eu esteja errada. Tomara.

Isso poderia signi car mais para mim, só que eu já tive um namorado que me “entendia” e isso não funcionou.

– Desculpa – pede ela. – Às vezes eu não sei o que devo dizer.

– Você não deve dizer nada.

– Eu sei, é só que… – Ela inspira algumas vezes. Eu espero. – Tem coisas que você pode não saber porque não consegue enxergá-las. Como é que eu vou saber o que te dizer e o que não é da minha conta?

– Ah, tá, o que você veria?

– Apenas… tudo. Um milhão de coisas silenciosas acontecem ao redor o tempo todo. Eu deveria ser os seus olhos, mas não posso te contar cada detalhezinho. Como é que eu devo decidir?

– O que há para escolher?

– Não sei, um monte de coisas. Tipo… você sabe que eu não sou branca?

– Branca?

– Caucasiana?

– Ah, hum… eu não tinha pensado nisso.

– Ninguém te contou?

– Não, ninguém falou, Ei, Parker, a Molly é negra, só achei que você deveria saber.

– Viu – diz Molly com certo alívio. – Se você conseguisse ver, você simplesmente saberia, sem isso ser, sei lá, uma questão. Mas, se alguém especi camente te contar, você pensaria que a pessoa está tentando te dizer alguma coisa e provavelmente ia falar: O que você quer dizer com isso?

– Tá, então ninguém se deu ao trabalho de me contar que você é negra, eles não acham que isso importa.

– Ah… é, bom, talvez… mas também porque eu não sou negra.

– Caramba, Molly!

– Mas também não sou branca.

– Asiática? Peruana? Eu não curto ser cega, sabe! Só o nome Molly Ray não dá muita informação.

– Você vem me imaginando como uma ruiva sardenta de cabelos enrolados?

– Eu não costumo mais imaginar as pessoas, a não ser quem eu vi antes do acidente. É engraçado porque eu sei que a Sarah não tem mais cara de 7 anos, mas não consigo evitar imaginá-la assim às vezes.

A Molly ri.

– Fico feliz de divertir você, mas podemos pular a parte de sacanear a garota cega pra parte onde você me conta qual é a sua cor, se é pra lá que esse papo está indo?

– Não é, mas a minha mãe é da Nigéria e o meu pai é uma mistureba loira de olhos azuis de todos os países europeus que existem. A maioria das pessoas não tem certeza se eu sou negra ou branca e dizem que sou como se os meus pais tivessem misturado as caras deles no Photoshop, só que os meus olhos são totalmente castanhos e o meu cabelo é só ondulado e não totalmente preto. Tecnicamente, eu sou birracial, mas nunca digo isso.

– Por que não? Tipo…

– Ah, é só porque quando os caras escutam a parte do “bi”, eles cam animadinhos. Não quero isso.

Eu dou risada. Ela não, mas talvez seja apenas modéstia, não rir das próprias piadas?

– Então o seu rosto é exatamente metade do da sua mãe e do seu pai e eles não se parecem nem um pouco… ou isso é muito bom ou…

– A minha irmã mais velha é modelo – conta ela numa voz maliciosa. – Ela cou com as metades boas, eu quei com os restos. Não sei onde isso deixa a minha irmãzinha, ela tem só 12 anos.

– Uma modelo? Tipo passarelas, coisas assim?

– Algumas, mas a maior parte de ensaios fotográ cos. Ela saiu na Vogue na primavera passada, em março, eu acho. No canto inferior direto de alguma página no meio, enrolada em volta de um cara sem camisa que nem uma cobra. Nem me lembro se era um anúncio ou parte de uma história… é difícil dizer com a Vogue.

– Uau. Parece superglamouroso.

Molly faz um som parecido com um ronco. Não sei identi car o que signi ca.

– Ela vem pra casa nesse m de semana, talvez você a conheça. Ela não é uma daquelas irmãs mais velhas que são importantes demais pra reparar na gente. Ela quer car por dentro de tudo que aconteceu desde o momento em que ela desapareceu num avião pra Itália e não ligou de novo por semanas.

O carro da tia Celia aparece no estacionamento. É um momento esquisito para ir embora, mas… eu pego a minha bolsa.

– Quando você caiu hoje – conta Molly rapidamente –, se você conseguisse enxergar, saberia quem correu até você. Se eu te falar agora, é como se eu também estivesse tentando te contar algo mais, mas na verdade não estou.

– Quem foi?

– Mas tá entendendo o que eu quero dizer?

– Foi o Scott?

– Sim. Ele foi o primeiro. Quando você pediu pra alguém sair da frente do sol, era ele.

– E depois? – pergunto. – Ele cou por perto?

– Não, ele se afastou. Acho que ele sabe que você não o quer por perto.

Cara esperto, aquele Scott. Essa era uma das coisas que eu gostava nele, na época em que eu gostava dele. Na época em que ele ligar para mim poderia ter sido algo além de culpa, obrigação ou algum tipo de arrependimento duradouro.

– Não estou dizendo que signi ca alguma coisa, tá? Só é o que é.

– Saquei. E eu nunca vou car brava com você por algo que me contou, mas posso car brava por algo que você deixou de contar. Só me conte qualquer coisa de que você não tenha certeza e deixe que eu me preocupe sobre o que signi ca.