Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 3 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 2

DOIS

 

 

i, pai.

Foi tudo bem na escola. Melhor do que podia ter sido. Mesmo que

metade das pessoas não conhecesse a outra metade, todo mundo conhecia gente o su ciente para não ser muito constrangedor. Vai demorar para

todos os novatos carem a par das Regras, mas tenho bastante ajuda.

Algumas pessoas que eu não conheço muito bem estavam me ajudando com os novatos. Talvez só para serem gentis ou talvez dizer aos outros o que fazer faça com que se sintam importantes. Ou talvez estivessem me protegendo, como se eu fosse a mascote da escola. Isso ia ser uma droga. Não sou representante da causa de ninguém.

A viagem de carro para casa foi silenciosa, bem como eu gosto hoje em dia. Não sei como os carros são quando não estou neles, mas tenho a impressão de que as pessoas falam mais comigo porque acham que co entediada lá, sentada sem nada para ver. Minha paisagem nunca muda, mas, exceto por pessoas e carros diferentes na rua todos os dias, acho que a paisagem delas também não muda muito.

Há uns dois meses, eu falei para a tia Celia que ela não precisava me entreter enquanto dirigia; agora ela não fala absolutamente mais nada no carro. Ela é oito ou oitenta com tudo. Falei de forma delicada, eu não estava pedindo pra ela calar a boca ou algo assim, mas ela se fechou, de qualquer jeito. Talvez tenha

cado magoada, mas não é culpa minha se as pessoas não gostam da verdade.

– Oi, Grande P – grita meu primo Petey do alto da escada.

– E aí, Pequeno P. Como foi a escola?

Ele desce trotando e se senta no terceiro degrau de baixo para cima ao meu lado.

– Chata.

– Você é muito novo pra achar a escola chata. Não é pra achar a escola chata até o quarto ano.

– Eu também achava chato no segundo ano – responde ele com orgulho.

– Eu também – sussurro.

– Por que você está sentada aqui? – sussurra ele de volta, provavelmente só porque sussurrei antes.

Essa verdade eu não quero contar, ao menos não ao Petey. Como está, já é uma situação difícil o bastante – minha casa cheia de parentes, com os quais eu só cruzava a cada dois anos, agora dormindo no quarto e no escritório do meu pai. Não quero contar a ele como sinto falta de conversar com o papai no caminho de volta da escola ou como o papo não tinha acabado quando chegávamos em casa e por isso sentávamos à mesa da cozinha e conversávamos um pouco mais, bebendo chá gelado, até que

nalmente ele tinha que voltar ao trabalho. Não quero contar ao Petey

como eu não tinha pensado nisso até subir no carro da tia Celia hoje, quando o silêncio, que eu criei e agora não consigo quebrar, sugou todo o ar do carro até eu achar que fosse desmaiar. Como eu quero me sentar à mesa da cozinha agora e conversar com o papai, mas se zer isso todo mundo vai achar estranho, eu sentada na cozinha sem fazer nada. Não me importo se as pessoas me acharem esquisita, mas elas iam me atormentar com perguntas.

Como o Petey está fazendo agora, porque sentar na escada sem fazer nada é mais esquisito do que sentar à mesa da cozinha. Mas não quero dizer a ele que, em vez de me sentar no meu quarto para conversar sozinha com o meu pai onde ninguém possa ver, quero fazer isso num lugar onde eu possa senti-lo: na cozinha, no escritório dele (uma zona proibida, já que agora é o quarto da minha prima Sheila) ou no pé da escada, onde em vida nunca me sentei com ele, mas às vezes faço isso nos meus sonhos.

– Estou só descansando. Foi um dia longo.

– Quer jogar cartas?

Não exatamente. Mas também não posso fazer o que eu realmente quero.

– Claro, Pequeno P. E a Sheila?

– A porta dela tá fechada.

Nós dois sabemos o que isso signi ca. Não Perturbe.

– Beleza, você pega as cartas, eu sirvo as bebidas. O último a chegar é a mulher do padre.

Ele sai correndo escada acima. Eu co sentada por mais um instante. A tia Celia faz o Petey arrumar o quarto toda noite antes de deitar, mas ele só joga tudo nas estantes e nunca coloca nada no mesmo lugar por duas vezes. Ele tem alguns baralhos, mas só um em braille que ganhou de mim, então vai levar alguns minutos para encontrar.

Não sei se eles vão me deixar sentar quieta para falar com você todo dia, papai, mas pode ter certeza absoluta de que vou tentar. Posso ter que ir para o meu quarto e fechar a porta que nem a Sheila, porque você está certo, todo mundo tem segredos, inclusive eu.

 

O jantar é costeletas de porco, muito secas como sempre, purê de batata, molho de maçã e ervilhas enlatadas. Todas as refeições da tia Celia são caricaturas, como algo que se recebesse se você fosse um prisioneiro num zoológico alienígena e te alimentassem com o que acham que as pessoas comem só de ver pela TV.

Não me ofereci para ajudar porque a tia Celia sempre diz não, obrigada. O que tudo bem, só que ela só diz isso para mim. Ela tenta ser gentil a esse respeito com diferentes motivos, às vezes dando a entender que está me dando uma folga porque estou “passando por tempos difíceis”. Na verdade, é porque o melhor jeito de ajudar é picando alimentos e ela não suporta ver uma garota cega segurando uma faca. En m. Tudo que a gente está comendo hoje são coisas que consigo preparar dormindo. Fico satisfeita de ter menos trabalho, se é isso o que a deixa feliz.

– Parker, você e a Sheila se viram muito na escola hoje? – pergunta tio Sam.

– Pai! – exclama Petey, morti cado. – Isso não foi legal.

– Quê?

Eu sei o que o meu protetor júnior quer dizer e falo:

– Tudo bem, Pequeno P. A palavra ver pode signi car muitas coisas, tipo esbarrar com alguém ou namorar com alguém. Então, não, eu não vi a Sheila hoje. Mas talvez ela tenha me visto, se é que você me entende.

O Petey dá risada. Ninguém mais ri.

– Não temos nenhuma aula em comum – diz Sheila em sua voz por-que-temos-que-falar-sobre-isso. – E nossos armários não cam perto.

O tio Sam não chama atenção para o tamanho pequeno da escola ou para a possibilidade de sentarmos juntas no almoço, nem pergunta como ela sabe onde é o meu armário se ela não me viu. Fico feliz. Ele geralmente sabe quando parar.

– Como está indo com a Molly? – pergunta ele.

– Sempre leva um tempo para ensinar uma nova voluntária, mas ela parece promissora. Ela tem muitas Regras para aprender.

A Sheila bufa. Bom, uma rajada de ar expelido, de nitivamente do tipo de quem revira os olhos. Deixo para lá.

– O Pequeno P tem uma boa história pra contar – comento.

– É… – começa ele, mas a tia Celia interrompe.

– Parker, por favor, não o chame assim. Já te pedi antes.

– Ele gosta, não gosta, Pequeno P?

– Foi ideia minha! Não foi, Grande P?

– Mais tarde ele não vai gostar, e aí já vai ter pegado.

– No dia em que ele me pedir pra parar de chamá-lo de Pequeno P, eu vou parar, prometo. Eu só o chamo assim em casa; então, se alguém mais escutar isso, não vai ser de mim.

– É só que… é só que não soa… não é apropriado.

– Sua preocupação foi registrada – digo gentilmente. – Continue, Pequeno P, conte a sua história.

Espero uma pausa para todos terem uma conversa usando as sobrancelhas a respeito da minha provocação, mas o Petey não se segura e começa de imediato a descrever como um aquário foi derrubado na sua turma. O fato de ele estar empolgado não necessariamente signi ca que o peixe sobreviveu, podia ter acontecido o oposto que ele teria contado a história basicamente no mesmo tom.

Enquanto Petey descreve o drama de salvar os Tetras em detalhes caóticos, eu mapeio minha costeleta de porco com golpes curtos do garfo e da faca sem corte e separo a carne do osso. Causei um pequeno alvoroço quando eles se mudaram, porque depois que eu corto minha comida não mudo o garfo para a mão direita a cada garfada. Esta é uma noção que (1) nunca tinha me ocorrido, (2) supostamente, é etiqueta normal, pelo menos entre pessoas que ainda cam obcecadas com coisas assim, e (3) é algo que eu acho totalmente bizarro. Mais estranho ainda foi não apenas o quanto a tia Celia desaprovava algo assim, e o meu pai por me deixar fazer algo do tipo, mas também uma ideia irrealista de parar com isso. O tio Sam nos salvou da discussão mais ridícula imaginável dizendo que o jeito que eu como é igual ao dos ingleses. Embora a tia Celia não tenha cado muito convencida, de certa forma legitimou aquilo o bastante para ela deixar para lá e evitar o constrangimento. Foi o meu primeiro vislumbre de como seria morar com a tia Celia sob o mesmo teto.

 

Estou na cama com o meu laptop, lendo com a ajuda da voz do Stephen Hawking. É raro eu ler livros em braille de verdade e só de vez em quando uso um terminal braille. Na maior parte do tempo, escuto audiolivros ou navego com softwares que convertem texto em voz, e que jeito melhor de se aprender coisas do que ouvindo tudo do cara mais inteligente do mundo?

Estou no meu passeio de toda noite pela Wikipédia, curtindo a ironia de ler sobre cucos. Eles botam seus ovos nos ninhos de outros pássaros e aí esses pássaros criam os lhotes de cucos como se fossem deles, como se nada de estranho estivesse acontecendo. Na minha casa, é justamente o contrário.

Meu telefone toca com o toque da Sarah: quack, quack, quack…

Tiro os fones do computador e os conecto no telefone.

– E aí.

– E aí – responde ela. – Algum tiro hoje?

– Não. Só umas faíscas quando a tia Celia me falou de novo para eu parar de chamar o Petey de Pequeno P.

– É um apelido horrível.

– Não é apropriado, segundo ela.

– Você sabe que esse é o jeito da Celia falar que ela acha que tem duplo sentido, e tem. Ele vai odiar isso mais tarde quando entender.

– Caramba, Sarah, ele tem 8 anos. E se você acha que Pequeno P quer dizer o pinto dele, então Grande P… espera, deixa pra lá. Eu devia ter pensado melhor nisso.

Ela dá uma risada e isso me anima. É muito raro a Sarah rir.

– A Sheila ainda está sem falar com você?

– Nenhuma mudança. Não que eu esperasse isso.

– A minha teoria está se mantendo; eu imaginei que ela ia car afastada.

– De qualquer forma, eu não sou a melhor pessoa pra apresentar tudo a ela. Não posso mostrar muita coisa e duvido que ela esteja interessada em quantos passos são do refeitório até o banheiro mais próximo.

– É verdade. Como está a Molly?

– Ainda não sei bem. Estou esperançosa. Provavelmente não vai ser um desastre. Me pergunte de novo mais pra frente.

– Com certeza, Mágica das Respostas.

– Beleza, me conte o que você sabe.

E começa nosso ritual noturno do que foi observado e inferido durante o dia. A minha lista sempre é mais curta do que a da Sarah, é claro, já que ela é a parte dos olhos dessa operação e eu sou a boca, mas ninguém pode negar que quando eu disparo algo é muito bem informado.

A gente era sistemática, comentando o dia aula por aula, corredor por corredor; agora pulamos pra lá e pra cá sem perder nada. Ela descreve a aparência das pessoas e das coisas e eu listo horas e lugares e descrevo vozes, e às vezes sons e odores, para que ela possa concentrar a atenção em quem eu estou falando para colher uma informação visual ou alguma outra mais tarde. Conto a ela sobre o B.B. da aula de trigonometria porque suspeito que ele vai ser uma mala e posso precisar de mais instrumentos para lidar com ele. Menciono a voz calma que calou a voz pesada de atleta do B.B. e como ela soava familiar, embora não fosse de ninguém que eu conhecesse, como quando se ouve alguém com um sotaque e soa como outra pessoa que você conhece com aquele sotaque, mesmo que tenham vozes diferentes.

Durante uma pausa que espero que a Sarah continue falando, ela não fala. Deixo o silêncio continuar para ver até onde vai durar. Depois de mais alguns segundos, sei que está acontecendo alguma coisa.

– Que foi?

– Eu estou esperando você me contar a respeito.

– De quê?

– Você não sabe mesmo?

– Sabe o quê?

– Aquela voz? Você não sabe quem era?

– Você sabe? Você nem estava lá.

– A Kay estava. Ela falou que estava pronta pra levantar o livro de matemática que nem um escudo, mas você estava fria como gelo.

– A Kay falou isso? Fria como gelo?

– É claro que não, é a Kay. Ela teve diarreia verbal por cinco minutos. Você quer escutar tudo em vez do meu resumo perfeito de três palavras?

– Caramba, Sarah…

– Era o Scott.

– O Scott? O Scott. Não parecia…

O chão desaparece. Meu estômago revira, estou caindo e jogo as duas mãos na cama e forço a coluna na cabeceira.

– A voz dele mudou – a rma ela. – A última vez que você o ouviu foi no oitavo ano. Ele só tinha 13 anos.

Nós tínhamos conversado sobre como conheceríamos alguns dos imigrantes da Jefferson, já que peculiaridades geográ cas nos zeram ir para as mesmas pré-escolas e escolas de ensino fundamental, mas para diferentes escolas secundárias. Alguns deles estiveram na minha lista negra antes, mas ela é tão longa que eu não estava preocupada de alguns velhos nomes serem reativados. De alguma forma, tudo isso não incluiu a percepção de que o Scott Kilpatrick seria um deles.

– Parker?

Agarro meu telefone.

– Preciso ir.

– Espere! Não desligue…

Eu desligo e arranco o o para puxar os fones dos ouvidos, tão rápido e num ângulo ruim que dói.

Scott Kilpatrick. O maior idiota do planeta. No topo absoluto da minha lista negra. Pontos de exclamação. EM LETRAS MAIÚSCULAS.

Quack quack quack…

Desligo a campainha do telefone. Minha garganta está fechando, doendo como se eu estivesse resfriada, e meu rosto está esquentando.

Scott Kilpatrick. Transgressor da Regra Número Um. Sujeito para sempre à Regra Número In nito.

Bzzz bzzz bzzz…

Enterro o telefone debaixo do travesseiro.

Scott Kilpatrick. Inimigo Número Um da Parker.