Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 25 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 24

VINTE E QUATRO

 

gora estou em dúvida. Que surpresa.

Ontem isso pareceu uma ideia tão boa. Eu até coloquei o alarme

para tocar vinte minutos mais cedo para escutar na janela; como previsto, alguns minutos depois, dois pares de pés passaram fazendo

jogging. Parece que o Jason e o Scott ainda são amigos ou pelo menos companheiros de corrida.

A primeira ação da manhã foi dar uma parada longa no meu armário para deixar as coisas e depois andar até o campo com a Molly e a Sarah. Nem sequer hesitei quando elas me deixaram sozinha nas arquibancadas mais afastadas para esperar e a Sarah gritou “Isso é muito louco, Parker, mas boa sorte!” e a Molly acrescentou: “Vai dar tudo certo! Te vejo no almoço!”

Não, é a espera que está me matando. O meu cérebro idiota entra no modo supermultiplicador imaginando como tudo poderia dar errado. Tento deter isso imaginando tudo correndo bem com o máximo de detalhes que consigo.

O B.B. pediu uma carona ao Scott esta manhã, dizendo que precisava chegar aqui cedo. Eu imagino os dois parando no estacionamento tipo agora, como o planejado, e o B.B. entrega um bilhete impresso ao Scott que eu dobrei e lacrei com durex, para dar tempo do B.B. ir embora antes do Scott ler.

O bilhete diz: “Scott, por favor, pode vir me encontrar na pista de corrida? Preciso te contar algo. Obrigada. P.G.” O P.G. não está digitado; é um símbolo secreto que eu inventei quando a gente era criança, escrito com uma caneta esferográ ca, para provar que uma mensagem digitada vinha mesmo de mim. É como um P maiúsculo, só que eu em vez da parte redonda faço um G maiúsculo.

Talvez ele que sentado por um minuto, se perguntando o que está acontecendo, ou olhe em volta procurando o B.B. para perguntar. Aí ele sai do carro, se dirige à escada, cruza a escola, vira à direita nos pilares ao lado da secretaria, pega a segunda à esquerda no Hall Sul, 52 passos até o pátio, passa pelas mesas da quadra e anda pelo campo em direção à pista.

Embora eu tenha imaginado tudo isso meticulosamente em tempo real, ele chega a minha cabeça, mas não à realidade. Mas é razoável que as coisas acontecessem mais rápido na minha cabeça, talvez dez ou vinte por cento?

Começo de novo.

E o Scott chega de novo… só que não. Talvez eles tenham parado a caminho da escola e chegado aqui mais tarde ou ainda não chegaram? Ou…?

Nossa, isso foi uma má ideia. Eu deveria ter apenas mandado uma mensagem de texto para ele me encontrar e aí ter uma simples conversa madura, mas eu queria conversar longe de todo mundo e tive medo de que ele dissesse não ou encontrasse uma forma de fugir se eu perguntasse diretamente. Estou cando cada vez mais enjoada por ter armado isso para ele me encontrar mesmo sem ter vontade. Talvez eu seja mesmo doida.

Só preciso ser paciente, mas estou muito nervosa para car sentada…

Começo a mapear as arquibancadas. Vou tateando ao redor para ter uma noção do quão alto é cada banco em relação ao da frente, qual a distância entre eles e os conto. Em alguns minutos, tenho uma imagem de tudo reunido e ando para cima e para baixo, subindo até a grade lá de cima e descendo até a grade lá de baixo, pisando apenas em bancos como pedras largas em um rio, um pé em cada um, contando, tentando sentir as extremidades que me diriam se estou fora do caminho com passos muito curtos ou muito largos.

Ando mais rápido, para cima e para baixo. Nunca tenho segurança o bastante para correr, nem eu sou tão maluca assim, mas agora estou andando bem rápido. Para cima. Para baixo. Para cima. Para baixo. Para cima. Para baixo…

– Parker! – chama Scott, do outro lado do campo, quando chego ao banco de baixo, na grade, prestes a virar para subir de novo.

Meu coração bate forte, mas não de susto; a voz dele estava bem longe. Eu passo por baixo da grade para car de pé. A manhã está com uma brisa e o meu lenço está esvoaçante. Estou usando um todo branco e puxo as pontas para a frente para repousarem no peito, depois eu fungo e as jogo de novo por cima do ombro. Meu Deus.

– Caramba, Parker, isso era algum tipo de teste? – diz ele, mais perto.

– O que você quer dizer com isso?

– Quando era pra eu te dizer que tava aqui? Você ia cair se eu te assustasse, então esperei até você chegar na grade de baixo, mas mesmo assim…

Ele para. Talvez porque eu esteja sorrindo.

– Droga, Parker…

– Não, não, não era um teste. Sério, Scott, eu só estava… matando tempo. Desculpa, eu não pensei sobre tudo isso. Mas você pensou. E é… – … por isso que eu te amo.

A gente disse isso um para o outro muitas vezes antes, então não seria nada demais, mas agora… cedo demais ainda. Eu até resisti a assinar meu bilhete com Com amor, P.G.

– E é o quê?

– Nada. Desculpa. Me perdoa?

– Tá bom. Caramba, para de sorrir assim, você está me assustando.

– Foi mal. – Eu consigo parar. – Você estava lá quando eu quase bati na traseira da van do Reiche em junho, não estava?

– Hum…

– Isso é um sim, né? Ela sair bem na hora foi muita coincidência.

– É. – Ele está constrangido… não, parece mais preocupado.

– Você pediu para ela não me contar?

– Ela não sabia. Eu joguei o jornal que estava na entrada da garagem deles na porta. Como não funcionou, eu joguei na janela. Aí escutei você sair da sua casa. Eu estava a ponto de correr até lá e bater na van para você ouvir ou chamar o seu nome; eu não sabia exatamente o que ia fazer. Aí a porta se abriu e eu me escondi atrás das latas de lixo deles. Desculpa.

– Meu Deus, não se desculpe. Obrigada por me salvar de uma visita ao hospital.

– Eu não estava te espionando, eu juro. Eu…

– Tudo bem, eu sei o que você estava fazendo. O Jason me contou.

– O Jason…?

– Agora você gosta de correr?

– No começo, não, mas agora eu gosto. Não é uma paixão de verdade, como é pra você, mas estar na equipe de corrida também vai pegar bem nas inscrições para as faculdades.

– Você seria meu guia de corrida para eu poder entrar na equipe?

– Hum…

– Você sabe do que eu estou falando, né?

– Sim, eu escutei o treinador Underhill falando disso. Eu não sou um corredor de tiro. Conheço uma pessoa que é, eu podia pedir pra ela. Não sou rápido o su ciente pra você.

– Ninguém é. Isso só signi ca que eu vou conseguir tempos mais baixos, mas e daí? Eu posso correr sozinha no Campo Gunther, mas provas na pista são mais complicadas, não vou conseguir a não ser que esteja com alguém com quem eu me sinta confortável. Essa é uma lista bem pequena e você é o único corredor nela.

Silêncio.

– Além disso – digo, já cando vacilante por ele não responder de pronto –, se você treinar comigo, vai car mais rápido. Talvez você também vire um bom corredor de tiro quando as competições começarem.

– Não sei…

– Eu… não se trata de sermos amigos ou algo assim, é só para car segura.

Mais silêncio. Eu tinha medo de que isso pudesse acontecer. Mas eu realmente esperava que não…

– Não precisa me responder agora. Só pense a respeito. Tá bem?

– Tá bem.

– Obrigada. Agora… – Eu respiro fundo. – Quando a gente conversou na sua casa, eu me concentrei tanto no… bom… meu pai… que não falei da coisa mais importante.

– Parker, eu não acho…

– Tá tudo bem – eu o interrompo antes que ele me faça desistir totalmente de falar. – Eu quero te dizer…

– É só que eu…

– Só me deixa falar isso! Você tentou me convencer a não fazer isso, mas… eu te perdoo, de qualquer forma. Você fez algo idiota, mas tudo bem. Agora eu entendo melhor, e eu te perdoo. Certo?

Silêncio.

– Certo?

– Certo – responde ele. – Mas não sei o que você quer dizer com agora entender melhor.

– Eu achei que você sabia que eles estavam lá e me enganou. Sim, você contou pra eles sobre a nossa sala particular, mas só o onde e o quando. A parte do nós, isso não era um segredo. Eu teria te beijado no meio do refeitório, se você tivesse me pedido.

– Isso teria sido algo péssimo para se pedir.

– Agora sim, mas não para alguém de 13 anos. E eu também era apenas uma menina. Se isso acontecesse hoje em dia, quando todos aqueles idiotas começassem a rir, eu ia te perguntar se você tinha armado pra cima de mim e quando você respondesse que não, eu ia dizer pra todos eles: “Olhem bem, rapazes. Essa lembrança e um tubo de creme é tudo que vocês vão ter essa noite!” Aí eu voltaria a te beijar até eles carem entediados e irem embora. Imagine como as coisas estariam agora se eu tivesse feito isso naquela época?

O Scott solta ar pelo nariz. Acho que é uma espécie de gargalhada, mas não sei dizer.

– Podia ter sido assim – a rmo. – Se eu não tivesse 13 anos e medo de tudo.

– Você não tem medo de nada.

– Você me conhece melhor do que isso. Ou conhecia.

– Então o quê? Do que você tem medo?

– Bom, certas datas no calendário. Aniversários.

– Isso não é ter medo – declara ele numa voz suave, não exatamente a voz de namorado.

– Tenho medo do que as pessoas estão pensando ou podem estar pensando.

– Isso é só falta de con ança nas pessoas. Se eu fosse você, também teria di culdades com isso.

– Estou melhorando, mas ainda me preocupo o tempo inteiro que toda a minha vida seja só algo que eu estou imaginando… que se eu conseguisse enxergar de verdade veria que todo mundo está ou me zoando ou pior, fazendo essa grande piada elaborada comigo. Com você foi pior do que nunca. Eu sentia que estava vivendo num sonho, como você falou. Eu estava tão preocupada em acordar e descobrir que não era real… então a primeira pista que tive de que não era, eu me agarrei a ela e não soltei, e eu sinto muito, Scott! Foi só essa única coisa e meio que um mal-entendido e eu… eu simplesmente surtei!

– Você tinha todo o direito.

– Mas eu não precisava fazer isso! Eu passo sermão em todo mundo dizendo que as pessoas não pensam em como os outros veem as coisas e z isso com você! Eu não escutei, eu nem pensei a respeito… e se a Sarah não tivesse conversado comigo…

– Tá tudo bem. – O tom dele está ainda mais suave, mas ainda difícil de interpretar…

– Não, não tá. Você só deu um vacilo num dia ruim, mas eu… eu ferrei mesmo com tudo e desperdicei dois anos e meio! E você é uma pessoa melhor do que eu porque não quer ser perdoado, mas eu quero!

– Você não fez nada…

– Eu z! Eu z tudo que podia pra não pensar no seu lado… Quando eu penso agora em como você deve ter se sentido comigo nem disposta a te escutar por um minuto… – Estou tendo problemas em falar com todos esses nós na garganta.

– Ei – diz Scott. – Tá tudo bem… – As mãos dele seguram os meus ombros. Eu me inclino para um abraço, mas as mãos dele permanecem

rmes nos meus ombros. Ele não está entendendo a dica ou está me

mantendo afastada? – Eu te perdoo – continua ele. – Tá certo? Podemos parar de nos preocupar com quem realmente precisa ser perdoado. Já acabou. Certo?

Eu concordo com a cabeça, me concentrando nas mãos dele.

– Então… – digo. – Você não tem mais que car longe de mim, né? Está tudo bem entre a gente?

– Sim, tudo bem.

– Tenho certeza de que o meu pai concordaria com isso se estivesse aqui. Eu o faria entender.

– Eu sei. Ele me falou.

– Ele… o quê?

Scott me solta e volto a car de pé sozinha na escuridão.

– Naquele último dia, ele falou que seria ruim se eu te convencesse a me perdoar, porque você aprenderia a deixar as pessoas se safarem ao te magoar contanto que elas pedissem desculpa. Mas ele também disse que se eu te deixasse em paz, se você voltasse, tudo bem.

– Foi por isso que você disse que a gente não pode ser amigo?

– Em parte. É complicado.

– Tudo é complicado, mas…

É só dizer.

– Eu sinto muita saudade de você.

A minha voz falha, mas eu continuo, tudo bem ele me ouvir assim. Estou segura.

– Você era o meu melhor amigo, Scott. E eu… eu quero aquilo tudo de volta. Eu sinto muita, muita saudade de você.

– Eu também sinto saudade de você – a rma, mas a voz dele soa como aceitação, não esperança. – Ou pelo menos de quem você era. Já faz muito tempo. A gente tá diferente agora.

– Nem tão diferente – declaro. Eu quero acrescentar mais, para reverter isso, mas não consigo pensar como…

– Não sei. Está sendo difícil imaginar essa Parker Grant que seria

agrada me beijando numa sala escura e riria para a multidão e continuaria

me beijando.

– Você não acha que isso se parece comigo?

– Em relação a outras coisas, claro, mas não foi o que você fez. Acho que você está dizendo que mudou. Eu também mudei.

– Então me conte. – Dobro os cotovelos um pouco e abro os dedos, da forma que eu fazia para ele segurar as minhas mãos. – Nós temos tempo antes da aula. Podemos começar a botar os assuntos em dia.

– Eu não posso. – Ele não pega as minhas mãos. Não sei se é rejeição ou se não as viu se agitando. Eu as abaixo até a calça jeans. Ele continua: – Eu não sabia por que o Stockley queria chegar aqui cedo, então combinei de encontrar uma pessoa.

– Ah. Tá bom. – Eu recuo. – Quem?

– Uma pessoa da Jefferson. Ninguém que você conheça. É pro dever de casa.

– Ah… você devia ter dito algo…

– Eu ia dizer, mas você estava na arquibancada, e depois você começou direto a falar da van na entrada da garagem… eu estou muito atrasado, então não dá pra voltar com você; tenho que correr. Te vejo na aula de trigonometria, tá?

– Tá.

– Desculpa – diz Scott. Escuto os passos dele correndo pelo campo.

Deixando-me para lutar com o que acabou de acontecer. Tivemos o que pareceu uma boa conversa, tão boa quanto eu deveria ter esperado, de forma realista, mas ainda sinto como se tivesse apanhado.

Ele mudou de ideia e falou que podíamos ser amigos, e tudo bem para um amigo não me abraçar ou sair correndo para encontrar algum outro amigo com quem tivesse planos de se encontrar. E ele ainda está tão… tão Scott, em todos os aspectos. Então por que eu me sinto com um buraco e sendo remexida por dentro?

Será que o Scott disse para sermos amigos só para acabar com essas conversas e eu não aparecer na casa dele e mandar bilhetes para me encontrar quando ele tem outros planos… para evitar que eu seja essa obcecada maluca igual a Marissa, que não consegue se libertar de algo que nunca vai acontecer…

Meu Deus, acho que eu vou vomitar.