Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 31 de 33

Páginas do PDF

Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 30

TRINTA

 

 

s dias seguintes são um borrão de aulas, almoços e dever de casa e ninguém vai ao Consultório. Eu corro no meu horário de sempre, mas acordo mais cedo e me alongo no meu quarto, em vez de no Campo Gunther, para escutar os passos do Scott e do Jason. Scott e

eu conversamos junto com todo mundo na aula de trigonometria e na pista de corrida depois da escola. Mas a Trish se mantém rme nas conversas, como se fosse minha dama de companhia ou, melhor, a dama de companhia do Scott.

Na sexta, depois das aulas, Molly anda comigo até o vestiário, apesar de eu estar com uma bengala novinha desde ontem. Aí ela vai pra arquibancada enquanto eu me troco. A Trish me encontra e andamos pra pista. Está um dia quente e estou com muita energia.

Decidimos com o treinador não nos preocupar com blocos de partida ou mesmo com corridas de tiro por mais duas semanas. Por enquanto, estamos apenas nos acostumando com o que ele chama de corrida amarrada, nos especializamos em cada uma segurar uma ponta de um cadarço em vez de as mãos uma da outra. Tecnicamente, não precisamos de uma corda tão curta para fazer jogging, mas corridas de tiro vão precisar de sincronização perfeita, então camos unidas, lado a lado e com os passos juntos. Já estou com bastante noção da pista oval agora, embora, obviamente, nunca vá ser capaz de correr sozinha nela – nenhuma contagem de passos poderia me fazer navegar pelas curvas –, mas o meu corpo está aprendendo o desenho e fazer jogging com a Trish ca mais tranquilo a cada dia.

Trish não tem corrida de obstáculos hoje ou a de mil metros, a outra distância dela, então somos só nós duas por quanto tempo quisermos forçar. O que é um problema para ela. Eu poderia correr assim pela eternidade.

Depois de uma dúzia de voltas, eu digo:

– Está pronta pra correr?

– Nós estamos…

Eu dou risada.

– Isso é jogging!

A gente percorreu uns cinco quilômetros, não contei, o que é bem mais do que as distâncias dela, mas imagino que nesse passo ela ainda teria bastante energia sobrando.

– Eu sou só o leme – observa ela numa voz determinada. – Você é o motor.

Eu retomo, devagar para manter o nosso ritmo. Quando saímos da curva, acelero o passo até chegarmos à curva seguinte. Quando saímos de novo, forço um pouco mais.

Isso é que é correr! Não a minha velocidade de corrida de tiro, mas ainda assim uma bela corrida de verdade.

A curva seguinte é mais difícil, já que o jeito que viramos muda com as velocidades diferentes e não estamos acostumadas a ir tão rápido…

– Annie! – grita Trish. – Annie, sai da frente!

Eu continuo, con ando que a Trish vai nos parar se não pudermos contornar as pessoas à frente com tranquilidade ou se elas não saírem do caminho.

Chegamos à parte reta de novo. Eu acelero.

– Gary – berra Trish. – À sua esquerda!

Ouço o barulho de um alto-falante portátil sendo ligado. A voz do treinador Underhill explode na pista.

– Pessoal, fora das pistas três e quatro. Não deixem tudo nas costas da Oberlander, ela já está bem ocupada.

Comigo.

Escuto um cara falar “Caraca” quando passamos voando por ele, talvez seja esse Gary, não sei, e a Trish me puxa para a esquerda para fazer a curva.

Estou no limite da velocidade da Trish em passos por segundo. Sei disso porque quando forço o ritmo um pouco mais começamos a perder a sincronia e tenho que aliviar um pouco. O fato de ela estar sempre à minha esquerda, do lado de dentro, ajuda a me puxar com a corda nas curvas em vez de me empurrar, já que isso signi ca que a distância dela é levemente menor do que a minha, o que compensa a minha velocidade maior. Não vamos ter que nos preocupar com curvas quando começarmos as corridas de tiro mais tarde, mas correr numa pista oval vai nos ensinar a permanecer juntas sob circunstâncias mais difíceis.

– Mais espaço! – grita Trish, embora seja mais um berro rouco. Nem pensar que ela vai me deixar correr mais rápido do que ela, mesmo que isso a mate.

Percebo que ela está tentando me manter nas raias que o treinador deixou sem ninguém, o que é mais difícil do que só correr pela pista. Na curva seguinte, eu saio de sincronia de novo e dou uma tropeçada, nada de mais, e seguro bem na corda e ela se mantém rme. Recupero o equilíbrio e estamos bem de novo.

Mais do que bem.

Estou correndo numa pista!

Estou fazendo curvas! Agora já corri sem parar mais longe do que jamais corri.

– Parker! – ofega Trish. – Temos… que parar…

– O que há de errado?

Ela está diminuindo e eu me igualo ao passo dela e desacelero. Paramos.

– U-huuuu, Parker! – exclama Molly das arquibancadas. Algumas pessoas batem palmas umas poucas vezes.

– Você se machucou? – Talvez ela tenha distendido algo.

– Não – responde ela. – Só… preciso… de uma pausa…

Quando escuto que ela está bem, a abraço e a levanto do chão. Ela se agarra para não cair. Eu a boto no chão de novo e sussurro no ouvido dela:

– Obrigada!

– Pelo quê?

Como posso descrever o quanto isso é fantástico? Poder correr essa distância sem parar a cada cem metros para entender onde estou e me orientar novamente antes de recomeçar.

– Por correr comigo – digo. – Você precisa se sentar?

– Não – responde ela. – Quer dizer, sim… Quer dizer… Preciso ir ao banheiro.

– Ah, desculpa! – Dou risada. – Vai lá. Você sabe onde estarei.

– Já volto… em um minuto. Bom, talvez mais… do que um minuto.

Ela se afasta e eu enrolo a nossa corda no punho. Pego o celular, coloco o fone e ligo para a Molly. Meu telefone está guardado e seguro de novo antes de ela atender.

– Está pronta? – pergunto.

– Onde a Trish foi? Achei que ela não tinha mais nada pra fazer às sextas.

– Pausa pro banheiro. Mas não quero esfriar. Me guia?

– Ai, Deus, sério? Achei que eu tinha escapado hoje.

– Por que você pensaria isso?

– Porque sou uma idiota. Só que não. Eu sei que não é porque você não quer esfriar. Você está é pensando em ir mais rápido do que a Trish consegue correr. É maluquice.

– Eu não estava pensando isso… mas… agora estou.

– Ótimo.

– Como está a pista?

– A maioria dos corredores está nas duas pistas de dentro.

– Então devo car bem na parte externa? Não tem equipamentos ou algo do tipo?

– Está tudo limpo hoje.

– Pronta?

– Você sabe que está usando o seu lenço com estrelas, né? Você vai ver estrelas de verdade se correr pra cima de uma cerca.

– Você pode me falar mais do que como virar, sabe. Me fala pra diminuir ou parar se eu me aproximar muito de alguma coisa.

– Então está certo. Vamos arrasar.

Molly me orienta a girar até eu estar encarando a pista. Pretendo fazer jogging uma volta inteira só para entrar no clima com a Molly me guiando.

Na primeira curva, ouço uma voz que não reconheço dizer “O que é que ela tá fazendo?”, quando passo.

Na metade da reta seguinte escuto mais alguns comentários e abstraio. Quero ir mais rápido, mas não sei se a Molly consegue me manter nos eixos. Acelero devagar para descobrir a maior velocidade dela.

Na segunda curva, não consigo mais abstrair o mundo. Escuto um pandemônio ao meu redor, pessoas gritando umas com as outras, mas ninguém está me dizendo para parar. No meu ouvido, a voz da Molly é

rme e calma.

– Dentro… dentro… reto… fora… Certo, ótimo…

Continuo indo… mais rápido… e mais rápido…

Escuto a queixa pelo alto-falante de novo:

– Grant! Que… – A voz do treinador ca mais fraca, ainda que ampli cada, como se ele tivesse se afastado do aparelho. – Como é que ela está fazendo isso?

Mais rápido. Entro na curva seguinte, conectando a voz da Molly com as minhas pernas.

– Dentro… dentro… certo… dentro… fora… dentro… certo… reto agora…

– Sai todo mundo da pista! – grita o treinador pelo alto-falante. – Deem espaço pra ela!

– Se a pista… estiver vazia… – grito para Molly, torcendo para que o meu microfone balançando possa captar a minha voz – … me leve… pras raias… do meio…

– Agora você tem um monte de espaço. Mantenha-se reta, agora você está se desviando pro meio… Beleza, agora fora… fora… Ótimo, você está ótima. Chegando uma curva…

Agora que eu sei que a passagem é larga e está vazia, comigo bem no meio, posso ir ainda mais rápido. Quando saio da curva, vou um pouco mais para fora.

Meu Deus, isso é fantástico! Correr de novo sem ter que parar a cada dez segundos… Será que as pessoas sem partes defeituosas conhecem essa sensação? Será que algum dia eu sentiria algo assim se não fosse cega? Perder algo, lamentar por isso e então, de repente, conseguir de novo?

A curva seguinte é difícil – a essa velocidade a Molly tem problemas comigo supercorrigindo. Tento virar menos quando ela me dirige e a deixo usar mais urgência quando não mudo a direção o su ciente.

Na reta seguinte, vou a toda. Estou voando!

As pessoas estão gritando, torcendo e berrando: “Vai, Parker!” A maioria à minha esquerda, que é o centro do campo, mas também à minha direita, quando passo pelas arquibancadas nas partes retas.

Saio de uma curva e a gritaria se torna um canto…

– Par-ker! Par-KER! Par-KER!

Escuto isso da esquerda e da direita e nos meus fones pegando do microfone da Molly.

– Fora… Par-KER… For… Par-KER!… Dentr… Par-KER! PARKER! DENTRO DENTRO PARE PARE…

Meu pé pousa em algo que não é pista, não é borracha, não é grama, estou totalmente fora da pista e fui na direção das arquibancadas a toda velocidade…

– PARE PARE PARE! – gritam as pessoas, mas é basicamente a voz da Molly rompendo meus tímpanos quando bato em alguém com força e desabamos no chão…

… mas o impacto não é tão ruim quanto deveria ter sido. Não foi uma colisão aleatória, alguém me pegou, nós caímos e eu tombei por cima da pessoa. A palma das minhas mãos e meus joelhos ralam no chão, minha cabeça se choca contra um peito forte, mas quase não sinto dor. Estamos estatelados e braços me seguram rme.

A voz do Scott é um sussurro severo na minha orelha esquerda.

– Você está completamente louca?

Dou um beijo empolgado na bochecha dele.

– Sim!

As pessoas nos ajudam a levantar, o que para mim é mais um incômodo do que bom. Acho que preciso acrescentar uma regra sobre deixar as pessoas cegas se levantarem sozinhas quando caem.

– Você se machucou? – O treinador está na minha frente soando meio preocupado e dois terços totalmente bravo.

– Nada quebrado. – Eu con ro os arranhões. Eles parecem esfolados, mas secos, então ainda não há sangue.

– Você nunca mais vai fazer isso!

– Espero que não – digo, rindo.

– Não a batida! A corrida que nem uma louca com alguém te dizendo aonde ir pela droga de um celular! Nunca permitiriam isso numa competição, então não faz sentido e é totalmente idiota!

E completamente emocionante!

– Vai já pro chuveiro. Acabou por hoje.

– Eu a levo – diz Scott.

– É, faça isso. Todos vocês, o espetáculo acabou! Voltem pra pista!

Scott puxa o meu braço, acho que estamos indo para o ginásio. Aí escuto um monte de ruídos de passos e alguém quebra a Regra Número Dois e me esmaga com um abraço de urso.

Molly grita sussurrando no meu ouvido:

– Sua porra louca! Eu sinto muito, Parker!

– Eu não sinto muito. – Eu a solto. – Mesma hora amanhã?

– De jeito nenhum! – declara Scott. – Que porra é essa que vocês estavam fazendo? Se mostrando pra todos os seus amigos?

– É claro que não. A Molly…

– Não só pra Molly. Pra todo mundo.

– Todo mundo?

– A Sarah.

– A Sarah não está aqui…

– Oi, Parker – diz Sarah. – Bela corrida.

– Sarah, o que você está…?

– E a Faith – interrompe Scott. – E a Kennedy e…

– A Faith?

– Presente – declara ela em sua voz cansada do mundo, tentando acobertar a voz coração-na-boca-ainda-preocupado.

– E a Lila – continua Scott. – E… e…?

– Sheila Miller. Oi.

– Sheila? O que vocês estão fazendo aqui? Me assistindo? Por que não falaram alguma coisa?

– Eu falei pra elas que deviam vir te ver correr – comenta Molly. – Elas apareceram depois da gente começar, então não deu pra te falar.

– O que aconteceu? – pergunta Sheila. – Por que você perdeu aquela curva?

– Com todo mundo gritando, eu não consegui mais escutar as instruções da Molly. Eu entendi e estava prestes a parar quando bati nesse cara. – Aceno na direção do Scott que ainda está me conduzindo com todo mundo nos seguindo que nem abelhas. – Como você conseguiu se en ar na minha frente?

– Ele estava correndo pra frente e pra trás na diagonal pela pista – informa Sarah.

– Hã?

– Estava óbvio o que ia acontecer – a rma Scott. – Se você perdesse o controle, seria uma grande oscilação numa curva em um de dois pontos. Não era difícil correr direto entre aqueles cantos para te pegar se você saísse da pista, o que eu sabia que ia acontecer, e aconteceu.

– Você é tão esperto. – Dou um sorriso malicioso.

Sinto concreto sob meus tênis; estamos quase no ginásio.

– Quem é esperto? – É a Trish.

– Eu, aparentemente – diz Scott em sua voz séria. – Só porque sou o único aqui que sabe que não dá pra deixar essa aqui sozinha. Você tem que

car de olho nela.

– O que houve? – pergunta Trish. – Por que a multidão?

Ninguém responde, não de forma audível, pelo menos.

– Meu Deus, Parker… – diz Trish em sua voz de quem está revirando os olhos. – Eu só saí de perto por cinco minutos. O que você pode ter feito em cinco minutos?