Se Eu Não Te Vir Primeiro
Capítulo 9
NOVE
oje vai ser um dia de merda. Tem vezes que a gente simplesmente sabe.
Depois que o meu alarme me acordou, Stephen Hawking me
lembrou de que daqui a uma semana é aniversário do papai. Tenho
lembretes antecipados para coisas que preciso de tempo para me preparar. Eu o apaguei.
No Campo Gunther, tenho a sensação de estar sendo observada. Eu paro em algumas voltas e co totalmente parada para escutar. Numa das vezes, chamo para ver se não tem ninguém ali; não escuto nada. Só estou paranoica por causa daquele treinador que me observou na semana passada.
Como se não bastasse, recebo uma mensagem da Molly dizendo que ela vai car em casa porque está doente, com sintomas muito desagradáveis para descrever, provavelmente foi só alguma coisa que ela comeu então estará de volta amanhã. As aulas vão ser um saco hoje.
Tudo me levando a me sentar na aula de trigonometria antes do sinal, me arrependendo da minha decisão de aparecer na escola, já que vou pegar tudo com a Molly amanhã quando ela voltar.
– Scott – chama a sra. McClain. – A Molly não veio hoje. Você pode ajudar a Parker nesse tempo?
A próxima batida do meu coração é feroz de um jeito doloroso e minha boca se abre para rejeitar este pedido, mas alguém é mais rápido do que eu.
– Pode deixar comigo! – exclama B.B., soando ansioso demais, mas estou desesperada, então aceito.
– Não sei… – diz a sra. McClain. Será que ela está tentando, mas fracassando, manter o tom incerto da voz ou está fazendo um comentário em voz alta de propósito?
– Já estou sentado aqui – comenta B.B.
– Tudo bem – manifesta-se Scott, a voz como um ash. – Não é como se ele tivesse que ensinar algo a Parker. Só tem que dizer a ela o que está no quadro. Ele é inteligente o bastante pra fazer isso.
B.B gargalha. Parece sincero. Ou isso é uma zoação tranquila ou o B.B. não entende um insulto quando escuta um.
– A minha opinião conta? – pergunto, invocando uma variação da Regra Número Seis.
– Deixo para você escolher, Parker – declara a sra. McClain e começa a falar com outra pessoa da frente da turma.
Aponto pro Scott, depois pro B.B., e de volta.
– Uni, duni, tê, salamê minguê, um babaca colorê, o escolhido foi você.
O meu dedo está apontando pro B.B., como planejado. Se zer Uni, duni tê com apenas duas opções, sempre aponte primeiro praquele que você não quer.
– Maneiro – diz B.B. – Vou sentar na cadeira da Molly pra não ter que
car virando. – Ele executa sua manobra com uma incrível quantidade de
rangidos, como uma banda de um homem só trocando de lugar num ônibus. O sinal toca.
A sra. McClain fala por um tempo. Depois o guincho da caneta no quadro me diz que ela está escrevendo.
– Ela está desenhando um círculo – sussurra B.B., alto o su ciente para provavelmente ouvirem do outro lado do corredor. As pessoas dão risadinhas.
– Eu não enxergo – sussurro, num sussurro de verdade –, mas minha audição é excelente.
– Ahhh… ih, tô falando muito alto? – Mais risadinhas. A sra. McClain as ignora.
– Bom, mais alto do que eu preciso, de qualquer forma.
– Desculpa – sussurra ele, tão alto quanto. – Agora ela está desenhando linhas do meio para… a parte do círculo… Não sei te dizer aonde as linhas estão indo… Elas são como raios num pneu de bicicleta.
– Roda.
– Quê?
– Numa roda, não num pneu. Deixa pra lá. Só pense num relógio. Para onde as linhas estão indo?
– Hã?
– Tipo meio-dia, três horas?
– Ah, sim. Doze, um, dois, três… tipo todos os números, basicamente. Espera, mais do que doze… tipo… – Ele resmunga alguns então – Quinze ou dezesseis.
– Então… ela está desenhando um círculo unitário?
– O que é isso? Ela está colocando uns números em volta, do lado de fora, como fez na semana passada, tipo raiz quadrada de dois e coisas assim. Isso está certo?
Resisto ao impulso de lembrá-lo de que não consigo conferir nada do que ele está descrevendo.
– Parece certo pra mim – sussurro, ainda mais baixo do que a última vez para ver se consigo diminuir a voz dele.
– Por que ele tem esse nome? – pergunta um pouco mais alto, como se estivesse tentando aumentar a minha voz.
– Bom, é só um círculo com um raio de um. Não importa se é um centímetro ou um quilômetro, é só uma medida de um qualquer; então o chamam de círculo unitário.
– Tá, mas e daí?
– Bom, ela está escrevendo ângulos nele, certo? E qual o tamanho das linhas? É como na geometria com aqueles triângulos especiais, como um triângulo de 45-45-90 tem uma hipotenusa que é o comprimento de um dos lados vezes a raiz quadrada dos dois. A não ser que o raio do círculo fosse dois, todos esses números precisariam de um dois na frente deles, mas essa não é a questão. É como reduzir uma fração; você divide os fatores comuns e resta… bom, um círculo unitário.
– Táaaaa, mas e daí? Pra que serve?
Naquele momento, percebo que a sala está num silêncio mortal. Nenhuma conversa, nenhum rangido.
– Provavelmente, é isso que ela está prestes a nos dizer – sussurro.
– Todas as contas estão certas, Parker – observa a sra. McClain. – Você já teve aulas de trigonometria?
– Não. Quando a Molly e eu fazemos os deveres de casa, olhamos o que vem pela frente para saber o que vai ser dado. Deixa mais fácil para acompanhar o que está acontecendo na aula.
– Isso é algo que todos vocês deveriam estar fazendo – comenta ela. – Principalmente aqueles que conseguem enxergar o quadro, mas não parecem conseguir manter os olhos abertos assim tão cedo.
Pancada, pés se arrastando, rangido.
– Ei! – Gargalhadas.
Acho que ela chutou a carteira de algum cara para acordá-lo, não conheço a voz, ainda tem muitas que não sei distinguir.
Felizmente, o que se segue são vinte minutos de fala sem muita escrita no quadro. Depois, ela passa exercícios para fazermos e em seguida o B.B. lê para mim. Ele é melhor descrevendo triângulos do que círculos:
– Ele tem um quadradinho no canto, e o lado pequeno é um número um, e o lado inclinado é um dois, e o ângulo está entre o lado pequeno e o lado inclinado, e eles querem saber qual é o sino... – Eu sei as respostas de cara, mas ele não, então o acompanho passo a passo. Consigo que ele fale seno em vez de sino, mas não consigo que ele fale hipotenusa de jeito nenhum. Acho que ele tem medo de que isso ra a masculinidade dele, tipo dizer penhoar ou penteadeira.
Terminamos quase ao mesmo tempo que o sinal bate.
– Ei, Parker? – diz ele enquanto arrumamos as mochilas. Agora está sussurrando mesmo. – Obrigado por me ajudar, tá?
Ouvir isso me faz corar um pouco. Como se eu tivesse feito algo errado. Será que z?
– Obrigada por me ajudar – respondo. – Hum, o seu nome é Stockley, né?
– É. Acho que você ouviu alguém me chamar, hein?
Sinto remorso. Ele falou isso numa voz normal, então não sei se foi uma observação sarcástica da nossa primeira conversa ou uma coincidência.
– Sim, a sra. McClain.
– O meu nome é Kent Stockley, mas as pessoas me chamam de Stockley, acho que por causa do futebol, e eu uso muito a minha camisa do time. Mas você pode me chamar de B.B.
– Mas isso quer dizer… – Não sei bem como continuar.
– Ah, a gente se chama de babaca o tempo inteiro, eu, o Scott, o Oscar e… bom, todo mundo. Mas gosto mais de B.B.
– Tá bom. Então acho que é justo você me chamar de P.G.
– Alguém mais te chama assim?
– Só a Faith.
– Faith Beaumont?
– É.
– Uau, tá, irado. Ei, a gente devia sair junto qualquer hora dessas.
– Ah, eu não saio com a Faith.
– Ah, tá… Eu… beleza, vejo você amanhã.
Não sei se isso foi um tchau de verdade, tipo ele indo embora, ou não.
– Beleza, até mais.
Aí me ocorre que talvez ele estivesse pedindo para sair comigo, não comigo para chegar à Faith. Sinto que estou franzindo as sobrancelhas e relaxo o rosto. Estou acostumada às pessoas querendo a Faith, não eu, o que tudo bem, mas não gosto de entender algo errado.
– B.B.? – digo.
Sem resposta.
E aí o Scott fala:
– Ele já foi.
Eu me concentro em fechar a mochila. Receio que até dizer um “tá” possa iniciar uma conversa.
– Vejo você amanhã – diz Scott. – A não ser que você me veja primeiro.
Agora a sala está silenciosa o bastante e o escuto se afastar e sair.
Vejo você amanhã… a não ser que você me veja primeiro.
Era isso que o Scott me dizia em vez de dar tchau, por anos. Quatro anos inteiros. Uma parte de mim se lembra da ternura que eu sentia quando ele dizia isso, uma ternura como nenhuma outra.
Meu coração bate no peito e nas orelhas.
Droga, Scott Kilpatrick… Não diga mais essas coisas para mim.
É mais difícil chegar até o meio- o logo depois da escola, para onde todos estão indo, em vez de para a biblioteca, onde normalmente só Molly e eu vamos. As pessoas estão se acotovelando na direção do estacionamento, se chocando umas nas outras ou talvez seja só comigo. Enquanto navego dos cantos da secretaria escada abaixo, recebo sete pedidos de desculpa, alguns deles sinceros. No estacionamento, ninguém fala comigo, mas isso não necessariamente signi ca alguma coisa.
– Sheila? – chamo numa voz normal.
– Quê? – responde ela, não muito longe à minha esquerda.
– Você ia dizer alguma coisa?
– Acabei de dizer.
Deixa pra lá.
Não, nada de deixar pra lá.
– Você sabe que não é educado simplesmente car aí parada sem dizer nada?
– Você sabe que não é educado dizer às pessoas que você acha que elas não são educadas?
Eu rio. Isso foi muito engraçado. Não ouço a Sheila rindo.
– Você está sorrindo? – pergunto.
– Não. Por que eu deveria?
– Ah, não sei – digo, um pouco triste. – Se alguém faz uma piada, mas não sabe que é uma piada, ainda é uma piada?
– Do que você está falando?
– Filoso a, acho.
– Deixa pra lá.
É, deixa pra lá.
Ouço uma voz familiar atrás de mim dizer:
– Olá, Parker Grant.
Jason se aproxima de mim.
– Tudo bem?
– Ah, sabe como é… – Eu noto meus braços se mexendo e me lembro do que a Sarah e a Faith falaram e rapidamente descanso os braços ao lado do corpo. Dou de ombros. – Só mais uma Terça Trágica.
– Ah? Por que trágica?
Não faço a menor ideia de por que eu disse isso. Talvez porque rimasse? Ou zesse uma aliteração? Bom, as duas palavras começam com T, de qualquer forma. Eu me sinto estranhamente fora do prumo, distraída por ouvir o que estou dizendo e querendo que isso realmente signi que alguma coisa.
– Não sei… – Meus braços sobem e eu os puxo para baixo de novo. – Todas as terças não são trágicas, na verdade?
– Hum…
– Ei – comento rapidamente para desviar essa crise trágica de conversa. – Essa é a minha prima, Sheila Miller. – Faço um pequeno gesto e forço minha mão para baixo de novo. – Sheila, esse é o Jason Freeborn.
– Oi.
– Oi.
– Nós moramos juntas. – Escuto o quanto isso soa engraçado, mas não quero entrar em detalhes agora. – E então… quando são as provas?
– Amanhã e quinta depois das aulas. Você vai?
– Hummm… – Por mais que eu queira dizer que sim, simplesmente não faz sentido. – Acho que não. Não adianta muito sentar nas arquibancadas.
– Não pra assistir. Pra fazer a prova.
Certo, tem alguma coisa errada. Tratar todo mundo igual é uma coisa, brincadeira divertida é outra, mas perguntar à uma garota cega se ela vai para uma pista de corrida…
– Prova pra quê?
– Pra corrida. Qual é a sua distância?
– O que faz você pensar que eu tenho uma distância? Porque eu comprei um par de tênis? Se você acha que todo mundo que compra tênis com você corre de verdade com eles, tenho más notícias.
– Ué. Você não corre? – Ele parece mesmo decepcionado. Talvez só confuso. – Eu achei…
Droga, como é que eu fui me encurralar assim?
– Bom, não, quero dizer, sim, eu corro. Eu só não… – Sabia como você pode saber disso? Droga, isso não faz sentido.
– Você está confusa como eu estou? – diz ele.
– Na verdade, não – responde Sheila. – Isso é bem comum pra ela. Já estou acostumada. Não escutar com atenção ajuda.
– Ja-SON! – uma voz grave grita do outro lado do estacionamento. – Vamos!
– É a minha carona. Vejo vocês por aí.
Ele sai andando depressa.
– Droga. – Droga, droga, droga.
– Parker – diz Sheila.
– Quê?
– Eu estou sorrindo.