Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 28 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 27

VINTE E SETE

 

 

ocê devia, pelo menos, comer o seu sanduíche – observa Molly.

– É. – Mas não como. É mais fácil eu sair e roubar um ônibus

escolar do que dar uma mordida no peito de peru com queijo suíço e mastigar e mastigar e engolir e tudo de novo vinte vezes

mais.

– Quer um refri? Um… 6-C?

Eu nego com a cabeça. Se ela não viu, vai perguntar de novo. Ela não pergunta.

Sarah ainda está na la do almoço. Eu não me lembro muito das últimas horas. Sei que estou me permitindo car nesse estupor, deixando o tempo passar, como se fosse resolver os meus problemas, apagar minha estupidez. É estranho estar ciente disso, e o quanto é ridículo, mas ainda continuar fazendo.

Sarah se senta com a bandeja dela.

– Droga – diz ela. – Já volto.

Ela começa a se levantar, mas a Molly fala:

– Espera, deixa-o vir.

– De jeito nenhum! Você…

– Tá tudo bem – a rma Molly.

Acho que é tarde demais para falar mais a respeito porque elas param e aí o Scott fala:

– Parker, eu soube do que aconteceu. Podemos conversar um minuto?

– Ela não quer ouvir – responde Sarah. Ela não está com a voz Mamãe Urso; está com a voz pega-no-fogo-cruzado-e-teve-que-escolher-um-lado e isso parte meu coração ainda mais. Eu não tive a chance de contar para ela que não foi culpa dele.

Eu co de pé.

– Eu não ia comer mesmo.

– A gente ca de olho nas suas coisas – tranquiliza Molly.

Estendo a mão e o antebraço do Scott é empurrado contra ela.

Scott me guia para o lado de fora e andamos por um minuto, não em linha reta, então não sei para onde estamos indo, a não ser que é na grama.

– Eu sinto muito mesmo. A Trish não devia ter dito aquelas coisas. Você tem que acreditar em mim, eu não pedi pra ela fazer aquilo.

– Eu devia ter imaginado, desculpe ter sido uma vaca na sala de aula.

– Não, eu entendo. Estou superbravo com ela, e ela sabe disso.

– Mas é verdade? Você quer que eu te deixe em paz?

– Eu não falei nada disso. Só falei com ela sobre a corrida. Eu nem contei pra ela que a gente já tinha cado juntos.

– Talvez Jason tenha contado. Eu não ligo. Só quero saber se é verdade.

– É claro que não. Não quero você afastada, nós somos amigos.

– Só amigos. – O meu coração dispara porque não falei isso de propósito. Só saiu sem querer e eu realmente gostaria que não tivesse acontecido. É sincero, sim, mas eu não teria escolhido esse momento para voltar ao assunto.

Ele ri, mas é forçado.

– Bom, a gente meio que acabou de se conhecer.

Eu grudo as mãos na minha calça jeans. Tenho medo do que mais possa sair se eu abrir a boca de novo.

– É que é complicado, sabe? – comenta ele.

Tento sorrir, mas a sensação é de uma careta. Não sei se recuo ou forço a barra.

– Você não consegue me enganar, Francis. Eu sei o que isso realmente signi ca.

– E o que é? – pergunta ele numa voz sorridente, a voz sorridente triste dele.

– Signi ca que tem algo constrangedor ou difícil de confessar, não que é mesmo complicado.

– Ah, você é muito inteligente pra mim.

Eu paro de andar e me viro para encará-lo.

– Você não vai escapar assim tão fácil. O que quer que seja, só me diga.

– O quê?

– Essa conversa não precisa ser longa. Você me amava, aí eu terminei com você, e algum tempo depois disso, você parou de me amar… certo? Ou não?

– Meu Deus, Parker… você me ama?

– Sim.

Acho que estou forçando a barra.

– Tá… você me amava um mês atrás?

Eu franzo a testa.

– Seja sincera.

– Não exatamente, mas…

– Só acendeu de novo? – Ele estala os dedos. – Tipo assim?

– Não, mas… – Eu não sei como explicar.

– Tá vendo? – continua ele. – É complicado.

Acho que ele tem razão.

– Você que é muito inteligente pra mim.

Silêncio.

– Por favor, me leva de volta. – Eu me toco de como isso parece e acrescento: – Pro refeitório.

– Tá. Sinto muito mesmo pela Trish.

Apenas concordo com a cabeça. Não falamos mais nada.

 

Com todos os exercícios que z ao longo do m de semana, não leva muito tempo para eu e a Molly terminarmos na biblioteca. Fizemos o nosso dever de trigonometria na aula, então não temos que esperar pelo Kent. Eu vou na direção da pista de corrida e ela volta pra aula da mãe, mas aí eu me viro pra rua. Eu não menti, eu ia falar com o treinador Underhill, só que não consigo fazer isso agora. Foi um dia horrível e estou um caco. A carona silenciosa da tia Celia daria para encarar, mas todo mundo em casa, o Petey e a energia dele… só de pensar nisso tudo já co exausta.

Normalmente, ligo mais tarde para pedir carona, então ninguém está esperando por isso ainda. Decido ir andando para casa. Preciso da meditação para acalmar a tempestade na minha cabeça. São uns três quilômetros e faz mais de um ano que não faço esse caminho, mas eu o conheço.

Depois de uma meia hora, estou pronta para declarar o fracasso desse plano. Não consigo desanuviar a mente. Cenas dos últimos dias se repetem, sem parar, como músicas grudadas na minha cabeça. Mesmo relembrar as cenas boas não ajuda, ou elas fazem as ruins parecerem muito piores, ou só me fazem sentir ridícula de novo.

Será que isso é autopiedade? Meu Deus, isso seria o fundo do poço. Mas não, não quero ninguém sentindo pena de mim, eu incluída. Parte do motivo de eu estar aqui andando é que não quero que ninguém me veja assim… só que não dá para se esconder de si mesmo, ou pelo menos eu não consigo, eu e o meu cérebro idiota, sempre observando, sempre em alerta. Talvez parte desse sentimento infeliz seja incerteza. Talvez se eu organizar tudo e encarar isso com honestidade consiga resolver ou pelo menos ver que não é tão sufocante quanto parece.

Mas é a terceira vez que decido isso e estou perdida em lembranças de novo… não apenas as recentes, mas voltando ao papai, e ao Scott antes disso… e até a mamãe.

Nunca mais vou ter um pai de novo ou uma mãe. Esses relacionamentos acabaram para sempre. E os meus amigos… não é a mesma coisa. Membros vitais da minha família estendida escolhida, mas nada pode substituir uma alma gêmea do tipo que beija na boca. Alguém por quem você sinta paixão por e de.

Foi isso que eu perdi no oitavo ano. Parecia um pouco ridículo acreditar que era possível encontrar sua alma gêmea na escola, de qualquer forma, mas aí na semana passada eu mudei completamente de ideia e caí nessa de novo como uma menininha fantasiada de Cinderela.

Foi isso que aconteceu? Eu encontrei a pessoa certa e ferrei com tudo e agora já era de vez? O que quer que possa acontecer mais tarde vai ser só meio tapa-buraco?

Não posso acreditar nisso. Só porque um raio pode cair no mesmo lugar duas vezes não signi ca que vai. Mesmo que caia – em um ano, ou dez, ou cinquenta –, como vai consertar esse buraco doloroso imenso no meu peito agora?

Não estou mais andando e não me lembro de ter parado. Estou levemente curvada e respirando pesadamente, me apoiando muito forte na bengala e ela, provavelmente, está perto de quebrar. Eu me toco de que z algo que nunca z antes, andei no piloto automático por quarteirões sem mapear o caminho na minha cabeça. Não faço ideia de onde estou.

Tudo o que eu precisava fazer era andar dezessete quarteirões, virar à esquerda e andar mais nove para chegar ao Campo Gunther. Mas normalmente faço um zigue-zague: um quarteirão para a frente, um à esquerda, um para a frente, um à esquerda, até ter andado nove à esquerda e aí só ando oito direto à frente. Será que eu z isso quatro vezes? Cinco? Seis? Perdi a conta. Também tenho uma vaga lembrança de não ter virado em cada quarteirão. Estou perdida.

Não consigo respirar. A dor no meu peito está crescendo. Como uma dor imaginária pode ter uma sensação tão real? Eu afundo sustentada em um dos joelhos, ainda apoiada muito forte na bengala. Não escuto carros ou alguém andando por perto; não há ninguém para eu perguntar em que rua estou ou o que há à frente. Não posso nem ligar para alguém vir me buscar porque não sei dizer onde estou.

Calma. Isso não é nada demais. Você pode bater em qualquer porta e perguntar o endereço e aí ligar para muitas pessoas que podem vir te buscar. Poxa, o seu celular vai te dar instruções para andar da sua Localização Atual, então você nem precisa saber onde está. Agora, levante-se, pegue o seu telefone…

Apenas se levante, levante-se antes que alguém te veja nessas condições. Você não quer alguém chamando uma ambulância ou a polícia ou apenas outras pessoas da vizinhança e aí você caria cercada de estranhos. Você não está numa situação difícil de verdade. Não seja ridícula. Apenas se levante. Levante-se! Você vai quebrar a sua bengala!

Ah, caramba, não chore. Não chore. Não chore, porra! Faça isso no seu quarto, se tiver mesmo que fazer, mas não aqui no meio de sabe-se lá Deus onde. Apenas respire e levante-se e…

Droga! Eu te avisei que você ia quebrar a sua bengala…