Se Eu Não Te Vir Primeiro

Eric Lindstrom · Capítulo 24 de 33

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Se Eu Não Te Vir Primeiro

Capítulo 23

VINTE E TRÊS

 

 

Sheila não sai correndo logo que o carro da tia Celia para no estacionamento; ela anda comigo até o meu armário. Mas a gente não conversa. Eu já estou acordada por pelo menos uma hora a mais e dei os meus tiros de corrida, e ela não é uma pessoa matinal, na

verdade. Ela também não é uma pessoa que goste da Parker, então é isso. Um passo de cada vez.

Faith chega ao armário dela ao mesmo tempo e elas conversam, começando com a Faith fazendo piada sobre como as carinhas felizes do meu lenço estão de cabeça para baixo e será que a Sheila não pode se responsabilizar sobre me vestir de manhã? Está bordado, então dá para saber qual é o lado para cima, mas simplesmente não pensei nisso hoje. Eu tinha cinquenta por cento de chance e perdi. Espero que não seja um sinal.

A Faith e a Sheila ainda estão falando sobre roupas quando a Molly diz:

– Ei, você vai voltar à ativa hoje? Vai pra quadra com a Sarah?

– Com certeza. Eu não ia querer que ninguém pensasse que estou com medo de aparecer.

– Como se você ligasse pro que pensam.

– É isso aí. – Mas a doutora de nitivamente ESTÁ AQUI, e com isso eu quero dizer a Sarah. A vaca da sócia espalhafatosa dela ainda está a caminho. O que você vai fazer?

– Eu vou dar uma olhada nos Achados e Perdidos por causa de um suéter que perdi ontem. Está friozinho hoje.

– Está? Você devia correr, esquenta.

– Engraçadinha. Pelo jeito você correu hoje de manhã?

– Corri. Foi ótimo. Foi estranho não correr ontem.

– Aposto que muitas coisas foram estranhas ontem.

– É verdade. Eu boto a culpa de tudo em não correr.

– Não em meses de opressão e negação?

– Não, aquela Gunderson sabe-tudo não sabe que porra ela está falando na metade do tempo. Eu vou correr todas as manhãs e nunca mais perder um dia e vou ter uma vida maravilhosa. Sou uma nova mulher. Você vai ver.

– Você é uma inspiração pra todos nós.

– Isso mesmo.

– Se pelo menos o seu tom combinasse com as suas palavras…

– Ainda estou trabalhando nisso.

– Aliás, você falou com o Jason?

– Ainda não. Alguém desligou o meu celular ontem…

– Foi a Faith.

– Ah, bom, não tinha nenhuma chamada perdida ou mensagem de texto dele. Achei que, no mínimo, ia receber um Cadê você? na hora do almoço, mas acho que ele ainda estava bravo e achou que eu não tinha ido.

– Ele sabia onde você estava. Ou pelo menos que você provavelmente não estava na escola. Ele viu tudo de divertido que aconteceu na manhã de ontem.

– Ele não chegou perto? – Ou nem sequer me mandou uma mensagem ou ligou mais tarde?

– Acho que ele resolveu deixar por nossa conta.

– É uma forma de interpretar. O Scott estava lá?

– Eu não o vi. Mas duvido que teria se aproximado.

Não tenho tanta certeza. De qualquer forma, eu olho para o futuro e me vejo encontrando o Jason na hora do almoço para dizer a ele que não vamos mais sair. Mas vou ser legal. É o meu novo plano. Sincera, porém mais simpática.

– Imagino que você não saiba o que a gente perdeu de matéria ontem? – pergunto.

– Não. Eu ia pegar na aula. Não estou muito preocupada com isso. Você tá?

– Não especi camente, só que eu detesto perder um dia. Já é difícil o bastante acompanhar sem precisar pegar matéria atrasada. Eu me preocupo mais com inglês, mas posso aumentar a velocidade do meu programa que transforma texto em fala… embora O conde de Monte Cristo vá parecer narrado pelos esquilos do lme.

– Que saco. Deve ser uma droga… sabe… ler…

– Tão devagar quanto eu leio? É, mas matemática é a mais difícil, já que é mais do que só falar e ler. Geometria era tipo andar descalça em vidro quebrado.

– Trigonometria não é tão ruim – comenta Molly.

– Deve ser um saco levar tanto tempo repassando tudo comigo. Se eu não digo o su ciente, co muito agradecida por isso.

– Sem problema. Acho que eu aprendo melhor repassando tudo de forma tão metódica.

Uma parte do meu cérebro busca uma resposta por ela chamar meus mecanismos de cópia de metódicos, mas a outra parte se atém ao plano.

– Falando nisso, você já conhecia o B.B.? Na Jefferson?

– O Stockley? Só do jeito que todo mundo conhece o Stockley. Por quê?

– Eu te contei que ele me ajudou quando você estava doente; ah, aliás, eu já te agradeci por me abandonar naquele dia?

– Várias vezes e, de novo, descuuuulpa por você ter sido deixada de lado por causa do meu doloroso episódio de diarr…

– Eeee… ele teve muita di culdade e eu o ajudei quase tanto quanto ele me ajudou. Aí, depois da aula, não tenho certeza, mas acho que ele estava… – Como é que eu digo isso?

– Ele quer andar com você desde o primeiro dia de aula. Me diz que você sabia.

– Bom… mais ou menos?

– Mas acho que ele não tem crush em você – diz para me salvar, e gosto dela ainda mais por isso. – Se é com isso que você está preocupada.

– Ah, não estou preocupada.

– Você parece preocupada. Achei que era pelas razões de sempre, não querer a situação constrangedora de não gostar de alguém que gosta de você.

– Não é que eu não goste dele.

– Ah, peraí… você gosta dele?

– Eu não gosto dele, mas ele não é tão mala como eu achei que… podia ser. Normalmente, não me engano tanto com as pessoas e… sei lá…

– É difícil de imaginar que um cara possa querer ser seu amigo sem se apaixonar por você? Uau…

– Quê? Não! Não foi isso que eu quis dizer! Caramba, 99% dos caras aqui nem falam comigo, é bem difícil de acontecer, então pode me processar se eu não sei o que fazer quando isso acontece.

Eu não estou brincando, mas a Molly ri. Isso me faz sorrir. É bem engraçado.

– En m, eu me sinto mal de ter sido ruim com ele antes.

– Duvido que ele tenha percebido.

– Não importa. O meu pai dizia que, se você é ruim com alguém, então você é uma pessoa ruim, ponto. Você pode explicar pra sempre por que alguém mereceu aquilo e isso não vai fazer de você uma pessoa boa. Tipo, dois erros não geram um acerto. Se você vê alguém sendo ruim, mesmo que a pessoa esteja sendo ruim com o Hitler, você pode dizer Bom pra você, mas nunca diria Isso foi legal da sua parte.

– O seu pai achava que a pessoa deve ser legal com o Hitler?

– Hunf, agora você está sendo apenas tosca. Eu só não quero ser ruim.

Silêncio. Bem, a não ser pela Molly respirando e o grilo no meu ombro sussurrando no meu ouvido que sou uma pessoa ruim.

– Quando eu digo que acho que ele nem percebeu – diz Molly en m –, quero dizer que você está falando como se tivesse atirado nele ou algo assim e não acho que ele enxergue dessa forma, de jeito nenhum. – Ela abaixa a voz até sussurrar. – Acho que ele pode ser gay.

– Quê? Sério?

– Não sei se ele está pronto pra admitir, nem pra ele mesmo, mas é o que eu acho. Talvez eu esteja errada. Mas não importa, se você não gosta dele.

– Não, mas talvez isso ajude. O lance é que eu estava pensando que a gente podia convidá-lo pra estudar com a gente. Ele precisa muito de ajuda em trigonometria…

Molly ri.

– Por que você não falou logo?

– Ah, vai se ferrar, Molly, eu estou falando!

– Acho que você acabou chegando ao ponto. Claro, beleza, você pode convidar ele.

– Tipo, dá pra você convidá-lo? Pro caso de estarmos erradas, não quero que ele…

– Que ele entenda mal, saquei. Deixa comigo, vou fazer isso funcionar. E não permita que ninguém diga que você é uma pessoa ruim, Parker Grant. Às vezes você pode ser super… legal.

– Bem, obrigada, Molly Ray. Mas… como exatamente você vai fazer isso funcionar?

– Eu vou dizer pra ele que você já tem outro crush…

– Não se atreva! Eu não tenho nenhum crush! Crushes são…

– Eu sei: vazios, super ciais, como com o Jason…

– Ei! Isso… – Eu torço o nariz para ela. – A verdade pode machucar, sabe.

– Tá bom… Eu vou dizer pra ele que o seu coração já tem dono. Melhor assim?

– Bom, não minta pra ele.

– Mas não é mentira, né.

Ela não fala como se fosse uma pergunta, então não tenho que responder.

 

Fico perto da pista de corrida na hora do almoço, comendo, esperando o Jason me ver. Se ele não tiver visto quando eu acabar meu sanduíche, vou mandar uma mensagem de texto.

– Oi, Parker – cumprimenta ele, de uma distância maior hoje, então eu não me assusto.

– Oi. Barra de cereal pro almoço?

– É. Tá se sentindo melhor hoje? Aconteceu alguma coisa pra te deixar daquele jeito?

– Eu não costumo ter um colapso e desabar sem motivo. Ontem era o aniversário do meu pai.

– Ah, eu não sabia, sinto muito.

– Estou melhor agora. Se você me viu chateada, por que não chegou perto?

Ele não responde de imediato. Eu espero.

– Não sei. Parecia que as suas amigas estavam cuidando de você…

– Você não é meu amigo?

– Eu sou, mas… a gente ainda não se conhece bem… Elas eram suas melhores amigas… Eu não queria me meter.

– Eu conheci a Molly uma semana antes de você, e ela passou a tarde inteira comigo no meu quarto.

– Ah. Bom… garotas normalmente querem car com outras quando estão chateadas de verdade. Eu devia ter ido?

– Não existe “devia”. Mas se você está me perguntando se estou agradecida por você não ter ido, ligado ou mandado mensagem quando me viu soluçando no pátio e sendo arrastada para os fundos do barracão do zelador e depois desaparecendo da escola… Não, não estou assim tão agradecida.

– Eu só pensei… É, você tem razão. Deixa eu me redimir. No sábado à noite. Você escolhe o restaurante. Tá?

Eu penso por um instante, no jeito mais simpático de ser sincera.

– Acho que não…

– Não no sábado? Ou não nunca mais?

– Nunca mais é muito tempo. Mas provavelmente é mais por aí. Não é tudo sua culpa…

– Ah, lá vem.

– O quê?

– O discurso não é você, sou eu.

– Somos nós, Jason, é não é um discurso. Eu gosto de você, mas quando a gente conversa parece mais que estamos tropeçando do que dançando. E, quanto mais sincera eu sou, pior ca. Antes de você, eu só tinha beijado um cara e isso foi há anos e não por muito tempo, então eu estava meio na seca e fui rápido demais e agora coloquei a cabeça no lugar e quero puxar o freio. Então, sim, basicamente sou eu e não você, mas ontem foi tudo você e eu não sou um clichê, eu sou uma pessoa, uma pessoa que não está feliz de você pensar que o melhor a se fazer quando eu desabei era se afastar e esperar eu car normal de novo…

– Eu sei, eu sei, me desculpa! Dá pra você me perdoar?

– Dá. Mas eu quero um cara cujo primeiro impulso seja car comigo quando eu preciso de ajuda, mas isso não signi ca que a gente não possa ser amigo. Eu tenho amigos pra quem eu não sairia correndo se os escutasse se desabando de chorar porque eu sei que só caria no caminho dos amigos mais chegados, como você disse. Beleza, nem todo mundo pode ser melhor amigo de todo mundo. Acho que nós podemos ser muito bons colegas.

– Agora é o discurso vamos-ser-só-amigos.

Eu fungo um pouco, o tipo simpático, ou pelo menos eu espero que soe assim. De alguma forma, não estou chateada de verdade com tudo isso.

– Sabe por que eu gosto de você? Você é gentil, charmoso, e, desde o momento em que a gente se conheceu, você me tratou que nem uma pessoa normal que só precisava de um pouco mais de informação que os outros. Isso é extremamente raro e você acertou na mosca. Então causou uma ótima impressão. Acho que nós podíamos ser ótimos amigos. Mas pra namorar estou procurando outra coisa.

– Isso é por causa do Scott.

– Hum… não. A gente mal se falou por anos, e, quando pedi a ele para sermos apenas amigos, ele disse não. Se você disser sim, já vai estar quilômetros na frente dele.

Silêncio.

– Em termos de namorado – digo –, sim, era difícil superá-lo. Infelizmente pra você. Pior ainda pra mim.

Mais silêncio. Presto atenção para tentar ouvir respiração ou pés se mexendo para ter certeza de que o Jason não foi embora.

– É engraçado – comenta ele numa voz amarga. – Quando eu conversei com o Scott sobre você, acho que a gente gostava de você por motivos opostos.

Eu quero perguntar, quero muito perguntar, mas eu preferiria que ele me falasse. Então tento esperar.

– Ele diz que os problemas que as outras pessoas têm, tipo serem mesquinhas, mentirosas, esnobes ou o que for, podem ser consertados por elas, se elas quiserem, mas elas simplesmente não fazem o que é preciso ou culpam outras pessoas. E, apesar dos seus problemas não poderem ser resolvidos, você é quem menos precisa que tomem conta de você.

– E você acha… o quê, o contrário?

– Não, só… sei lá. Não importa. Você está sorrindo, então estou vendo que ele está certo e eu estou errado.

– Mas eu quero mesmo ser sua amiga. Todas essas coisas boas que eu disse de você foram de coração. Gostaria que mais gente no mundo fosse que nem você. Eu teria mais amigos assim. Podemos?

– Acho que sim.

– Hummm… Assim tá bom pra fazer parte do círculo de colegas. Se quiser ser um amigo mais próximo, qual é a resposta mais honesta?

Silêncio.

– Vamos lá, tudo bem me contar como você realmente se sente. Tente apenas uma vez. Qual é a pior coisa que poderia acontecer?

– Não – diz ele, en m. – Não acho que possamos ser amigos. Estou começando a achar que você é… exigente, cansativa e… difícil de lidar. Pronto, está feliz agora?

Eu dou risada.

– É, sou mesmo. Porque é tudo verdade. Acho que já somos mais amigos agora do que éramos um minuto atrás. Você não acha?

– Não exatamente.

– Pelo menos, você não se sente melhor de ter botado isso pra fora?

– Não, isso faz eu me sentir um babaca. Olha só, eu… eu vou pra pista de corrida. Te vejo por aí.

– Tá bom. Mas você não é um babaca, Jason. Você é um cara legal e aprende rápido. Isso me dá esperança. Obrigada.

 

Sarah e Faith decidem que precisam car de olho em mim, apesar do meu maravilhoso show de normalidade hoje, então vêm estudar com a gente na biblioteca depois da escola. Acho que elas não entenderam que Molly e eu precisamos falar o tempo inteiro, e a nossa conversa traz di culdades para elas fazerem alguma coisa, então elas também conversam e ninguém estuda. Quando o Stockley chega depois do treino de futebol, não fazemos nada, mas estamos nos divertindo muito para parar.

– Oi, P.G., Molly, desculpem o atraso – diz Stockley. – O treinador adora ouvir a si mesmo falar.

– Oi – respondo –, gente, esse é o Stockley, Kent Stockley. Essas são a Sarah e a Faith.

Cumprimentos são trocados e o Stockley se senta de forma pesada do outro lado da Molly. Espero usar essa interrupção para mergulhar em um pouco de dever de casa. Seria péssimo convidá-lo para vir até aqui trabalhar em trigonometria e não fazer nada. Fico feliz que ele já comece de imediato.

– O que foi aquele negócio todo de Sacagawea? Não entendi absolutamente nada.

A Molly ri. Eu quero cutucar o braço dela, mas minha mão não encontra nada além de ar e isso faz os outros rirem.

– É SOH-CAH-TOA – explico. – Seno, Oposto, Hipotenusa; Cosseno, Adjacente, Hipotenusa; Tangente, Oposto, Adjacente…

– Caraca, tempestade de palavras! – exclama Sarah e todo mundo se dispersa de novo, incluindo o Stockley, mas não eu. Estou tentando me concentrar aqui.

– Meu Deus, gente, acabou a Hora do Babaca. – Uso minha voz de professora, já que não uso o vocabulário de professora. – Podemos dar um bom exemplo pro novo aluno?

– Ela está se referindo a nós? – sussurra Sarah. – Nós somos as babacas?

– Não tenho certeza – responde Faith, baixinho, como se elas estivessem conversando em particular sem todos nós ouvindo. – Normalmente sou chamada de vaca.

– Quem te chama disso? – Stockley parece chocado e fofamente protetor por alguém que ele acabou de conhecer. – Me dê nomes e eu vou…

– Não é ninguém em quem você possa bater – informo. – A não ser que esteja querendo bater em garotas.

– Ah – comenta ele. – Desculpa. Então não posso ajudar.

– Tudo bem, B.B., você…

– O que é B.B.? – pergunta Faith. – Achei que o seu nome era Kent.

– Todo mundo o chama de Stockley – observa Molly.

– Estamos fugindo do assunto – digo, esperando evitar ter que explicar para a Faith o que signi ca B.B. – O assunto é SOHCAHTOA.

Stockley começa a recitar:

– Seno, Oposto, Cosseno, Adjacente…

– Não. Molly, escreva pra ele.

– Olha, está aqui nas minhas anotações – comenta Molly e páginas de caderno farfalham.

– É fácil de lembrar que o O signi ca Oposto e tal – diz Stockley –, mas lembrar de SOH-CAH-TAHOE…

– É mais fácil com um mnemônico – continua Molly. – Tipo… Se O Hippie Chamou A Hippie pra Tomar O Ácido…

Agora todo mundo está gargalhando de verdade, alto. Eu estou tentando não rir, mas a Molly não tinha me falado essa antes, então sou pega desprevenida.

– Gente, psiiiu! – sibilo. – A sra. Ramsey vai vir até aqui!

– Ah, meu Deus! – exclama Sarah. – Ah! Meu! Deus! Alguém nos ajude! Estamos no Universo Paralelo! Nós estamos envergonhando a Parker!

Todo mundo perde o controle. Baixo a testa na mesa com um poft pesado, encenando o meu papel, mas na verdade estou respirando com o som de todo mundo rindo como se fosse a minha primeira respiração profunda depois de quase me afogar. Não escuto a Sarah nem mesmo a Faith rirem assim faz anos.

Tudo bem, né, pai? Não é muito cedo, né? Você ia querer que eu casse bem, sem desmoronar de novo, eu sei. Esse é o meu presente de aniversário de verdade pra você, com um dia de atraso…

Estão chegando lágrimas. Não acho que seja a tristeza querendo acabar com a festa, como faz às vezes. Só estou feliz, tendo ou não o direito de estar, embora de um jeito desesperado e instável. Não quero que isso tudo degringole.

A gargalhada diminui e antes que alguém tenha uma chance de dizer algo para dispará-la de novo levanto a cabeça e me inclino para a frente.

– Todo mundo, psiiiu! Veri car perímetro. Veri car perímetro!

A Sarah e a Faith cam quietas primeiro, elas sabem o que isso signi ca. O Stockley em seguida, já que, para começar, provavelmente ele nem entendeu por que a gente estava rindo.

A Molly é a última.

– O que é veri car perímetro?

– Estamos sozinhos – explica Sarah. – Fora a sra. Ramsey. Ela está observando a gente pelo vidro, mas não consegue escutar se a gente sussurrar.

– Não tem mais ninguém aqui – acrescenta Faith – ou ela já teria vindo até nós, a essa altura.

– O que é, Parker? – sussurra Sarah. – Desembucha.

– Tá. Então… tem um cara que eu gosto…

Sou interrompida por um monte de ooohs e balanço as mãos.

– Tá, tá… psiiiu! Eu tenho quase certeza de que ele gosta de mim também, mas… bem, eu ferrei com tudo…

– Ele ferrou com tudo – retruca Molly.

– Quem? – pergunta Stockley.

– É – a rmo. – Mas eu também estraguei as coisas, e pior. Quero consertar tudo, mas preciso de uma certa ajuda.

Todo mundo está dizendo sim e é claro e o que precisar, menos o Stockley. Ele fala numa voz que me diz que ele acabou de perceber algo profundo:

– Ah, rapaz… Eu estou aqui faz tipo uns dez minutos… E já sou uma das meninas?

Silêncio.

– Não planejei dessa forma, B.B. – Digo com sinceridade. – Mas pelo que estou pensando posso precisar da sua ajuda mais do que a de qualquer um.

Silêncio.

– Você tá dentro? – quer saber Molly. – Ou não?

Silêncio.

Suspiro.

– Dentro.