Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 1 de 44

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Tiros na Noite

Introdução

William F. Nolan1

 

Embora tenha vivido pouco mais de sessenta anos, a carreira de escritor de Samuel Dashiell Hammett cobriu apenas doze breves anos, durante os quais ele escreveu mais de uma centena de histórias. Vinte delas foram reunidas em Tiros na noite, exibindo todo o notável talento de Hammett.

Em seu famoso ensaio de 1944, A simples arte de matar (L&PM Editores, 1998), Raymond Chandler reconhecia abertamente o gênio de Hammett. Ele o creditava adequadamente como “o ás dos escritores”, o responsável pela criação e pelo desenvolvimento da escola de literatura noir, o realista revolucionário do gênero. “Ele tirou o assassinato dos ambientes elegantes e jogou-o nos becos”, declarou Chandler. “Hammett devolveu o assassinato ao tipo de pessoas que o cometem por motivos reais, não simplesmente a fim de fornecer um cadáver para uma história.”

Ross Macdonald também concedeu a Hammett a posição número um na

literatura policial. “Saímos todos de baixo da máscara negra2 de Hammett.”

Nascido em 1894 numa família que plantava tabaco em Maryland, Samuel cresceu em Baltimore e abandonou a escola aos quatorze anos para trabalhar nas ferrovias. Um inconformista sem papas na língua, saltou inquieto de emprego em emprego: foi ferroviário, estivador, operário numa fábrica de caixas, numa indústria de enlatados, operador de cargas, funcionário de uma corretora. Ele se irritava com a autoridade e foi demitido muitas vezes, ou então largava o emprego por tédio. Estava procurando por “algo mais” na vida.

Em 1915, Hammett respondeu a um anúncio sem identificação que dizia que os candidatos deviam ter “ampla experiência de trabalho e disponibilidade para viajar e agir em todas as situações”. O emprego em si não era especificado.

Intrigado, Hammett se viu nos escritórios de Baltimore da Agência de Detetives Pinkerton. Nos sete anos seguintes, exceto durante períodos de serviço militar ou de doença, Sam Hammett trabalhou como funcionário da agência. Ao contrário da maioria dos detetives, que trabalhavam num único local, os detetives da Pinkerton, com sedes em várias cidades, cobriam os estados do leste ao oeste, num território bastante amplo. Assim, Hammett se viu envolvido numa série diversificada de casos em todo o país, muitos deles bastante perigosos. No decorrer dos trabalhos, levou pauladas, tiros e facadas; como ele mesmo resumiu, “nunca senti tédio”.

Em 1917, sua vida mudou para sempre. Enquanto trabalhava para a Pinkerton como um agente infiltrado na Internacional dos Operários do Mundo, em Butte, Montana, ofereceram-lhe cinco mil dólares para matar o agitador sindical Frank Little. Depois que Hammett se recusou, indignado, Little foi assassinado num crime de vendeta. Como Lillian Hellman observou depois, “aquilo deve ter sido para Hammett um horror indelével. Posso testemunhar a sua convicção, a partir do assassinato de Little, de que vivia numa sociedade corrupta”. A consciência política de Hammett foi formada em Butte. Desse ponto em diante, ela permearia sua vida e seu trabalho.

Em 1918, deixou a Agência Pinkerton, pela primeira vez, para se alistar no exército. Lá, diagnosticaram-lhe tuberculose. (“Acho que isso é um mal de família. Minha mãe tinha tuberculose.”) Desligado um ano depois, foi forte o suficiente para reintegrar-se à agência. Infelizmente, a perniciosa doença o perseguiria por muitos anos e cobraria um preço devastador sobre sua saúde.

Em 1921, com “maus pulmões”, Hammett foi mandado para um hospital em Tacoma, no estado de Washington, onde foi atendido por Josephine Dolan, uma atraente enfermeira que trabalhava na ala de jovens. Essa garota órfã e altruísta achou seu novo paciente “bonito e maduro”. Admirava sua postura militar e riu de todas as suas piadas. Em pouco tempo estavam íntimos. Jose (pronuncia-se “Joe’s”) era muito séria quanto à relação dos dois, mas para Hammett era pouco mais do que uma diversão casual. Nessa altura da vida, ele era incapaz de amar e, na verdade, desconfiava desta palavra.

Ele declarou, num manuscrito inédito: “Nosso amor parecia depender de não ser colocado em palavras. Parecia que, se (eu) dissesse ‘Eu te amo’, no momento seguinte aquilo seria uma mentira”. Hammett manteve essa atitude ao longo da vida. Podia escrever “com amor” numa carta, mas era incapaz de expressá-lo verbalmente.

Com a doença sob controle, Hammett mudou-se para San Francisco, onde recebeu uma carta de Jose dizendo que estava grávida. Será que Sam se casaria com ela? Sim.

Tornaram-se marido e mulher no verão de 1921, com Hammett novamente empregado na Agência Pinkerton. Quando a filha Mary Jane nasceu, em outubro, Hammett estava novamente sofrendo de problemas de saúde, causados pelo frio nevoeiro de San Francisco, que afetava seus pulmões debilitados.

Em fevereiro de 1922, aos 27 anos, ele deixou a agência pela última vez. Um curso no Munson’s Business College, uma escola de secretariado, parecia oferecer-lhe uma oportunidade para aprender a escrever profissionalmente. Como agente da Pinkerton, Hammett tinha sido elogiado com freqüência por seus relatórios concisos e bem-estruturados. Agora, era a ocasião de ver se ele podia usar essa capacidade latente.

No final daquele ano, havia vendido alguns textos para a The Smart Set e para uma nova revista pulp (impressa em papel barato, de polpa de celulose) de contos policiais, The Black Mask. Em dezembro de 1922, a revista publicava The Road Home [O caminho para casa], uma história de Hammett sobre um detetive chamado Hagerdon que era contratado para perseguir um criminoso. Depois de fazer Hagerdon viajar meio mundo, o fugitivo oferece ao detetive parte de “um dos mais ricos veios de pedras preciosas na Ásia” se ele ficasse do seu lado. No clímax da história, a caminho da selva e atrás de sua presa, Hagerdon está pensando no tesouro. O leitor é induzido a acreditar que o detetive foi tentado pela oferta de enriquecimento e que será corrompido quando avistar as jóias. Assim, o tema de toda a carreira de Hammett, a corruptibilidade do homem, é prenunciado aqui, em seu primeiro conto policial.

Em 1923, Hammett criou o detetive Continental Op para The Black Mask e vendia sua ficção num ritmo regular. Anos depois, um repórter perguntou qual era o seu segredo. Hammett encolheu os ombros: “Eu fui um detetive, por isso escrevi sobre detetives”. Acrescentou: “Todos os meus personagens foram inspirados em pessoas que conheci ou das quais ouvi falar”.

Uma segunda filha, Josephine Rebecca, nasceu em maio de 1926, e Hammett se deu conta de que não podia continuar sustentando a família só com as vendas para a Black Mask. Deixou o trabalho de escrever prosa para assumir o emprego de gerente de publicidade para um joalheiro local por 350 dólares mensais. Aprendeu rapidamente a apreciar as características peculiares de relógios e de anéis e em pouco tempo fazia o texto dos anúncios semanais da loja para os jornais. Al Samuels, o joalheiro, ficou muito feliz com a capacidade do seu novo empregado em gerar vendas com um anúncio publicitário bem redigido. Hammett era um “escritor nato”.

Mas sua tuberculose reapareceu, e Hammett foi forçado a deixar o emprego depois de apenas cinco meses. Agora recebia na íntegra a pensão de invalidez do Departamento dos Veteranos. Durante essa recaída ficou praticamente o tempo todo acamado, estava tão fraco que tinha de se apoiar numa fileira de cadeiras para caminhar entre a cama e o banheiro. Como sua tuberculose era altamente contagiosa, a mulher e as filhas tiveram de ir morar longe dele.

À medida que a saúde de Hammett melhorava, Joseph T. Shaw, o novo editor da Black Mask, conseguiu atraí-lo de volta à revista, prometendo um pagamento melhor (até seis centavos a palavra) e oferecendo-lhe “liberdade criativa” para desenvolver material em formato de romance. “Hammett foi o líder do movimento que levou finalmente a revista ao seu estilo único”, afirmou Shaw. “Ele contava suas histórias com um novo tipo de força e autenticidade. E era um dos mais cuidadosos e dedicados artífices que já conheci.”

Uma novela em duas partes, The Big Knockover [O grande golpe], foi seguida pelas histórias da Black Mask que levaram aos seus quatro primeiros livros publicados: Red Harvest [Seara vermelha], The Dain Curse [Maldição em família], The Maltese Falcon [O falcão maltês] e The Glass Key [A chave de vidro]. Elas fizeram de Hammett o mais importante escritor de ficção policial do país.

Em 1930, abandonou a família e mudou-se para Nova York, onde resenhava livros para o Evening Post. No final daquele ano, aos 36 anos de idade, viajou de volta à Costa Oeste – depois que O falcão maltês foi vendido para Hollywood – a fim de trabalhar no roteiro para a Paramount. Hammett era uma figura imponente na capital do cinema. Elegante e cuidadoso na escolha das roupas, foi apelidado por uma colunista local de “Príncipe Encantado de Hollywood”. Alto, com um bigode fino bem aparado e uma postura régia, era também conhecido como um sedutor, ostentando um ar de masculinidade madura que o tornava extremamente atraente para as mulheres.

Foi em Hollywood, no final daquele ano, que conheceu a escritora iniciante Lillian Hellman e começou com ela uma relação intensa e volátil, muitas vezes destrutiva, que durou – com idas e vindas – para o resto de sua vida. Para Hellman, então com vinte e poucos anos, Hammett era algo espetacular. Bem-sucedido, bonito, maduro, culto e espirituoso – uma combinação que ela achou irresistível.

Hammett trabalhou com Hellman em quase todas as peças dela (a exceção foi The Searching Wind). Ele supervisionava laboriosamente estrutura, cenas, diálogo e personagens, orientando-a ao longo de várias produções. Suas contribuições foram enormes, e, depois da morte de Hammett, Hellman nunca mais escreveu uma peça de teatro.

Em 1934, no período que se seguiu à publicação de The Thin Man [O homem magro], Hammett estava no auge da carreira. Na superfície, o romance, que tem como protagonistas Nick e Nora Charles, era esperto e bem-humorado e inspirou uma legião de imitadores. No fundo, porém, o livro era sobre um homem desiludido que tinha rejeitado a profissão de detetive e não via mais sentido em continuar uma carreira de investigador.

O paralelo entre Nick Charles e Hammett era claro; ele estava prestes a rejeitar o gênero que o havia tornado famoso. Nunca se sentira à vontade como escritor de romances policiais. As histórias de detetive não o atraíam mais.

Ele queria escrever uma peça de teatro original, seguida pelo que chamava de “romances socialmente significativos”, mas nunca indicou exatamente o que tinha em vista. No entanto, depois de 1934, e até a sua morte, nenhuma ficção nova de Hammett foi publicada. Ele tentou vários romances, sob vários títulos: There Was a Young Man [Era uma vez um jovem] (1938), My Brother Felix [Meu irmão Felix] (1939), The Valley Sheep Are Fatter [Os carneiros do vale são mais gordos] (1944), The Hunting Boy [O menino caçador] (1949) e December 1 [Primeiro de dezembro] (1950). O trabalho sempre era abortado depois de um breve início. Sua única obra de ficção de porte, Tulip (1952) – inacabada, com dezessete mil palavras –, foi publicada postumamente. Era sobre um homem que não podia mais escrever.

Os problemas de Hammett eram de dupla natureza. Tendo abandonado a ficção policial, nada tinha para colocar em seu lugar. Ainda mais frustrante era o fato de ter se fechado emocionalmente, erguendo uma muralha entre ele e o público. Tinha perdido a capacidade de comunicar, de compartilhar suas emoções. À medida que os anos passavam, Hammett bebia, jogava, cortejava mulheres e se enterrava em doutrinas marxistas. Sua única válvula de escape criativa eram as peças de Hellman. Não há dúvida de que a sua colaboração foi de extremo valor para ela, mas não satisfez o desejo de se impor como um romancista maior.

A ironia persistente da carreira de Hammett é que ele já havia produzido pelo menos três romances importantes: Seara vermelha, O falcão maltês e A chave de vidro – obras respeitadas no mundo inteiro.

Aqui, nesta coletânea reeditada em dois volumes, publicamos seus contos mais curtos, muitos deles com o tamanho de uma novela. Eles cobrem um leque bastante variado, alguns são melhores do que outros, mas cada um é puro Hammett, e o mínimo que se pode dizer é que são maravilhosamente divertidos.

O que faz a obra de Dashiell Hammett única no gênero da literatura de mistério? A resposta é: a autenticidade.

Hammett conseguiu colocar na página impressa a gíria vibrante das ruas, retratar de maneira realista bandidos, vagabundos, prostitutas, alcagüetes, pistoleiros, manda-chuvas da política e clientes desonestos, deixando-os falar e se comportar no papel da mesma forma como falavam e se comportavam durante os anos em que Hammett caçava criminosos. A experiência como agente da Pinkerton proporcionou-lhe uma sólida base para a sua ficção. Ele havia caçado assasssinos, investigado escroques, vigaristas, reunido provas para julgamentos criminais, seguido ladrões de jóias, tinha se envolvido com arrombadores e assaltantes, perseguido fraudadores, participado de tiroteios nas ruas, flagrado falsários e chantagistas, descoberto um carregamento de ouro desaparecido, localizado uma roda-gigante roubada e atuado como guarda, detetive de hotel e agente infiltrado em movimentos sindicais.

Quando Hammett colocou seus personagens em ação nas sórdidas ruas de San Francisco, os leitores reagiram a essa descrição vigorosa do crime como se fosse de verdade. Nenhum outro escritor de romances policiais da época era capaz de alcançar seu nível de realismo.

Tiros na noite nos leva de volta àqueles anos em que o talento de Hammett era uma chama acesa, os anos em que escrevia com força e vigor num estilo breve e enxuto que se casava com a intensidade do material retratado. Trabalhando principalmente nas páginas da Black Mask (na qual dez histórias que fazem parte desta antologia foram originalmente publicadas), Hammett lançou um novo estilo de ficção de detetive na América: amarga, dura e sem sentimentalismo, refletindo a violência da época. A sóbria tradição inglesa do detetive cavalheiro vestido em tweed foi desmantelada, e o assassinato saltou do chá nos jardins para o beco escuro. O polido investigador inglês cedeu lugar ao homem de ação empedernido que não se importava em quebrar algumas leis para conseguir fazer seu serviço, que era capaz de punir e ser punido e geralmente jogava em ambos os lados da lei.

O cínico e o idealista estavam combinados nos protagonistas de Hammett: a dureza cuidadosamente preservada permitia-lhes sobreviver. Ninguém podia blefar com eles ou comprá-los. Eles aprenderam a se manter sob rigoroso controle, movendo-se com cautela em uma paisagem sombria (o “oceano aterrador” de Melville) em que a morte, a duplicidade e a corrupção faziam parte do cenário. Ainda assim, idealisticamente esperavam por um mundo melhor e trabalhavam nesse sentido. Hammett deu a esses personagens uma vida orgânica.

O crítico Graham McInnes acha que “a prosa de Hammett (...) tem a polidez e a carne de um ensaio de Bacon ou de um poema de Donne, dois escritores que também viveram numa época de violência e transição”.

O tema de uma sociedade corrupta permeia sombriamente a obra de Hammett. A história-título desta coletânea [Nightmare Town], que descreve detalhadamente uma “cidade pesadelo” em que todo cidadão é desonesto – do policial ao homem de negócios –, prenuncia a sua saga de gangsterismo de Poisonville (“Cidade Veneno”) em Seara vermelha. (O cenário real desse romance foi Butte, Montana, e reflete a corrupção que Hammett lá encontrou com a morte do operário ativista Frank Little em 1917.)

Hammett via o mundo ao seu redor como algo caótico, sem forma nem desígnio. Em meados da década de 1930, estava convencido de que a política radical poderia oferecer uma idéia de ordem e que talvez um idealizado “mundo do povo” fosse possível. O comunismo parecia prometer tal mundo, mas ele acabou descobrindo que se tratava de uma ilusão. Em seus últimos anos, Hammett percebeu que não havia nenhuma solução aparente para o caos do mundo.

Muito se escreveu sobre o “herói hammettiano” típico.

O crítico John Patterson alega que ele é, “em última análise, a apoteose de todo homem de boa vontade que, alienado pelos valores da sua época, busca desesperada e tristemente viver sem ter vergonha, viver sem comprometer a sua integridade”.

Philip Durham, que escreveu a primeira biografia de Raymond Chandler, situa o herói hammettiano

numa tradição que começou no final do século XIX. Esse herói literário americano aparecia

sempre nos romances-folhetins do período, pronto para ser usado por escritores do século XX do

gênero faroeste, como Owen Wister e Zane Grey. Quando Hammett o esboçou nas páginas de

Black Mask, suas características heróicas já estavam claramente definidas: coragem, força física,

indestrutibilidade, indiferença ao perigo e à morte, uma atitude cavalheiresca, celibato, um pouco

violento e uma noção de justiça.

O personagem mais constante de Hammett, o Continental Op (que figura aqui em sete histórias), reflete sua visão sombria do mundo, mas não é abertamente político nem cavalheiresco. É um detetive esforçado que tenta fazer o seu trabalho. O Op descreve a si mesmo como possuindo um rosto que “é um testemunho verdadeiro de uma vida que não foi coberta de refinamento nem de gentileza”, acrescentando que é “baixo, de meia-idade e cintura grossa” e teimoso o bastante para ser chamado de “cabeçudo”.

Hammett alegava que baseou o Op no homem que o treinou para ser detetive, Jimmy Wright, da Agência Pinkerton em Baltimore. Wright ensinou ao jovem Hammett um código básico de princípios: não engane o seu cliente. Permaneça anônimo. Evite riscos físicos desnecessários. Seja objetivo. Não se envolva emocionalmente com um cliente. E nunca viole a sua integridade. Esse código marcou Hammett; não só lhe serviu quando era detetive atuante, mas também lhe forneceu um conjunto de regras pessoais que modelaram suas ações para o resto da vida.

Claro, apesar de sua idade e aparência física, o Op é o próprio Hammett em disfarce ficcional. Contadas na primeira pessoa, muitas das aventuras do Op são versões ficcionalizadas de casos verdadeiros em que Hammett trabalhou durante sua época como detetive. Quando o jovem Hammett entrou pela primeira vez para a filial de Baltimore da Agência de Detetives Pinkerton, o quartel-general ficava no Edifício Continental – claramente a fonte de inspiração para a agência fictícia do Op.

Hammett deliberadamente restringiu a ficha biográfica do personagem ao mínimo. Como observa o crítico Peter Wolfe, “ele nada nos diz da família, educação ou crença religiosa (do Op)”. Naturalmente, o Op não tem nenhuma religião no sentido tradicional do termo; sua religião é o jogo eternamente perigoso da caçada humana, um trabalho que ele executa com um zelo quase sagrado.

Se peneirarmos cuidadosamente o cânone (cerca de três dúzias de histórias), revela-se que Op ingressou na Continental como “um jovem rebento de vinte anos” (a idade de Hammett quando se tornou agente da Pinkerton), que ocupou o posto de capitão no serviço secreto militar durante a guerra, que fala um pouco de francês e alemão, faz todas as refeições em restaurantes, fuma cigarros Fatima, gosta de pôquer e de lutas de boxe e evita envolvimentos românticos (“não combinam com o trabalho”). Pragmático, de alma calejada e tenaz, recorre à violência física quando necessário e usa uma arma quando obrigado, mas prefere lançar mão da inteligência. Está tão próximo de um detetive de verdade quanto Hammett foi capaz de fazê-lo.

Hammett apresentou Op em suas primeiras obras mais longas, Blood Money (também conhecida como The Big Knockover [O grande golpe]), Seara vermelha e Maldição em família, todas elas reelaboradas a partir de novelas publicadas na Black Mask.

Outra importante criação que veio a seguir foi o detetive particular de San Francisco Samuel Spade, ao qual Hammett deu o seu primeiro nome (na Pinkerton, era sempre chamado de Sam). Quando começou a escrever, tornou-se simplesmente Dashiell Hammett. Spade fez a sua estréia em O falcão maltês, serializado em cinco partes na Black Mask e que Hammett cuidadosamente reeditou para publicação em livro por Alfred A. Knopf. A maioria dos críticos coloca essa “saga de um detetive particular” como o melhor romance policial escrito no século XX. Descrevendo seu personagem para uma edição de O falcão pela Modern Library, Hammett afirmava:

Spade não teve nenhum modelo original. É um homem idealizado no sentido em que é o que

a maioria dos detetives particulares com os quais trabalhei gostaria de ter sido e o que uns

poucos, em seus momentos mais pretensiosos, achavam que quase tinham chegado a ser. Pois

nosso detetive particular não quer ser (...) um erudito decifrador de enigmas à maneira de

Sherlock Holmes; ele quer ser um sujeito duro e astuto, capaz de cuidar de si mesmo em qualquer

situação, capaz de tirar o melhor de qualquer pessoa que encontre, seja ela um criminoso, um

passante inocente ou um cliente.

De fato, foi precisamente assim que Hammett descreveu Spade em O falcão maltês – com inteligência comparável à do ardiloso gordo, Casper Gutman, que busca o fabuloso pássaro do título; capaz de lidar com a intrusa polícia e capaz de resistir aos avanços da sedutora Brigid O’Shaughnessy enquanto soluciona o assassinato de seu parceiro, Miles Archer. Hammett nunca teve a intenção de fazer de Spade um personagem recorrente em sua obra; ao completar O falcão maltês estava “farto dele”. No entanto, não tinha previsto a enorme e duradoura popularidade do livro, nem que ele se tornaria uma série radiofônica de imenso sucesso, nem que nada menos do que três filmes seriam produzidos com base no romance publicado.

O público exigia mais histórias de Spade, e o agente literário de Hammett implorou ao autor que escrevesse novas aventuras. Hammett estava relutante, mas estava também sem dinheiro. Ganhou vastas somas em Hollywood como autor de roteiros, mas esbanjava cada dólar com a mesma rapidez com que os ganhava. Dinheiro era para se gastar, e Hammett sempre achava que o dinheiro apareceria magicamente, sempre que precisasse. Finalmente, sentou-se para escrever três novas histórias de Spade, publicando duas na The American Magazine e a última na Collier’s.

As três estão nesta coletânea: Um homem chamado Spade (vol. 2), Foram tantos a viver (vol. 2) e Só podem enforcá-lo uma vez (vol. 2). Os contos são vivos, eficientes e de ação rápida.

As outras histórias reunidas aqui demonstram a ousada experimentação de Hammett com a linguagem e o enredo. Compare a narrativa exagerada e enfeitada em Um homem chamado Thin (vol. 2), que apresenta um detetive-poeta, com a narrativa crua e inculta do jovem pugilista em O guardião do seu irmão (vol. 1). Ambas são contadas em primeira pessoa, mas estão a quilômetros de distância uma da outra. Hammett ataca um ponto de vista feminino no soberbamente bem escrito A mulher do bandido e oferece um final surpresa perfeito em O anjo do segundo andar (observe o humor implícito nessa história).

Tanto Medo de tiro (vol. 2) como O homem que matou Dan Odams (vol. 1) se passam longe da locação costumeira, San Francisco, e demonstram a ampla variedade da ficção de Hammett. Medo de tiro tem lugar na região das altas montanhas, e O homem que matou Dan Odams (vol. 1) é um faroeste semimoderno passado em Montana. Representam Hammett em plena forma.

Enquanto a maioria dos escritores de narrativas policiais nos anos 1920 e 1930 estava produzindo histórias por dinheiro, Hammett trabalhava como um artista dedicado. Deu a cada história o melhor de si, debruçando-se sobre cada palavra, sobre cada frase de efeito. E estava sempre em busca de novas idéias e de novos personagens. Seu protagonista em O assassino assistente (vol. 1) é um exemplo admirável. Com Alec Rush, o autor criou um detetive descrito como incrivelmente feio, um desvio radical do costumeiro herói das revistas. Hammett estava mirando numa nova direção com sua história, que envolve um caso complexo resolvido não por Rush, mas pela confissão do assassino.

O assassino assistente (vol. 1) foi escrito pouco antes que Hammett deixasse temporariamente a Black Mask, em sua tentativa malsucedida de começar uma carreira na publicidade. Sentimos que, se ele tivesse permanecido na revista, poderia talvez ter escrito mais histórias em que figurasse esse excêntrico detetive.

Durante a era da pulp fiction, os editores constantemente exigiam “ação, mais ação!”. Hammett decidiu ver quanta ação seria capaz de compactar numa única novela. Publicada pela primeira vez no Argosy All-Story Weekly, Cidade pesadelo (vol. 1) é um esforço notável de violência contínua. O herói empunha uma bengala de ébano com uma eficiência devastadora, rachando crânios e quebrando ossos na melhor tradição pulp.

Uma importante contribuição em Tiros na noite é O primeiro ‘homem magro’ (vol. 2), que tem aqui sua primeira publicação em forma de livro. Essa versão, de 1930, mostra um contraste acentuado com o romance que Hammett finalizou para o editor Alfred A. Knopf três anos depois, com vastas diferenças no enfoque básico, na atmosfera, no enredo e no tom. Um convite de Hollywood e a promessa de dinheiro substancial a ser ganho com o cinema obrigaram Hammett a abandonar o manuscrito original com 65 páginas datilografadas. Quando voltou a ele três anos depois, John Guild, o detetive que lembra o Op – dedicado, estóico, calado –, foi substituído por Nick Charles, um cínico beberrão e festeiro, ex-investigador sem nenhum desejo de desvendar mais crimes; queria apenas outro Martini. Foi a mulher de Nick (inspirada diretamente em Lillian Hellman) quem o pressionou para que voltasse a trabalhar como detetive para solucionar o caso do homem magro desaparecido.

A vida de Dashiell Hammett passou por uma importante mudança entre 1930 e 1933, e Nick Charles marcou o fim da sua carreira como romancista. Como escritor, viu-se num beco sem saída e não acreditava mais que os males criminais da sociedade pudessem ser resolvidos individualmente. Na sua visão, um detetive solitário (como Sam Spade ou John Guild) nada podia fazer para impedir a onda de corrupção social. O código de honra pessoal do detetive não tinha qualquer efeito num mundo desonroso. A amargura e o cinismo na alma de Hammett, que se refletiam de uma maneira menos óbvia em suas primeiras obras, tinham agora ocupado o centro do palco. Ele não era mais capaz de acreditar em heróis. Mesmo heróis trabalhadores, francos e simples.

Em 1951, depois de ser condenado por recusar-se a delatar pessoas suspeitas de exercerem “atividades anti-americanas” por um juiz federal de

Nova York3, Hammett passou cinco meses na cadeia em defesa de suas crenças políticas. Mas nunca acreditou na violência política e ficou chocado quando, no julgamento, o senador Joseph McCarthy lhe perguntou se já havia praticado algum ato de sabotagem contra os Estados Unidos. Tendo servido seu país em duas guerras mundiais como soldado alistado, amava a América, ainda que desprezasse seus políticos capitalistas.

Os últimos anos de Hammett, depois que saiu da prisão, foram tristes. Graças à “caça às bruxas” do senador McCarthy seu nome foi retirado de um filme baseado num de seus personagens; seus programas radiofônicos foram cancelados; e uma coletânea de sua ficção já programada foi colocada na gaveta pelo editor. Passou a maior parte de sua última década isolado numa pequena cabana em Katonah, no estado de Nova York. Em duas ocasiões, tiros atravessaram as janelas da frente, mas Hammett suportou o exílio com estóica resignação.

Doente e frágil, na lista negra como um pária político, incapaz de escrever e acossado pela Receita Federal por causa de impostos de renda sobre dinheiro que não ganhava mais, Samuel Dashiell Hammett morreu de câncer de pulmão em 1961, aos 66 anos de idade.

Ele se considerava um fracasso literário, mas, como estes livros ajudam a provar, era tudo menos isso. Nenhum escritor desde Edgar Allan Poe exerceu maior influência sobre a ficção de mistério. Sua arte é atemporal, e sua obra não ficou datada. No gênero policial, foi um mestre.

Essa maestria fica evidente nestes dois volumes de Tiros na noite, a maior coletânea de suas obras curtas e a mais completa de todas.

West Hills, Califórnia

1999

 

1 William Nolan é escritor e roteirista norte-americano. Ganhou duas vezes o prêmio Edgar Allan

Poe da Mystery Writers of America. (N.E.)

2 Referência a Black Mask, popular revista dos anos 20 e 30, que publicava Hammett e todos os

grandes autores noir da época.

3 Episódio sombrio da história americana ocorrido em plena Guerra-Fria (como ficou conhecido

o período de hostilidades diplomáticas entre EUA e União Soviética), entre os anos 1950 e 56. O chamado “macarthismo” ou “caça às bruxas” foi iniciado por Joseph McCarthy, senador pelo estado de Wisconsin, que denunciava uma conspiração comunista no Estado e na sociedade americana. Foi realizado um enorme expurgo, e todos aqueles suspeitos de serem “comunistas” eram presos ou perdiam seus empregos; caso ficassem nos seus empregos, as empresas eram perseguidas pela polícia e pela Receita Federal. Milhares de intelectuais, funcionários públicos e cidadãos comuns foram perseguidos, presos, exilados ou tiveram suas carreiras destruídas sob a acusação de “atividades anti-americanas”. Eram comuns a delação em massa e a condenação com provas insuficientes e mesmo sem provas. (N.E.)

 

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