Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 38 de 44

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Tiros na Noite

Capítulo IV

– Não creio que sejam os únicos de que você saiba.

– Por favor, sr. Guild – disse a jovem, vindo para o seu lado –, não seja injusto com Charley. Ele está tentando ajudar, nós dois estamos, mas... – Ela bateu o pé e exclamou furiosa, lacrimosa: – O senhor não pode ter um pouco de consideração por ele?

– Ah, tudo bem – disse Guild, e pegou o chapéu. – Eu trouxe o seu carro. Está lá na frente agora.

– Obrigado, Guild.

Alguma coisa bateu numa das janelas da frente, derrubando no chão um triângulo de vidro do canto esquerdo inferior. Charles Fremont, virado para a janela, deu um grito inarticulado e se jogou no chão. Um revólver foi disparado pelo buraco no vidro. A bala passou sobre a cabeça de Fremont e fez um pequeno buraco na parede de reboco verde.

Guild estava indo em direção à porta da rua quando o buraco de bala apareceu na parede. Uma pistola preta surgiu em sua mão. Do lado de fora, aquele quarteirão da Guerrero Street estava deserto. Guild foi rapidamente, ainda que com muitos olhares para trás, até a esquina mais próxima. Dali começou a voltar lentamente, parando para observar os portais escuros e as entradas dos porões sobre as altas escadas na frente das casas.

Charles Fremont veio juntar-se a ele. Janelas estavam sendo levantadas ao longo da rua, e pessoas olhavam para fora.

– Entre – disse Guild sumariamente a Fremont. – É em você que ele estava atirando. Entre e telefone para a polícia.

– Elsa está fazendo isso agora. Ele raspou as costeletas, Guild.

– Esta seria a primeira coisa que ele faria. Volte para a casa.

– Não – disse Fremont, e foi com Guild enquanto ele dava uma busca no quarteirão.

Os dois ainda estavam fazendo isso quando a polícia chegou. Não encontraram Wynant. Depois de uma esquina, a dois quarteirões da casa dos Fremont, encontraram um cupê Buick de um ano, com o número da placa que Boyer tinha dado a Guild; o carro de Wynant.

IV

Depois do jantar, que comeu sozinho no Solari’s, na Maiden Lane, Guild foi para um apartamento na Hyde Street. Foi recebido por uma jovem cujo rosto pálido e cansado se iluminou enquanto dizia:

– Olá, John. Nós estávamos pensando o que tinha sido feito de você.

– Estive fora. Chris está em casa?

– Eu deixaria você entrar de qualquer modo – disse ela enquanto abria a porta ainda mais.

Os dois foram até um cômodo dos fundos, cheio de livros, onde um homem atarracado, de cabelos cor de areia e revoltos, estava meio enterrado numa enorme poltrona velha. Ele pousou o livro, pegou o alto copo de cerveja que estava ao lado e disse jovialmente:

– Que entre o sabujo! Pegue mais cerveja, Kay. Eu estava querendo vê-lo, John. O que acha de fazer algumas resenhas de histórias de detetives para a minha página, você sabe, “O Detetive Examina a Ficção de Detetives?”.

– Você já me pediu isso antes. Loucura.

– Mas é uma boa idéia – disse alegre o homem atarracado. – E eu tenho outra. Eu ia guardá-la até resolver escrever uma história de detetives, mas você poderia usá-la em seu trabalho em algum momento, por isso vou dá-la de graça.

Guild pegou o copo de cerveja que Kay lhe estendeu, e disse:

– Obrigado. – E em seguida para o homem: – Eu preciso ouvir?

– Sim. Veja bem, um sujeito é suspeito de um assassinato que exige um bocado de coragem. E todas as provas apontam direto para ele, esse tipo de coisa. Mas ele adora Sam Johnson, tem seus livros pela casa toda, de modo que você sabe que ele não fez isso, porque somente os homens tímidos – do tipo que dizem “Sim, senhor”, para as esposas e “Sim, madame”, para os policiais – adoram Johnson. Veja bem, ele só é amado pela rusticidade e pela ousadia de sua rudeza e seus maus modos, e esse é o tipo de coisa que atrai...

– Então eu procuro um sujeito chamado Sam Johnson, e ele é o culpado? – perguntou o homem moreno.

– Chris está numa daquelas noites – disse Kay.

– Zombe de mim e se dane – disse Chris –, mas essa é uma psicologia que pode servir um dia desses. Lembre-se. É uma lei. O amor ao doutor Johnson é a marca do patologicamente humilde.

Guild fez uma careta.

– Deus sabe que estou merecendo uma cerveja – disse, e bebeu. – Se você precisa falar, fale de Walter Irving Wynant. Isso talvez me sirva.

– Por quê? – perguntou Chris. – Como?

– Eu o estou caçando. Ele assassinou a secretária esta tarde e desapareceu, ninguém sabe para onde.

– Não brinca! – exclamou Kay.

– O diabo que ele fez isso! – disse Chris.

Guild assentiu e bebeu mais cerveja.

– Ele só parou por tempo suficiente para dar um tiro no sujeito com quem a secretária deveria se casar amanhã.

Chris e Kay se entreolharam deliciados.

Chris se recostou na cadeira.

– Dá para suplantar isso? Mas, você sabe, nem de longe eu estou surpreso como deveria estar. Na última vez em que o vi achei que havia alguma coisa errada, ainda que ele sempre fosse meio estranho. Lembra que eu lhe disse alguma coisa sobre isso, Kay? E está na cara que esse negócio da revista que ele vem fazendo ultimamente é meio confuso. Até mesmo partes do último livro dele... Não, eu estou me metendo a saber de tudo agora. Vou me fixar no que escrevi sobre o livro dele quando foi publicado: apesar de falhas ocasionais, sua “departamentalização” chega mais perto de dar uma resposta para a pergunta de Pôncio Pilatos do que qualquer coisa oferecida por outra pessoa.

– Que tipo de coisa ele escreve? – perguntou Guild.

– Esse tipo de coisa. – Chris se levantou gemendo, foi até uma das estantes, pegou um grosso volume preto intitulado, em letras grandes e douradas, Conhecimento e crença, abriu-o ao acaso e leu: – “A ciência se preocupa com objetos da percepção. Um objeto da percepção é uma diferença definida, isto é, limitada. Se olhar para um trecho contínuo de branco, você percebe branco porque sua percepção da cor é limitada ao seu campo visual: a área contrastante, extravisual, de não-branco ao redor, lhe dá a percepção do branco. Essas não são definições científicas. Não podem ser. A ciência não pode se definir, não pode se limitar. As definições da ciência devem ser definições filosóficas. A ciência não pode saber o que ela não pode saber. A ciência não pode saber que há alguma coisa que ela não sabe. A ciência lida com objetos da percepção, e não com não-objetos da percepção. Assim, a teoria da relatividade de Einstein – de que os fenômenos da natureza serão os mesmos, isto é, não diferentes, para dois observadores que se movem com qualquer velocidade uniforme independentemente da posição relativa entre ambos – é uma hipótese filosófica, não científica.

“‘– A filosofia, como a ciência, não pode se definir, não pode se limitar. As definições de filosofia devem ser feitas segundo um ponto de vista que terá de certo modo a mesma relação com a filosofia que o ponto de vista filosófico tem com a ciência. Essas definições podem ser...’”

– Já basta – disse Guild.

Chris fechou o livro com uma pancada.

– É esse tipo de coisa que ele escreve – disse animado, e voltou para a poltrona e a cerveja.

– O que você sabe sobre ele? – perguntou Guild. – Quero dizer, afora os textos. Não comece com isso de novo. Quero saber se ele estava apenas maluco de ciúme ou se enlouqueceu de vez, e como alcançá-lo de qualquer um dos modos.

– Eu não o vejo há seis ou sete meses, talvez mais – disse Chris. – Ele sempre foi meio abilolado e tremendamente anti-social. Talvez apenas esquisito, talvez pior do que isso.

– O que você sabe sobre ele?

– O que todo mundo sabe – disse Chris de modo depreciativo. – Nasceu em algum lugar em Devonshire. Freqüentou Oxford. Virou nativo na Índia e voltou com um livro sobre economia, um livro bastante bom, mas visionário. Casou-se com uma atriz chamada Hana Drix, ou algo do tipo, em Paris, foi para a África e mais tarde, acho, para a América do Sul. De qualquer modo, viajou muito e depois se estabeleceu em Berlim por tempo suficiente para escrever sua Antropologia especulativa e fazer algumas palestras. Não sei onde esteve durante a guerra. Apareceu aqui alguns anos depois com uma obra de metafísica em dois volumes chamada Consciência em desvio. Está na América desde então: os últimos cinco ou seis anos aqui nas montanhas escrevendo aquele Conhecimento e crença.

– E quanto a parentes, amigos?

Chris balançou a cabeça desgrenhada.

– Talvez os editores saibam: Dale and Dale.

– E como crítico você acha...

– Eu não sou crítico – disse Chris. – Sou resenhista.

– Bom, como o que quer que seja, você acha que as coisas dele são sadias?

Chris moveu os ombros grossos num gesto preguiçoso.

– Partes dos livros que eu conheço são tremendamente boas. Outras partes... talvez estejam acima da minha capacidade. Até isso é possível. Mas as coisas que ele anda fazendo ultimamente para revistas, desde Conhecimento e crença, eu sei que são porcarias ou coisa pior. O jornal mandou um garoto para lá, para entrevistá-lo há duas semanas, quando todo mundo estava falando sobre aquele antropólogo russo, e ele voltou com uma coisa medonha. Não teríamos publicado se não fosse pelo peso do nome de Wynant e o juramento do garoto, de que tinha escrito exatamente o que ele falou. Eu diria que é bastante provável que sua mente tenha se despedaçado.

– Obrigado – disse Guild, e estendeu a mão para o chapéu, mas os outros dois começaram a interrogá-lo, de modo que se sentou, conversou, fumou e bebeu cerveja até depois da meia-noite.

Em seu quarto de hotel, Guild tirou o paletó quando o telefone tocou.

– Alô... sim... sim... – Ele esperou. – Sim?... Sim, Boyer... Wynant apareceu na casa de Fremont e atirou nele... Não, não causou nenhum mal, mas conseguiu fugir... Sim, mas nós encontramos o carro... Onde?... Sim, sei... Amanhã? Que horas?... Ótimo. Você poderia me pegar aqui no meu hotel... Certo.

Ele desligou o telefone e começou a desabotoar o colete, parou, olhou para o relógio no pulso, pôs o paletó de novo, pegou o chapéu e saiu.

Na California Street pegou um bonde, subiu a colina e desceu até Chinatown, saltando do bonde na Grant Avenue. Uma chuva quase tão fina quanto névoa começava a soprar do norte. Guild virou a esquina para evitar um ruidoso grupo de bêbados que saía de um restaurante chinês, andou um quarteirão e parou em frente a outro restaurante. Era um prédio de tijolos vermelhos que tentava parecer oriental usando muito ouro e luzes coloridas, obviamente presas em cornijas que se projetavam e em suportes de três braços que marcavam os andares – alguns com postes em cima, na forma de meios pilares –, e um telhado de barro, em forma de barraca, encimado por um mastro com nove anéis aluminizados. Havia um enorme letreiro elétrico – MANCHU.

Ficou parado olhando aquele prédio espalhafatoso até acender um cigarro. Depois entrou. A garota na sala dos casacos não quis pegar seu chapéu.

– Nós fechamos à uma – disse ela.

Ele olhou para as pessoas que entravam num elevador, depois de novo para ela.

– Eles estão entrando.

– Vão lá para cima. O senhor tem um cartão?

Ele sorriu.

– Claro que tenho. Deixei no meu outro terno.

Ela pareceu severamente inexpressiva.

– Ah, certo, irmã – disse ele, em seguida lhe deu um dólar, pegou o recibo do chapéu e se espremeu no elevador apinhado.

No quarto andar saiu do elevador com os outros e entrou numa sala grande e comprida, de aparência desenxabida, onde, projetando-se de um pequeno palco, uma pista de dança comprida era uma península entre mesas servidas por chineses em trajes sociais. Havia quarenta ou cinqüenta pessoas. Algumas estavam dançando a música tocada por um piano, um violino e uma trompa.

Guild recebeu uma pequena mesa perto de uma janela fechada. Pediu um sanduíche e um café.

A dança terminou e uma mulher com rosto de harpia de meia-idade e um belo corpo coberto de cetim justo cantou uma versão modificada de Christopher Colombo. Depois houve outra dança. Então Elsa Fremont chegou ao centro da pista e cantou Holywood Papa. Seu vestido verde e decotado fazia destacar o ruivo dos cabelos e valorizava o verde de seus olhos estreitamente lanceolados. Guild fumou, bebericou o café e observou. Aplaudiu com os outros quando ela terminou.

Elsa Fremont veio direto à sua mesa, sorrindo, e disse:

– O que está fazendo aqui? – e sentou-se diante dele.

Ele se sentou de novo.

– Não sabia que você trabalhava aqui.

– Não? – Seu sorriso era alegre, os olhos céticos.

– Não, mas talvez devesse saber. Um homem chamado Lane, que mora perto de Wynant em Hell Bend, o viu entrando neste lugar, no início da noite.

– Deve ter sido lá embaixo. Nós só abrimos aqui à meia-noite.

– Lane não sabia do assassinato, até que chegou em casa hoje, mais tarde. Depois telefonou para o promotor e disse que tinha visto Wynant, e o promotor me telefonou. Eu pensei em vir, achando que talvez pudesse descobrir alguma coisa.