Tiros na Noite
Capítulo XII
Realmente isso faria muita diferença, não restava a menor dúvida. E eu acreditava na história de Ledwich. Quanto mais pensava, mais gostava dela. Encaixava-se perfeitamente com os fatos. Mas eu não estava assim tão propenso a deixar esse grande vigarista escapar.
– Não me faça rir! – disse eu. – Tanto vou prender você quanto libertar a sra. Estep.
– Tente! Você não tem a menor chance sem a carta. E você acha que um sujeito com cérebro para planejar algo assim seria tolo o bastante para deixá-la num lugar onde pudesse ser facilmente encontrada?
Eu não estava particularmente impressionado com a dificuldade que iria ter para incriminar Ledwich e libertar a viúva do morto. Seu esquema – esse ziguezague de perfídia friamente calculista com o qual ele envolveu a todos com quem lidou, inclusive sua última cúmplice, Edna Estep, não era tão à prova de falhas como dizia. Bastava uma semana de investigações no Leste e... mas uma semana era exatamente o que eu não tinha!
As palavras de Vance Richmond me acorriam à mente: “Mais outro dia na cadeia, dois dias ou duas horas, quem sabe, e ela não vai mais precisar de alguém para libertá-la. A morte se encarregará disso!”
Se eu pretendia fazer alguma coisa pela sra. Estep, tinha que ser rápido. Legal ou ilegalmente. Sua vida estava em minhas mãos. Esse homem diante de mim – os olhos cheios de esperança e a boca ansiosamente contraída – era um ladrão, chantagista, traidor e pelo menos duas vezes assassino. Detestava ter que deixá-lo ir. Mas havia a mulher morrendo no hospital...
XII
De olho em Ledwich, fui até o telefone e liguei para a casa de Vance Richmond.
– Como está a sra. Estep? – perguntei.
– Ainda mais fraca! Falei com o doutor há cerca de meia hora e ele disse...
Cortei-o. Não queria ouvir os detalhes.
– Vá para o hospital e fique onde eu possa encontrá-lo por telefone. Devo ter notícias para você antes de a noite terminar.
– O quê? Há alguma chance de... Você está...
Não prometi nada a ele. Simplesmente devolvi o fone ao gancho e disse a Ledwich:
– Vou fazer isso por você. Deixe o bilhete em minha mão e eu lhe dou o seu revólver e o deixo sair pelos fundos. Tem um policial na esquina aí em frente e não posso deixá-lo cruzar com ele.
Ele se pôs de pé, radiante.
– Sua palavra?
– Sim. Vá em frente.
Ele passou por mim, alcançou o telefone, deu um número à telefonista – que tive o cuidado de anotar – e depois falou apressadamente:
– Aqui é Shuler. Ponha um garoto num táxi com aquele envelope que eu lhe dei para guardar para mim e mande-o vir aqui imediatamente.
Em seguida, deu o seu endereço, disse “sim” duas vezes e desligou.
Nada havia de surpreendente no fato de ele ter aceitado a minha palavra.
Primeiro porque não tinha outra escolha. E também porque, ao fim de algum tempo, todos os trapaceiros de sucesso acabam acreditando que o resto do mundo – à exceção dele – é povoado por uma raça de dóceis cordeiros humanos nos quais se pode confiar.
Dez minutos depois, a campainha tocou. Atendemos a porta juntos e Ledwich recebeu em mãos um grande envelope. Aproveitei para decorar o número no boné do mensageiro. Depois, voltamos para a sala.
Ledwich abriu o envelope e me passou o conteúdo: um pedaço de jornal rasgado no qual havia uma mensagem escrita por mãos trêmulas:
Nunca pensei que você, Ledwich, fosse tão profundamente estúpido. Meu último pensamento será que esta bala que dá fim à minha vida também acaba com os seus anos de ócio. Agora, você terá que trabalhar.
Estep.
O doutor morreu com determinação!
Peguei o envelope das mãos do grandalhão, guardei o bilhete dentro dele e meti-o no bolso. Então fui até uma janela que dava para a rua em frente e amassei o rosto contra a vidraça até identificar a silhueta de O’Gar, que pacientemente esperava onde eu o deixara horas antes.
– O detetive de polícia ainda está na esquina – disse para Ledwich. – Aqui está o seu ferro.
E passei-lhe o revólver que eu havia arrancado de sua mão havia pouco.
– Pegue-o e fuja pela porta dos fundos. Lembre-se de que isso é tudo que estou lhe oferecendo: a arma e um outro início justo. Se você jogar limpo comigo, nada vou fazer para prendê-lo, a não ser que você me traia.
– Tudo bem!
Ele pegou a arma, abriu-a para ver se ainda estava carregada e correu para os fundos do apartamento. Na porta ele parou, hesitante, e voltou-se novamente para mim. Mantive-o sob a mira de minha automática.
– Você me faria um favor que não incluí na barganha?
– Qual?
– Este bilhete está num envelope que tem a minha letra e, talvez, as minhas digitais. Deixe-me trocá-lo por um envelope novo. Não gostaria de deixar nenhuma outra pista além das que já deixei.
Com a mão esquerda, já que a direita estava ocupada pela arma, peguei o envelope desajeitadamente e o joguei para ele. Ele pegou um envelope limpo de cima da mesa, limpou-o cuidadosamente com o lenço, meteu o bilhete dentro dele, cuidando para não tocá-lo com a ponta dos dedos, e me devolveu. E eu o guardei no bolso.
Foi difícil não rir.
A manobra com o lenço indicava que o envelope no meu bolso estava vazio, que o bilhete estava em poder de Ledwich embora eu não tivesse visto isso acontecer. Ele havia me aplicado um de seus truques de jogador.
– Se manda! – gritei, evitando rir na cara dele.
Ele girou nos calcanhares. Ouvi os seus passos pesados contra o chão. Uma porta bateu nos fundos da casa.
Procurei no envelope que ele me dera. Precisava ter certeza de que ele me traíra.
O envelope estava vazio.
Nosso acordo estava quebrado.
Corri até a janela da frente, escancarei-a e me debrucei para fora. O’Gar me viu imediatamente, melhor do que eu o via. Gesticulei indicando os fundos da casa. O’Gar correu para o beco atrás do edifício. Atravessei o apartamento de Ledwich até a cozinha e meti a cabeça para fora de uma janela que já estava aberta.
Pude ver Ledwich contra a cerca caiada, abrindo o portão e correndo para o beco.
O vulto atarracado de O’Gar surgiu sob a luz no fim do beco.
O revólver de Ledwich estava em sua mão. O de O’Gar não... não ainda.
Ledwich ergueu o revólver. O cão estalou.
O revólver de O’Gar cuspiu fogo.
Ledwich rodou em câmera lenta contra a cerca branca, arfou um par de vezes e caiu.
Desci a escada lentamente para me juntar a O’Gar; lentamente porque não é agradável olhar para um homem que você deliberadamente mandou para a morte. Nem mesmo se esse for o único modo de salvar uma vida inocente e o morto for Jake Ledwich, um perfeito canalha.
– Como foi? – perguntou O’Gar quando cheguei ao beco onde ele observava o corpo.
– Fugiu de mim – disse simplesmente.
– Compreensível.
Revistei os bolsos do cadáver até encontrar o bilhete de suicida, ainda amarrotado no interior do lenço. O’Gar examinava o revólver do morto.
– Veja! – exclamou. – Talvez esse não seja o meu dia de sorte! Ele atirou em mim uma vez e o seu revólver negou fogo. Não admira! Alguém deve ter maltratado esta arma. O pino do cão está quebrado!
– É mesmo? – perguntei, fingindo não saber que a bala que tirara o revólver das mãos de Ledwich também o tornara inofensivo.
OceanofPDF.com